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terça-feira, 9 de junho de 2026

Dia Nacional da Imunização

 




O Brasil parece ter motivos para celebrar neste Dia Nacional da Imunização, celebrado em 9/6. Depois de um período marcado pela redução das coberturas e pelo aumento da hesitação vacinal, indicadores mais recentes apontam uma retomada gradual nos índices de vacinação no país. Ainda assim, é preciso manter o sinal de alerta, uma vez que a maior parte dos imunizantes ofertados pelo Programa Nacional de Imunizações (PNI) ainda permanece com índices abaixo dos preconizados – um cenário preocupante, que favorece o reaparecimento de doenças já controladas, como sarampo e poliomielite. 

“Temos muito a comemorar, porque cada conquista é importante. Mas precisamos entender que mesmo quando atingirmos essas metas não podemos baixar a guarda. Sempre seguiremos vacinando, trata-se de uma ação contínua”, reforça a gerente de farmacovigilância do Instituto Butantan e diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Mayra Moura.

O Dia Nacional da Imunização busca chamar a atenção para a importância da vacinação, tanto individualmente como para a saúde coletiva. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), os imunizantes foram responsáveis por aproximadamente 40% da redução global da mortalidade infantil nos últimos 50 anos. Desde 1974, estima-se que a vacinação tenha evitado 154 milhões de mortes em todo o mundo, sendo 95% delas entre menores de 5 anos.

Coberturas estão em recuperação, mas metas ainda não foram alcançadas

Os dados disponibilizados pelos Painéis de Vacinação do Ministério da Saúde revelam um cenário de recuperação no país desde 2022, quando observou-se uma tendência de crescimento gradual em diversas coberturas, embora a maioria das vacinas ainda não tenha alcançado os percentuais considerados ideais para garantir proteção coletiva, acima de 95%. 

Em 2024, por exemplo, apenas três dos 16 imunizantes indicados até o primeiro ano de vida atingiram as metas preconizadas pelo órgão federal. Foram eles: BCG (98,63%), capaz de prevenir formas graves de tuberculose, e hepatite B (97,39%) – ambos aplicados logo após o nascimento; além da primeira dose da tríplice viral (95,85%), que é administrada aos 12 meses e protege contra sarampo, caxumba e rubéola. 

Já em 2025, as coberturas de BCG e hepatite B mantiveram-se acima do índice recomendado de 95%, registrando uma cobertura superior a 99%. Outro destaque positivo foi a cobertura da vacina contra o rotavírus, que ficou pouco acima dos 90% – média considerada ideal para esse imunizante. 

Apesar dos números indicarem uma constante melhora nas coberturas vacinais no Brasil, até abril de 2026 nenhum dos imunizantes ofertados pelo PNI atingiu a chamada “meta ótima” de cobertura, sendo que muitas encontram-se abaixo dos 80%. As mais alarmantes são a da segunda dose da tríplice viral, com 72,54%; da vacina contra a varicela, com 73,93%; e o primeiro reforço da DTP, com 74,71%. 

“A imunização tornou-se uma prioridade estratégica do atual momento do país, resultando em maiores investimentos financeiros e na implementação do microplanejamento para adaptar as ações às realidades locais. Agora, estamos em um momento de ajustes finos, já que sair dos 10% para os 50% é mais fácil do que saltar dos 80% para os 90%”, observa Mayra Moura.

Riscos de reintrodução de doenças controladas

Outra cobertura que tem causado preocupação é a da vacinação contra a poliomielite, uma vez que o Brasil não alcança a meta de 95% desde 2016. Segundo o Anuário VacinaBR 2025, elaborado pelo Instituto Questão de Ciência (IQC) com apoio da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) e parceria do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), a queda na imunização contra a doença se intensificou entre 2020 e 2021 – período mais intenso da pandemia de Covid-19 –, mostrando leve recuperação a partir de 2022. 

Desde novembro de 2024, o esquema vacinal contra a doença mudou, sendo a vacina injetável contra a poliomielite (VIP) aplicada no lugar do imunizante em gotas (VOP). O atual esquema vacinal contra a doença é de três doses, com aplicação no segundo, quarto e sexto mês de vida, e uma única dose de reforço aos 15 meses.

Em 2025, nenhum estado brasileiro atingiu a meta de 95% de vacinação contra a poliomielite, sendo o Norte a região com o menor índice do país (78,8%). Até abril de 2026, a cobertura com a VIP foi de 85,16% entre menores de 1 ano e de 77,50% em crianças de até 1 ano. 

Embora o Brasil esteja livre da circulação do poliovírus selvagem há décadas, as taxas de imunização menores do que a meta acendem o alerta para o risco de reintrodução de doenças erradicadas por meio de casos importados.

“As metas de cobertura são estipuladas para reduzir consideravelmente a incidência de uma doença ou até mesmo eliminá-la. Quando não conseguimos atingir esse índice, uma parte da população ainda fica bastante suscetível. Estamos falando de doenças que se espalham rapidamente”, pontua a gerente de farmacovigilância do Instituto Butantan.  

O registro de um caso confirmado de sarampo na capital paulista, em março de 2026, ilustra essa vulnerabilidade. O vírus foi contraído por um bebê de seis meses durante uma viagem em família para a Bolívia, país que enfrenta problemas com a doença. A criança não estava vacinada, pois ainda não tinha idade para receber a tríplice viral – de acordo com o calendário do PNI, a primeira dose do imunizante deve ser aplicada aos 12 meses com um reforço aos 15. 

Mayra Moura explica que em situações como essa, a proteção depende justamente da chamada imunidade coletiva: ou seja, quanto maior a proporção de pessoas vacinadas na comunidade, menor a circulação do vírus e o risco de exposição dos indivíduos vulneráveis. 

Apesar de o Brasil manter o certificado de país livre da circulação endêmica do sarampo, concedido pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) em 2024, a manutenção desse status depende da vigilância epidemiológica contínua e da manutenção de coberturas vacinais elevadas em todo o território nacional.

HPV e influenza também são desafios

Indicada para meninos e meninas entre 9 e 14 anos, a cobertura da vacina contra o HPV nunca atingiu de forma homogênea a meta estabelecida de 90%, desde que integrou a lista do PNI. 

Os dados mais recentes mostram oscilações importantes entre as coberturas dos públicos feminino e masculino, assim como nas diferentes faixas etárias contempladas pela estratégia. Em 2026, a cobertura entre meninas de 9 a 14 anos é de 74,14% até o momento, e entre os meninos o número é de 66,14%.

No entanto, a vacinação aos 9 anos, idade inicial para receber o imunizante, registra coberturas muito baixas, de apenas 19,85% entre as meninas e de 16,29% entre os meninos.  Entre os adolescentes de 11 a 14 anos há as maiores coberturas, superiores a 80%. 

A imunização contra o HPV é uma ferramenta fundamental para a prevenção de diversos tipos de câncer e outras doenças associadas ao papilomavírus humano. O cenário reforça a necessidade de ampliar as ações de conscientização para garantir a proteção antes do início da vida sexual, momento em que a vacina apresenta maior efetividade.

Outra preocupação das autoridades são as baixas coberturas da vacinação contra a gripe no país, que protege contra o vírus influenza. O imunizante é recomendado para crianças de 6 meses a menores de 6 anos, gestantes, puérperas e pessoas acima dos 60 anos, e deve ser administrado anualmente, uma vez que o microrganismo tem alta capacidade de mutação. 

Em 2025, a cobertura dos grupos prioritários alcançou pouco mais da metade do público-alvo nas regiões Sul, Sudeste, Centro Oeste e Nordeste. Apenas 1,38% dos municípios das regiões registraram cobertura vacinal significativa, acima dos 80%; enquanto 48,95% marcaram índices de vacinação entre 41% e 60%. Já no Norte, onde a campanha acontece no segundo semestre, por conta da sazonalidade da doença, a cobertura vacinal foi ainda menor: de apenas 47,98%.

Rejeição aos imunizantes

De acordo com a gerente de farmacovigilância do Instituto Butantan, quando o assunto é hesitação vacinal, tem pesado na balança os constantes questionamentos à segurança do produto explorado pelos chamados “antivacinas”. Fundamentado na disseminação de fake News e que ganhou força com a pandemia de Covid-19.

“As vacinas estão entre os medicamentos mais seguros que existem. Assim como qualquer produto, no Brasil elas passam por uma avaliação rigorosa da Agência Nacional de Vigilância Sanitária [Anvisa] – que é uma das mais respeitadas no mundo –, antes de serem aplicadas na população”, afirma a especialista. Para isso, os imunizantes são submetidos a uma série de testes que confirmam sua segurança. 

A gerente de farmacovigilância do Instituto Butantan explica que mesmo depois do aval da Anvisa, esses produtos continuam sendo monitorados. “Enquanto as pessoas estiverem sendo vacinadas, a farmacovigilância estará ativa. O objetivo será sempre garantir que o benefício de um imunizante seja superior a um possível risco que ela possa trazer. Na maioria das vezes, as vacinas desencadeiam reações leves a moderadas, como dor e vermelhidão no local da aplicação, febre baixa e mal-estar e são autolimitadas, ou seja, duram poucos dias”, conclui Mayra Moura.

Fonte _ Butantan

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