Durante
muito tempo, a história dos avanços contra o câncer foi
marcada pelo anúncio de uma grande descoberta, como um novo remédio, uma nova
tecnologia ou um estudo capaz de mudar o tratamento de determinado tumor.
Mas
a principal mensagem da 61ª reunião anual da Asco (Sociedade Americana de
Oncologia Clínica), realizada em maio deste ano, em Chicago, nos Estados
Unidos, foi outra. Em vez de uma única descoberta, diferentes frentes
começaram a produzir resultados relevantes ao mesmo tempo.
Essa
mudança ficou evidente ao longo de toda a conferência. Um dos momentos mais
marcantes ocorreu durante a apresentação dos resultados do estudo RASolute 302,
conduzido pelo Dana-Farber Cancer Institute, nos Estados Unidos, quando
uma plateia de milhares de médicos se levantou para aplaudir.
A
terapia que emocionou a audiência foi o "daraxonrasibe",
um novo tratamento contra o câncer
de pâncreas, doença cuja sobrevida em cinco anos é de apenas cerca de
3% e que sempre foi considerada uma das mais frustrantes quanto à eficácia de
novas drogas. Os dados do estudo mostraram que o medicamento quase dobrou a
sobrevida desses pacientes em comparação com a quimioterapia.
O
remédio que rompeu a habitual sisudez dos congressos ataca um gene chamado RAS,
descrito pela primeira vez em tumores de ratos nos anos 1960 e identificado em
câncer humano em 1982, hoje conhecido como possível alvo em quase um terço dos
tumores existentes.
Durante
mais de 40 anos, o câncer
de pâncreas foi considerado impossível de combater. Para uma
doença que resistiu a décadas de tentativas, a palavra que ecoou nos corredores
sobre o novo tratamento foi "transformador".
Da
vacina personalizada ao exercício
Como
oncologista, vivo para equilibrar esperança, expectativas e ceticismo. E o que
mais me chamou atenção na conferência deste ano não foi apenas essa droga, por
mais notável que seja. Foi perceber que ela era apenas uma entre várias frentes
de avanço. E que essas frentes não se parecem em nada umas com as outras.
De
um lado, vacinas personalizadas de altíssima tecnologia e reposicionamento de
medicamentos. Do outro, intervenções tão simples e baratas quanto uma caminhada
ou um comprimido de aspirina.
A
primeira dessas frentes nasceu de uma tecnologia que o mundo inteiro conheceu
na pandemia. As vacinas de mRNA contra a Covid funcionavam como um bilhete de
instruções: ensinavam nossas células a produzir um pedacinho do vírus,
treinando o sistema imune a reconhecê-lo.
A
mesma ideia está agora sendo expandida contra o câncer, com um verdadeiro
tratamento personalizado para a neoplasia de cada paciente.
O
princípio é elegante. Depois da cirurgia para remover o tumor, os cientistas
analisam o material genético daquele câncer específico e identificam as
mutações que o tornam diferente das células saudáveis. Com base nisso, produzem
uma vacina sob medida, que ensina o sistema imune do paciente a
"caçar" exatamente aquelas células.
Um
remédio diferente para cada pessoa
Na
conferência deste ano, foram apresentados também os resultados de cinco anos de
estudo com pacientes de melanoma de alto risco (o câncer de pele mais
agressivo).
Quem
recebeu a vacina personalizada (chamada Intismeran) somada à imunoterapia teve
quase metade do risco de a doença voltar ou levar à morte em comparação com
quem recebeu só a imunoterapia. Cinco anos depois, cerca de 69% dos pacientes
que tomaram a vacina seguiam livres do câncer.
Ainda
é um estudo de porte modesto, e a confirmação definitiva depende de testes
maiores já em andamento. Mas a mesma estratégia já está sendo testada em
tumores de pâncreas, pulmão e bexiga. É a fronteira mais sofisticada da
oncologia: um remédio diferente para cada pessoa.
A
segunda frente não poderia ser mais diferente e, talvez por isso, seja a mais
surpreendente. Enquanto laboratórios investem bilhões em vacinas
personalizadas, parte das melhores notícias recentes veio de coisas que já
estão ao alcance de quase todo mundo.
O
estudo internacional CHALLENGE
acompanhou pacientes operados de câncer de intestino e mostrou que
um programa estruturado de exercício físico, depois do tratamento, reduziu o
risco de a doença voltar e aumentou a sobrevida. A taxa de sobrevida livre da
doença em cinco anos foi de 80,3% para o grupo de exercícios, contra 73,9% para
o grupo que recebeu apenas orientações educativas de saúde.
O
ganho era comparável ao de alguns medicamentos aprovados, só que o
"remédio" aqui era atividade física orientada. Na conferência deste
ano, pesquisadores foram além e mostraram que esse tipo de programa também é
vantajoso do ponto de vista de custo, um argumento importante para sistemas
públicos e privados de saúde de todo o mundo.
A
contribuição da IA
Algo
parecido vem acontecendo com remédios sendo redescobertos para novos usos, o
que chamamos de reposicionamento de drogas. Uma dose
baixa de aspirina, aquele comprimido de centavos, reduziu pela metade o risco
de recidiva num grupo de pacientes com câncer de intestino identificado
por um exame genético do tumor.
Mais
marcante ainda foi o caso de um remédio originalmente criado para câncer de
mama, o abemaciclibe: testado contra um sarcoma raro e agressivo, tornou-se o
primeiro tratamento da história a funcionar nessa doença.
A
lógica é o que há de mais moderno na oncologia. Em vez de classificar o câncer
pelo órgão onde nasce, olhamos para o defeito biológico que o move. Esse
sarcoma e alguns tumores de mama compartilham a mesma engrenagem celular
avariada. Faz sentido, então, que o mesmo remédio trave as duas.
Para
um país como o Brasil, essa frente é especialmente valiosa: aqui, a esperança
que cabe no orçamento pode chegar a muito mais gente e doenças raras, tantas
vezes esquecidas, ganham uma chance. Usando drogas que estão no mercado e
muitas já com medicações genéricas disponíveis.
O
que conecta extremos tão distantes? Uma vacina sob medida e um comprimido de
aspirina? Cada vez mais, a resposta é a inteligência
artificial. Nenhuma das descobertas deste ano foi "inventada"
por um computador; todas vêm de anos de biologia paciente.
Mas
o gargalo comum a elas é a capacidade de enxergar a biologia certa, na pessoa
certa: prever quais mutações o sistema imune realmente reconhece, decifrar qual
paciente responde à aspirina, encontrar o defeito celular escondido. São a
agulha no palheiro, achar padrões em montanhas de dados, exatamente onde a IA
se destaca.
Na
conferência deste ano, os estudos usando IA se multiplicaram a ponto de a
organização criar trilhas dedicadas ao tema, inclusive uma voltada a levar
essas ferramentas a regiões com poucos recursos. Convém ter os pés no chão,
pois muitos desses trabalhos ainda são preliminares. Mas a direção é clara: a
IA é o tecido que costura as demais frentes e acelera todas elas.
Volto,
então, àquela plateia de pé em Chicago. A ovação não celebrava um lampejo de
sorte, mas o acúmulo de décadas de ciência teimosa. É essa a verdadeira
mensagem de 2026: o progresso contra o câncer raramente é um milagre súbito.
A
matéria foi originalmente publicada no The Conversation. O texto foi publicado
originalmente aqui
Fonte _ Folha/SP