A
explosão dos cursos de enfermagem no Brasil, impulsionada pelo setor privado e
pelo ensino a distância, acendeu um alerta sobre a qualidade da formação da
principal força de trabalho do SUS (Sistema Único de
Saúde).
Relatório técnico
divulgado nesta terça-feira (12), Dia Internacional da Enfermagem,
mostra que o número de vagas em cursos superiores privados da área saltou de
120 mil para mais de 503 mil entre 2010 e 2023, alta superior a 300%.
Grande parte desse crescimento ocorreu na modalidade EAD (educação a distância), cuja oferta disparou 1.408% no período e hoje já responde por metade das vagas disponíveis na rede privada. Em 2023, somente os cursos privados a distância somavam 253 mil vagas —número superior ao total de vagas presenciais públicas e privadas.
O
documento, baseado no estudo "Demografia e Mercado de Trabalho da Enfermagem no
Brasil", lançado ano passado pelo Ministério da Saúde, aponta
que o setor privado concentra 90,7% das instituições de ensino de enfermagem do
país.
A
expansão acelerada, porém, convive com um problema estrutural: parte expressiva
das vagas não é ocupada ou acaba abandonada. Nos cursos presenciais privados,
cerca de metade das vagas permanece ociosa em razão da evasão.
Na
rede pública, a retenção é maior, mas cerca de 30% das vagas também ficam sem
preenchimento. A preocupação ganhou força após a pandemia de
Covid-19, que evidenciou a dependência dos sistemas de saúde em relação
à enfermagem.
Hoje,
a categoria representa cerca de 70% da força de trabalho em saúde no Brasil e
59% no mundo. Apesar do crescimento acelerado do número de profissionais,
a OMS (Organização
Mundial da Saúde) estima um déficit global de cerca de 6 milhões de
enfermeiros.
O
relatório também chama atenção para desigualdades regionais históricas. Sudeste
e Sul concentram a maior parte das escolas, cursos e matrículas, enquanto
estados do Norte e do Nordeste seguem com menor densidade de profissionais.
Em
2018, por exemplo, o Pará registrava 14,1 enfermeiros por 10 mil habitantes,
menos de um terço da densidade observada no Distrito Federal, com 49,3
profissionais por 10 mil habitantes.
Na
avaliação do médico e pesquisador
Mario Dal Poz, professor titular da Uerj (Universidade Estadual do Rio
de Janeiro) e autor principal do relatório, a expansão desordenada ameaça a
qualidade futura da assistência no SUS.
"A
enfermagem é a espinha dorsal do SUS. A expansão acelerada sem planejamento
regional e o avanço do ensino à distância colocam em xeque a qualidade do
cuidado que o sistema de saúde entrega à população", afirma.
Segundo
Dal Poz, a formação em enfermagem exige aquisição de habilidades práticas e
competências clínicas que não podem ser reduzidas a um modelo predominantemente
remoto. Para ele, o país precisa ampliar a oferta pública e fortalecer
mecanismos de avaliação e fiscalização dos cursos privados e do EAD.
A
enfermeira e pesquisadora da Uerj Helena Leal, uma das autoras do relatório,
reforça que o avanço do ensino a distância em enfermagem ocorreu de forma
descontrolada, impulsionado principalmente pela redução de custos das
instituições privadas.
Segundo
ela, a enfermagem precisa de formação prática intensiva e supervisão
presencial. "Exige destreza, habilidade e treinamento in loco." Ela
avalia que laboratórios de simulação ajudam, mas não substituem o contato com
pacientes nem o acompanhamento de professores preparados.
Além
da graduação, o levantamento analisou mais de 5.500 cursos técnicos de
enfermagem registrados entre 2009 e 2024. Nesse segmento, o ensino presencial
ainda predomina. Mesmo assim, os pesquisadores identificaram falhas importantes
nos sistemas de informação sobre a formação técnica, especialmente no Sistec
(Sistema Nacional de Informações da Educação Profissional e Tecnológica).
Foram
encontrados problemas como ausência de dados sobre matrículas, campos em branco
e erros na identificação dos cursos, revelando fragilidades históricas no
monitoramento da educação profissional.
Após
a exclusão de registros inconsistentes, o estudo identificou 5.509 unidades de
ensino com oferta de cursos técnicos em enfermagem. São Paulo lidera,
com 1.218 cursos registrados, seguido por Minas
Gerais (774) e Rio de Janeiro (504).
No total, foram registradas cerca de 3 milhões de matrículas em cursos técnicos
entre 2009 e 2024.
Os
pesquisadores alertam que a expansão acelerada do setor privado pode estimular
cursos com infraestrutura precária, fragilidade pedagógica e baixa integração
entre teoria e prática.
Helena
Leal chama atenção para problemas como estágios pouco supervisionados e cursos
sem qualidade mínima, por falta de reconhecimento dos cursos. "Alguns
profissionais nem sequer conseguem registrar seus diplomas nos conselhos
regionais."
Também
critica a fragilidade da fiscalização dos cursos técnicos e do EAD e afirma que
o país ainda carece de sistemas confiáveis para monitorar evasão, qualidade da
formação e distribuição regional dos profissionais.
O
EAD avançou também sobre a pós-graduação, especialmente em áreas como
oncologia, gerontologia, saúde mental, neurologia e atenção domiciliar. Em
algumas especialidades, a maioria dos egressos já vem da modalidade a distância
—caso de neurologia (90%), saúde mental (85%) e gerontologia (82,5%)—, o que
acendeu alerta sobre a formação prática desses profissionais em áreas clínicas
complexas.
O
documento revela fragilidades na regulação e no monitoramento das
especializações, como ausência de critérios nacionais para currículos, falta de
padronização dos cursos e lacunas nos registros profissionais.
Entre
as recomendações do relatório estão maior controle sobre a abertura de cursos,
revisão das regras do ensino a distância, fortalecimento da fiscalização de
estágios e práticas presenciais e ampliação da oferta pública em regiões
carentes de profissionais.
O
levantamento traça ainda um panorama demográfico da enfermagem brasileira.
Dados da Rais (Relação Anual de Informações Sociais) mostram que o número de
enfermeiros passou de cerca de 215 mil em 2010 para 524 mil em 2021, enquanto
os técnicos de enfermagem saltaram de 415 mil para quase 1,2 milhão no mesmo
período.
Os
pesquisadores identificaram mudanças importantes no perfil da categoria. Embora
as mulheres continuem majoritárias, houve aumento da participação masculina,
sobretudo entre os enfermeiros.
O
estudo aponta ainda um envelhecimento gradual
da força de trabalho. "Há uma mudança da faixa etária de 25 a 34 anos para
faixa etária de 35 a 44 anos, especialmente entre os técnicos de enfermagem,
que atinge também um pico até a faixa etária de 40 a 50 anos", observa
Kênia Lara Silva, pesquisadora da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e
também coautora do estudo.
Segundo
ela, essa é uma questão que deve ser objeto de preocupação das políticas
públicas e da organização interna da profissão. "Há o próprio desgaste que
se vai tendo ao longo da exposição ao trabalho e que pode ser acirrada quando
se considera as pessoas nas faixas etárias mais avançadas, reduzindo,
inclusive, esse potencial para o trabalho."
As
análises revelam uma forte desigualdade racial e de gênero dentro da enfermagem
brasileira. Segundo Kênia, as mulheres negras concentram-se nas faixas de menor
rendimento da profissão, enquanto homens brancos ocupam majoritariamente os
percentis salariais mais altos.
O projeto
Saúde Pública tem apoio da Umane, associação civil que tem como
objetivo auxiliar iniciativas voltadas à promoção da saúde.
Fonte _ Folha/SP














