domingo, 1 de novembro de 2026

Jornais - Informações na Madrugada

 






Número de brasileiros com obesidade atendidos na rede básica do SUS aumenta 259% em dez anos

 


O número de brasileiros com obesidade monitorados pelo Sisvan (Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional), do Ministério da Saúde, passou de 3,09 milhões em 2016 para 11,12 milhões neste ano —mais de um terço (36%) de todo o público adulto acompanhado no sistema. A alta no período foi de 259%.

O Sisvan reúne informações sobre o estado nutricional da população atendida na Atenção Primária à Saúde no SUS (Sistema Único de Saúde).

No mesmo período, os indicadores de sobrepeso saltaram de cerca de 4,19 milhões para 10,76 milhões —elevação de 156,8%.

Juntas, as duas condições somam 21,88 milhões de indivíduos. O dado revela que 71,5% dos adultos assistidos pelo Sisvan estão acima do peso adequado.

O excesso de peso abrange os dois níveis: sobrepeso e obesidade. É considerada com sobrepeso uma pessoa que tenha IMC (índice de massa corporal) de 25 a 29,9; na obesidade, considerada doença crônica inflamatória e multifatorial, o índice é igual ou superior a 30. O indicador é calculado dividindo o peso dividido pelo quadrado da altura.

O endocrinologista Bruno Halpern, presidente da Federação Mundial da Obesidade e vice-presidente da Abeso (Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica), diz que os gargalos da assistência à condição no SUS vão desde a escassez de medicamentos até a falta de capacitação profissional.

De acordo com o médico, a rede pública carece de um protocolo de tratamento clínico unificado e abrangente para os quadros agudos de excesso de peso. Como a cirurgia bariátrica é indicada apenas para casos de obesidade grave, a maior parte da população afetada fica sem amparo. Além disso, o acesso ao procedimento é desigual e marcado por filas de espera, que variam em tempo e tamanho conforme a região do país.

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Segundo Halpern, mesmo para os pacientes que conseguem fazer a cirurgia, o suporte pós-operatório é deficiente, com destaque para a ausência de fornecimento regular de suplementos polivitamínicos essenciais.

"Não há linhas de cuidado bem trabalhadas", afirma o endocrinologista, acrescentando que há algumas ilhas de excelência na abordagem da mudança de estilo de vida no SUS, mas nada estrutural. "E os profissionais de saúde têm pouca educação em obesidade."

A obesidade é associada a mais de 240 doenças, entre elas diferentes tipos de câncer e danos cardiológicos, e redução de expectativa de vida.

A capacidade dos sistemas de saúde de oferecer prevenção, acompanhamento e tratamento adequado à população foi um dos temas abordados durante o XVI Congresso Latino-Americano de Obesidade, realizado entre 28 e 31 de outubro, em Salvador.

Em 24 das 27 unidades federativas, o total de adultos com obesidade em atendimento na atenção básica já supera o de pessoas com o peso considerado adequado. Em 18 estados brasileiros, pelo menos 70% dos assistidos pelo sistema apresentam excesso de peso (sobrepeso ou obesidade).

O Rio Grande do Sul lidera os índices nacionais: 42,6% dos acompanhados apresentam obesidade e 75,9%, excesso de peso.

São Paulo e Rio de Janeiro têm, respectivamente, 40,5% (1,74 milhão) e 40,1% (759,2 mil) de pessoas com obesidade em atendimento. Minas Gerais contabiliza 1,16 milhão (34,6%), e a Bahia, 735,3 mil (31,9%).

Quando analisada a taxa geral de excesso de peso em 2026, as marcas mais altas nos registros do Sisvan ficam com o Rio Grande do Norte (75,5%), Amapá (74,5%) e São Paulo (74,3%).

Os números estaduais refletem a tendência nacional: em dez anos, a taxa nacional de obesidade escalou de 25,1% em 2016 para os atuais 36,4%. Esta é a primeira vez que os registros de obesidade (11,12 milhões) superaram os de sobrepeso (10,76 milhões).

"Sabemos que a obesidade cresce e continuará subindo no Brasil. O que tentaremos fazer é que essa curva seja menos pronunciada", diz o especialista.

Para combater a obesidade são necessárias ações simultâneas de prevenção e de tratamento, explica Bruno Halpern. A primeira frente envolve políticas públicas como incentivar o consumo de alimentos naturais e desestimular o de ultraprocessados. A segunda exige redes de cuidado efetivas para garantir qualidade de vida a quem já vive com a doença.

A obesidade no mundo

No congresso realizado em Salvador, Halpern apresentou os dados globais do estudo MAPPS II (sigla em inglês para Management and Advocacy for Providers, Patients and Systems), da Federação Mundial da Obesidade.

A pesquisa avalia as políticas públicas e o tratamento contra a obesidade em vários países. Os resultados revelam que os governos dão pouco apoio financeiro ao setor, com notas entre 1 e 3 em uma escala até 10.

Segundo o especialista, a falta de verba obriga os pacientes a pagarem pelo próprio tratamento, o que exclui as populações de baixa renda, sobretudo em nações em desenvolvimento.

O levantamento também apontou outras barreiras para o controle da doença. Entre elas estão falta de equipes multidisciplinares e de integração entre os ministérios da Saúde, Educação e Economia; precariedade dos serviços públicos; e preconceito e estigma contra o excesso de peso, inclusive por parte dos profissionais de saúde.

Os resultados globais do MAPPS II serão publicados em 4 de março de 2027, Dia Mundial da Obesidade. A federação também lancará um relatório específico sobre o Brasil ao longo do próximo ano.

Fonte _ Folha/SP

Diabetes do doador não reduz sucesso de transplante de rim, diz estudo da Unifesp

 


O fato de um doador de órgãos ter tido diabetes em vida não significa que o desempenho dos seus rins será inferior após transplante no paciente que irá recebê-los.

É o que conclui o estudo da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) Five-Year Outcomes and Clinicopathological Correlations of Kidney Transplants From Deceased Donors With Diabetes, publicado na revista científica Clinical Transplantation.

Os pesquisadores avaliaram os resultados de 3.058 adultos com 18 anos ou mais, do Hospital do Rim, em São Paulo. A análise acompanhou transplantes realizados entre janeiro de 2013 e dezembro de 2017.

Do total de pacientes, 244 receberam órgãos de doadores com diabetes e com KDPI (Kidney Donor Profile Index, ou Índice de Perfil de Doadores de Rins) superior ao daqueles sem a doença.

O KDPI é um sistema de pontuação em percentuais que avalia a qualidade e estima a longevidade de um rim de doador morto.

Para garantir uma comparação adequada e sem distorções nos resultados, cada doador com diabetes foi pareado com dois sem a condição, mas com características de saúde semelhantes. O estudo acompanhou o desempenho do rim transplantado por até cinco anos após a cirurgia.

Segundo Lúcio Roberto Requião Moura, professor adjunto da disciplina de Nefrologia da EPM/Unifesp e coautor da pesquisa, inicialmente, foram identificados resultados inferiores de função renal no grupo que recebia rins de doadores com diabetes.

Entretanto, o estudo revelou que o perfil clínico dos doadores era mais complexo —em média, dez anos mais velho, com o dobro de incidência de hipertensão arterial e histórico de morte por AVC (acidente vascular cerebral).

Para isolar o impacto do diabetes e impedir a interferência de outras variáveis, foi utilizado o pareamento por escore de propensão (propensity score matching). A metodologia estatística comparou os grupos como se os indivíduos tivessem idade, níveis de pressão arterial e causa da morte iguais —o diabetes era a única diferença.

A função renal ao final de cinco anos foi equivalente entre os receptores de rins de doadores com e sem a doença.

"O estudo tem duas grandes mensagens: quando você inclui no processo de decisão sobre doadores falecidos que têm potencialmente uma contraindicação para ser doador a biópsia renal, desperdiça menos órgãos, aproveita mais órgãos que sem a biópsia você desperdiçaria. A outra coisa é que não pode olhar uma característica isoladamente, mas o conjunto todo", diz o professor.

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O diabetes não é um critério de exclusão para a doação de rim de falecido, desde que a pessoa não tenha apresentado insuficiência renal crônica antes da morte encefálica.

A equipe médica avaliará o tempo de evolução da doença, o histórico clínico, além de realizar biópsias ou exames físicos detalhados no órgão para descartar nefropatia diabética grave ou danos macroscópicos severos. Em vida, para a segurança do doador, a doença é uma contraindicação para o procedimento.

"Doadores com diabetes tendem a ser menos aceitos considerando que a condição é a principal causa de doença renal. Há a percepção de que o desfecho do paciente, se receber um rim com diabetes seria pior. Na verdade, a comparação a ser feita é receber um rim com diabetes ou continuar em diálise? Alguns estudos avaliam que é melhor do que o paciente permanecer em diálise", afirma o pesquisador.

Vale esclarecer que o sistema eletrônico apenas direciona e envia o rim disponível. A decisão de aceitar ou recusar um órgão com riscos pertence à equipe do centro transplantador.

Para o professor e pesquisador Lúcio Roberto Requião Moura, não há o que mudar no SNT (Sistema Nacional de Transplantes). Desde 2010, ele prioriza a compatibilidade genética como o principal pilar biológico de desempate.

"A legislação foi revisada no ano passado. O sistema de alocação está sendo planejado para colocar as regras de distribuição em vigência. Deve começar em fevereiro do próximo ano. Além da compatibilidade genética, também ganhou peso um valor que eu classifico como social: o tempo em fila de espera. Pessoas com mais tempo na lista de espera terão maior probabilidade de transplantar", explica.

"O sistema de transplante brasileiro é uma das políticas públicas mais bem-sucedidas. É justo, transparente e correto. As regras são baseadas em evidências científicas. O Brasil tem o maior programa público de transplante do mundo. Os serviços estão preparados para transplantar doadores que não são considerados ideais, mas podem ser aproveitados e garantir um resultado clínico melhor do que a diálise".

Fonte _ Folha/SP

MISSA | Solenidade de Todos os Santos - Catedral Nossa Senhora da Glória / Cruzeiro do Sul-Acre



sábado, 31 de outubro de 2026

Jornais - Informações na Madrugada

 






Pesquisas indicam que evolução elevou risco moderno de doenças autoimunes

 


A evolução não tem propósitos, apenas resultados. A seleção natural darwiniana não molda os seres vivos para que sejam "melhores" ou "superiores" em algum sentido objetivo e transcendental —ela os molda para que sejam bem-sucedidos no aqui e agora.

O que funciona em determinado ambiente ou período pode se mostrar prejudicial em outro. Alguns cientistas afirmam que esse fato da evolução pode ajudar a explicar as origens das doenças autoimunes humanas.

As doenças autoimunes são um tanto misteriosas, mas estão longe de ser raras. Entre elas estão a esclerose múltipla, a artrite reumatoide, o diabetes tipo 1, o lúpus, a doença de Crohn, a psoríase e, possivelmente, mais de 100 outras.

Algumas causam sofrimento; outras, desconforto e transtornos; e algumas podem ser fatais. O que essas condições têm em comum é que, por razões ainda pouco claras, as células imunológicas de uma pessoa começam a atacar os próprios tecidos e órgãos do corpo, em vez de apenas defendê-lo de invasores como vírus e bactérias.

Acredita-se que as doenças autoimunes afetem cerca de 15 milhões de pessoas nos Estados Unidos e entre 5% e 10% da população dos países industrializados, além de uma porcentagem menor nos países em desenvolvimento.

Esses números estão aumentando, provavelmente devido a fatores ambientais, como alimentação e poluentes, que contribuem para desencadear essas doenças. Mas fatores genéticos provavelmente também têm influência —e é nesse ponto que pesquisas realizadas nos últimos anos revelaram um padrão intrigante.

As doenças autoimunes podem surgir, em parte, da ação de genes e combinações genéticas que foram valiosos em fases anteriores da história humana, mas que hoje são desvantajosos. Mais especificamente, cientistas encontraram evidências de seleção natural de certas variantes genéticas durante a Idade do Bronze, iniciada há cerca de 5.000 anos e que se estendeu por dois milênios.

Essas mesmas variantes podem aumentar o risco de doenças autoimunes nas pessoas que hoje as carregam. O termo para esses efeitos opostos é "pleiotropia antagônica", e uma forma simples de explicá-lo é dizer que, às vezes, um gene ajuda e, em outras, prejudica.

Por que algumas variantes genéticas teriam prestado um serviço valioso aos seres humanos antigos, mas hoje seriam prejudiciais? Uma resposta, respaldada por estudos recentes que recorrem ao sequenciamento genético de DNA humano antigo e à comparação dessas sequências com genomas modernos, envolve as doenças infecciosas.

Durante aqueles milênios remotos, os seres humanos deixaram de viver como caçadores-coletores em pequenos grupos nômades e adotaram dois outros modos de vida: o de agricultores e o de pastores.

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Os agricultores eram sedentários. Os pastores transformaram animais selvagens em gado bovino, ovelhas e cabras e percorriam grandes áreas para que seus rebanhos pudessem pastar. A agricultura colocou as pessoas em contato próximo com as plantas. O pastoreio colocou-as em contato próximo com os vírus, as bactérias e outros agentes infecciosos carregados por animais selvagens —e, mais tarde, domesticados.

Muitos desses patógenos passaram para os pastores, dando origem ao que hoje chamamos de doenças zoonóticas —infecções animais que saltam para os seres humanos. Sobreviver a essas ameaças dependia de sorte e de genes. A seleção natural eliminou os menos afortunados, deixando populações de sobreviventes que carregavam variantes genéticas favoráveis, capazes de conferir resistência às infecções.

Mas essas variantes genéticas protetoras da Idade do Bronze, ao que tudo indica agora, podem exercer um efeito negativo em nossa era moderna de bons sistemas de saneamento, antibióticos, antissépticos e outras medidas de controle de infecções. Ao elevar a sensibilidade do sistema imunológico a um nível extremo, elas se transformaram em fatores de risco para doenças autoimunes. Essa, ao menos, é a hipótese da pleiotropia antagônica.

E cientistas encontraram evidências que a sustentam. Pesquisadores da Universidade de Oxford e seus colaboradores em outras instituições relataram uma forte correlação entre certas variantes genéticas que se disseminaram rapidamente entre as populações europeias há cerca de 5.000 anos e aquelas hoje associadas a uma probabilidade elevada de desenvolver esclerose múltipla.

Essas variantes se tornaram mais comuns quando pastores migrantes das estepes da Eurásia começaram a chegar à Europa. A maioria delas oferecia alguma proteção contra determinadas infecções virais e bacterianas ou contra parasitas, ajudando os seres humanos a se adaptar não apenas ao estilo de vida pastoril, mas também ao aumento da densidade populacional, que intensificou a transmissão e a circulação de doenças infecciosas.

Hoje, segundo os pesquisadores, essas mesmas variantes genéticas parecem exercer o efeito oposto. Com as doenças infecciosas mais bem controladas e a prevalência da esclerose múltipla em alta, "voltamos a observar uma correlação marcante com mudanças em nosso ambiente, incluindo escolhas de estilo de vida e melhores condições de higiene, que já não favorecem a arquitetura genética anterior", escreveram. Em outras palavras, genes que antes nos protegiam podem agora nos colocar em risco.

Outro estudo, realizado por uma equipe internacional de pesquisadores, examinou um momento histórico mais recente de mudança demográfica abrupta: a Peste Negra. Essa pandemia de peste do século 14 —causada pela bactéria Yersinia pestis, transportada por pulgas que, por sua vez, são carregadas por ratos— varreu a Europa, o Oriente Médio e o norte da África entre 1346 e 1353, matando entre 30% e 50% da população dessas regiões.

Os pesquisadores analisaram minuciosamente sequências de DNA de pessoas mortas na Inglaterra e na Dinamarca: algumas enterradas pouco antes dos anos da peste, outras durante o período e outras depois. Uma de suas fontes foi East Smithfield, um cemitério coletivo da Peste Negra situado pouco a leste da Torre de Londres.

Ali e em outros locais, os pesquisadores encontraram quatro variantes genéticas ligadas à imunidade nos genomas de um número maior de pessoas enterradas após a peste do que antes ou durante a epidemia, o que sugere que essas variantes haviam proporcionado uma vantagem de sobrevivência. Depois que outra equipe contestou seus métodos matemáticos, os pesquisadores reformularam sua conclusão, concentrando-a em uma única variante.

Essa variante, aparentemente adaptativa contra a peste, é hoje um fator de risco conhecido para a doença de Crohn. Assim, ao que parece, a Peste Negra, tal como a transição para o pastoreio durante a Idade do Bronze, pode ter sido um evento seletivo que aumentou a vulnerabilidade das gerações futuras às doenças autoimunes.

Embora a equipe de Oxford, em seu estudo sobre a esclerose múltipla, tenha chamado essa situação de um caso de "arquitetura genética" ultrapassada, há outra metáfora que expressa a mesma ideia de forma mais vívida. Basta lembrar o ditado sobre as falhas da liderança militar: em tempos de paz, os generais se preparam para travar a guerra passada, e não a próxima.

Eles se apegam a táticas, estratégias e armamentos obsoletos —coisas que funcionaram bem no passado— apesar da passagem do tempo e do surgimento de novidades. Aparentemente, foi isso que a evolução fez com as variantes genéticas que muitos de nós carregamos hoje. As doenças autoimunes do século 21 podem representar os esforços do sistema imunológico humano para travar uma guerra que um dia foi catastrófica, mas que agora é menos intensa: a guerra contra doenças infecciosas onipresentes e incuráveis.

Para algumas pessoas, o sofrimento causado pela esclerose múltipla, pelo lúpus ou por outras doenças autoimunes é um infortúnio cruel. Outras têm mais sorte. Eu, por exemplo: tenho apenas minha psoríase —herdada de meu pai, que a herdou de uma linhagem de camponeses noruegueses— como lembrete de que meu próprio sistema imunológico está pronto e ávido, ávido demais, para travar a guerra passada: a guerra entre um pastor da Idade do Bronze e um vírus que ele contraiu de uma de suas cabras.

Fonte _ Folha/SP

Como tendência de compartilhamento de sangue pode estar alimentando nova crise de HIV

 


Na semana passada, Fiji declarou estado de emergência nacional devido à alta dos casos de HIV. O aumento acelerado das infecções transformou o arquipélago em um dos principais focos de expansão da epidemia no mundo.

A decisão também foi um lembrete contundente de que, apesar do progresso global, o HIV e a Aids continuam sendo uma ameaça significativa em algumas regiões e os surtos podem rapidamente sair do controle.

Aproximadamente um em cada 60 adultos no arquipélago do Pacífico vive atualmente com o vírus, em comparação com um em cada 167 há cinco anos.

Globalmente, estima-se que cerca de 41 milhões de pessoas tenham HIV, segundo a agência da ONU para a Aids, a Unaids.

O que agrava ainda mais essa crise recente é a prática alarmante de compartilhamento de sangue entre usuários de drogas conhecida como bluetoothing.

Ela consiste em retirar sangue de alguém que acabou de consumir uma droga e injetá-lo em outra pessoa para que esta obtenha o mesmo efeito. Os usuários consideram isso uma forma de economizar dinheiro, fazendo com que drogas intravenosas rendam mais.

Essa prática também foi observada em países africanos, incluindo Lesoto, Zimbábue e África do Sul.

A extensão do problema e sua parcela de responsabilidade pela crise em Fiji são controversas. No entanto, agentes comunitários de saúde afirmam que se trata de um problema real e estão pressionando governos e agências de saúde do mundo todo a levarem a questão a sério.

"Quantas vidas precisamos perder antes de realmente fazermos algo a respeito?", questiona Kalesi Volatabu, diretor executivo da ONG Drug Free Fiji.

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Por que o bluetoothing é tão arriscado?

O HIV é uma doença transmitida pelo sangue, portanto, o processo de transferência de sangue de uma pessoa para outra sempre traz o risco de transmissão do vírus.

A OMS (Organização Mundial da Saúde) afirma que essa prática cria um "risco excepcionalmente alto" de transmissão de outras infecções, incluindo hepatite B e C, além de infecções bacterianas graves.

Compartilhar agulhas já é uma prática comum em Fiji, onde o acesso a equipamentos de injeção esterilizados para usuários de drogas pode ser difícil. Mas a chegada do bluetoothing sugere que a pobreza é um dos principais fatores por trás dessa prática perigosa.

Volatabu diz que ficou chocada quando testemunhou o ocorrido pela primeira vez.

"Havia cinco ou seis pessoas em volta, prontas para tomar a injeção", disse ela ao Serviço Mundial da BBC.

"E eles podem infectar outras cinco pessoas. Então, literalmente, de apenas cinco pessoas, você já tem de 25 a 30 pessoas infectadas. E é assim tão fácil."

Em 2024, o Ministério da Saúde de Fiji reconheceu essa prática como um dos fatores que contribuíram para o aumento dos casos de HIV no país. Em janeiro, o ministério descreveu um surto de HIV como uma "crise nacional" e afirmou que implementaria um programa de distribuição de seringas e agulhas como parte de sua resposta.

A OMS afirmou que havia poucas evidências que sugerissem que o uso do bluetoothing fosse generalizado em Fiji, após uma avaliação rápida realizada em dezembro do ano passado.

A pesquisa entrevistou 56 pessoas que injetavam drogas —apenas duas relataram praticar o compartilhamento de sangue, enquanto quatro disseram ter presenciado a prática diretamente, segundo o relatório.

Mas Volatabu diz que ela também estava relutante em acreditar que alguém realmente estivesse fazendo isso até que viu com os próprios olhos.

Ela também acredita que o estigma e a vergonha em torno do uso de drogas injetáveis fazem com que o governo de Fiji se mostre relutante em lidar com o problema.

HIV em todo o mundo

O HIV é um vírus que danifica as células do sistema imunológico e enfraquece a capacidade do corpo de combater infecções e doenças comuns.

É transmitida por fluidos corporais, geralmente durante relações sexuais desprotegidas, mas também por meio de cortes e injeção de drogas com agulhas compartilhadas. Pode ainda ser transmitida da mãe para o filho durante a gravidez, o parto e a amamentação.

A Aids (síndrome da imunodeficiência adquirida) ocorre quando uma série de infecções e doenças potencialmente fatais se manifestam após o sistema imunológico ter sido gravemente danificado pelo vírus HIV.

Os avanços nas opções de tratamento melhoraram significativamente a expectativa de vida das pessoas diagnosticadas com HIV nas últimas décadas.

Em 2025, cerca de 570 mil pessoas morreram em todo o mundo por causas relacionadas ao HIV, 73% a menos em comparação com o pico de 2004, de acordo com a OMS.

O tratamento recomendado atualmente inclui a Tarv (terapia antirretroviral), que normalmente reduz a carga viral a níveis indetectáveis, protegendo o sistema imunológico e prevenindo a transmissão sexual do vírus.

No entanto, no ano passado, a diretora-geral da Unaids, Winnie Byanyima, afirmou que a decisão do presidente dos EUA, Donald Trump, de suspender a ajuda externa ao programa levaria a 2.000 novas infecções por HIV por dia e a mais de seis milhões de mortes nos próximos quatro anos.

Segundo a Unaids, as novas infecções por HIV aumentaram em três regiões e 21 países em 2025, incluindo Afeganistão, Sri Lanka, Nepal, Quênia, Sudão, Brasil, Paquistão, Iêmen, Egito, Senegal e Filipinas.

Onde mais está ocorrendo a prática do bluetoothing?

O Lesoto tem a segunda maior taxa de prevalência de HIV do mundo e o vírus é a principal causa de morte entre as mulheres, de acordo com a OMS.

Uma organização que tenta combater o bluetoothing na região é a Mokhosi oa Mangoana, ou "O Grito de uma Mãe". Este grupo de mulheres compartilha suas experiências com filhos que enfrentam problemas de abuso de substâncias.

Eles tinham ouvido falar do que estava acontecendo na África do Sul, mas só perceberam que também estava ocorrendo muito mais perto de casa em 2024 - especificamente em "trap houses" - imóveis abandonados usados para venda e consumo ilegal de drogas.

A filha de Ponto Tumisi era uma aluna exemplar antes de começar a usar metanfetamina. Ela diz que o bluetoothing ocorre quando as pessoas têm uma quantidade pequena de drogas para compartilhar.

"Independentemente de saberem ou não a compatibilidade dos seus grupos sanguíneos, independentemente de conhecerem ou não as doenças que carregam através desse sangue. Isso, para eles, é irrelevante", diz ela.

Tumisi afirma que profissionais de saúde lhe disseram que essa prática "não existe", pois seria impossível alguém sobreviver à transfusão de sangue.

Formas semelhantes de compartilhamento direto de sangue foram documentadas em outros lugares sob nomes diferentes, incluindo flashblood (algo como sangue instantâneo, em português) entre pessoas que injetam drogas na Tanzânia, diz Eamonn Murphy, diretor regional da Unaids, embora tenha acrescentado que não se trata de uma "tendência global generalizada".

Mas Tumisi teme que esses novos métodos de consumo de drogas, menos conhecidos, possam passar despercebidos em outros países.

Ela alerta que aqueles que vivem na linha de frente do abuso de drogas devem estar vigilantes e se informar sobre os primeiros sinais de alerta.

"Se você é pai ou mãe, independentemente de em que parte do mundo esteja, você é um ser humano. Isso significa que você está em risco. Com o vício em drogas, tudo pode acontecer."

O texto foi publicado originalmente aqui.

Fonte _ Folha/SP

Programa da OMS propõe acompanhar saúde, autonomia e cognição de idosos no SUS anualmente

 


Assim como a criança tem peso e altura conferidos a cada consulta no posto de saúde, o idoso poderia ter, uma vez por ano, a capacidade de andar, lembrar, enxergar, ouvir, se alimentar e manter o ânimo medida e comparada com a de pessoas da mesma idade.

É a lógica do Icope (Cuidados Integrados para a Pessoa Idosa), programa lançado pela OMS (Organização Mundial da Saúde) em 2019 e testado hoje em 16 centros de pesquisa no Brasil.

"É como se fosse uma puericultura invertida", resume Eduardo Ferriolli, professor titular de geriatria da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) e um dos coordenadores do estudo no país. Puericultura é o acompanhamento médico e de enfermagem que verifica se o crescimento e o desenvolvimento de crianças estão dentro do padrão.

"Se uma pessoa de 67 anos já tem a força muscular diminuída, uma dificuldade de locomoção que não tinha no ano passado, então precisa ver o que está acontecendo", exemplifica.

A proposta tira o foco das doenças isoladas e olha para a chamada capacidade intrínseca, dividida em seis domínios: locomoção, cognição, saúde psicológica, vitalidade (sobretudo o estado nutricional), visão e audição.

A avaliação básica leva cerca de cinco minutos e usa testes simples: lembrar três palavras, como "flor, porta, arroz"; levantar-se de uma cadeira cinco vezes, sem usar os braços, em até 14 segundos; dizer se perdeu mais de 3 kg sem querer nos últimos três meses.

Se algum domínio dá sinal de queda, o protocolo prevê, ainda na atenção primária, uma avaliação detalhada das causas (doenças, efeito de remédios, problemas sociais ou do ambiente), um plano de cuidado com vários profissionais e, se necessário, o encaminhamento a especialistas. A ideia é agir enquanto o declínio ainda é reversível.

A segunda edição do manual, de 2024, ganhou versão em português da Opas (Organização Pan-Americana da Saúde) neste ano. Ela amplia a triagem para identificar também incontinência urinária, falta de apoio social e sobrecarga dos cuidadores, em sua maioria mulheres da família, e reforça a vacinação.

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Na última quinta (29) Hilda Maria da Conceição, 84, e a filha Maria da Soledade Conceição, 61, se vacinaram contra a Covid. Ambas são acompanhadas no ambulatório do idoso da USP, no Centro de Saúde Escola Geraldo de Paula Souza, na zona oeste de São Paulo.

Hilda tem diagnóstico de Alzheimer há cinco anos. A filha, uma das cuidadoras da mãe, diz que no espaço a mãe passa por consulta, faz exames e ela recebe orientação sobre alimentação, atividade física, medicamentos, entre outros.

"Com esse apoio, minha mãe tem conseguido manter a autonomia e eu aprendo como cuidar melhor dela e de mim também. Ela ainda cozinha a própria comida, cuida da casa", conta Maria.

De acordo com o Icope, a primeira triagem para acompanhamento dos idosos pode ser feita na comunidade, por agentes comunitários de saúde. A OMS justifica a urgência com números: o mundo tinha 1,18 bilhão de pessoas com 60 anos ou mais em 2024 e terá 2,1 bilhões em 2050, 22% da população.

No Brasil, a pesquisa começou com um piloto em Porto Alegre, entre 2022 e o início de 2024, numa unidade básica vinculada ao Hospital de Clínicas da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul).

Os instrumentos usados hoje na atenção básica buscam identificar a fragilidade. Mas, entre os idosos não frágeis, quase metade já tinha algum problema de locomoção, parte significativa apresentava dificuldades cognitivas e quase um quarto tinha sintomas depressivos.

"Cerca de 80% da população idosa brasileira é funcional e não se enquadra nos estratos de maior vulnerabilidade", afirma Renato Bandeira de Mello, professor da UFRGS. "Existe uma transição entre ser uma pessoa idosa robusta e uma vulnerável, e essa é uma grande janela de oportunidade para intervir."

Existe uma transição entre ser uma pessoa idosa robusta e uma vulnerável, e essa é uma grande janela de oportunidade para intervir

Renato Bandeira de Mello

médico e professor da UFRGS

A intervenção pode ser simples: exercício, alimentação, apoio social e familiar. O grupo gaúcho usa um protocolo europeu de exercícios feitos em casa e ajustados à capacidade de cada um. Um ensaio clínico, com pacientes acompanhados após a alta hospitalar, mostrou melhora funcional significativa.

O estudo nacional, o Icope Brasil, já incluiu mais de 2.600 idosos em centros de todas as regiões, de Manaus (AM) a Araranguá (SC). Eles serão acompanhados por três anos para medir a capacidade intrínseca da população idosa e a precisão da triagem rápida da OMS.

O país mais avançado na aplicação do modelo é a França. Em Toulouse, a equipe de geriatria da universidade, centro colaborador da OMS, começou a usar o Icope em janeiro de 2020, dois meses antes do primeiro confinamento da pandemia.

Segundo Philipe de Souto Barreto, professor de gerontologia da Universidade de Toulouse e codiretor do centro, o trabalho não parou graças a uma infraestrutura digital: o aplicativo Icope Monitor, ligado a uma base de dados segura que cada profissional consulta para acompanhar seus pacientes.

Mais de 10 mil profissionais foram treinados e mais de 150 mil idosos, registrados. O governo ampliou a experiência para outras regiões e, em março deste ano, uma lei estendeu a triagem a todo o país.

Para Barreto, o maior desafio é mudar o hábito de tratar cada doença separadamente. "Quando você trata um idoso que tem cinco, seis doenças, ele vai acabar com 12, 13, 14 medicamentos."

Ele rebate a queixa, recorrente no Brasil, de que um programa desse tipo poderia sobrecarregar ainda mais as equipes da atenção primária. "Não é colocar mais alguma coisa, é colocar algo que abarque várias coisas. O erro a evitar é adicionar uma ferramenta a outra."

Ainda faltam provas de impacto econômico, o argumento que mais pesa para gestores. Um estudo randomizado em Toulouse compara idosos no Icope com os que recebem o cuidado usual, mas os resultados levarão de três a quatro anos. "A probabilidade de que o programa seja eficaz é elevada", diz.

No Brasil, o modelo ficou fora da Política Nacional de Cuidados. Segundo Ferriolli, o grupo já submeteu duas vezes ao Ministério da Saúde uma proposta de piloto em unidades de saúde, com teleconsultoria da USP para casos complexos. Mas, segundo ele, não houve interesse.

Os argumentos para recusar, diz ele, foram falta de recursos, risco de sobrecarga da atenção primária e outras iniciativas recém-implantadas.

A fala do presidente Lula (PT) pondo o cuidado com idosos como prioridade após a reeleição animou os pesquisadores, que pretendem retomar as conversas. A Opas (Organização Pan-Americana de Saúde) vê o Brasil como potencial exemplo na região.

Barreto conta que tem reunião marcada com o ministério para apresentar o Longeva, ferramenta digital que exibe a triagem em curvas de percentis, como as do crescimento infantil. "A malha sanitária brasileira seria perfeita para o Icope", diz. "É incompreensível que não esteja na política."

Em nota, o Ministério da Saúde informou que acompanha, junto à OMS, a adoção de ferramentas voltadas ao cuidado de pessoas idosas, bem como as pesquisas realizadas por centros brasileiros.

Seguindo essas mesmas diretrizes, a pasta diz que o país incorporou, no fim de 2024, o Índice de Vulnerabilidade Clínico-Funcional (IVCF-20), desenvolvido nacionalmente, validado e adaptado à realidade do país e do SUS para o acompanhamento da saúde dessa população.

"O IVCF-20 está disponível no prontuário eletrônico e-SUS APS para as equipes das UBSs (Unidades Básicas de Saúde), inclusive agentes comunitários de saúde. Tem aplicação simples e rápida para medir a saúde física e mental dos pacientes", diz a nota.

Segundo o ministério, em 2025, primeiro ano de difusão da ferramenta, foram realizados mais de 2,1 milhões de registros, e a expectativa é que esse número aumente a cada ano. Outras ferramentas, como o Icope, estão em constante análise e passam por processo de validação para uso na realidade brasileira.

O projeto Saúde Pública tem apoio da Umane, associação civil que tem como objetivo auxiliar iniciativas voltadas à promoção da saúde.

Fonte _ Folha/SP