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terça-feira, 24 de março de 2026

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Dia Mundial de Combate à Tuberculose: SIM, podemos acabar com a tuberculose

Dia Mundial de Combate à Tuberculose - 24 de Março

 


O Dia Mundial de Combate à Tuberculose é celebrado em 24 de março. A data foi instituída pela Organização Mundial da Saúde (OMS), em 1982, em referência ao centenário da descoberta do bacilo causador da doença, anunciada pelo cientista Robert Koch em 24 de março de 1882.

A tuberculose é uma doença infectocontagiosa causada pela bactéria (bacilo) Mycobacterium tuberculosis. Embora atinja principalmente os pulmões, também pode afetar outros órgãos, como ossos, rins e meninges.

A transmissão ocorre pelo ar, por meio de gotículas eliminadas quando uma pessoa infectada tosse, espirra ou fala. A forma pulmonar é a mais comum e a principal responsável pela disseminação da doença.

Mesmo com avanços no diagnóstico e no tratamento, a tuberculose ainda representa um importante problema de saúde pública no Brasil.

De acordo com o Ministério da Saúde, cerca de 70 mil novos casos são registrados todos os anos no país, com aproximadamente 4,6 mil mortes associadas à doença.

Quais são os sintomas da tuberculose? 

Os sintomas mais comuns da tuberculose incluem:

- Tosse com ou sem secreção (catarro) por mais de quatro semanas;

- Cansaço excessivo;

- Baixa, geralmente no período da tarde;

- Suor noturno; 

- Falta de apetite;

- Palidez;

- Perda de peso;

- Fraqueza.

Cura e acompanhamento

A tuberculose tem cura, e o cuidado é oferecido gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Para alcançar a recuperação completa, é essencial seguir corretamente as orientações de saúde até o fim. O processo dura, em média, de seis meses a um ano e envolve o uso contínuo de antibióticos. Mesmo com a melhora dos sintomas nas primeiras semanas, a interrupção antes do prazo pode trazer consequências.

Um dos principais desafios no controle da doença é a baixa adesão ao tratamento. Quando o uso dos medicamentos é interrompido, há risco de surgimento da tuberculose multirresistente, forma mais grave que não responde aos remédios mais comuns e tem avançado em todo o mundo.

Quanto mais cedo for feito o diagnóstico, maiores são as chances de cura, além de reduzir a transmissão e evitar complicações.

Prevenção

A principal forma de proteção na infância é a vacina BCG, que previne as formas mais graves da tuberculose. Além disso, é fundamental identificar os casos precocemente, garantir o acompanhamento adequado das pessoas infectadas e manter ambientes ventilados e arejados.

A tuberculose está diretamente ligada às desigualdades sociais, o que reforça a urgência de ampliar o acesso aos serviços de saúde e promover melhores condições de vida, especialmente para as populações mais vulneráveis.

Semana Nacional de Mobilização e Luta Contra a Tuberculose

No Brasil, além do Dia Mundial de Combate à Tuberculose, celebrado em 24 de março, ocorre, entre os dias 24 e 31 de março, a Semana Nacional de Mobilização e Luta Contra a Tuberculose. A iniciativa reforça a importância da prevenção, do diagnóstico oportuno e da continuidade do cuidado.


Qualificação profissional no enfrentamento da doença

Fortalecer o cuidado à população também passa pela qualificação dos profissionais de saúde. 
Na UNA-SUS, estão disponíveis dois cursos online, gratuitos e autoinstrucionais sobre a temática da tuberculose. As formações apoiam profissionais e equipes de saúde no enfrentamento da doença, com matrículas abertas até o dia 8 de junho de 2026:

Introdução ao Diagnóstico Laboratorial de Tuberculose e Outras Micobacterioses 

Público-alvo: 
Profissionais de saúde e demais interessados no tema.

Carga horária:  30 horas

O curso tem como objetivo qualificar profissionais de saúde que atuam, ou desejam atuar, em laboratórios públicos ou privados, no diagnóstico laboratorial de tuberculose e de outras micobactérias não tuberculosas. Durante a formação, os participantes vão compreender as bases conceituais e práticas do funcionamento da rede de laboratórios voltados para o diagnóstico dessas doenças. Acesse aqui.

 

Manejo da Coinfecção Tuberculose-HIV 

Público-alvo:

Profissionais de saúde de nível superior, especialmente aqueles que já atuam em serviços que prescrevem ou indicam antirretrovirais para pessoas vivendo com HIV/aids (PVHA).

Carga horária:  60 horas

O curso tem como objetivo fornecer subsídios para que os profissionais de saúde atendam de forma integral e qualificada pessoas coinfectadas por tuberculose e HIV. Para isso, aborda aspectos clínicos, etiológicos e psicossociais da associação entre as doenças, além de apresentar os procedimentos operacionais e as rotinas necessárias para a organização dos serviços que atendem esse público.

O conteúdo inclui o manejo clínico da coinfecção, com foco especial no diagnóstico de tuberculose em pessoas vivendo com HIV, estratégias de apoio psicossocial e orientações sobre a organização dos serviços de saúde. Uma unidade adicional apresenta casos clínicos interativos que simulam situações reais, reforçando o aprendizado prático. Acesse aqui.

Fonte _ UNA-SUS

domingo, 22 de março de 2026

Maioria da população diz que Brasil continua despreparado para nova pandemia, mostra Datafolha

 


A maioria dos brasileiros avalia que o país não aprendeu o suficiente com a pandemia de Covid-19 e segue despreparado para enfrentar uma nova crise sanitária, mostra pesquisa Datafolha encomendada pelo Instituto Todos pela Saúde, entidade sem fins lucrativos que atua na área da epidemiologia.

O levantamento revela que 53% consideram que o Brasil não está preparado para uma futura epidemia ou pandemia, enquanto outros 28% avaliam que o país está pouco preparado. Apenas 18% dizem que há organização para lidar com uma nova emergência, e 1% não sabe.

A pesquisa, feita com 2.002 pessoas com mais de 16 anos em todo o país, nos dias 10 e 11 de novembro de 2025, revela um cenário de desconfiança generalizada e sensação persistente de vulnerabilidade. A margem de erro é de dois pontos percentuais, com nível de confiança de 95%.

Para especialistas, os dados indicam que a experiência recente da Covid, que resultou em mais de 700 mil mortes no Brasil, ainda não se traduziu em percepção de avanço institucional ou capacidade de resposta.

Segundo o médico Gerson Penna, diretor-presidente do Todos pela Saúde, o problema é mais profundo e antigo: o Brasil segue sem instrumentos institucionais e legais adequados para lidar com futuras pandemias. "Essa história não é de hoje. O Brasil está atrasado", afirma.

Ele diz que o mundo avançou nas últimas décadas na criação de centros especializados em saúde pública, enquanto o país ficou para trás. "Até 2000, existiam 54 instituições desse tipo. Entre 2000 e 2020, foram criadas 39. E, de 2020 para cá, mais 29. O mundo está se preparando, e a gente não."

Deisy Ventura, professora titular da Faculdade de Saúde Pública da USP, diz que o tema deveria estar no centro da agenda política desde o início do atual mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). "Isso deveria ter sido prioridade desde o primeiro ano", afirma.

Para ela, o país falhou em fazer uma avaliação consistente da resposta à pandemia de Covid, deixando de aprender com erros e acertos. "Não houve um balanço sério sobre as cadeias de decisão, os impactos da crise ou a governança da pandemia. Nem sequer construímos uma base jurídica a partir da experiência."

A pesquisa Datafolha aponta que o sentimento predominante entre os brasileiros é de preocupação com novas crises sanitárias. Quase metade dos entrevistados (49%) declara alto nível de apreensão diante do risco de novas epidemias ou pandemias, enquanto 36% manifestam nível médio.

A insegurança também aparece quando os entrevistados comparam a experiência recente com o futuro. Para 46%, a sensação é de que estariam menos seguros em uma nova pandemia do que estiveram durante a Covid.

De acordo com o médico José Gomes Temporão, ex-ministro da Saúde e pesquisador da Fiocruz, a preocupação dos brasileiros dialoga com as do meio científico. "Há uma certeza de que haverá uma nova pandemia. Só não sabemos quando."

Segundo Ventura, fatores como conflitos armados, reemergência de doenças e avanço do negacionismo científico são elementos que ampliam os riscos. "Os intervalos entre pandemias estão ficando mais curtos. Não há mudança no modo de vida global que indique o contrário", afirma.

Na opinião de Penna, o aumento da percepção de risco não é necessariamente negativo. "O mundo hoje é interligado. Um agente infeccioso pode se espalhar globalmente em poucos dias. As pessoas estão tomando consciência. Isso pode ajudar a pressionar por mudanças estruturais."

Em meio à insegurança, há um ponto de consenso —9 em cada 10 brasileiros afirmam que se sentiriam mais seguros caso o país tivesse um centro de controle de doenças, que seria uma estrutura permanente, técnica e com autonomia operacional, dedicada à resposta a emergências sanitárias.

Penna, que já foi secretário de vigilância em saúde do Ministério da Saúde, participou da elaboração de uma proposta nesse sentido. "A gente foi buscar inspiração em vários países da Europa, África, Austrália para construir algo adaptado ao SUS. É uma instituição que assessora o governo com base científica nas fases de preparação, resposta e resiliência", explica.

O projeto prevê vinculação ao Ministério da Saúde, mas com governança compartilhada. "Seria uma instituição pública, com conselho presidido pelo ministro da Saúde e participação de estados, municípios e entidades técnicas", afirma.

Para Penna, contudo, a criação do centro só será efetiva se vier acompanhada de uma mudança mais ampla: a aprovação de uma lei nacional de enfrentamento a emergências sanitárias. "A lei é, sem dúvida, a medida mais urgente. Hoje o Brasil não tem instrumento legal permanente para gerir uma pandemia."

Ele lembra que, durante a Covid, o país precisou aprovar uma legislação emergencial, que perdeu validade com o fim da crise. "A gente fica sem base jurídica assim que a emergência acaba. Isso não pode acontecer."

Segundo ele, um projeto já está pronto na Casa Civil e deve ser encaminhado ao Congresso. A proposta estabelece uma política de Estado, suprapartidária, que permita atuação coordenada em futuras crises.

Para Ventura, a saída passa por uma política estruturada, baseada em evidências científicas, com definição clara de responsabilidades e mecanismos de proteção social. E que estabeleça regras sobre governança, vacinação, comunicação e responsabilização. "Sem isso, vamos repetir os mesmos erros, independentemente de quem esteja no governo."

De acordo com a pesquisa, em meio à multiplicidade de fontes de informação, médicos e profissionais de saúde são os mais confiáveis para a população: 58% dizem recorrer a esses especialistas durante emergências sanitárias. Na sequência aparecem a OMS (Organização Mundial da Saúde), com 41%, e o Ministério da Saúde e outras instâncias governamentais (40%).

Políticos, por outro lado, são citados por apenas 3% dos entrevistados como fontes confiáveis de informação. Familiares e amigos aparecem com 20%, enquanto líderes religiosos somam 9%.

busca por informação é praticamente universal durante uma pandemia: 99% afirmam utilizar algum meio para se informar, recorrendo, em média, a quatro canais diferentes. Profissionais ou unidades de saúde (88%), televisão (78%), redes sociais (72%) e sites de notícias (71%) são os meios mais citados.

Apesar disso, o ambiente informacional segue marcado por incertezas. Seis em cada dez brasileiros (61%) relatam ter tido dificuldade para saber em quem confiar durante uma epidemia ou pandemia, evidenciando o impacto da desinformação. "A propaganda contra a saúde pública continua ativa e sem punição. Isso deixa um péssimo prognóstico para as próximas crises", afirma Ventura.

Fonte _ Folha/SP

sábado, 21 de março de 2026

Inteligência artificial, não sabe o que sabe e não sabe o que não sabe

 


Autor narra os debates a que assistiu no festival de inovação SXSW sobre o avanço da inteligência artificial. Palestrantes abordaram temas como o uso da tecnologia em ofícios criativos, a necessidade de encontros presenciais para impulsionar nossa saúde social e a compreensão sobre como os animais se comunicam.

Estive em Austin, nos EUA, para participar do SXSW (South by Southwest), o maior festival de inovação do mundo. O meu foco foi tomar o pulso da inteligência artificial, assistindo a sessões com acadêmicos, CEOs, pesquisadores, cientistas e artistas.

Em comum, uma sensação curiosa: ninguém ali parecia exatamente calmo. Começando pelo título deste artigo, dito por Sanjay Sarma, professor do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts), que completou: "A IA só sabe botar uma palavra atrás da outra". Essa coisa que bota palavras em linha, porém, está mudando o mundo como nunca.

A IA já saiu da fase em que era um futuro e, hoje, não pode nem sequer ser vista como ferramenta. É um agente, um sistema e já está dentro de tudo: nas buscas, antes no Google e agora no ChatGPT; no trabalho, criando e eliminando empregos; na medicina; na escola; no cinema; nas relações sociais, o que é mais preocupante, vide os suicídios induzidos por ela; e no jornalismo, o que é bem delicado.

O medo de perder o emprego é generalizado, mas a IA não quer só fazer o nosso trabalho —quer reorganizar o nosso dia e a nossa vida e está mudando o clima mental do nosso tempo. Antes, a tecnologia era um assunto. Agora, ela virou o ambiente.

O que acontece com a vida comum quando quase tudo pode ser automatizado, assistido, previsto, editado, melhorado, resumido, sugerido, roteirizado e respondido por uma máquina? Confusão. Essa máquina gentil e dócil é encrenca e solução.

Acontece uma disputa, entre velocidade e sentido e entre eficiência e presença. Podemos ficar mais rápidos, mas estamos ficando mais burros. Nossos cérebros estão atrofiando. Há estudos que apontam o declínio cognitivo dos estudantes que usam IA nos seus trabalhos.

Acredito que só a falta de leitura sistemática já atrofia a capacidade narrativa desses jovens. Isso é um desastre, talvez não só para o trabalho metódico, mas para a vida de forma geral. Imagine se você lê pouco e assiste a nada mais longo que cinco minutos?

O cérebro evoluiu para explorar. Quando a exploração acaba, a necessidade do cérebro acaba. Óculos inteligentes, Waze, redes sociais —tudo contribui para essa atrofia. Notou que o Google Maps acabou com nosso senso de direção?


É preciso mais tempo para explorar e ir mais fundo e mais tempo para poder usar o silêncio. Isso não é incentivado pela IA.

Tudo agora caminha para o médio, para o mediano. Eu chamaria isso de MMM (mundo mais ou menos). Tudo sendo homogeneizado: a língua, as imagens. Quem aguenta ver os videozinhos feitos por IA? São um horror de mesmice. Todo o mundo no mesmo tom, falando coisas parecidas. Simples e sem esforço.

O esforço de busca e de exploração —tentar, errar e refazer— faz parte do cenário da criação e da sobrevivência da humanidade. Se pularmos a parte do esforço, não chegaremos a algo realmente autêntico. Nas artes, isso é mais que certo. Steven Spielberg disse que não vai usar a IA em nada que for criativo. Na ciência, devemos contar que a facilidade de leitura de tudo vai ajudar em descobertas mais rapidamente. Mas, reforço, a falta de exploração nos faz seres mirrados.

Improvisação e imaginação são as duas maiores habilidades neste momento confuso, apontou Jack Conte, o músico que fez uma das palestras mais bombásticas do festival, cobrando direitos autorais dos donos das IAs, em um manifesto forte.

Nisso, o Brasil sai na frente. Somos experts em driblar dificuldades com traquitanas e estamos habituados a vencer sem diploma, que já não é o caminho seguro para uma carreira de sucesso. Os saberes da pessoa valem muito mais, não importa onde ela os conseguiu (cursos no YouTube? TikTok?), mas, sim, se ela trabalha bem em grupo, tem empatia, inteligência emocional etc. Uma pessoa talentosa e diplomada pode acabar com um grupo e um trabalho.

Cada vez mais a IA nos leva para as telas. Porém, cada vez mais sentimos falta do contato humano. Claro. Se boa parte da nossa comunicação é não verbal e os diálogos hoje com a IA são quase sempre verbais, estamos sozinhos demais. Já estamos consultando a IA como terapeuta emocional, e parcela considerável de jovens já pensou em namorar uma IA.

Yurina Noguich olhando para seu marido, o personagem gerado por AI chamado Klaus Kim Khung-Hoo 

Kasley Killam, especialista em saúde social, diz que 2026 é o ano analógico, pois as pessoas "desejam que as redes sociais ofereçam experiências sociais genuínas", sendo que mais de 20% fizeram mais amigos neste ano que no ano passado. Esse lance analógico também é visto como nostálgico de um tempo em que havia conexão física entre as pessoas, em que as coisas demoravam para ficar prontas, em que, enfim, o tempo era lento. A velocidade cria ansiedade.

A saúde estava em xeque por causa da internet e suas respostas aleatórias. Agora, está em choque, acelerada pela IA. Além da saúde física e da popular saúde mental e seus burnouts, agora a onda é cuidar da saúde social —a saúde dos relacionamentos. Essa é a nova fronteira. Sem ela, a felicidade passa longe.

Os dados mostram que 871 mil pessoas têm morte prematura por ano no mundo em função do isolamento e da solidão, que pode ser aliviada pela IA, mas não solucionada. Ela pode simular empatia, mas não sente alívio, culpa, luto, desejo, vergonha, ciúme, compaixão ou encantamento. Isso não é um detalhe. É a diferença entre parecer humano e ser humano. A confusão não é saudável. O remédio é mais amigos, mais festas, mais grupos de estudo, mais turismo ou mais caminhadas.

Está nítido que a IA e os novos sistemas de monitoramento de saúde estão mudando a relação das pessoas com o próprio corpo. Hoje, um número crescente de pessoas anda com sensores, relógios, exames no celular e biomarcadores nos anéis. Antes, saúde era um assunto trancado no consultório. Agora, ela vibra no pulso.

Por um lado, isso é bom. Podemos descobrir mais cedo o que antes só aparecia tarde, mas isso também tem um custo psíquico. Acordamos, olhamos para o relógio e descobrimos que dormimos mal, nos recuperamos mal, respiramos mal. Nem tomamos café e já temos a saúde transformada em planilha. Ansiedade. Ansiedade. Ansiedade.

Mas não só de sombras inteligentes viveu esse SXSW. Existem facilitadores da vida criados pela IA. Está chegando o tempo em que teremos um agente (ChatGPT, Claude etc.) que fará pesquisa e comprará coisas para nós. Daremos as diretrizes e a IA irá às compras. Uma lista de supermercado junto com o dinheiro máximo disponível, um prazo, um endereço e um cartão de crédito são os perímetros de ação para começar.


Com o tempo e o nosso feedback, essas compras serão melhoradas em todos os quesitos: preço, prazo, qualidade etc. Você teria coragem de delegar, de A a Z, as compras do mês para uma IA? Programar e comprar sua viagem de férias, como um agente de viagens? Isso só não está acontecendo por uma questão de segurança.

Até o fim de 2027, a IA vai ser seu agente de supermercado e outras coisas. No livro "2041", de Kai-Fu Lee e Chen Qiufan, você pode ler dez histórias que tratam desse futuro, em que as IAs serão nossas companheiras pessoais, com nome e tudo, e saberão mais de nós que nós mesmos —mas ainda sem emoção.

Outro ponto nessa conversa: os agentes de compras vão procurar coisas com segurança e confiança. Ou seja, vão pesquisar não apenas preço e qualidade, mas também o quanto o consumidor confia naquela empresa. Para isso, valem a avaliação do Google, reportagens de jornais ou a posição no Reclame Aqui.

As marcas vão ter que ficar muito espertas e criar narrativas diferenciadas nos seus sites. Também deverão ter narrativas conversacionais, para que os agentes entendam e confiem naquela marca. Ou seja, muito emprego à vista para refazer o plano de ação de todas as marcas em todas as plataformas.

Hoje, a IA faz muita coisa bem. Em alguns casos, muito bem: organiza informações, resume textos, analisa exames, sugere caminhos, ajuda pesquisadores a cruzar hipóteses, empresas a encurtar processos, criadores a prototipar ideias que antes morreriam no orçamento.

Também já ajuda o jornalismo, um lugar muito sensível e necessário neste dias de polarização e fake news. O fundador da Wikipedia, Jimmy Wales, não usou meias palavras quando foi perguntado sobre o que seria do mundo sem o jornalismo: "Estaríamos fodidos!".

O New York Times apresentou uma palestra com o seu "chefe de IA" que foi um alento. Com uma equipe reduzida liderada por Zach Seward, o jornal tem como visão que a IA deve ajudar jornalistas a descobrir histórias, não os substituir. Para ele, o maior potencial da IA no jornalismo é na investigação e pesquisa. Ou seja, IA para analisar dados gigantescos, por exemplo, e jornalistas para interpretar e investigar. A IA pode transcrever centenas de horas de vídeo para o texto ser organizado e pesquisado. Pode ler manuscritos indecifráveis e fazer uma busca semântica em textos, apontando possíveis caminhos de investigação. Sempre com transparência junto aos leitores, o New York Times inova e aponta caminhos concretos para o futuro do jornalismo.

E se os bichos falassem, entre si e com as plantas, o que iríamos descobrir? Para começar, os bichos falam e nós estamos começando a entender essa falação monumental. A Terra está cheia de linguagem, sentido, cultura e inteligência, apenas fora do alcance dos nossos sentidos limitados.


A IA, segundo Aza Raskin, do Earth Species Project, vai ajudar a abrir essa percepção e produzirá uma das maiores mudanças de consciência da história humana: da visão da natureza como cenário ou recurso à sua percepção como uma comunidade de mentes, vozes e mundos. Entender a comunicação entre todos os seres vivos vai nos revelar uma teia de saberes jamais imaginados.

E entre os seres mortos? Alguma novidade? Sim. Agora, já temos os fantasmas generativos, simulações de pessoas vivas ou mortas criadas com IA a partir de seus dados. Podemos usar emails, redes sociais, voz, vídeo, arquivos pessoais etc. Uma pessoa será criada ou recriada em vários formatos possíveis: chatbot, voz interativa, avatar em vídeo ou VR e até agentes autônomos. Vamos poder interagir profundamente com pessoas que já morreram.

Claro que ninguém será ressucitado, mas uma representação comportamental plausível vai ser construída. Imaginemos isso na educação. Poderemos ter um avatar de Santos Dumont conversando e respondendo todas as nossas perguntas, como se ele estivesse ali. Por outro lado, pode ser estranho, se não assustador, ter de volta um ente querido que morreu para conversar com você.

Ninguém ainda afirma nada com muita certeza, nem mesmo sobre a famigerada questão energética —sabemos que a IA consome uma enormidade de energia—, mas os otimistas dizem que as soluções para isso virão da própria IA. Será?

O que me impactou é que a IA é mato hoje. Está por todo lado, e precisamos roçar para poder entender melhor. Sinto que, em um futuro próximo, deixaremos de ser refratários ao seu uso e ela conviverá conosco de forma quase invisível.

Ficará a pergunta: fui eu ou foi a IA quem fez? Acho que a resposta será: eu também sou IA.

O autor viajou a convite da InvestSP (Agência Paulista de Promoção de Investimentos e Competitividade).

Fonte _ Folha/SP

sexta-feira, 20 de março de 2026

InfoGripe indica aumento da circulação de influenza A no Brasil

 


O novo Boletim InfoGripe da Fiocruz alerta para o aumento da circulação da influenza A no país antes de sua sazonalidade convencional: o vírus costuma apresentar alta atividade no outono e no inverno. O outono tem início nesta sexta-feira (20/3) e a análise é referente à Semana Epidemiológica (SE) 10, período de 8 a 14 de março. O Boletim indica que a influenza A segue avançando em nível nacional, impulsionando o aumento de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) no Mato Grosso e na maioria dos estados do Nordeste (exceto Piauí) e em alguns estados do Norte (Amapá, Pará e Rondônia) e do Sudeste (Rio de Janeiro e Espírito Santo). 

O Ministério da Saúde definiu três estratégias nacionais de vacinação para 2026, com foco na ampliação da cobertura vacinal e na redução de doenças imunopreveníveis. A campanha de vacinação contra a influenza nas regiões Nordeste, Centro-Oeste, Sul e Sudeste será realizada de 28 de março a 30 de maio, com o Dia D marcado para o primeiro dia da ação. "A principal forma de prevenção contra os casos graves e óbitos é a vacina. Já temos a vacina contra o VSR para as gestantes e no dia 28 começa a vacinação contra a influenza A para os grupos prioritários", afirma a pesquisadora Tatiana Portella, da Fiocruz.

A atualização mostra que, em nível nacional, o cenário atual aponta que os casos notificados de SRAG indicam aumento na tendência de longo prazo. Referente ao ano epidemiológico 2026, já foram notificados 20.311 casos de SRAG, sendo 7.523 (37%) com resultado laboratorial positivo para algum vírus respiratório, 8.398 (41,3%) negativos e cerca de 2.853 (14%) aguardando resultado laboratorial. Dados de positividade para semanas recentes estão sujeitos a grandes alterações em atualizações seguintes por conta do fluxo de notificação de casos e inserção do resultado laboratorial associado.


Estados e capitais

Segundo a análise, o número de casos SRAG apresenta sinal de aumento no cenário nacional nas tendências de longo (últimos seis meses) e de curto prazo (últimos três meses). Todos os estados, exceto Piauí, sinalizam crescimento nos casos de SRAG na tendência de longo prazo até a SE 10.

Crianças e adolescentes têm sido afetados principalmente pelo rinovírus. Entre jovens, adultos e idosos a principal causa tem sido a influenza A. O vírus sincicial respiratório (VSR) também tem contribuído para o aumento de SRAG nas crianças pequenas. Já a Covid-19 afeta principalmente os idosos (embora esteja concentrado apenas em alguns estados do Sudeste, como Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo) e apresenta ainda níveis baixos de incidência. Com relação ao aumento das hospitalizações, as principais causas tem sido o rinovírus (especialmente entre crianças e adolescentes de 2 a 14 anos), a influenza A e o VSR.

Em relação ao VSR, o vírus segue contribuindo para o crescimento de SRAG em crianças menores de dois anos em muitos estados do Norte (Acre, Amazonas, Pará, Roraima e Rondônia), além de em alguns estados Centro-Oeste (Mato Grosso e Goiás) e Nordeste (Paraíba e Sergipe). Entre os estados, 20 estão com nível de atividade de SRAG em alerta, risco ou alto risco (últimas duas semanas): Acre, Amazonas, Pará, Amapá, Rondônia, Roraima, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Distrito Federal, Maranhão, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Sergipe, Alagoas, Bahia, Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro.

O Boletim verificou que 18 das 27 capitais apresentam nível de atividade de SRAG em alerta, risco ou alto risco, com sinal de crescimento na tendência de longo prazo até a SE 10: Aracaju (Sergipe), Belo Horizonte (Minas Gerais), Brasília (Distrito Federal), Boa Vista (Roraima), Campo Grande (Mato Grosso do Sul), Cuiabá (Mato Grosso), Fortaleza (Ceará), Goiânia (Goiás), João Pessoa (Paraíba), Macapá (Amapá), Maceió (Alagoas), Manaus (Amazonas), Natal (Rio Grande do Norte), Porto Velho (Rondônia), Recife (Pernambuco), Rio de Janeiro (Rio de Janeiro), Salvador (Bahia) e São Luís (Maranhão).

Prevalência de casos e óbitos

Em 2026, os casos positivos se deram em 41,9% devido ao rinovírus; em 21,8% à influenza A; em 14,7% ao Sars-CoV-2 (Covid-19); em 13,4% ao VSR; e em 1,5% à influenza B. Nas quatro últimas semanas epidemiológicas, a prevalência entre os casos positivos foi de 45,4% para o rinovírus; 25,4% para a influenza A; 13,4% para o VSR; 11,3% para o Sars-CoV-2 (Covid-19); e 1,3% para influenza B.

Dentre os óbitos positivos do ano corrente, observou-se 37,3% de Sars-CoV-2 (Covid-19); 28,6% de influenza A; 21,8% de rinovírus; 4,5% de VSR; e 2,5% de influenza B. Nas quatro últimas semanas epidemiológicas, a prevalência entre os óbitos positivos foi de 30,8% para influenza A; 30,8% para Sars-CoV-2; 27,5% para rinovírus; 5,5% para VSR; e 2,7% para influenza B.

Boletim InfoGripe é uma estratégia do Sistema Único de Saúde (SUS) voltada ao monitoramento de casos de SRAG no país. A iniciativa oferece suporte às vigilâncias em saúde na identificação de locais prioritários para ações, preparações e resposta a eventos em saúde pública.

Fonte _ FioCruz

quinta-feira, 19 de março de 2026

Anvisa determina recolhimento de esmaltes em gel da Impala por substância que pode afetar fertilidade

 


Anvisa determinou que a Impala recolha todos os lotes de esmaltes em gel por conterem um ingrediente proibido pelo órgão. Os produtos são o Plus Gel Esmalte Impala Gel, Esmalte Gel Impala Gel Plus, Gel Plus Impala Esmalte Gel, Esmalte Gel Plus Impala e Top Coat Gel Impala Gel Plus Clear.

A medida, anunciada nesta segunda-feira (16), foi tomada após a empresa do grupo Mundial SA comunicar sobre o recolhimento voluntário, segundo nota do órgão de vigilância sanitária. A Impala afirma que passou a restringir o uso da substância em produtos cosméticos assim que tomou conhecimento da proibição e adotou medidas imediatas de adequação regulatória.

"Importante esclarecer que nem todos os produtos da linha Impala Gel Plus continham TPO em sua composição. A medida, portanto, se restringe exclusivamente às tonalidades específicas da linha que utilizavam a substância", diz a nota.

A empresa orienta os clientes a entrar em contato com o SAC para receber orientações ou esclarecimentos adicionais.

Os produtos têm na formulação o TPO (Trimethylbenzoyl Diphenylphosphine Oxide), substância vetada na produção de cosméticos, produtos de higiene pessoal e perfumes no Brasil, que pode estar presente em produtos usados para fazer unhas artificiais em gel ou esmaltes em gel, que precisam ser expostos à luz ultravioleta (UV) ou LED

A proibição foi decretada em outubro do ano passado pela Anvisa —junto com outra substância, a DMPT—, como medida para proteger a saúde de quem usa o produto e, sobretudo, dos profissionais que trabalham com eles.

A Anvisa partiu de estudos internacionais feitos em animais que confirmaram que a substância apresenta riscos, como ser tóxico para a reprodução, podendo prejudicar a fertilidade. A União Europeia também baniu o ingrediente recentemente.

O texto publicado no Diário Oficial diz que "os eventos adversos dessas substâncias estão, em geral, associados a exposições repetidas e prolongadas, de modo que contatos ocasionais ou pouco frequentes representam risco significativamente menor, o que, contudo, não afasta a necessidade de uma medida tempestiva de proibição dessas substâncias".

A resolução foi publicada em 30 de outubro de 2025 e estabeleceu o prazo de 90 dias para que a comercialização dos produtos já existentes fosse concluída --ou seja, até 2 de fevereiro deste ano. A Impala afirma que em 28 de janeiro já havia comunicado distribuidores e clientes sobre a interrupção das vendas e recolhimento dos itens.

A diretora Daniela Marreco diz na decisão que "ainda que o risco ocupacional seja mais intenso, usuárias e usuários também estão sujeitos aos efeitos nocivos decorrentes da exposição, reforçando sua dimensão social".

"Cabe destacar que os referidos produtos foram desenvolvidos e comercializados em conformidade com o marco regulatório vigente à época de sua fabricação e comercialização, tendo sido a medida adotada pela empresa motivada pela posterior atualização normativa que alterou os critérios de utilização da referida substância em cosméticos", diz a Impala em nota.

Veja a lista completa de produtos que serão recolhidos

  • Esmalte Gel - Impala Gel Plus - Cremoso - Inspiradora Blister
  • Esmalte Gel - Impala Gel Plus - Cremoso - Expressiva Blister
  • Esmalte Gel - Impala Gel Plus - Cremoso - Enigmática Blister
  • Esmalte Gel - Impala Gel Plus - Cremoso - Envolvente Blister
  • Esmalte Gel - Impala Gel Plus - Cremoso - Talentosa Blister
  • Esmalte Gel - Impala Gel Plus - Cremoso - Ousada Blister
  • Esmalte Gel - Impala Gel Plus - Cremoso - Branco Puro Blister
  • Esmalte Gel - Impala Gel Plus - Cremoso - Forte Blister
  • Esmalte Gel - Impala Gel Plus - Cremoso - Artista Blister
  • Esmalte Gel - Impala Gel Plus - Cremoso - Preto Intenso Blister
  • Esmalte Gel - Impala Gel Plus - Cremoso - Espontânea Blister
  • Esmalte Gel - Impala Gel Plus - Cremoso - Otimista Blister
  • Esmalte Gel - Impala Gel Plus - Cremoso - Motivada Blister
  • Esmalte Gel - Impala Gel Plus - Cremoso - Sempre Clássica Blister
  • Esmalte Gel - Impala Gel Plus - Cremoso - Sonhadora Blister
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Fonte _ Folha/SP

Como se fabricou a ancestralidade do veneno do sapo 5-MeO-DMT

 


O bode preto no salão VIP do renascimento psicodélico é um sapo, Incilius alvarius. Também conhecida como bufo ou veneno do sapo, a substância 5-MeO-DMT está no centro de uma ancestralidade fabricada para satisfazer a romantização indígena de medicinas sagradas contra a miséria espiritual do mundo presente.

Agradeço ao psicólogo Bruno Ramos Gomes pela indicação do erudito artigo de Ana Maria Ortiz Bernal, Charles Raison e colaboradores no periódico Psychedelics. O texto reconstrói o fascinante percurso de transmutação de uma substância sintetizada em 1936 em prática milenar dos Comcáac de Sonora, noroeste do México, também conhecido como povo Seri.

Antes de puxar o fio da meada com Ortiz e Raison, cabe algum contexto sobre 5-MeO-DMT. Embora tenha sido produzida em laboratório por químicos japoneses na década de 1930, o composto está presente também em glândulas de defesa do sapo-do-deserto-de-sonora (I. alvarius, antes denominado Bufo alvarius), como se verificou em 1965.

Esse alterador da consciência não provoca fortes manifestações visuais, à diferença de outros psicodélicos clássicos como mescalina, LSD, DMT da ayahuasca ou psilocibina de cogumelos. Caiu nas graças de psiconautas a partir de 1984, ano em que Ken Nelson fumou a secreção e escreveu um panfleto sobre a experiência.

O efeito da substância foi descrito em artigo científico de Wade Davis e Andrew Weil em 1992. Manifesta-se em segundos e dura cerca de 20 minutos, no que também diverge dos clássicos, cujas viagens duram de 4 a 10 horas. Uma descrição da experiência pode ser encontrada num texto de 2024 neste blog que também apresenta uma sessão com cetamina.

Não foram só psiconautas a se entusiasmar com a transcendência propiciada, pois seu potencial terapêutico também cativou a atenção de investidores em psicodélicos para tratar transtornos mentais. Caso da empresa Beckley PsyTech, hoje AtaiBeckley, que busca patentes e licenças para o tratamento breve contra depressão.

Por fim, a 5-MeO-DMT conta com uso tradicional na forma de rapés preparados por indígenas da América Central e do Sul com sementes de angico (Anadenanthera peregrina) ou com a seiva da virola (Virola theiodora). Não há registro etnográfico do consumo cerimonial do veneno do sapo entre povos tradicionais, embora tenha se espalhado a prática de fumar a "sagrada medicina do sapo".

O artigo rastreia essa fábula lucrativa até o ano de 2011, quando uma comunidade Comcáac cria a Fundação OTA.C ("otac" em sua língua é um termo geral para sapo, depois erigido em nome próprio como suposto enteógeno ancestral). O uso da secreção havia sido introduzido para combater o abuso crescente de metanfetamina por jovens do grupo.

A lenda do costume ancestral dos Comcáac foi propagada em obras como o livro "O Sapo da Aurora" (2016), de Octavio Rettig Hinojosa, e o documentário "OTAC e a Cerimônia da Antiga Medicina Sagrada" (2019), de Leonardo Bondani. O consumo do veneno do sapo se popularizou, a espécie está ameaçada em certas regiões e um quilo da secreção pode custar US$ 50 mil no mercado enteogênico internacional. A OTA.C passou a emitir permissões para cerimônias "autênticas" por US$ 500.

Ancestralização é uma coisa, fabricação de ancestralidade é outra. No primeiro caso se encaixa entre outras a história do povo Yudja (Juruna) do Xingu, que passou a consumir ayahuasca recentemente e a contemplou em mitos recondicionados como medicina que teria sido perdida quando antepassados abandonaram o território ancestral após dilúvio mítico.

Mesmo entre povos ayahuasqueiros da selva amazônica haverá aqueles que adquiriram ou retomaram o uso da bebida em período recente, em sua luta para reconstruir a própria cultura dizimada pelo genocídio colonial. Assim se reinventam e sobrevivem as sociedades tradicionais, tudo normal.

No segundo caso, pode-se alegar desvio ético, com a construção de uma narrativa em busca de legitimidade para uma atividade comercial, que responde ao anseio de consumidores abastados por sabedoria indígena para edulcorar suas experiências psicodélicas. Uma das muitas distorções e apropriações culturais abusivas engendradas no pujante mercado neoxamânico global.

Fonte _ Folha/SP

terça-feira, 17 de março de 2026

Entenda o que é meningite meningocócica bacteriana; Inglaterra registra surto da doença

 


Um surto de 15 casos de meningite meningocócica (bacteriana), declarado na Inglaterra causou a morte de dois jovens, anunciou nesta terça-feira (17) o ministro da Saúde britânico, Wes Streeting. Trata-se de uma infecção que se instala quando uma bactéria ataca as meninges, três membranas que envolvem e protegem o encéfalo, a medula espinhal e outras partes do sistema nervoso central. A transmissão é por via respiratória.

Desses 15 casos, quatro, incluindo as duas mortes, foram infecções meningocócicas "do grupo B", raras, mas muito graves.

Os dois mortos são uma aluna do último ano do ensino médio, de 18 anos, da Queen Elizabeth's Grammar School em Faversham, e um estudante de 21 anos da Universidade de Kent. Saiba mais sobre a doença a seguir.

Desde então, dados do Google Trends mostram que o interesse por meningite no Reino Unido atingiu, em março, o maior nível já registrado. Parte relevante das buscas está relacionada à vacina contra a doença.


O que é e quais são os sintomas?

Meningite é uma doença grave que atinge as meninges, a camada que protege todo o cérebro, afirma Rosana Richtmann, infectologista do Instituto de Infectologia Emílio Ribas. A inflamação pode gerar dor de cabeça, febre, vômitos e até convulsão.

"O que assusta muito na meningite meningocócica é a rápida evolução entre o início dos sintomas e o paciente estar em coma grave e morrer. Estamos falando de 24 ou 48 horas", afirma.

O período de incubação é curto. Após contato com a bactéria, com dois dias é possível já apresentar sinais no quadro clínico. A transmissão acontece através de gotículas respiratórias, ou seja, atos de tossir, falar e beijar podem transmitir a doença. Por isso, adultos jovens e adolescentes são mais propícios a carregarem a bactéria sem os sintomas, segundo a especialista. "Não é incomum a gente ver surtos em ambientes fechados, como no caso do Reino Unido", acrescenta.

Os sintomas dependem da idade, segundo Renato Kfouri, pediatra infectologista. Crianças maiores e adolescentes têm febre alta, dor de cabeça e vômito. No exame, o sintoma clássico é a rigidez na nuca.

Por que pode levar à morte?

meningite meningocócica desencadeia uma resposta inflamatória intensa no organismo. Quando a bactéria atinge o sistema nervoso central ou a corrente sanguínea, o corpo reage de forma exagerada, o que pode levar à falência de órgãos, afirma Alexandre Naime Barbosa, chefe do Departamento de Infectologia da Unesp.

"No caso da meningococcemia, ocorre uma espécie de tempestade inflamatória, com queda da pressão arterial, dificuldade de circulação e comprometimento de órgãos vitais como rins, pulmões e coração, também chamado de choque séptico", diz o especialista. No cérebro, o processo pode aumentar a pressão do crânio, prejudicando funções essenciais.

Como é o tratamento?

Segundo Naime, o tratamento é uma emergência e deve começar imediatamente, com antibióticos na veia. Os mais usados, diz ele, são as cefalosporinas de terceira geração, como a ceftriaxona, porque agem rápido e cobrem os casos suspeitos.

Mesmo assim, o risco de morte no Brasil gira em torno de 20%, diz Richtmann. "Do ponto de vista de pessoas que entraram em contato com a bactéria, o ideal, e o Reino Unido está fazendo isso, é logo tirar o estado de carreador de nasofaringe, ou seja, dar antibiótico para pessoas sem sintomas e que são candidatos a estarem carregando a bactéria, para tentar evitar que o surto se dissemine", explica.

No país britânico, a letalidade é em torno de 10%, acrescenta Kfouri. "Tem a ver com diagnóstico precoce e instituição de tratamento rápido".

O que é o subtipo do grupo B, que gerou duas mortes na Inglaterra?

meningococo é classificado em diferentes sorogrupos, que são variações da bactéria com características imunológicas distintas, afirma Naime. O grupo B é um desses sorogrupos e tem particular relevância porque é uma causa importante de meningite em vários países, inclusive o Brasil.

"O desafio histórico é que ele é mais difícil de prevenir com vacinas tradicionais, porque sua estrutura é semelhante a componentes do próprio organismo humano, o que dificulta o desenvolvimento de imunizantes", diz.

Apesar disso, já existem vacinas específicas contra o meningococo B, desenvolvidas com tecnologias mais modernas.

Existem vacinas?

Sim. Diversas bactérias podem causas a doença. No Brasil, a vacina meningocócica C faz parte do calendário infantil do SUS (Sistema Único de Saúde), segundo Naime, com impactos comprovados na redução de casos graves.

Além dela, existe a vacina ACWY, que protege contra os quatro sorogrupos e está no Programa Nacional de Imunizações.

Já a vacina contra o meningococo B, que cobre o tipo da bactéria que causou as duas mortes no Reino Unidos, não está disponível no SUS, conforme Kfouri. A indicação para esses imunizantes pode variar conforme idade, risco e disponibilidade.

Fonte _ Folha/SP

segunda-feira, 16 de março de 2026

Acre tem 8 vagas abertas para especialização em enfermagem neonatal pelo SUS

 


Ministério da Saúde inicia, nesta segunda-feira (16), a seleção de profissionais de enfermagem que atuam em unidades neonatais de referência no Sistema Único de Saúde (SUS), por meio da Especialização em Enfermagem Neonatal. Com investimento de R$ 2,6 milhões, serão ofertadas 310 vagas por meio de edital nacional. As inscrições estão abertas a partir de hoje e vão até o dia 6 de abril na plataforma SIGA-LS (veja abaixo). O estado do Acre conta com 8 vagas a serem preenchidas na capital, Rio Branco. 

As oportunidades são voltadas às regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, onde há maior déficit dessa especialização. A previsão de início do curso é no mês de junho. 

De acordo com o secretário de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde, Felipe Proenço, a iniciativa é mais uma ação para qualificar a força de trabalho e ampliar a cobertura de atendimentos para o público feminino. “Nosso objetivo é fortalecer e valorizar a enfermagem no âmbito do SUS, além de qualificar a oferta dos serviços. Ao atacar desigualdades históricas, fortalecemos a resolutividade nas redes regionais”, destaca.  

O curso será executado pelo Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz). A especialização em Enfermagem Neonatal para o SUS: Redução de desigualdades e Qualificação de Atenção Neonatal terá duração de 14 meses. Com a formação, que integra o programa Agora Tem Especialistas, será possível ampliar em mais de 30% o número atual de enfermeiros neonatais que atuam no SUS. 

Oportunidades nas capitais e no interior 

Do total de vagas, 206 são para capitais (66%) e 104 para municípios do interior (34%). Regionalmente, a oferta será de 56 para o Centro-Oeste, 182 para o Nordeste e 72 para o Norte, contemplando 64 hospitais em 36 municípios brasileiros.  Em Rio Branco, as vagas serão destinadas a duas unidades de saúde: a Maternidade e Clínicas de Mulheres Barbara Heliodora e o Hospital Santa Juliana. 

O edital também reserva 172 vagas para ações afirmativas. A oferta de mais profissionais especializados possibilita identificação precoce de riscos, manejo clínico oportuno e intervenção segura, reduzindo óbitos evitáveis. 

Reforço para a Saúde da Mulher 

O Ministério da Saúde tem investido na formação de mais especialistas para fortalecer a atenção obstétrica e neonatal no SUS. Em 2025, foram destinados R$ 17 milhões à realização da Especialização em Enfermagem Obstétrica - Rede Alyne. O curso conta com 760 profissionais de enfermagem, em parceria com 38 instituições vinculadas às Instituições de Ensino Superior (IES) e Escolas de Saúde Pública (ESP). O curso é executado pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com o apoio da Associação Brasileira de Obstetrizes e Enfermeiros Obstetras (Abenfo).

O curso teve como diferencial a priorização de profissionais que atuam em territórios interiorizados, fortalecendo o compromisso com a equidade e a ampliação do acesso à formação especializada. Dessa forma, a maior concentração de aprovados, por meio de edital, foi no Nordeste 264 (35%), em 368 municípios. Além de presença nos nove estados da Amazônia legal, com total de 194 vagas disponibilizadas. 

Acesse o edital

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Fonte _ Saúde.gov