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quinta-feira, 12 de março de 2026

Casos de mpox no Brasil chegam a 149; veja em quais estados

 


Desde o início de 2026 o Brasil registrou 149 casos de mpox, entre confirmados e prováveis, de acordo com o painel de monitoramento do Ministério da Saúde, atualizado na segunda-feira (9). Nenhum óbito foi contabilizado no país neste ano.


Com 93 confirmações, o estado de São Paulo lidera o ranking nacional, seguido por Rio de Janeiro (18), Rondônia (11), Minas Gerais (11), Rio Grande do Norte (3), Rio Grande do Sul (3) e Santa Catarina (3). Paraná tem 2 casos. Amazônia, Ceará, Distrito Federal, Pará e Sergipe registram 1 caso cada.

O Ministério da Saúde afirma que o cenário atual não indica situação de crise e que o SUS (Sistema Único de Saúde) está preparado para diagnóstico, tratamento e monitoramento dos casos, com investigação epidemiológica e rastreamento de contágios. A pasta diz ainda que mantém vigilância ativa e acompanhamento dos pacientes.

Entre os casos paulistas, dois foram identificados ainda em janeiro como pertencentes ao clado 1b, subvariante historicamente associada a quadros mais graves. Em fevereiro, a OMS (Organização Mundial da Saúde) detectou na Índia e no Reino Unido dois casos de uma nova cepa recombinante dos clados 1b e 2b.

Segundo a organização internacional, ambos os pacientes apresentaram sintomas semelhantes aos demais clados sem evolução grave, e a avaliação de risco permanece moderada para grupos com maior exposição —como homens que fazem sexo com homens, trabalhadores do sexo e pessoas com múltiplos parceiros— e baixa para a população geral.

O que é a mpox?

A mpox, anteriormente conhecida como "monkeypox" (varíola dos macacos, em português), é uma infecção causada pelo vírus Mpox, que pertence à família do gênero orthopoxvirus, o mesmo da varíola, explica infectologista Flávia Falci, do Grupo Santa Joana.

Os sintomas iniciais são febre, dor de cabeça, dor no corpo, cansaço e aumento dos linfonodos. Se evoluir para a chamada fase eruptiva, surgem também lesões na pele que podem ocorrer na face, região genital, perianal, palmas das mãos e dos pés e mucosa. Segundo a médica, casos graves podem evoluir com manifestações neurológicas e oculares.

O vírus que causa a mpox se divide em dois clados, que são agrupamentos de espécies semelhantes com ancestral evolutivo comum. Os clados 1 e 2 se dividem em dois subclados: 1a e 1b, 2a e 2b.

"Essa avaliação indica a circulação do vírus", diz o infectologista Dyemison Pinheiro, mestre em saúde coletiva e assistente no pronto-socorro do Instituto de Infectologia Emílio Ribas. "Classicamente, o 1a circula entre países da África Central e o 2b foi primeiro detectado na Nigéria, que seguiu causando infecção entre humanos." Os sintomas causados pelo clado 1b tendem a ser mais exacerbados em pessoas mais vulneráveis ao vírus, com déficit de imunidade, complementa.

Como a doença é transmitida?

A principal forma de transmissão da doença é entre seres humanos, afirma Juvencio Furtado, infectologista do Hospital Heliópolis. Segundo ele, é raro a transmissão vinda de um animal, sendo o mais comum ser do contato próximo entre pessoas, com lesões, fluidos corporais, gotículas respiratórias e objetos pessoais contaminados.

"O vírus penetra no ser humano através de lesões de pele, mesmo que essas lesões não sejam visíveis. Pode penetrar raramente pelo trato respiratório, membranas mucosas, como nos olhos, boca e nariz", diz Furtado. Outra via de transmissão em debate, afirma, é a vertical via placentária, a chamada mpox congênita.

A transmissão sexual também é possível, afirma o médico, tendo ocorrido de forma mais frequente entre homens que fazem sexo com outros homens. No entanto, o risco não é restrito a esse grupo e pode acontecer com qualquer pessoa que tenha contato com a lesão com mucosas ou lesões cutâneas.

A doença também pode ser transmitida mesmo antes de se apresentar qualquer tipo de sintoma ou por pacientes assintomáticos, explica Falci.

O que posso fazer para prevenir a contaminação?

Para Furtado, a medida protetiva mais importante é evitar o contato corporal pele a pele. Além disso, as pessoas que tiverem as manifestações clínicas da doença devem ficar afastadas durante o período de transmissibilidade, que corresponde ao período em que as lesões estão ativas, diz.

Outra forma de prevenção eficaz é a vacinação da população. O Ministério da Saúde afirma que realizou a aquisição emergencial da vacina para pessoas que vivem com HIV/Aids e que possuem CD4 entre 100 e 200 células, usuários de PrEP e profissionais de saúde que manipulem amostras do vírus.

No entanto, Pinheiro diz que as vacinas têm sido insuficientes. "Temos observado no dia a dia um aumento no número de casos suspeitos e confirmados, inclusive do clado 1b, pouco identificado em circulação no Brasil", afirma.

Falci indica também mudanças comportamentais em relação às parcerias sexuais e o uso de equipamento de proteção por profissionais de saúde em ambientes hospitalares, além da higiene rigorosa do ambiente em que o paciente foi atendido.

O Ministério da Saúde recomenda a adoção de medidas de higiene, como a lavagem frequente das mãos e, em caso de sintomas ou suspeita de contato próximo com casos suspeitos ou confirmados, que se procure uma unidade de saúde para avaliação clínica e isolamento até avaliação médica.

Fonte _ Folha/SP

quarta-feira, 11 de março de 2026

Imunidade inata e adaptativa: entenda como nosso corpo se defende de vírus, bactérias e outros microrganismos

 


O sistema imune é responsável por proteger o organismo contra infecções causadas por patógenos, como vírus, bactérias e fungos, e contra outras moléculas e células estranhas, como as cancerígenas. Repleto de ferramentas complexas, esse sistema é dividido em dois tipos: a imunidade inata e a imunidade adaptativa.

A imunidade inata é aquela que nasce com o indivíduo: trata-se de uma reação primária e não específica do nosso corpo, que acontece imediatamente após o contato com um invasor. Essa resposta envolve diferentes tipos de células, como monócitos, macrófagos, neutrófilos, NK (natural killers) e células dendríticas, que têm um objetivo comum: eliminar moléculas estranhas.

Essas células possuem uma gama de receptores em sua superfície, sendo capazes de reconhecer diversos padrões moleculares estranhos e associados a danos no organismo.

“As células do sistema imune inato têm uma ação imediata de controle, a partir da liberação de uma grande quantidade de citocinas pró-inflamatórias, moléculas que intensificam a resposta inflamatória e ajudam a matar o microrganismo”, explica a pesquisadora do Laboratório de Desenvolvimento de Vacinas do Instituto Butantan, Dunia Rodriguez Soto, que é doutora em Imunologia. 

Além disso, algumas dessas células têm capacidade de ingerir e destruir o patógeno, para depois apresentar seus fragmentos (os antígenos) a outras células de defesa – os famosos linfócitos T e B –, ajudando a desenvolver a chamada memória imunológica.

É nesse momento que entra em cena a imunidade adaptativa: ao serem expostos ao antígeno, os linfócitos aprendem a reconhecê-lo e ficam preparados para combatê-lo de forma rápida e eficaz caso ele apareça novamente. O linfócito T tem a função de destruir as células infectadas, enquanto o linfócito B produz os anticorpos, proteínas que se ligam ao antígeno circulante para destruí-lo.

A imunidade adaptativa é um recurso de defesa mais sofisticado e exclusivo dos vertebrados – peixes, anfíbios, répteis, aves e mamíferos, como os humanos.


E a imunidade adquirida pelas vacinas?

Todas essas etapas acontecem tanto quando temos uma infecção e ficamos doentes, como quando recebemos uma vacina. A diferença é que o imunizante não provoca uma infecção de fato, somente simula o invasor para induzir uma resposta por meio da apresentação de antígenos. Assim, o corpo aprende a reconhecer aquele microrganismo e, quando entra em contato com ele novamente, já tem as armas necessárias para se proteger.

A maioria das vacinas é aplicada no braço, na camada superficial da pele, justamente porque esse local concentra muitas células do sistema imune inato, capazes de reconhecer vários tipos de antígenos. As mucosas em geral, como a boca e o nariz, também possuem grande quantidade dessas células – afinal, essas regiões são a porta de entrada dos microrganismos e precisam de uma camada extra de proteção. Por isso, também existem imunizantes de aplicação oral, como a famosa gotinha contra poliomielite (paralisia infantil).

A administração de vacinas por via oral é mais desafiadora, pois o antígeno encontra muitas barreiras que podem destruí-lo antes que ele seja absorvido, como a acidez do estômago. No entanto, existem tecnologias, como nanopartículas, que ajudam a “encapsular” e proteger o antígeno da vacina para que ele conclua seu objetivo.

Recentemente, alguns imunizantes de aplicação intranasal também têm sido desenvolvidos, como uma vacina contra Covid-19 aprovada na Índia em 2023.

Mantenha sua carteira de vacinação em dia

Todos os anos, a vacinação previne de 3,5 milhões a 5 milhões de mortes no mundo todo por doenças como difteria, tétano, coqueluche, gripe e sarampo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Outras enfermidades graves, como a varíola, só foram erradicadas graças à imunização. 

As vacinas são as maiores aliadas do nosso sistema imune, e mantê-las atualizadas é a melhor forma de se proteger contra doenças graves. Fique atento ao calendário nacional de imunização do Ministério da Saúde e veja quais são os imunizantes indicados para cada faixa etária.

Fonte _ Butantan

terça-feira, 10 de março de 2026

InfoGripe: número de casos de SRAG volta a aumentar em quase todo o país

 


Uma nova edição do Boletim InfoGripe da Fiocruz, divulgada nesta sexta-feira (6/3), aponta aumento do número de casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) em todo o país. A análise destaca que este cenário vem sendo impulsionado principalmente pelo aumento do número de hospitalizações por rinovírus em crianças e adolescentes de 2 a 14 anos, pelo vírus sincicial respiratório (VSR) nas crianças menores de 2 anos e por influenza A na população de jovens, adultos e idosos. A análise é referente à Semana Epidemiológica 8, período de 22 a 28 de fevereiro.

Com exceção de Roraima, Tocantins, Espírito Santo e Rio Grande do Sul, todas as unidades da Federação (UF) sinalizam crescimento no número de casos de SRAG na tendência de longo prazo (últimas seis semanas) até a Semana 8. Entre elas, dez estão com nível de atividade de SRAG em alerta, risco ou alto risco (últimas duas semanas) até a Semana 8: Acre, Amazonas, Pará, Amapá, Rondônia, Mato Grosso, Goiás, Distrito Federal, Maranhão e Sergipe.

Na maioria desses estados, exceto Acre, Pará, Amapá e Maranhão, verifica-se aumento de SRAG nas crianças e adolescentes, causado principalmente pelo rinovírus. Em alguns estados do Norte (Acre, Amazonas e Pará), Centro-Oeste (Mato Grosso e Goiás), e em Sergipe, também há início ou manutenção do aumento dos casos de SRAG nas crianças de até 2 anos, associado ao VSR. A influenza A também tem incrementado o aumento de casos de SRAG no Pará, Amapá, Mato Grosso e Maranhão, em geral na população de jovens, adultos e idosos.

“O aumento de casos de SRAG em crianças e adolescentes muito provavelmente está relacionado ao retorno às aulas. Portanto, recomendamos que, caso a criança ou adolescente apresente algum sintoma de gripe ou resfriado, que os pais evitem levá-la à escola, para evitar a transmissão do vírus para outras crianças. Se não for possível deixar a criança ou adolescente em casa, o ideal é que ela use uma boa máscara, especialmente dentro da sala de aula”, reforça a pesquisadora Tatiana Portella, do Boletim InfoGripe, desenvolvido pelo Programa de Computação Científica da Fiocruz.


Capitais

InfoGripe sinaliza que 12 das 27 capitais apresentam nível de atividade de SRAG em alerta, risco ou alto risco (últimas duas semanas) com sinal de crescimento na tendência de longo prazo (últimas 6 semanas) até a Semana 8. São elas Aracaju (SE), Belém (PA), Belo Horizonte (MG), Brasília (DF), Cuiabá (MT), Fortaleza (CE), João Pessoa (PB), Macapá (AP), Manaus (AM), Porto Velho (RO), Rio Branco (AC) e São Luís (MA).

Dados epidemiológicos

O quadro nacional é de aumento de ocorrência de SRAG nas tendências de longo prazo (últimas seis semanas) e de curto prazo (últimas três semanas). Em 2026 já foram notificados 14.370 casos de SRAG, sendo 5.029 (35%) com resultado laboratorial positivo para algum vírus respiratório, 6.193 (43,1%) negativos e ao menos 2.073 (14,4%) aguardando resultado laboratorial.

Quanto aos casos positivos do ano deste ano, observou-se 20% de influenza A, 1,7% de influenza B, 13,6% de vírus sincicial respiratório, 40% de rinovírus, e 17% de Sars-CoV-2. Nas quatro últimas semanas epidemiológicas, a prevalência entre os casos positivos foi de 20,8% de influenza A, 1,6% de influenza B, 15,4% de vírus sincicial respiratório, 45,4% de rinovírus, e 14,3% de Sars-CoV-2.

Incidência e mortalidade

A incidência e a mortalidade semanais médias, nas últimas oito semanas epidemiológicas, mantêm o padrão característico de maior impacto nos extremos das faixas etárias analisadas. A incidência de SRAG é mais elevada entre as crianças pequenas, enquanto a mortalidade se concentra principalmente nos idosos.

Prevalência

O Boletim chama atenção também que nas quatro últimas semanas epidemiológicas, a prevalência entre os casos positivos de SRAG foi maior pelo rinovírus (45,4%). A seguir estão as ocorrências por influenza A (20,8%), vírus sincicial respiratório (15,4%) e Sars-CoV-2 (Covid-19) (14,3%).

Óbitos

Entre os óbitos, o estudo mostra que as maiores ocorrências são por Covid-19, seguida pela influenza A. A presença destes mesmos vírus entre os positivos e no mesmo recorte temporal foi de 39,1% de Sars-CoV-2 (Covid-19), 27,5% de influenza A, 17,4% de rinovírus, 8,7% de vírus sincicial respiratório e 3,6% de influenza B.

Boletim InfoGripe é uma estratégia do Sistema Único de Saúde (SUS) voltada ao monitoramento de casos de SRAG no país. A iniciativa oferece suporte às vigilâncias em saúde na identificação de locais prioritários para ações, preparações e resposta a eventos em saúde pública.

Fonte _ FioCruz

quinta-feira, 5 de março de 2026

Vacina da dengue do Butantan mantém 80,5% de eficácia contra casos graves e com sinais de alerta após cinco anos

 


Os resultados do ensaio clínico de fase 3 da vacina tetravalente Butantan-DV, produzida pelo Instituto Butantan, revelaram uma eficácia de 80,5% contra casos de dengue grave e dengue com sinais de alarme (desfecho combinado) ao longo de cinco anos. O estudo, publicado na prestigiada revista científica Nature Medicine, acompanhou quase 17 mil pessoas no Brasil e confirmou que a proteção se mantém sólida em longo prazo. 

O ensaio clínico foi conduzido em 16 centros de pesquisa distribuídos pelas cinco regiões do Brasil. Entre fevereiro de 2016 e julho de 2019, foram recrutados 16.235 participantes com idades entre dois e 59 anos. Do total, 10.259 receberam a dose única da vacina e 5.976 receberam placebo.

Além da alta proteção contra quadros severos, o estudo demonstrou que a Butantan-DV protegeu contra hospitalizações por dengue, já que não houve nenhum registro de internação no grupo vacinado, contra oito casos no grupo placebo. 

No que diz respeito à eficácia geral para prevenir a dengue sintomática (causada por qualquer sorotipo), o imunizante atingiu a marca de 65% durante os cinco anos de monitoramento.

“Os dados publicados recentemente na Nature confirmam a eficácia da Butantan-DV contra casos de dengue sintomática e, principalmente, contra casos de dengue grave e com sinais de alarme. Esta vacina se consolida como uma ferramenta de grande importância no combate à dengue no Brasil, com potencial para contribuir para diminuição da circulação do vírus, para além da proteção individual”, afirma a diretora médica de Ensaios Clínicos do Butantan, Fernanda Boulos.

A vacina Butantan-DV foi aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em 26/11/2025, para ser utilizada pela população brasileira de 12 a 59 anos. Desde então, o Instituto Butantan já enviou 1,3 milhão de doses para o Programa Nacional de Imunizações (PNI), que as distribui ao Sistema Único de Saúde (SUS).

O Ministério da Saúde começou a vacinação em janeiro deste ano em Nova Lima (MG), Maranguape (CE) e Botucatu (SP), por meio de um projeto piloto que visa imunizar 90% do público-alvo destas cidades. Em 9 de fevereiro, deu início à vacinação de profissionais de saúde da Atenção Básica em evento realizado no Instituto Butantan.

Perfil de segurança

vacina demonstrou um perfil de segurança sólido em todas as idades. Não foram observadas preocupações de segurança a longo prazo mesmo no grupo mais jovem (2 a 6 anos), o que diferencia a Butantan-DV de outras tecnologias.

Após a aplicação da vacina, a maioria dos eventos adversos registrados entre os participantes foram de intensidade leve a moderada, como dor de cabeça (36,7%), fadiga (19,4%), erupção na pele (22,7%), dor muscular (17,7%) e prurido (19,3%).

Um ponto fundamental destacado no estudo é a segurança da Butantan-DV para quem nunca contraiu dengue. Ao contrário de outras vacinas licenciadas, que apresentaram um aumento no risco de hospitalização ou dengue grave em crianças que nunca tinham tido contato com o vírus, a Butantan-DV não apresentou preocupações de segurança nem desequilíbrio de casos graves entre os participantes soronegativos durante os cinco anos de monitoramento.

Não houve registro de nenhum caso de dengue grave entre os participantes que receberam a vacina Butantan-DV durante os cinco anos de acompanhamento, e apenas seis casos de dengue com sinais de alarme. Esta proteção total contra a forma mais severa da doença reflete a alta eficácia do imunizante para evitar complicações críticas.

Eficácia por sorotipo e histórico de exposição

A vacina Butantan-DV demonstrou ser eficaz independentemente de a pessoa já ter tido dengue ou não antes da vacinação. Para quem já havia sido exposto ao vírus (soropositivo), a eficácia contra qualquer sorotipo foi de 77,1%, enquanto para aqueles sem exposição prévia (soronegativo), o índice foi de 58,9%. Essa diferença se deve à forma como o sistema imunológico reage ao imunizante após uma exposição prévia ao vírus.

Em relação aos sorotipos específicos, para DENV-1 a eficácia foi de 79,4% para quem já teve dengue e 71,4% para quem nunca tevepara o DENV-2, a eficácia de 75,2% para os soropositivos e 36,7% para os soronegativos. 

Apesar de a estimativa pontual para o DENV-2 em indivíduos sem exposição prévia ser numericamente inferior, os pesquisadores destacam que ela permaneceu positiva em todos os grupos. Além disso, a vacina atingiu os objetivos primários (dado geral) e secundários (doença grave) de eficácia, independentemente do histórico de cada voluntário com a dengue.

Como durante o período da pesquisa, os sorotipos DENV-3 e DENV-4 não circularam de forma significativa no Brasil, não foi possível medir estatisticamente a eficácia contra eles. No entanto, o estudo ressalta que a vacina contém componentes quase completos desses sorotipos e induz anticorpos neutralizantes específicos, o que deve garantir proteção contra as quatro cepas do vírus. 


Eficácia de diferentes faixas etárias 

A eficácia da Butantan-DV variou entre as faixas etárias, apresentando uma tendência de maior proteção conforme aumentava a idade dos participantes. Ainda assim, as estimativas permaneceram positivas em todas as idades após cinco anos de acompanhamento.

A eficácia contra a dengue sintomática (causada por qualquer sorotipo) em adultos de 18 a 59 anos foi de 74,8%; em adolescentes de 7 a 17 anos, de 69,5%; e em crianças de dois a 6 anos, de 60,6%.

Essa variação está relacionada ao perfil imunológico de cada grupo. O estudo mostra que a proporção de pessoas que nunca tiveram dengue (soronegativas) diminui drasticamente com o passar da idade. Isto é, enquanto 80,7% das crianças de 2 a 6 anos eram soronegativas no início do estudo, esse número caía para 36% entre adolescentes e para apenas 26,8% entre os adultos. 

Como a eficácia da vacina tende a ser maior em indivíduos que já tiveram exposição prévia ao vírus, os grupos mais velhos acabam apresentando índices de proteção mais elevados.

Eficácia a longo prazo

Ao final dos cinco anos de acompanhamento, a eficácia geral da vacina contra a dengue sintomática (causada por qualquer sorotipo) consolidou-se em 65,0%. Isso indica que a proteção se manteve sólida e dentro da margem esperada, não representando queda drástica na imunidade.

A vacina atingiu todos os objetivos primários e secundários de eficácia estabelecidos no protocolo, confirmando sua capacidade de proteção em longo prazo.

“Os dados de seguimento de longo prazo confirmam que a eficácia gerada pela vacinação em dose única foi duradoura e que o perfil de segurança da vacina é positivo em todos os grupos avaliados. Esta avaliação solidifica a robustez nos dados de segurança, confirmando que a Butantan-DV pode ser utilizada em pessoas sem exposição prévia à dengue”, ressalta Fernanda Boulos.


Sobre a Butantan-DV

A vacina da dengue do Instituto Butantan protege contra os diferentes tipos de vírus da dengue por meio de sua composição tetravalente, o que significa que ela contém componentes específicos para combater os quatro sorotipos conhecidos: DENV-1, DENV-2, DENV-3 e DENV-4.

O imunizante utiliza vírus vivos, mas "enfraquecidos" (atenuados) em laboratório, para que não causem a doença enquanto são capazes de estimular uma resposta imune. As cepas utilizadas são baseadas em uma tecnologia originalmente desenvolvida pelos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos (NIH, na sigla em inglês).

Para os sorotipos DENV-1, DENV-3 e DENV-4, a vacina utiliza genomas quase completos dos respectivos vírus. Já para o DENV-2, a proteção é construída utilizando-se de vírus quimérico, que consiste nas proteínas de superfície do DENV-2 montadas sobre a estrutura ("esqueleto") atenuada do vírus DENV-4.

Uma vez aplicada, a vacina gera uma viremia vacinal, que é a replicação controlada desses vírus atenuados no corpo. Isso induz o sistema imunológico a produzir anticorpos neutralizantes específicos para cada um dos quatro sorotipos. O objetivo é criar uma imunidade específica para cada um deles, para que o organismo reconheça e neutralize as variantes de forma individualizada.

A vantagem da dose única 

Um dos grandes diferenciais da vacina Butantan-DV é o seu esquema de dose única, o que facilita a logística de vacinação, melhora a adesão da população e promove uma cobertura vacinal mais rápida. 

A razão pela qual apenas uma dose é necessária reside na alta capacidade de replicação inicial do vírus vacinal, que induz uma resposta imune suficiente para prevenir a replicação de doses subsequentes. 

Estudos demonstraram que uma segunda dose não produzia nova viremia vacinal nem reforçava a resposta de anticorpos, o que indica que a primeira dose já atinge o patamar de proteção necessário. Esta é uma característica comum em outras vacinas de vírus vivos atenuados que apresentam sucesso em dose única.

Diferentemente de vacinas que exigem duas ou três doses, a tecnologia do Butantan permite que a proteção contra a dengue sintomática e casos graves seja estabelecida com apenas uma aplicação, independentemente de a pessoa já ter tido a doença anteriormente. 

O ensaio clínico de fase 3 da Butantan-DV contou com financiamento do Ministério da Saúde, do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e da Fundação Butantan.

Fonte _ Butantan

quarta-feira, 4 de março de 2026

O que é gripe K e por que devemos tomar a vacina Influenza todo ano; especialista do Butantan explica

 


O aumento global no número de casos de influenza sazonal (que predomina nos meses de inverno) tem chamado a atenção de autoridades sanitárias nos últimos meses. Identificada como gripe K, a variante por trás desse crescimento é um subclado do vírus influenza A (H3N2) – portanto, não se trata de uma nova doença, mas de uma variação genética de um patógeno já conhecido. Desde meados de 2025, ela vem circulando em países da Europa, Ásia e América do Norte, e foi identificada no Brasil no final do ano passado.

Por ter apresentado um aumento repentino a partir de agosto de 2025, a variante da gripe K não faz parte da composição das vacinas de gripe que serão oferecidas à população no inverno de 2026. 

Isso se deve à data na qual os imunizantes começam a ser produzidos. Todos os anos, a vacina da gripe é atualizada com as cepas do vírus influenza mais circulantes no período anterior, conforme o acompanhamento da Organização Mundial da Saúde (OMS). Em 2025, a instituição divulgou a composição das vacinas trivalentes e tetravalentes em meados de setembro – quando a gripe K ainda não tinha se consolidado como um ponto de atenção.

Ainda assim, as vacinas de influenza que estão sendo aplicadas atualmente, tanto na rede pública quanto na rede privada, contribuem, sim, para proteger contra a variante K. Em dezembro, a OMS emitiu um alerta sobre a gripe K afirmando que mesmo os imunizantes que não puderam ser atualizados com a nova variante continuam fornecendo proteção contra formas graves da doença e hospitalização.

Vale lembrar que a versão de 2026 da vacina da gripe do Instituto Butantan, que é fornecida gratuitamente à população por meio do Programa Nacional de Imunizações, inclui uma cepa de influenza A (H3N2), de onde veio a variante K, além de uma cepa de influenza A (H1N1) e de influenza B (linhagem Victoria).

Segundo o pesquisador científico e gerente de Desenvolvimento e Inovação de Produtos do Butantan, Paulo Lee Ho, tomar a vacina da gripe todos os anos é fundamental para manter a imunidade e prevenir casos graves, especialmente em crianças pequenas e idosos, que são os grupos mais suscetíveis a complicações.

“É extremamente importante que as pessoas tomem a vacina Influenza atualizada durante a campanha de vacinação, que ocorre antes do período de maior circulação do vírus. As evidências mostram que pessoas vacinadas que se infectaram com a cepa K ficaram protegidas contra os sintomas graves da doença”, afirma.

O especialista explica, ainda, que é comum haver aumento de infecções diante da circulação de uma nova cepa, e que uma alta cobertura vacinal é a melhor forma de reduzir transmissões e evitar que a variante se espalhe pelo país.

Como surgiu a gripe K

A variante K (também chamada de J.2.4.1) é originada do subclado J.2 do H3N2. Ela possui sete mutações em seu material genético e, por esse motivo, tornou-se capaz de “escapar” da resposta imune, ocasionando um maior número de infecções. 

As mutações dos vírus influenza podem acontecer de duas maneiras: quando duas cepas infectam o mesmo hospedeiro e o material genético dos dois vírus “se mistura”, ou de forma espontânea, por meio da evolução natural do patógeno – este último é o caso da variante K. “A cepa K foi selecionada naturalmente; ela foi ‘escapando’ do sistema imune com a aquisição de cada uma dessas mutações”, diz Paulo Lee Ho.

A OMS destaca que, embora o subclado K represente “uma evolução notável” do vírus H3N2, os dados epidemiológicos não indicam que ele provoque um aumento na gravidade da doença.

Há risco de pandemia?

O cientista do Butantan esclarece que as cepas com potencial pandêmico costumam ser geradas por meio de rearranjos do material genético entre diferentes patógenos durante uma coinfecção – o que não é o caso do subclado K, que evoluiu naturalmente.

“A literatura mostra que, para chegar a uma cepa pandêmica, com elevado potencial de transmissão, é necessário haver mudanças genéticas muito mais profundas”, diz Paulo.

A pandemia de H1N1 que ocorreu em 2009, por exemplo, foi fruto de múltiplos eventos de rearranjo genético, que reuniram segmentos genômicos do vírus da influenza suína H1N1 clássico, do vírus da influenza sazonal humana H3N2, do vírus da influenza aviária norte-americana e de um vírus da influenza suína de origem aviária eurasiática, segundo artigo publicado na Nature.


Por que os vírus influenza sofrem tantas mutações?

A frequência de modificações nos vírus da gripe é resultado da própria biologia do patógeno. Os influenza são vírus de RNA capazes de duplicar o seu material genético, mas não de corrigi-lo. 

“Isso significa que, quando o vírus se replica, se um nucleotídeo é posicionado da forma errada, diferente da fita de RNA original, ele não é corrigido, gerando assim uma mutação no material genético”, resume Paulo Lee Ho.

Vacina da gripe agora está disponível o ano todo

Em abril de 2025, a vacina Influenza foi inserida no Calendário Nacional de Vacinação de rotina para crianças de 6 meses a menores de 6 anos, gestantes e pessoas com 60 anos ou mais. Assim, o imunizante está disponível ao longo de todo o ano para esses públicos nos postos de saúde, não apenas durante a campanha sazonal.

Os demais grupos prioritários, como profissionais da saúde, professores, integrantes das forças de segurança, população privada de liberdade e pessoas com doenças crônicas ou deficiências, continuarão recebendo a vacina anualmente durante as campanhas sazonais e em estratégias especiais. 

A Campanha Nacional de Vacinação contra a Gripe de 2026 deve ocorrer entre os meses de Outubro e Dezembro na Região Norte.

Fonte _ Butantan

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Roda Viva ao vivo

 


Recebe a cientista e pesquisadora Tatiana Sampaio. Líder da pesquisa sobre a polilaminina, a cientista Tatiana Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), detalha a descoberta da molécula que se tornou esperança para reverter paralisias por lesão na medula.

A descoberta da bióloga é resultado de 30 anos de pesquisa sobre a polilaminina, versão recriada em laboratório da laminina, proteína produzida naturalmente pelo corpo e que ajuda os neurônios a se conectarem.





Vacinação contra chikungunya é ampliada para municípios de Minas Gerais, Ceará e Sergipe

 


Segundo dados do Ministério da Saúde, entre 2024 e 2025 Sabará contabilizou 590 casos de chikungunya; Congonhas registrou 73 casos; Maracanaú teve 18 casos; e Simão Dias, 30 casos

 

Nesta segunda (23/2), os municípios de Sabará (MG), Congonhas (MG), Maracanaú (CE) e Simão Dias (SE) começam a vacinar sua população contra a chikungunya. A iniciativa faz parte de uma estratégia piloto realizada com o apoio do Ministério da Saúde e que utiliza o imunizante produzido pelo Instituto Butantan em parceria com a farmacêutica franco-austríaca Valneva. A campanha é gratuita e a vacinação é realizada nos postos de saúde municipais.

Poderão se vacinar pessoas de 18 a 59 anos que sejam moradoras das cidades participantes da estratégia e que atendam aos seguintes critérios: não ser gestante e/ou lactante; não possuir imunodeficiências ou imunossupressão; não estar fazendo quimioterapia ou radioterapia, nem ter feito transplante; não possuir comorbidades mal controladas, ou mais de uma comorbidade, entre outros.

As principais reações adversas que podem ocorrer após a aplicação da vacina são dor de cabeça, enjoo, cansaço, dor muscular, dor nas articulações, febre e reações no local da injeção (sensibilidade, dor, vermelhidão, endurecimento, inchaço).

Durante e após a estratégia, o Instituto Butantan vai monitorar os casos positivos e negativos de chikungunya que ocorrerem nos municípios participantes, a fim de avaliar a efetividade do imunizante no mundo real. Também serão realizados estudos com o objetivo de monitorar a segurança da vacina a longo prazo.

Segundo dados do Painel de Monitoramento de Arboviroses do Ministério da Saúde, entre 2024 e 2025 Sabará contabilizou 590 casos de chikungunya; Congonhas registrou 73 casos; Maracanaú teve 18 casos; e Simão Dias, 30 casos.

Essa é a segunda etapa da estratégia vacinal, que foi iniciada em Mirassol (SP), em 2/2. Além dos cinco municípios já divulgados, o piloto incluirá outras cinco cidades de Sergipe, Ceará e Minas Gerais. Os territórios envolvidos foram selecionados a partir de um estudo epidemiológico, que utilizou um modelo matemático para predizer as regiões com maior risco de apresentar surtos de chikungunya entre 2025 e 2027.

Sobre a chikungunya e a vacina do Butantan

A chikungunya é uma doença viral transmitida pela picada do mosquito Aedes aegypti, o mesmo vetor da dengue e da Zika. Ela pode ser assintomática, ou causar reações como febre alta (39-40°C), dor intensa e inchaço nas articulações, dor de cabeça e manchas vermelhas pelo corpo. A dor crônica nas articulações é sua principal sequela, e pode perdurar por meses ou anos. Em pessoas que possuem outras comorbidades, como hipertensão, diabetes, doenças do coração ou do rim, a chikungunya pode gerar quadros clínicos mais graves, descompensando as enfermidades pré-existentes e podendo levar a óbito.

A vacina do Butantan é a primeira do mundo a ser disponibilizada para prevenir a doença. Aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em abril de 2025, ela teve sua segurança e capacidade de gerar anticorpos comprovadas em estudos clínicos feitos nos Estados Unidos e publicados na revista científica The Lancet. Dos 4 mil voluntários adultos que participaram da pesquisa, 98,9% produziram anticorpos neutralizantes. Além do Brasil, o produto já foi aprovado para uso no Canadá, Reino Unido e Europa.

Fonte _ Butantan

sábado, 21 de fevereiro de 2026

Pacientes do SUS de Tarauacá, no Acre, agora contam com carreta de saúde do programa Agora Tem Especialistas

 


A carreta de saúde do programa do governo federal Agora Tem Especialistas chega, nesta sexta-feira (20), ao município de Tarauacá, no Acre. Essa unidade móvel oferta para os pacientes do SUS atendimentos para prevenção de câncer de mama e do colo do útero, essenciais para garantir o tratamento de doenças graves no tempo certo. Antes, a unidade móvel prestou atendimento para a população de Brasiléia.

Além do município acreano, outras seis cidades brasileiras recebem as carretas de saúde nesta sexta: São João de Meriti e Campo Grande (RJ), Mossoró (RN), Caxias do Sul (RS), São José (SC) e Bom Jesus (PI). Ao todo, 47 unidades móveis de saúde especializada do governo federal estão em todo o país e no DF, posicionadas em regiões de difícil acesso, alta demanda por assistência especializada ou cidades-polo, referência para atendimento de outros municípios da região. Desde outubro de 2025, quando começaram a ampliar a oferta de atendimento, as unidades móveis já reduziram o tempo de espera em mais de 100 regiões de saúde.

“O principal objetivo do programa Agora Tem Especialistas é fortalecer serviços que já existem no território, porém em quantidade reduzida; e ainda, ofertar atendimentos que não existem. Esse aumento da oferta, possibilitado pela carreta, impacta diretamente na redução do tempo de espera para consultas e exames especializados, voltados à saúde da mulher. Tudo isso trazendo esse serviço pertinho da usuária do SUS”, explica o superintendente do Ministério da Saúde no Acre, Pedro Oliveira.

As pacientes da rede pública de Tarauacá, previamente agendadas e encaminhadas pela secretaria de saúde local, podem fazer consultas especializadas, mamografias, ultrassonografias pélvicas e transvaginal e até biópsias para diagnosticar precocemente câncer de mama e de colo de útero.  Uma equipe multiprofissional, composta por médico, técnico de enfermagem e enfermeiro, já está pronta para receber a população. 

Carretas desafogam atendimento local e zeram filas em 15 municípios

Até o final deste ano, um total de 150 unidades móveis estará em funcionamento no país. Das 47 atualmente disponíveis, 33 são de saúde da mulher, nove de exames de imagem e cinco especializadas em oftalmologia. Todas estão estruturadas com equipamentos, insumos e equipes multiprofissionais e atuam para desafogar a demanda reprimida. Quinze municípios, inclusive, já zeraram a fila por atendimento.  

É o que aconteceu em Ceilândia (DF), Garanhuns (PE), Urucânia (RJ), Brasiléia (AC), Tauá (CE), Cariacica (ES), Taiobeiras (MG), Princesa Isabel (PB), Parnamirim (RN) e em Canoinhas (SC), em que todos que precisavam fazer diagnóstico de câncer de mama e exames ginecológicos receberam o atendimento. O mesmo aconteceu em Ribeirão Preto (SP) e Ariquemes (RO) para aqueles que esperavam por cirurgia de catarata. 

 Com mais de 1,2 mil procedimentos cirúrgicos realizados em todas as carretas oftalmológicas do programa, 1 mil pessoas voltaram a enxergar. Essas unidades móveis ofertam, também, outros procedimentos como mapeamento de retina e ultrassom ocular. 

 Já em Santana do Ipanema (AL), todos os pacientes do município e de outros 13 da região que precisavam de tomografia se submeteram ao procedimento, garantindo maior agilidade para descobrir condições graves de saúde ou descartar hipóteses, contribuindo para levar o paciente para o diagnóstico correto. O mesmo ocorreu em Crato (CE) e Paracambi (RJ), que também receberam carretas especializadas em exames de imagem.

Mais acesso e cuidado especializado 

Para desafogar a demanda por atendimento especializado nos estados e municípios, o Agora Tem Especialistas tem em andamento várias ações, com a mobilização da estrutura de saúde da rede pública e privada. Para aumentar a oferta de atendimento do SUS e reduzir o tempo de espera, oferece, além das carretas, mutirões, ampliação do horário de atendimento em policlínicas, provimento de mais médicos especialistas, atendimento aos pacientes da rede pública em hospitais privados, entre outros.

Fonte _ Saúde.gov

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Conheça Tatiana Sampaio, brasileira que pode ganhar Nobel

 


Bióloga da UFRJ, Tatiana de Coekho Sampaio lidera pesquisa mundialmente promissora na regeneração da medula espinhal

A cientista brasileira Tatiana Coelho de Sampaio é uma bióloga, professora e pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) cujo trabalho inovador em biologia regenerativa e celular tem despertado atenção no Brasil e no mundo por seu potencial de transformar o tratamento de lesões da medula espinhal — e, segundo veículos nacionais, poderá até mesmo colocar um nome brasileiro na corrida por um Prêmio Nobel de Medicina.

Com formação acadêmica sólida em biologia e décadas de pesquisa dedicadas ao estudo da matriz extracelular — a rede de proteínas e moléculas que fornece suporte estrutural às células — Tatiana se especializou no papel das lamininas, proteínas fundamentais para a organização dos tecidos e a comunicação celular. Desde os anos 2000, ela coordena o Laboratório de Biologia da Matriz Extracelular no Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ, onde orienta estudantes de diversas etapas da formação científica e lidera colaborações nacionais e internacionais.

Estudo revolucionário

O foco mais divulgado de sua pesquisa é o desenvolvimento da polilaminina, uma forma polimerizada da proteína laminina que age como um verdadeiro “andaime biológico” ao ser aplicada diretamente em áreas lesionadas da medula espinhal. Essa substância cria um ambiente favorável para que os axônios — fibras nervosas responsáveis pela transmissão de impulsos entre o cérebro e o corpo — possam reconectar-se após danos severos, um processo que até agora a medicina considerava praticamente impossível em casos de paraplegia e tetraplegia profunda.

Segundo relatos divulgados pela imprensa brasileira, 16 pacientes receberam autorização judicial para uso experimental da polilaminina, e pelo menos cinco deles apresentaram recuperação parcial de movimentos, um resultado considerado por especialistas um avanço enorme diante de décadas de pesquisa.

O trabalho de Tatiana ainda está em fases iniciais de ensaios clínicos, com autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para estudos exploratórios de segurança e eficácia em humanos, passo fundamental para validar a tecnologia antes de permitir seu uso terapêutico em larga escala.

A repercussão desse avanço é grande: nas redes sociais e na mídia especializada, Tatiana tem sido apontada como uma das cientistas brasileiras com chances de ser reconhecida com um Prêmio Nobel, caso sua pesquisa se consolide e prove impacto clínico significativo para milhões de pacientes com lesões medulares no mundo — um feito que colocaria o Brasil em evidência na fronteira da medicina regenerativa.

Para além da polilaminina, a carreira de Tatiana Coelho de Sampaio é marcada por artigos científicos revisados por pares, participação em eventos acadêmicos e contribuições à compreensão dos mecanismos que regem a regeneração neural e a organização tecidual.

Fonte _ Aventuras na História

IBu 125 anos | O veneno que vira antídoto: conheça a jornada evolutiva da produção de soros no Instituto Butantan – e no Brasil

 


Uma trajetória que se inicia com o manejo empírico de serpentes em uma fazenda, até alcançar escala industrial de ponta para a fabricação de mais de 600 mil frascos a cada ano

No Especial 125 anos do Instituto Butantan, viaje pela História e pelas histórias que fazem dessa instituição centenária uma referência global em pesquisa, produção e educação científica.

Em 23 de fevereiro de 1901, por meio da assinatura do Decreto nº 878-A pelo então presidente do estado de São Paulo Francisco de Paula Rodrigues Alves (1848-1919), foi  oficializada a criação do Instituto Serumtherapico – atual Instituto Butantan. Sob a liderança do médico sanitarista Vital Brazil (1865-1950), primeiro diretor da instituição, um quadro enxuto de funcionários (um ajudante, um administrador, um escriturário, dois auxiliares, um cocheiro e alguns poucos “camaradas”) dedicava-se a uma nobre missão: garantir a produção do soro antipestoso, utilizado para o tratamento da peste bubônica que havia chegado ao país poucos anos antes. O primeiro lote do medicamento foi entregue pouco depois da criação do Instituto, em 11 de junho de 1901.

Naquele mesmo ano, também foram fabricados os primeiros frascos do produto que se mantém até hoje como um dos carros-chefe do Butantan: os soros antiofídicos. Na época, os acidentes com serpentes eram frequentes, principalmente nas zonas rurais – registros do período apontam quase 2.000 óbitos apenas no estado de São Paulo, entre 1902 e 1915. Empenhado em reduzir tais números, Vital Brazil demonstrou que a eficácia do tratamento dos quadros de envenenamento dependia da especificidade antigênica – ou seja, o soro aplicado deveria ser específico contra o veneno do gênero responsável pela picada.

Mais de um século depois, a lógica que sustenta a chamada soroterapia permanece essencialmente a mesma: a utilização de anticorpos produzidos a partir da imunização de cavalos para neutralizar toxinas específicas. O que mudou foi todo o resto. Se no início os soros do Butantan eram preparados em condições quase artesanais, entre baias e cocheiras, hoje o Instituto é reconhecido como um dos principais produtores de imunobiológicos do mundo. Uma saga construída pouco a pouco, década após década, marcada por ajustes técnicos, crises sanitárias, avanços científicos e decisões institucionais que consolidaram a produção de soros no Brasil.

Sangria de equino para retirada de plasma realizada no final da década de 1930 (Centro de Memória/Instituto Butantan)


Os antivenenos na era de Vital Brazil

Nas primeiras décadas do século XX, o processo de fabricação de soros no Butantan era predominantemente artesanal, realizado em instalações rudimentares e com a ajuda de equipamentos bastante simplórios. A extração de veneno das serpentes era a primeira etapa do processo e, por incrível que pareça, a ação acontecia a céu aberto.

A tarefa ficava a cargo de técnicos pouco paramentados – que, no máximo, calçavam botas pouco mais robustas. Enquanto um devia conter o animal, o outro massageava as glândulas de veneno. “Era comum que os funcionários fossem picados. Por conta disso, muitos apresentavam sequelas físicas, como dedos tortos”, lembra o pesquisador científico e diretor do Laboratório de Herpetologia do Instituto Butantan, Sávio Stefanini Sant’Anna.

Após a coleta, o veneno seguia para outro ambiente, onde passava por um processo de secagem até se transformar em algo parecido com pequenos cristais. Na etapa de imunização dos cavalos, esses cristais eram diluídos e injetados em doses crescentes com o objetivo de estimular a produção de anticorpos.

Coleta de plasma hiperimune de cavalo em becker (Centro de Memória/Instituto Butantan)

Concluída essa fase, os equinos eram encaminhados para a sangria, que acontecia em baias abertas, exatamente onde hoje se localiza o auditório do famoso Museu Biológico. Cerca de seis litros de sangue eram retirados pela veia jugular do animal e coletados em frascos de vidro apenas cobertos por panos, constantemente manuseados por técnicos sem a devida paramentação.

De volta ao laboratório, o sangue era deixado em repouso por 48 horas para separar as hemácias (parte sólida) do plasma (parte líquida). Depois, o plasma passava por um filtro de vela, capaz apenas de reter partículas maiores de impureza. Por fim, funcionárias enchiam ampolas de vidro com o soro, e realizavam o fechamento dos frascos com o auxílio de uma chama. A fim de atestar a eficácia, pombos recebiam doses de veneno e, posteriormente, do soro fabricado.

Um registro audiovisual raro de 1926, recuperado pela Cinemateca Brasileira, ajuda a compreender, em detalhes, como funcionava esse processo. Confira:


Defesa contra o ofidismo: um pacto com os brasileiros

Já naquela época, os soros antiofídicos do Butantan mostraram-se decisivos para a saúde pública. “Não podemos deixar de valorizar todos esses processos estabelecidos pelo Vital Brazil no início do século. Além de ter salvado muita gente, foi isso que deu a base para que pudéssemos estar aqui. Hoje, somos também o mais importante produtor da América Latina de antitoxinas diftérica, tetânica e botulínica, além da imunoglobulina equina antirrábica”, afirma a diretora técnica de produção de soros hiperimunes do Instituto Butantan, Fan Hui Wen.

Desde os levantamentos de incidência de acidentes por picadas de serpentes e entrega das primeiras ampolas de soro em 1901, houve decréscimo de 50% dos óbitos até os níveis atuais, registrando uma queda entre 2,6% a 4,6% ao ano.

O êxito do produto trouxe um desafio logístico: para sustentar o fornecimento da principal matéria-prima dos soros – ou seja, os venenos – era preciso assegurar a chegada de serpentes ao Butantan. Foi então que Vital Brazil estruturou o programa Defesa contra o Ofidismo, que estabeleceu um pacto inédito entre entidade científica e sociedade. A estratégia procurava incentivar a população, sobretudo os moradores do interior, a capturar serpentes e enviá-las ao Instituto. Em troca, recebiam soros. Segundo registros da época, quatro a seis serpentes podiam ser trocadas por uma ampola de soro, seis serpentes por uma agulha de 10 cm³ e oito serpentes por uma seringa de 20 cm³.

Pombo recebe injeção endovenosa para verificação do soro antes do consumo humano (Centro de Memória/Instituto Butantan)

A logística desse programa apoiava-se na amplitude da malha ferroviária da época. O Instituto firmou parcerias com diversas estradas de ferro, a fim de garantir o transporte gratuito das serpentes. Os animais viajavam em caixas de madeira desenvolvidas especialmente para esse fim. Para facilitar a captura, os “fornecedores” cadastrados também recebiam um laço para o correto manuseio do animal. Diariamente, um caminhão do Butantan percorria as estações terminais das ferrovias paulistas na cidade de São Paulo, recolhendo as caixas que chegavam de trem cheias e redistribuindo as vazias para o interior. 

O arranjo acabou se consolidando como uma inovadora rede de comunicação científica. Ao chegar na instituição, todas as serpentes eram devidamente identificadas. Posteriormente, os remetentes recebiam uma carta de agradecimento com informações da espécie enviada, assim como as ampolas de soro. Em contrapartida, também era solicitado a eles o envio ao Butantan de dados relacionados a possíveis acidentes ofídicos em que os pacientes fossem tratados com o produto.

Dessa forma, Vital Brazil manteve intensa correspondência com médicos e farmacêuticos, recebendo informações valiosas sobre os efeitos dos venenos em indivíduos picados por diferentes tipos de serpentes, e registrando a evolução do tratamento com a utilização do soro. “Foi um sistema embrionário de vigilância epidemiológica, que permitiu dimensionar o problema de saúde, conhecer o espectro clínico dos envenenamentos, acompanhar os resultados terapêuticos e ajustar práticas produtivas”, observa Fan Hui Wen.

Estima-se que entre 1901 e 1977, mais de 1 milhão de serpentes tenham chegado ao Instituto Butantan, assegurando a continuidade da produção de soros.

Vital Brazil no antigo "cobril" do Instituto Butantan (Centro de Memória/Instituto Butantan)

Manutenção das serpentes: uma demanda urgente

O recebimento massivo de serpentes, impulsionado pelo programa de permutas estabelecido por Vital Brazil, gerou nova demanda: a necessidade de uma infraestrutura adequada para a manutenção dos animais. 

Nos primeiros anos de existência do Instituto, os espécimes que chegavam eram mantidos em “cobris” – tipo de fosso de alvenaria protegido por tampas. Embora existisse uma separação simplificada entre espécies, as serpentes não recebiam nenhum tipo de profilaxia antes de integrarem o plantel. Não havia protocolos de alimentação, controle ambiental, quarentena ou acompanhamento veterinário, o que comprometia a saúde dos animais e favorecia a mortalidade elevada. Naquele tempo, a expectativa de vida de uma serpente que chegasse ao Butantan não passava dos 15 dias. 

Técnicos do Instituto realizam extração de veneno de uma serpente ao ar livre no Serpentário (Centro de Memória/Instituto Butantan)

Em 1914, o Instituto deu um importante passo ao inaugurar seu serpentário – existente até os dias de hoje. Com cerca de 500 metros quadrados, o espaço foi concebido para cumprir dupla função: concentrar a manutenção de serpentes e contribuir para a divulgação científica. Instalado em área aberta, o ambiente reunia abrigos similares a iglus que ajudavam os animais a se protegerem do sol e da chuva, além de espaços destinados a demonstrações públicas de manejo e extração de veneno. 

Apesar do projeto elaborado, o novo serpentário não resolveu antigos problemas. A taxa de mortalidade anual dos animais seguia acima dos 90% e a sobrevida não ultrapassava os 30 dias. Com o passar dos anos, uma realidade tornou-se cada vez mais clara: a expansão da soroterapia no Butantan dependia menos da quantidade de animais recebidos e mais da capacidade de mantê-los vivos.

Interior do laboratório onde ocorria o processo de filtração de soros (Centro de Memória/Instituto Butantan)

Primeiras melhorias no processo produtivo

A construção do chamado “Prédio Novo”, na década de 1940, trouxe mudanças importantes no processamento dos soros ao ampliar e organizar laboratórios dedicados à produção. Esse ambiente mais adequado permitiu o refinamento de etapas que, até então, seguiam praticamente as mesmas do início do século.

Imagens da década de 1950 mostram que a produção passou a realizar o isolamento da chamada “massa proteica” – fração do plasma em que se concentram os anticorpos –, por meio de um filtro prensa, capaz de extrair a parte líquida excedente. A massa resultante era submetida a um procedimento de purificação que utilizava sacos de papel celofane para remover impurezas e concentrar as proteínas. Confira:


A implementação de um biotério

Em 1963, sob a coordenação do veterinário Hélio Emerson Belluomini (1923-2014), as serpentes utilizadas no processo de extração de venenos foram transferidas para ambientes internos. Os novos espaços ocuparam antigas baias desativadas e permitiram avanços inéditos. Acondicionados em grupos menores, os animais passaram a receber cuidados individualizados, e as salas ganharam controle de temperatura, luminosidade e umidade.

Técnica manipula serpente nas primeiras instalações do biotério de serpentes, no Laboratório de Herpetologia (Centro de Memória/Instituto Butantan)

O impacto foi imediato: a sobrevida das serpentes saltou para cerca de 2 meses, ampliando o número de extrações por indivíduo e, consequentemente, a quantidade de veneno disponível para a produção de soros. Nos anos seguintes, outro avanço importante foi a introdução do uso de gás carbônico (CO2) para anestesia temporária das serpentes durante o processo de extração de veneno, tornando o procedimento mais seguro para os técnicos e menos estressante para os animais. 

Nessa mesma época, ocorreu também a transferência da cavalaria de imunização e sangria para a Fazenda São Joaquim, localizada no município de Araçariguama (SP) – a propriedade foi adquirida pelo governo do estado na década de 1940 e repassada ao Instituto como compensação pela área cedida para a criação da Cidade Universitária, vinculada à Universidade de São Paulo (USP). A mudança foi motivada para melhorar o bem-estar dos animais, que passaram a ser mantidos em regime de vida livre.

Máquina de envase e fechamento de ampolas por chamas em antigo laboratório de produção de soros (Centro de Memória/Instituto Butantan)

 

A grande crise nacional e a revolução na produção

Dezesseis tipos de soros eram produzidos pelo Butantan no início da década de 1980: antibotrópico, para acidentes com jararaca; anticrotálico, para envenenamento por cascavel; antiofídico (polivalente), para quando não se sabia se a picada foi de jararaca ou cascavel; antielapídico, para quadros de envenenamento por coral-verdadeira; antilaquético, para acidentes com surucucu-pico-de-jaca; antibotrópico-laquético, para quando não se sabia se o envenenamento foi causado por jararaca ou surucucu-pico-de-jaca; antiaracnídico (polivalente), usado tanto no envenenamento por escorpião, como nas picadas por aranha-marrom; antiescorpiônico; antiloxoscélico, para envenenamento causado por aranha-marrom; antidiftérico; antitetânico (veterinário); antigangrenoso; antirrábico; antibotulínico “A”; antibotulínico “B” e antibotulínico “AB”.

Embora o Instituto tivesse atingido picos de produção nas décadas de 1960 e 1970, superando o volume de 350 mil ampolas no acumulado entre 1960 e 1965, a escassez de recursos direcionados para manutenção e modernização do processo passaram a impactar a fabricação dos imunobiológicos.

A criação do Programa Nacional de Imunização (PNI), em 1973, e do Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde (INCQS), na década seguinte, também provocou efeitos significativos na saúde pública brasileira. Inspeções realizadas pelo órgão de controle mostraram que diversos lotes de produtos fabricados por laboratórios nacionais e estrangeiros estavam contaminados. 

Com o aumento das exigências, a multinacional Syntex do Brasil, até então detentora de quase 80% do mercado nacional de soros, decidiu, em 1983, encerrar a linha de fabricação de produtos biológicos. Foi um golpe que atingiu em cheio a população, deflagrando um grave problema de desabastecimento de soros em vários estados do país. A escassez dos imunobiológicos teve consequências imediatas e se refletiu no aumento de mortes.

O processo de extração de veneno de serpente nos dias de hoje (Comunicação Butantan)


A situação repercutiu ainda mais após o óbito de uma criança no Distrito Federal, em 1986. Diante do cenário calamitoso, o Ministério da Saúde impulsionou o Programa Nacional de Autossuficiência em Imunobiológicos (PASNI), criado no ano anterior, destinando recursos para a modernização e reestruturação das plantas de produção nacional de imunobiológicos.

No Instituto Butantan, a resposta veio com o Plano para Intensificação e Aprimoramento da Produção de Soros Antipeçonhentos, que estabeleceu metas de expansão, padronização de processos e fortalecimento do controle de qualidade. “A reação foi rápida porque a instituição contava com profissionais extremamente capacitados. O professor Isaias Raw [(1927-2022)] já era uma liderança científica importante da USP e veio para o Butantan justo nessa época. Ele foi o grande artífice da reconstrução da nossa produção dos soros”, reforça Fan Hui Wen.

“O primeiro desafio era repensar a produção do soro que não poderia ser importado. Podia-se comprar vacina, mas não se podia comprar soro contra venenos de serpentes brasileiras. Teríamos que inovar na tecnologia”
(Entrevista com Isaias Raw sobre o Centro de Biotecnologia do Instituto Butantan, 2007)

O médico e pesquisador, que atuou como diretor do Instituto Butantan entre 1991 e 1997, e como diretor da Fundação Butantan entre 2005 e 2009, se inspirou na indústria de produção do leite para desenhar e implementar um sistema de processamento de plasma fechado e automatizado. A nova estrutura também permitiu a incorporação de tecnologias mais sofisticadas de purificação, como a centrifugação industrial e a digestão enzimática controlada. O objetivo era obter produtos eficazes, garantir a esterilidade e reduzir o potencial de reações adversas.

Ampolas de soro antibotrópico do Instituto Butantan produzidas em 2025 (Comunicação Butantan)


“Propus que aprendêssemos com a indústria do leite. Quando alguém manipula o leite, ele talha; então, se não se podia pôr a mão no leite, tampouco no soro”

(Entrevista com Isaias Raw sobre o Centro de Biotecnologia do Instituto Butantan, 2007)

O plano do Butantan também incluiu a modernização do biotério de serpentes, que passou por nova reforma no ano de 1987. “Quando a demanda do Ministério chegou, o diretor do biotério na época já estava com o projeto de melhoria na gaveta”, brinca Sávio Sant’Anna. “Foi um novo momento de virada, com a implementação de um processo de quarentena e a desvermifugação das serpentes que chegavam ao plantel”, completa a pesquisadora científica do Laboratório de Herpetologia, Kathleen Grego Fernandes. Os ajustes contribuíram para que a sobrevida dos animais saltasse de dois meses para quase um ano.

A cultura de inovação não se restringiu à modernização de processos, mas incluiu também a diversificação de produtos. Em 1994, o Instituto desenvolveu o soro antilonômico, destinado ao tratamento de acidentes com lagartas do gênero Lonomia, que vinham causando quadros graves de saúde no Sul do Brasil. A integração do imunobiológico ao portfólio do Butantan exemplifica uma de suas principais características: a capacidade de oferecer soluções para problemas de saúde pública ignorados pela indústria tradicional.

Imagem interna da atual plata de Processamento de Plasmas Hiperimunes (Comunicação Butantan)


A era moderna: consolidação industrial e últimas inovações

Entre 2013 e 2016, a produção passou por um novo desafio: a necessidade de se adequar às Boas Práticas de Fabricação (BPF) que passaram a ser exigidas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Foi necessário realizar uma série de mudanças que envolveu a modernização de sistemas, a validação de processos e a implementação de “células” de Garantia da Qualidade em todas as áreas fabris, incluindo a planta de Processamento de Plasmas Hiperimunes (PPH) – anos antes, o setor havia se consolidado como o “coração” da produção ao reunir as etapas de processamento e purificação dos 12 tipos de soros concentrados, posteriormente encaminhados para formulação, envase e acondicionamento. 

Em 2016, o Butantan foi o primeiro produtor nacional a obter a certificação BPF da Anvisa para a fabricação de insumos farmacêuticos ativos de imunoglobulinas heterólogas.

Os avanços também se aprofundaram no manejo animal. O Laboratório de Herpetologia, responsável por abrigar as serpentes envolvidas na extração de veneno, incorporou exames rotineiros de ultrassonografia para monitorar as fêmeas em fase de reprodução e diagnosticar possíveis patologias em serpentes idosas. Recentemente, foram instaladas quatro unidades de terapia intensiva para aprimorar ainda mais o cuidado dos animais. Hoje, cerca de 60% do plantel utilizado na fabricação de soros já nasceu em ambiente controlado. As constantes melhorias fizeram com que a expectativa de vida das serpentes saltasse para uma média de 10 anos.

Os cavalos que contribuem com a produção de soros na Fazenda São Joaquim (Comunicação Butantan)


O conceito de área produtiva também foi incorporado ao Biotério de Artrópodes, inaugurado em 2016, que abriga ambientes totalmente climatizados e setores separados para criação de escorpiões e aranhas destinados à extração de venenos para a produção dos soros antiescorpiônico e antiaracnídico, além de baratas e grilos utilizados nos protocolos de alimentação dos animais.

Já no setor de Obtenção de Plasmas Hiperimunes (OPH), localizado na Fazenda São Joaquim, em 2018 foi implementada a coleta automatizada de plasma, que substituiu a sangria dos cavalos. Neste sistema, denominado plasmaférese, o sangue retirado é misturado a um anticoagulante e separado por centrifugação. O plasma obtido é transferido para bolsas estéreis, enquanto as hemácias são “devolvidas” ao animal. O processo aumentou o bem-estar dos equinos, garantindo uma condição corporal adequada e a melhoria do estado de saúde dos animais, além de um plasma de qualidade superior e sem contaminação. 

Em 2024, o Núcleo de Produção de Soros registrou recorde de produção, com mais de 660 mil frascos de soros entregues ao Ministério da Saúde. No início de 2025, o Instituto Butantan recebeu um aporte de aproximadamente R$ 232,5 milhões da pasta para criação de uma nova unidade de produção de soros, que inclui uma área multipropósito de envase e liofilização

Como resultado da expansão, estima-se uma capacidade de produção de 1,2 milhão de frascos de soros por ano. Já com a nova área de envase, a previsão anual será de 5,2 milhões de frascos na forma líquida e 7,1 milhões de doses na forma liofilizada, tanto de soros como de vacinas, garantindo assim que os produtos do Butantan continuem chegando a todos aqueles que os necessitam.

Especial IBu 125 anos

De laboratório improvisado em cocheira a supercomputadores: a evolução da pesquisa científica no Instituto Butantan

Referências:

A AÇÃO DO MINISTÉRIO DA SAÚDE NO CONTROLE DOS ACIDENTES OFÍDICOS EM ÂMBITO NACIONAL

DESAFIOS DA MANUTENÇÃO DE SERPENTES PEÇONHENTAS: O BIOTÉRIO DO LABORATÓRIO DE HERPETOLOGIA DO INSTITUTO BUTANTAN

EDIFICAÇÕES DO INSTITUTO BUTANTAN

INSTITUTO BUTANTAN 1930

INSTITUTO BUTANTAN 1983

INSTITUTO BUTANTAN, HISTÓRICO, ORGANIZAÇÃO E FUNCIONAMENTO (1946)
O RECEPCIONAMENTO E DESTINAÇÃO DAS SERPENTES RECEBIDAS NO INSTITUTO BUTANTAN

RELATÓRIO ANUAL DE ATIVIDADES DA SECRETARIA DE ESTADO DA SAÚDE (1986)

RELATÓRIO DE ATIVIDADES DO INSTITUTO BUTANTAN (1914)

RELATÓRIO DE ATIVIDADES DO INSTITUTO BUTANTAN (1916)

RELATÓRIO DE ATIVIDADES DO INSTITUTO BUTANTAN (1921)

RELATÓRIO DE ATIVIDADES DO INSTITUTO BUTANTAN (1925)

RELATÓRIO DE ATIVIDADES DO INSTITUTO BUTANTAN (1947)

RELATÓRIO DE ATIVIDADES DO INSTITUTO BUTANTAN (1961)

RELATÓRIO DE ATIVIDADES DO INSTITUTO BUTANTAN (1963)

RELATÓRIO DE ATIVIDADES DO INSTITUTO BUTANTAN (1964)

RELATÓRIO DE ATIVIDADES DO INSTITUTO BUTANTAN (1970)

RELATÓRIO DE ATIVIDADES DO INSTITUTO BUTANTAN (1986)

RELATÓRIO DE ATIVIDADES DO INSTITUTO BUTANTAN (1987)

RELATÓRIO DE ATIVIDADES DO INSTITUTO BUTANTAN (2013)

RELATÓRIO DE ATIVIDADES DO INSTITUTO BUTANTAN (2014)

RELATÓRIO DE ATIVIDADES DO INSTITUTO BUTANTAN (2015)

RELATÓRIO DE ATIVIDADES DO INSTITUTO BUTANTAN (2016)

SOROS E VACINAS DO BUTANTAN (2018)

Fonte _ Butantan