Fadiga,
febre, mal-estar, enjoo e pele amarelada estão entre os sintomas mais
conhecidos das hepatites virais. O problema é que muitas pessoas
infectadas nunca chegam a apresentar esses sinais. Sem diagnóstico, a doença
pode evoluir silenciosamente por anos enquanto provoca danos progressivos ao
fígado.
Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 304
milhões de pessoas no mundo vivem com hepatite B ou C – formas que
frequentemente evoluem para infecções crônicas e complicações graves. Juntos,
esses dois vírus são responsáveis por mais de um milhão de mortes anualmente em
todo o globo.
No
Brasil, foram confirmados mais de 800 mil casos de hepatites virais e cerca de
45 mil óbitos associados aos tipos A, B, C e D entre os anos 2000 e 2024, de acordo com o Boletim Epidemiológico Hepatites Virais
2025, do Ministério da Saúde.
“Um
dos principais obstáculos para o controle das hepatites é a baixa taxa de
diagnóstico. Como muitas pessoas não têm ideia de que convivem com a
doença, elas acabam transmitindo o vírus sem saber”, alerta o gestor médico
de Desenvolvimento Clínico do Instituto Butantan Eolo Morandi.
As
hepatites virais mais comuns são causadas pelos vírus A, B e C, mas existem
ainda os tipos D e E. Embora todas possam causar inflamação do fígado, elas
diferem em aspectos importantes, como formas de transmissão, gravidade e
métodos de prevenção.
Hepatite
A: quando o problema está na água e nos alimentos
O
vírus da hepatite A é transmitido principalmente pela via
fecal-oral. De forma geral, a infecção acontece pelo consumo de água ou
alimentos contaminados com resíduos fecais, contato pessoal próximo – comum em
ambientes como creches ou instituições de longa permanência – e práticas
sexuais que envolvam contato oral-anal.
Segundo o boletim do Ministério da Saúde, as regiões
Nordeste e Norte concentraram a maior parte dos casos confirmados de hepatite A
no Brasil entre 2000 e 2024. Recentemente, houve um aumento na taxa de
incidência da doença impulsionado pelas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste,
onde a doença passou a se concentrar mais na população adulta, especialmente
entre os homens.
“Trata-se
de uma doença que está bastante relacionada a condições precárias de saneamento
básico e higiene, fatores que acabam facilitando a circulação do vírus no
ambiente”, pontua Eolo Morandi.
Os
sintomas mais comuns da hepatite A incluem fadiga, mal-estar, febre, dores
musculares, enjoo, vômitos, dor abdominal e diarreia. Em alguns casos, podem
surgir sinais de comprometimento hepático, como urina escura, fezes claras e
icterícia – coloração amarelada da pele e da parte branca dos olhos.
Diferentemente
dos tipos B e C, a hepatite A não costuma evoluir para infecção crônica.
Segundo Eolo Morandi, a doença geralmente apresenta caráter benigno e
autolimitado, com recuperação espontânea na maioria dos casos. Pessoas acima
dos 50 anos, entretanto, podem apresentar maior risco de evoluir para formas
mais graves.
Não
existe tratamento específico para a doença. No geral, é recomendado repouso e a
adoção de uma dieta equilibrada, com reposição de líquidos. Também é
fundamental evitar a automedicação, pois medicamentos desnecessários podem ser
tóxicos ao fígado já inflamado.
A
vacinação é considerada a principal ferramenta de prevenção da doença. O
Instituto Butantan fornece a vacina contra hepatite A ao
Programa Nacional de Imunizações (PNI), que é aplicada em dose única aos 15
meses de vida. O
Recentemente,
o Ministério da Saúde ampliou a oferta de duas doses para grupos
específicos, como usuários de Profilaxia Pré-Exposição ao HIV (PrEP) e
pessoas com doenças hepáticas crônicas.
Boas
práticas de higiene, como lavar as mãos frequentemente, higienizar alimentos
crus com solução clorada e consumir apenas água potável ou tratada, e adotar
medidas de proteção durante as relações sexuais também são maneiras de prevenir
a doença.
Hepatite
B: cuidado com sangue e atenção às relações sexuais
A
transmissão da hepatite B ocorre por meio do contato com
sangue ou outros fluidos corporais infectados. Uma das formas mais comuns de
infecção em áreas de alta endemicidade da doença é a perinatal (ou vertical),
que acontece de mãe para filho durante o parto.
Outras
maneiras de disseminação do vírus são pelo contato sexual sem proteção,
compartilhamento de agulhas e seringas, transfusões de sangue não testado,
acidentes com materiais perfurocortantes, além de tatuagens e piercings
realizados com equipamentos contaminados.
Quando
presentes, os principais sintomas observados costumam ser fadiga, febre,
mal-estar, dor abdominal, náuseas, urina escura e icterícia.
“O
maior desafio da hepatite B está na sua capacidade de se tornar crônica, quando
o organismo não consegue eliminar o vírus”, explica o gestor médico do
Instituto Butantan. Nesses casos, a infecção pode permanecer silenciosa por
décadas antes de evoluir para complicações graves, como cirrose
hepática e câncer de fígado.
O
risco de cronificação varia bastante de acordo com a idade em que ocorre a
infecção. De acordo com a OMS, cerca de 90% a 95% das crianças
infectadas no primeiro ano de vida desenvolvem a forma crônica da doença,
enquanto esse risco é inferior a 5% para quem adquire o vírus na idade
adulta.
Por
conta disso, a aplicação da primeira dose da vacina contra a hepatite B deve
ser feita ainda nas primeiras 24 horas de vida. O Instituto Butantan também é
responsável por ofertar o produto ao PNI. Para crianças, a recomendação do
Ministério da Saúde é que elas recebam quatro doses do imunizante: ao nascer,
aos 2, 4 e 6 meses de idade. Já para a população adulta, o esquema completo se
dá com três doses.
Além
da vacinação, a prevenção envolve o uso de preservativo durante as relações
sexuais e a adoção de práticas seguras em procedimentos médicos, odontológicos
e estéticos. No Brasil, a maior parte dos casos confirmados de hepatite B
concentra-se nas regiões Sudeste e Sul.
Hepatite
C: quando a cura é uma possibilidade
A hepatite C é responsável por mais de 75% dos óbitos
associados às hepatites virais no Brasil. Sua principal forma de
transmissão é pelo contato com sangue contaminado, geralmente por
compartilhamento de agulhas e seringas. De acordo
com dados da OMS, pessoas que usam drogas injetáveis representam 44%
das novas infecções pelo vírus. Outras formas incluem procedimentos médicos e
estéticos sem esterilização e, menos frequentemente, via sexual ou perinatal.
Assim
como os outros tipos de hepatite, os sintomas são praticamente ausentes; e
quando existem, incluem fadiga, náuseas, urina escura e icterícia. A infecção
também pode evoluir para sua forma crônica, que se não for tratada pode
progredir para fibrose avançada, cirrose e câncer de fígado.
Diferentemente
das hepatites A e B, ainda não existe vacina contra a hepatite C. A prevenção
baseia-se no controle de exposição ao sangue, redução de danos para usuários de
drogas e testagem espontânea para diagnóstico precoce.
Apesar
da ausência de imunizantes, a hepatite C tornou-se uma doença potencialmente
curável graças aos avanços dos tratamentos antivirais – mesmo quando ela já
alcançou a sua forma crônica. O protocolo de cuidado é feito com o uso de Antivirais
de Ação Direta (AADs) ao longo de algumas semanas, e as taxas de cura
são superiores a 95%. No Brasil, o tratamento é disponibilizado gratuitamente
pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Hepatites
D e E: tipos menos comuns também são importantes
Embora
sejam menos frequentes do que os tipos A, B e C, as hepatites D e E possuem
características que as tornam relevantes para a vigilância em saúde pública.
A hepatite
D, por exemplo, possui uma característica única entre as hepatites virais:
ela só consegue infectar e se replicar em pessoas que também possuem o vírus da
hepatite B. A transmissão ocorre, principalmente, pelo contato com sangue ou
fluidos corporais contaminados.
No
geral, a infecção por hepatite D se dá de duas formas: por coinfecção,
quando a pessoa é infectada por ambos os vírus ao mesmo tempo; ou
superinfecção, quando alguém que já tem hepatite B crônica é infectada pelo
vírus D. A presença simultânea dos dois vírus acelera a progressão da doença e
aumenta o risco de complicações graves, como cirrose e câncer de fígado.
Como
o vírus da hepatite D precisa do vírus B para sobreviver, a vacinação contra a
hepatite B ainda é o método mais eficaz de prevenção, oferecendo proteção
indireta.
Já
a hepatite E apresenta comportamento semelhante ao da hepatite
A. A transmissão ocorre principalmente pela via fecal-oral, por meio do consumo
de água ou alimentos contaminados.
Na
maior parte dos casos, a infecção é autolimitada e desaparece espontaneamente
em poucas semanas. A principal preocupação está nas gestantes,
grupo em que o risco de complicações grave é significativamente maior,
especialmente no terceiro trimestre. A hipótese é que a interação entre as
alterações hormonais e imunológicas típicas da condição deixem as grávidas mais
suscetíveis ao vírus e contribua para uma rápida replicação viral do vírus no
organismo.
Avanços
nacionais e objetivos globais para 2030
O
Brasil tem avançado em algumas das principais frentes de combate às hepatites
virais. No relatório
global mais recente da OMS sobre o tema, o país foi citado como exemplo
pelo progresso na prevenção da transmissão da hepatite B de mãe para filho, uma
vez que a cobertura vacinal entre recém-nascidos saltou de 77% em 2023 para 98%
em 2025.
A
evolução também pode ser observada na mortalidade. Entre 2014 e 2024, a taxa de
mortes associadas à hepatite B caiu 50% no país, enquanto os óbitos
relacionados à hepatite C registraram redução de 60%.
Apesar
dos progressos, o diagnóstico tardio continua sendo um dos principais
obstáculos para o controle das hepatites virais. Para enfrentar esse desafio,
a OMS estabeleceu como meta eliminar as hepatites como um
problema global de saúde pública até 2030.
A
estratégia prevê reduzir em 90% o número de novas infecções, diminuir em 65% as
mortes relacionadas à doença, diagnosticar 90% das pessoas infectadas e
garantir tratamento para 80% daqueles que necessitam de acompanhamento clínico
– em relação aos níveis observados em 2015.
“O
diagnóstico precoce é fundamental para interromper a cadeia de transmissão e
evitar que a doença evolua para formas mais graves. Pelo menos uma coleta de
sangue anual já contribui para uma pessoa saber se tem ou não a doença”,
recomenda Eolo Morandi.
A
conscientização da população também é considerada parte fundamental desse
esforço. Por isso, desde 2010, a OMS promove o Dia Mundial de Luta
contra as Hepatites, celebrado em 28 de julho. A data busca reforçar a
importância da vacinação, da testagem e do acesso ao tratamento – ferramentas
que podem evitar complicações graves e salvar milhões de vidas.
Referências
CANADIAN
FAMILY PHYSICIAN. Hepatitis
E infection during pregnancy
MINISTÉRIO
DA SAÚDE. Hepatite A
MINISTÉRIO
DA SAÚDE. Hepatite B
MINISTÉRIO
DA SAÚDE. Hepatite C
MINISTÉRIO
DA SAÚDE. Hepatite D
MINISTÉRIO
DA SAÚDE. Hepatite E
MINISTÉRIO
DA SAÚDE. Ministério da Saúde amplia vacinação contra hepatite A para
usuários de PrEP
ORGANIZAÇÃO
PAN-AMERICANA DA SAÚDE. Dia
Mundial de Combate à Hepatite
Fonte _ Butantan