quarta-feira, 14 de outubro de 2026
Riscos invisíveis podem prejudicar recuperação e aumentar tempo na UTI
A
UTI (Unidade de Terapia Intensiva) é, por definição, um ambiente criado para
enfrentar situações que ameaçam a vida. Mas, além da doença que levou o
paciente ao hospital em primeiro lugar, existem ameaças menos visíveis que
podem surgir durante a internação.
Perda
de força e diminuição
da massa muscular costumam ser problemas recorrentes nas UTIs. Esses
efeitos podem começar por várias razões, que vão desde o processo inflamatório
decorrente de infecções ou outras doenças graves, passando pelo repouso
prolongado, e até o uso de medicamentos que, embora necessários para o cuidado
da doença, levam ao enfraquecimento do corpo.
A
utilização de certos fármacos somada a restrições na mobilidade também
favorecem o surgimento de lesões por pressão, que podem evoluir para úlceras e
áreas necrosadas. Não é incomum que os pacientes ainda sofram com alterações no
trânsito intestinal ou precisem ficar em jejum por algum período durante a
internação, o que faz com que o aporte calórico e proteico não seja adequado.
Outro
ponto de preocupação envolve
alterações cognitivas desenvolvidas em decorrência da gravidade do
quadro inflamatório, das medicações utilizadas, do histórico de condições
psicológicas anteriores e do próprio fato de a pessoa estar fora da sua casa ou
de um ambiente conhecido. Isso se dá principalmente em indivíduos idosos
portadores de doenças neurológicas prévias, que podem enfrentar desequilíbrios
no ciclo de sono, ficando agitados durante a noite, confusos e desorientados.
"Essas
questões podem prolongar a recuperação, aumentar o tempo de internação na UTI e
o tempo de ventilação mecânica, além de impactar a mortalidade dos pacientes e
comprometer seu retorno às atividades da vida diária após a alta
hospitalar", explica a médica intensivista Amanda Pascoal Valle, que atua
como coordenadora da UTI adulto do Hospital Municipal Gilson de Cássia Marques
de Carvalho - Vila Santa Catarina, unidade pública em São Paulo gerida pelo
Einstein Hospital Israelita. Mas os perigos não param por aí.
Infecções
por bactérias resistentes
As
infecções adquiridas no ambiente hospitalar são consideradas uma das
maiores ameaças dentro da UTI, principalmente aquelas causadas por bactérias
multirresistentes, popularmente conhecidas como superbactérias.
Uma vez que o paciente entra no hospital, ele passa a ser exposto a germes, e
isso é particularmente perigoso entre quem está na UTI. Essas pessoas tendem a
ficar mais vulneráveis devido a condições predisponentes, como cateteres ou
tubos que rompem as barreiras protetoras naturais do corpo, algum tipo de
imunossupressão induzida pelos remédios ou pela gravidade das próprias
condições que as levaram à internação.
Bactéria
resistente se espalha fora de hospitais e desafia protocolos médicos
Cientistas
identificam vírus no esgoto do Reino Unido que pode ser usado contra
superbactéria
Fazer
atividade física após diagnóstico de câncer pode aumentar sobrevida
Exercício
físico pode prolongar sobrevida de pacientes com câncer
"É
um paradoxo: o hospital, que é um lugar de cura, acaba sendo também um ambiente
que pode perpetuar a doença, por reunir diferentes microrganismos, inclusive,
alguns únicos, que não existem fora dele", afirma o médico intensivista
Adriano José Pereira, coordenador médico de Tele-UTI do Einstein. "Essas
bactérias estão nas grades da cama, nos botões dos monitores, nas mãos da
equipe e nos equipamentos de internação. Tudo pode servir de meio para que elas
cheguem ao organismo humano, rompam nossas barreiras naturais e se propaguem em
uma infecção."
Nem
os antibióticos conseguem impedir esses riscos. Além da bactéria específica que
causa infecção, os medicamentos também atingem microrganismos benéficos,
prejudicando seu bom funcionamento. Quando utilizadas com frequência e de
maneira indiscriminada, essas drogas estimulam o fenômeno biológico de pressão
de seleção, no qual bactérias que apresentam características que as tornam mais
resistentes ao fármaco utilizado sobrevivem e se reproduzem, enquanto as mais
suscetíveis são eliminadas.
Com
o passar do tempo, tal seleção favorece a multiplicação e a disseminação das
bactérias resistentes, fazendo com que os tratamentos percam eficácia e
tornando algumas infecções progressivamente mais difíceis de encerrar. "As
bactérias têm uma capacidade impressionante e bastante sofisticada de resistir
aos antibióticos. Elas conseguem produzir mecanismos de resistência com muito
mais eficiência do que nós, seres humanos, conseguimos sintetizar novas
moléculas", avalia Pereira. "Por isso, esse problema não deve ser
enfrentado olhando apenas para o antibiótico. Precisamos seguir medidas de
segurança rígidas nas UTIs para controlar esses riscos."
A
resistência antimicrobiana (RAM) já é uma realidade. Uma pesquisa publicada em
julho na Nature
Communications revela que cerca de 27% de todos os pacientes admitidos
em uma UTI na Índia apresentaram resultados positivos de infecção por bactérias
da ordem Enterobacterales que desenvolveram resistência a carbapenêmicos
produtores de carbapenemase, um tipo de antibiótico de última linha. A análise
genômica mostrou alta concentração de Escherichia coli e Klebsiella
pneumoniae, sugerindo eventos de transmissão tanto dentro quanto fora do
ambiente hospitalar.
E o
problema tende a piorar. De acordo com um estudo conduzido pelo consórcio
Global Burden of Disease (GBD) e publicado em 2024 na revista
The Lancet, entre 1990 e 2021, aproximadamente 4,71 milhões de mortes
estiveram associadas à RAM. Desse total, 1,14 milhão foram diretamente
atribuídas ao problema. A equipe ainda projeta que, se as medidas de combate às
superbactérias não forem fortalecidas, até 1,91 milhão de óbitos atribuíveis e
outros 8,22 milhões associados à RAM poderão ocorrer em 2050. Acredita-se que
essas fatalidades ocorrerão, sobretudo, no sul da Ásia e na América Latina e
Caribe.
Medidas
de combate aos riscos
Devido
à complexidade do desafio, não é todo o hospital que consegue evitar os riscos
"invisíveis" da UTI. Mas, com esforço coordenado e coletivo, tampouco
se trata de uma missão impossível. Sem registros de infecções hospitalares na
UTI adulto há cerca de um ano, o Hospital Municipal Vila Santa Catarina segue à
risca os protocolos para a redução de infecções relacionadas à assistência à saúde recomendados
pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), pelo Ministério da
Saúde e pelo próprio Einstein.
Entre
as medidas adotadas como boas práticas, destaca-se o cuidado com os
equipamentos utilizados de internação. "No caso do cateter venoso central,
avaliamos todos os dias se ele ainda é necessário e se as medicações
administradas por ele poderiam ser infundidas por um acesso periférico menos
invasivo", observa Amanda Valle. "Também avaliamos regularmente a
sedação do paciente, buscando deixá-la em um valor mínimo para tentar despertar
a pessoa e retirá-la da ventilação mecânica o quanto antes, a fim de reduzir o
tempo de exposição a esse risco."
Além
disso, a higiene das mãos e o uso de máscara aparecem como uma das indicações
mais importantes para a prevenção de novas infecções nas UTIs. Isso vale tanto
para médicos, enfermeiros e outros profissionais que compõem a equipe de saúde
quanto para os acompanhantes dos pacientes, que correm o risco de trazer
microrganismos da rua e contaminar um ambiente que precisa permanecer o mais
asséptico possível.
É
justamente nesse campo que atua o projeto IMPACTO-MR, construído por seis
hospitais brasileiros, incluindo o Einstein, no âmbito do Programa de Apoio ao
Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (Proadi-SUS). A
plataforma, voltada à prevenção, ao controle e ao tratamento das infecções,
reúne dados clínicos, microbiológicos, epidemiológicos, ambientais e
econômicos.
Dentre
as frentes conduzidas pelo Einstein está a investigação do ambiente hospitalar.
Estudos realizados entre 2019 e 2022 avaliaram o microbioma de superfícies de
UTIs e suas práticas de higienização. "Analisando as diferentes
superfícies, encontramos contaminação em 25% das amostras de desinfetante
coletadas. Ou seja, verificamos que o microrganismo consegue sobreviver mesmo
em contato com o desinfetante, seja porque o produto estava muito diluído e/ou
porque foi contaminado na manipulação (por exemplo, durante a utilização de
baldes ou panos maciçamente contaminados)", relata Adriano Pereira, que é
um dos pesquisadores do IMPACTO-MR no Einstein.
A
partir desses resultados, o projeto passou a desenvolver novas pesquisas para
testar estratégias capazes de reduzir a transmissão de microrganismos, como por
meio do desenvolvimento de agentes desinfetantes e tecnologias de desinfecção
sem contato direto, entre eles luz ultravioleta e peróxido de hidrogênio em
aerossol.
O
objetivo agora é avaliar se intensificar a desinfecção ambiental reduz
realmente as infecções, em quais condições isso ocorre, quais seus custos,
eventuais efeitos adversos dessas intervenções e como incorporar essas
tecnologias de forma viável à rotina dos hospitais brasileiros.
Fonte _ Folha/SP
terça-feira, 13 de outubro de 2026
Eventos religiosos de massa colocam América do Sul em alerta para sarampo, diz Opas
Diante
da realização de diversos eventos religiosos de massa na América
do Sul, que devem aumentar a circulação de pessoas em viagens nacionais
e internacionais nos próximos meses, a Opas
(Organização Pan-Americana da Saúde) alerta para o alto risco de disseminação
do sarampo
na região.
A
organização convoca países a intensificarem vacinação, vigilância e medidas de
resposta rápida.
O
aviso consta de nova avaliação regional de risco da Opas, publicada na última
sexta (9) em um contexto de surtos em curso, lacunas persistentes na cobertura
vacinal e detecção de casos
de sarampo em novas áreas geográficas.
O
diretor da Opas, Jarbas Barbosa, ressalta que o sarampo
é altamente contagioso e chama a atenção para as consequências baixa cobertura
vacinal nas Américas. Ele pede que as famílias vacinem seus filhos com a tríplice
viral (sarampo,
rubéola e caxumba).
O
sarampo é uma doença viral transmitida pelo ar. Os principais sintomas incluem
febre alta, tosse, coriza, conjuntivite
e manchas avermelhadas na pele, que geralmente surgem entre 7 e 14 dias após a
exposição. A transmissão acontece de pessoa a pessoa, por via aérea, ao tossir,
espirrar, falar ou respirar.
As
recomendações aos países incluem fortalecer a vigilância e garantir que possam
detectar e responder rapidamente aos casos, em especial nos momentos em que o
aumento das viagens e dos eventos de massa cria mais oportunidades para a
disseminação do vírus.
De 4
de janeiro a 3 de outubro, segundo a Opas, foram registrados 55.792 casos
confirmados de sarampo
e 77 mortes em 17 países e territórios da região —um aumento de 4,8 vezes no
total de casos em comparação com o mesmo período de 2025.
A Guatemala
registrou o maior número de casos, seguida por México, Estados
Unidos, Peru
e Canadá.
Juntos, esses cinco países concentraram 99,5% dos casos confirmados. Também há
casos na Argentina,
Belize, Bolívia, Brasil, Chile,
Colômbia, Costa Rica, El Salvador, Honduras, Panamá e
Uruguai.
As
ocorrências de sarampo
também aumentaram globalmente em 2026, o que eleva a probabilidade de casos
importados associados a viagens internacionais e de transmissão subsequente em
comunidades com baixa imunidade. A avaliação de risco da Opas identificou o
ressurgimento global da doença como um fator que aumenta a probabilidade de
registros importados.
Nos
EUA, surto de sarampo em comunidades amish faz famílias repensarem vacinação
Pensilvânia
confirma quinta morte por sarampo em pior surto dos EUA
Confiança
nas vacinas contra o sarampo cai nos EUA, aponta pesquisa Reuters/Ipsos
Sarampo
se espalha por distritos do município de São Paulo
OMS
estima quase 11 milhões de casos de sarampo em 2026
Por
que eventos de massa aumentam o risco
O
sarampo é altamente contagioso e pode se espalhar de forma rápida quando
introduzido em populações com baixa
imunidade, especialmente em locais com grande concentração de pessoas.
Indivíduos
com sarampo podem transmitir o vírus antes do aparecimento da erupção cutânea
característica, de modo que viajantes infectados expõem outras pessoas sem
saber. Eventos de massa e o deslocamento entre países e comunidades facilitam a
importação e a disseminação do vírus.
Daniel
Salas, gerente executivo do Programa Especial de Imunização Integral da Opas,
afirma que quem pretende participar de um evento de massa deve verificar se
está protegido contra o sarampo,
mesmo aqueles que viajam dentro do próprio país.
Ele
acrescenta que pessoas (a partir de 6 meses de idade) que não tenham
comprovação de vacinação precisam receber uma dose da vacina
contra o sarampo antes de viajar ou participar de eventos, de
preferência pelo menos duas semanas antes.
Vacinação
continua sendo a principal proteção
Em
2025, a cobertura regional alcançou 88% para a primeira dose da vacina tríplice
viral e 85% para a segunda dose, abaixo dos 95% necessários para prevenir
surtos. A persistência de coberturas insuficientes aumentou o número de pessoas
suscetíveis ao sarampo.
Essas
lacunas decorrem de diversos fatores, entre eles os atrasos na imunização
acumulados durante a pandemia
de Covid, hesitação
vacinal em algumas
comunidades, dificuldades operacionais para vacinar oportunamente e
barreiras de acesso aos serviços de saúde,
que afetam especialmente povos indígenas, migrantes e populações deslocadas.
Estima-se
que aproximadamente 1,6 milhão de crianças não tenha recebido nenhuma dose da vacina
contra o sarampo nas Américas em 2025.
Fonte _ Folha/SP
Ministério da Saúde apresenta campanha com orientações sobre acesso a consultas, exames e cirurgias pelo SUS
Ministério
da Saúde divulgou a Campanha Nacional de Atendimento Especializado, que
reúne orientações sobre como buscar consultas, exames e cirurgias pelo SUS. O
conteúdo apresenta o caminho para o atendimento especializado, desde a busca
por atendimento na Unidade Básica de Saúde (UBS) até o encaminhamento para os
serviços disponíveis, por meio do Agora Tem Especialistas,
criado pela Lei nº 15.233/2025.
A
ação é voltada a pessoas que precisam de avaliação, acompanhamento, exames ou
procedimentos especializados. As informações ajudam a identificar quando buscar
atendimento e explicam as etapas do cuidado na rede pública, incluindo
consultas, exames, acompanhamento e procedimentos.
Entre
os sinais que merecem atenção estão mal-estar, dor de cabeça persistente e
vista embaçada. Quem apresenta sintomas ou precisa realizar exames preventivos
deve procurar uma UBS ou acessar os serviços disponíveis pelo Meu SUS Digital.
Na
UBS, o paciente é avaliado e, quando há indicação clínica, a central de
regulação da secretaria de saúde do município faz o encaminhamento para o
serviço adequado. Conforme a necessidade, o cuidado pode incluir consulta com
especialista, exames para investigar ou confirmar um diagnóstico,
acompanhamento ou cirurgia. Quem tiver indicação de procedimento cirúrgico pode
acompanhar pelo Meu SUS Digital a posição na fila e a confirmação da
cirurgia.
Na
oncologia, a rede especializada oferece serviços de investigação, diagnóstico e
tratamento, incluindo unidades habilitadas para assistência de alta
complexidade e radioterapia.
Como
funciona o acesso
Na
UBS, o paciente passa por avaliação e, quando há indicação clínica, a central
de regulação da secretaria de saúde do município encaminha o cidadão para o
serviço especializado adequado.
O
atendimento pode envolver diferentes etapas, conforme a necessidade de cada
pessoa, como consulta com especialista, exames para investigar ou confirmar o
diagnóstico, acompanhamento ou procedimento cirúrgico.
Quem
tiver indicação de cirurgia também pode acompanhar pelo Meu SUS Digital
informações sobre sua posição na fila e a confirmação do procedimento.
Pacientes
que residem a mais de 50 km de um centro de tratamento têm à disposição
transporte de ida e volta, com acompanhante, em vans, micro-ônibus e
ambulâncias para casos mais delicados. São 3,3 mil veículos destinados a todos
os estados do país.
Telessaúde
e Carretas da Saúde
Entre
os serviços disponíveis está a Telessaúde, que permite a realização
de teleconsultas e telediagnósticos. A modalidade possibilita que parte do
cuidado seja feita a distância, conectando pacientes e profissionais para
investigação e acompanhamento de diferentes condições de saúde.
Os
Núcleos de Telessaúde do SUS estão presentes em 4,4 mil municípios de 27
unidades da federação, com atendimentos em 62 especialidades, incluindo
diagnóstico remoto em tele-eletrocardiograma, dermatologia e oftalmologia. Ao
todo, mais de 10,3 milhões de procedimentos foram realizados desde o início de
2025. A estrutura terá o reforço de 7 mil kits de equipamentos para
teleatendimento em UBS de 4,5 mil municípios.
A
população também pode ser encaminhada para atendimento nas Carretas da Saúde do
Agora Tem Especialistas, unidades móveis que oferecem serviços especializados
em diferentes regiões do país. As carretas de exames de imagem realizam, por
exemplo, tomografias e ultrassonografias. As unidades de oftalmologia oferecem
avaliações, exames para doenças dos olhos e cirurgias de catarata. Já as
voltadas à saúde da mulher realizam mamografias, ultrassonografias pélvicas e
transvaginais, biópsias e consultas com especialistas.
As
unidades móveis atendem regiões onde há menor oferta de serviços
especializados. Até o final do ano, serão 150 carretas circulando por todas as
regiões do país, com novas especialidades disponíveis, como cardiologia e saúde bucal. As carretas realizaram
mais de 1,2 milhão de procedimentos, com 458 mil pessoas atendidas em 4.249
municípios brasileiros, 76,2% do total de cidades do país.
Atendimento
em hospitais privados e filantrópicos
Outra
opção de atendimento especializado pelo SUS é o encaminhamento de pacientes
para hospitais privados e filantrópicos que participam do Agora Tem
Especialistas. A indicação e o encaminhamento são feitos pela regulação
estadual ou municipal, e o atendimento é gratuito para o paciente.
Os
hospitais que aderiram ao programa podem receber créditos financeiros, que são
trocados por abatimento de impostos federais. Atualmente, 312 instituições em
21 estados atendem pacientes em especialidades como cardiologia, oftalmologia,
ortopedia, oncologia, ginecologia e Terapia Renal Substitutiva. Ao todo, estão
previstos cerca de 793 mil procedimentos.
Fonte _ Saúde.gov
segunda-feira, 12 de outubro de 2026
Estudo aponta cinco estratégias para reduzir hesitação vacinal
O
enfrentamento da
hesitação vacinal depende da combinação de cinco estratégias:
comunicação adaptada a diferentes públicos, combate à desinformação,
capacitação de profissionais de saúde,
ampliação do acesso à imunização e ações específicas para gestantes.
É o
que aponta um estudo publicado
nesta segunda-feira (12) na revista Epidemiologia e Serviços de Saúde. O
trabalho reuniu 48 revisões sistemáticas publicadas entre 2012 e 2024 sobre
intervenções para reduzir a hesitação vacinal em adultos e gestantes, incluindo
dados referentes às
vacinas contra Covid, influenza,
HPV,
hepatite
B, coqueluche
e pneumococo.
Segundo
os autores, as medidas tendem a funcionar melhor quando aplicadas em conjunto e
adaptadas às necessidades de cada população. A síntese foi elaborada a partir
de uma chamada pública do Ministério
da Saúde para orientar políticas públicas.
A
primeira estratégia é adaptar a comunicação a diferentes públicos. As campanhas
devem considerar as características socioculturais de cada grupo e explicar os
benefícios individuais da vacinação
e sua importância para a proteção coletiva.
Isso
pode incluir informações em outros idiomas para migrantes, linguagem simples
sobre a segurança dos imunizantes e participação de lideranças comunitárias e
religiosas. Influenciadores digitais também podem ampliar o alcance das
mensagens.
"Cada
população, cada comunidade, vai sofrer barreiras diferentes para se
vacinar", afirma Ana Paula da Costa Marques, professora de microbiologia
do Instituto de Biociências da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do
Sul) e uma das autoras do estudo. As estratégias devem considerar "as
características do grupo que se pretende trabalhar e qual é o objetivo",
acrescenta.
Vacina
contra o HPV é resultado de mais de 150 anos de pesquisas
Com
novo registro na capital paulista, São Paulo chega a 41 casos de sarampo
SUS
amplia nova vacina pneumocócica para idosos a partir de 85 anos
Como
nova onda de ataques às vacinas gerou efeito reverso nas redes sociais, segundo
levantamento
Movimento
antivax surgiu com a própria vacina, em 1796, e ganhou força na pandemia da
Covid
A
segunda estratégia é combater a desinformação. Segundo o estudo, autoridades e
profissionais de saúde podem responder a conteúdos falsos nas redes sociais e
divulgar informações científicas em linguagem acessível. O trabalho também
aponta a importância de prevenir a disseminação de informações enganosas, com
medidas como monitoramento e políticas regulatórias.
"É
muito melhor prevenir a desinformação do que trabalhar nela depois que ela já
foi disseminada", afirma Marques.
O
pediatra Juarez Cunha, diretor da SBIm (Sociedade Brasileira de Imunizações),
afirma que a
falta de confiança nas vacinas, nos profissionais e nas instituições
também pode afastar a população da imunização. Por isso, afirma, é importante
identificar os fatores que interferem na vacinação em cada localidade para
definir as medidas mais adequadas.
A
terceira estratégia é capacitar os profissionais de saúde de forma contínua. Os
treinamentos devem abordar conhecimentos sobre imunização e habilidades de
comunicação, para que os profissionais consigam conversar com a população de
forma clara e acolhedora.
A
recomendação direta durante o atendimento também pode influenciar a decisão de
se vacinar. Para Marques, o vínculo entre profissionais e pacientes é
importante. Cunha acrescenta que os profissionais precisam estar bem informados
para responder às dúvidas, tanto nas unidades de saúde quanto nas redes
sociais.
Para
Rosane Orth Argenta, gestora de saúde e CEO da Saúde Livre Vacinas, rede
privada de clínicas de imunização, a recomendação de vacina precisa partir do
profissional, sem esperar a iniciativa do paciente.
"O
profissional não deve apenas esperar que o paciente pergunte sobre a vacinação.
Ele precisa avaliar o calendário vacinal e recomendar as vacinas
indicadas", afirma.
A
quarta estratégia é ampliar o acesso à vacinação. Nem toda pessoa que deixa de
se vacinar está recusando a imunização. Em alguns casos, a dificuldade é
logística, como a falta de tempo para comparecer a uma unidade de saúde.
Horários
estendidos, atendimento aos fins de semana, unidades móveis e oferta de doses
em escolas, empresas e universidades podem reduzir essas barreiras.
A
quinta frente é voltada a gestantes e puérperas. O estudo recomenda esclarecer
dúvidas sobre possíveis efeitos adversos para a mãe e o bebê e oferecer vacinas
durante o pré-natal e nas maternidades, com orientações e materiais
explicativos.
"Quanto
mais tiver essa relação do profissional de saúde com a gestante, indicando,
recomendando a vacinação, melhor", afirma Marques.
As
recomendações são apresentadas em um momento de recuperação da vacinação
infantil no Brasil. Em 2026, o país deixou a lista dos 20 com maior número de
crianças "zero-dose", segundo estimativas da OMS (Organização Mundial
da Saúde) e do Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância).
São
consideradas zero-dose as crianças que não receberam a primeira dose da vacina
contra difteria, tétano e coqueluche. No Brasil, a proteção é oferecida pela
pentavalente, que também previne hepatite B e infecções por Haemophilus
influenzae tipo b.
Em
2025, 50 mil crianças estavam nessa situação, ante 255 mil em 2024. Para
Marques, a recuperação das coberturas vacinais é importante diante do risco de
reintrodução de doenças que haviam deixado de circular de forma sustentada.
Quando elas se tornam menos frequentes, parte da população pode deixar de
reconhecer sua gravidade e os riscos da queda da imunização, diz.
Guatemala,
México, Estados Unidos, Peru e Canadá concentravam 99,5% dos casos confirmados
de sarampo em 2026. Em novembro de 2025, a transmissão endêmica foi
restabelecida no Canadá, levando a região das Américas a perder o status de
livre da circulação endêmica do sarampo, em
meio a um crescimento do movimento antivacina.
No
Brasil, até 5 de outubro, foram registrados 52 casos importados, sendo 41 em
São Paulo, dez no Amazonas e um no Rio de Janeiro, segundo o Ministério da
Saúde. O país mantém o status de livre da circulação endêmica, recuperado em
novembro de 2024. A cobertura da primeira dose da tríplice viral chegou a 93,1%
em 2025, abaixo da meta de 95%.
O projeto
Saúde Pública tem apoio da Umane, associação civil que tem como
objetivo auxiliar iniciativas voltadas à promoção da saúde.
Fonte _ Folha/SP
domingo, 11 de outubro de 2026
Diagnóstico tardio e dificuldade para erradicar bactéria H. pylori elevam mortes por câncer de estômago
Há
duas décadas, o câncer
de estômago (ou gástrico) mata mais de 12 mil pessoas por ano no
Brasil, e a mais recente projeção do Inca
(Instituto Nacional de Câncer) aponta para uma elevação de casos até 2028,
resultando em mais mortes.
As
estimativas indicam 22,5 mil novos diagnósticos por ano no triênio iniciado em
2026, o terceiro ajuste seguido para cima nas projeções. Nos triênios 2020-2022
e 2023-2025, elas foram de 21,2 mil e 21,4 mil, respectivamente.
A
tendência de alta deve se perpetuar no país pelos próximos anos, segundo
especialistas, na esteira da maior
prevalência da obesidade e do envelhecimento
da população, mas sobretudo pela dificuldade de erradicar a bactéria H. pylori,
principal causa da patologia no mundo.
Um
problema, a julgar pela alta taxa de mortalidade para este tipo de câncer, que
passa dos 60%. O crescimento de casos ocorre enquanto os recursos para
erradicar a H. pylori ainda são escassos, o que mantém as infecções e
eleva a curva de óbitos. O fenômeno já é observado nos últimos 20 anos.
Dados do Inca mostram que, em 2005, 12.435 pessoas morreram por câncer gástrico. Em 2007 foram 13 mil mortes, e 14,1 mil em 2013. Em 2019, alcançou o patamar de 15,1 mil. Em 2024, último ano registrado na base de dados, foram 14,9 mil mortes.
Segundo
o gastroenterologista James Ramalho Marinho, da Federação Brasileira de
Gastroenterologia, a alta taxa de mortalidade está associada ao diagnóstico
tardio. Ele afirma que a condição é silenciosa e as doenças gástricas
são muitas vezes negligenciadas pela população. Além disso, o SUS (Sistema
Único de Saúde)
não consegue monitorar e tratar a infecção pela H. pylori.
"O
câncer de estômago não causa sintomas em grande parte dos acometidos. As
pessoas chegam ao consultório suspeitando de anemia,
problemas gástricos menos relevantes, e já têm o quadro avançado", afirma
Marinho.
Câncer
de estômago é cada vez mais comum em adultos jovens
Imunoterapia
com células CAR-T é aprovada em estudo de fase 2 para câncer gástrico
Açúcar
e sal são vilões na relação entre alimentação e câncer no estômago
Obesidade
avança 118% no Brasil e desafia metas de controle da doença, aponta Vigitel
Empresário
Bryan Johnson revela diagnóstico de gastrite autoimune; entenda a doença
"Estima-se
que 70% da população brasileira tenha infecção com H. pylori. Isso é
apenas uma estimativa, o sistema público não tem condições de oferecer
endoscopia para todo esse contingente, nem exames menos invasivos",
explica.
A H.
pylori é responsável por 78% da carga de câncer gástrico no Brasil, segundo
um estudo que combinou a prevalência estimada da bactéria na população
com o risco associado à infecção.
O
contágio pela H. pylori ocorre por más condições sanitárias e falta de saneamento
básico. Por isso, ela é mais prevalente em países pobres e populações
em vulnerabilidade socioeconômica.
"A
contaminação ocorre sobretudo pelo contato da água com dejetos. Se analisarmos,
por exemplo, comunidades que vivem à beira de córregos poluídos, é muito
provável que a maioria esteja com a bactéria", diz o endoscopista e
gastroenterologista Ismael Maguilnik.
A
partir da infecção, a bactéria causa o que se chama de cascata de Pelayo
Correa, uma sequência de alterações que podem ocorrer no estômago ao longo dos
anos, resultando, em parte dos casos, no câncer gástrico.
A
infecção provoca inflamação da mucosa do estômago
(gastrite crônica). Com a persistência, podem surgir atrofia da mucosa,
metaplasia intestinal (alteração celular em que o revestimento interno do
estômago ou do esôfago muda e passa a se parecer com o tecido do intestino) e,
posteriormente, displasia, considerada uma alteração pré-cancerosa.
Em
alguns pacientes, essa sequência pode culminar no adenocarcinoma gástrico, o
tipo mais comum de câncer de estômago.
Embora
a H. pylori seja a principal responsável pelo câncer gástrico, outros
fatores podem contribuir para o surgimento da patologia. O consumo de alimentos
ricos
em sal é um deles, em que pesa a forte presença dos ultraprocessados
na dieta global.
"Esses
alimentos têm uma grande quantidade de sal e defumados, agressores do tecido
gástrico. Portanto, nem sempre a H. pylori vai resultar no câncer
sozinha, ela vai ter como aliados os hábitos ruins que o sujeito adquire ao
longo da vida", explica Maguilnik.
Outros
fatores de risco associados ao surgimento de cânceres no estômago são tabagismo
e consumo de bebida
alcoólica.
Entre
doenças
crônicas, a obesidade
–galopante no Brasil segundo
pesquisas recentes– também é uma comorbidade facilitadora.
Maguilnik
diz que um teste respiratório à base de carbono 13, não radiativo, seria uma
boa solução para identificar precocemente a H. pylori no estômago e dar
início ao tratamento.
"Essa
é uma luta nossa para tentar convencer as autoridades, seria um grande recurso
e se trata de um procedimento não invasivo. Fazer endoscopia em toda a
população é um sonho quase impossível", diz.
Segundo
o Ministério
da Saúde, não há, até o momento, pedido de incorporação e avaliação da
tecnologia pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS
(Conitec).
De
acordo com o médico, também existem testes feitos a partir de antígeno nas
fezes, mas com alto índice de negativos.
Para
frear o aumento, os especialistas afirmam que é necessário erradicar a H.
pylori, o que esbarra no problema de diagnóstico.
Mas
não só. Ainda não está claro qual é o tratamento mais eficaz para combater a
bactéria uma vez identificada.
Geralmente,
o tratamento é feito com combinações de antibióticos
associados a um medicamento que reduz a acidez do estômago. Entre os
antibióticos usados estão amoxicilina, claritromicina, metronidazol e
tetraciclina.
A
escolha depende do esquema indicado, de alergias e, cada vez mais, do perfil de
resistência
da bactéria.
A
resistência a alguns antibióticos, contudo, tem aumentado, por isso as
diretrizes mais recentes recomendam evitar esses medicamentos quando não há
evidência de que a bactéria seja sensível a eles.
"Os
antibióticos constituem a ferramenta que temos por ora, mas para isso
precisamos encontrar os pacientes antes da metaplasia e da neoplasia", diz
Maguilnik.
"Sem
controlar a infecção, não vamos diminuir o câncer gástrico. É preciso também
conscientizar as pessoas sobre o consumo de sal, ultraprocessados, álcool e
cigarro. Ou os números continuarão em alta", afirma Marinho.
Os
especialistas recomendam àqueles com histórico de câncer gástrico na família o
início do rastreamento aos 30 anos. Para pessoas sem histórico familiar ou
problemas gástricos, a recomendação é aos 40 anos.
Outras
medidas, como reforçar higienização de alimentos e das mãos e evitar contato
com água de qualidade desconhecida são úteis, embora não resolvam a situação.
O
Ministério da Saúde afirmou ainda que, neste ano, começam a ser
disponibilizados 23 novos medicamentos para tratamento do câncer, o que
representa um aumento de 35% na oferta na rede pública de saúde. "Entre
esses medicamentos está o trastuzumabe, que pode reduzir ou eliminar os tumores
de câncer de estômago HER2 positivo em até 50% dos casos."
O projeto
Saúde Pública tem apoio da Umane, associação civil que tem como
objetivo auxiliar iniciativas voltadas à promoção da saúde.
Fonte _ Folha/SP
sábado, 10 de outubro de 2026
Testes de saliva e de sangue buscam detectar endometriose sem cirurgia
Obter
um diagnóstico de endometriose
é notoriamente difícil.
Em
média, leva de sete a nove anos, e muitas pacientes
ouvem que sua dor excruciante é apenas uma cólica menstrual normal ou coisa da
cabeça delas. Mesmo quando encontram um médico disposto a ajudar,
muitas precisam passar por cirurgia para confirmar o diagnóstico, porque os
exames de imagem não detectam a doença de forma confiável. Estima-se que a
doença, na qual um tecido semelhante ao revestimento do útero cresce fora dele,
afete pelo menos 1
em cada dez mulheres em idade reprodutiva.
Para
muitas, um teste não invasivo confiável seria o santo graal. Agora, várias
startups afirmam tê-lo encontrado e oferecem o diagnóstico de endometriose por
meio da análise de moléculas de RNA na saliva, proteínas no sangue ou sinais
elétricos no trato gastrointestinal.
"A
premissa é boa, porque atualmente o padrão de atendimento é invasivo", diz
Ja Hyun Shin, especialista em cirurgia ginecológica da Weill Cornell Medicine.
Mas,
até agora, segundo ela e outros especialistas, as evidências sobre os novos
testes se limitam a estudos pequenos, com pacientes que talvez não sejam
representativas da população em geral.
Katherine
Burns, professora associada da Faculdade de Medicina da Universidade de
Cincinnati, que
estuda endometriose e também tem a doença, diz entender a ansiedade
das pacientes: ela sofreu por cerca de 10 anos sem diagnóstico e teria tentado
qualquer coisa para obter respostas e alívio. "Mas uma das coisas que
aprendi ao longo do caminho é que é preciso fazer perguntas", afirmou.
Veja
o que sabemos sobre os novos testes.
O
que está sendo comercializado?
A
Food and Drug Administration (FDA), agência
reguladora dos Estados Unidos, não aprovou nenhum teste não invasivo para
endometriose. Mas várias empresas oferecem produtos "apenas para fins de
pesquisa" ou por meio de uma brecha regulatória que a FDA tentou, sem
sucesso, fechar.
Às
vezes, a endometriose aparece em ressonâncias magnéticas ou ultrassonografias,
mas muitas vezes isso não acontece. Assim, para muitas mulheres, a única forma
de obter um diagnóstico definitivo é um cirurgião procurar lesões e realizar
biópsias. A premissa dos novos testes é que eles podem detectar biomarcadores —
isto é, alterações em fluidos ou funções do organismo — associados à doença.
Um
deles, chamado Endotest, analisa a saliva em busca de um padrão de microRNAs,
moléculas envolvidas na regulação dos genes. Outro, o EndoSure, mede a
atividade elétrica gastrointestinal. Um terceiro, o EndomTest, procura duas
proteínas no sangue. Cada teste é respaldado por pelo menos um estudo revisado
por pares, conduzido ou financiado por seu fabricante.
Um
quarto teste, da Xella Health, usa um algoritmo proprietário de inteligência
artificial para analisar biomarcadores sanguíneos, sintomas e histórico médico
e estimar o risco de endometriose, mas sua precisão não foi avaliada
publicamente. A Xella também está desenvolvendo um teste com fluido menstrual,
baseado, até o momento, em uma análise não publicada de 28 amostras — número
insuficiente para tirar conclusões, considerando o quanto a endometriose pode
variar de uma paciente para outra, segundo Stacey Missmer, professora de saúde da mulher da
Faculdade de Medicina da Universidade de Michigan.
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endometriose
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condição afeta o corpo
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Quais
são as evidências?
Os
estudos iniciais do Endotest e do EndoSure constataram que eles identificaram
corretamente mais de 90% das pessoas com e sem endometriose. Mas os estudos
tinham limitações, segundo muitos especialistas, entre elas o tamanho, os tipos
de pacientes e o fato de terem sido financiados ou conduzidos pelos fabricantes
dos produtos.
O
principal estudo do Endotest envolveu 971 pacientes; o do EndoSure, 154. Nos
dois casos, a maioria tinha endometriose. Os testes podem apresentar um
desempenho enganosamente bom em populações de "alta prevalência" como
essas, porque há poucas oportunidades de diagnosticar equivocadamente pessoas
que têm outras condições, diz Tamer Seckin, cirurgião especializado em
endometriose e fundador da Endometriosis Foundation of America.
Um
estudo recente do Endotest realizado por pesquisadores independentes encontrou
resultados menos expressivos, mas era pequeno e foi conduzido com uma população
pouco representativa. Dois estudos pequenos realizados na Bélgica e no Brasil
também analisaram o EndoSure, mas ainda não passaram por revisão por pares e
incluíram tão poucas pessoas sem endometriose que os pesquisadores não
conseguiram estimar de forma confiável a eficácia do teste para identificá-las
corretamente.
A
Ziwig, fabricante do Endotest, afirmou que estavam em andamento "estudos
prospectivos em condições reais envolvendo até 25.000 mulheres". Mark
Noar, presidente-executivo do EndoSure, disse que a empresa também estava
realizando estudos com populações mais amplas.
Muitos
especialistas disseram considerar promissora a tecnologia de microRNA por trás
do Endotest, embora ainda não esteja aperfeiçoada. Embora não haja muitos
estudos sobre o Endotest, o potencial geral dos microRNAs como biomarcadores
foi mais estudado.
As
evidências sobre a tecnologia do EndoSure, que analisa sinais elétricos
intestinais, são mais preliminares, segundo Seckin, Shin e Ted Lee, diretor de
cirurgia ginecológica minimamente invasiva da NYU Langone Health.
Christine
Metz, professora dos Feinstein Institutes for Medical Research, da Northwell
Health, disse que o estudo inicial do EndoSure era promissor. Mas Metz observou
que diversas doenças, medicamentos e outros fatores podem afetar a motilidade
intestinal; por isso, são necessárias mais pesquisas para confirmar se os
sinais medidos pelo EndoSure são específicos da endometriose.
Quanto
ao EndomTest, a opção baseada em proteínas, um pequeno estudo realizado por seu
desenvolvedor mostrou quase nenhum falso positivo, mas muitos falsos negativos:
ele identificou apenas 46,2% das pessoas com endometriose. Andrew Levin, CEO da
empresa que licenciou o teste, diz que outros estudos estavam em andamento. E,
apesar da ausência de falsos positivos no estudo, o teste se baseia, em parte,
em uma proteína cujos níveis aumentam em muitas doenças. A empresa afirma que a
análise conjunta de duas proteínas torna o teste mais preciso, mas Seckin e
Missmer se mostraram céticos.
O
que vem a seguir?
É
possível que um teste atualmente disponível no mercado — ou uma versão
modificada dele — seja validado dentro de alguns anos.
"Considero
essas iniciativas primeiros passos muito promissores", diz Beyaz.
Enquanto
isso, os especialistas enfatizaram que os médicos podem ter segurança de que
muitas pacientes têm endometriose com base nos sintomas e no exame físico e
tratá-las de acordo com essa avaliação. "Poderíamos fazer muito, muito
melhor desde já se simplesmente ouvíssemos nossas pacientes", diz Hugh
Taylor, professor e chefe do Departamento de Obstetrícia, Ginecologia e
Ciências Reprodutivas da Faculdade de Medicina de Yale, que estuda o microRNA
como marcador de endometriose.
Os
novos testes talvez sejam mais úteis para pacientes cujos sintomas são
ambíguos, como aquelas com infertilidade
sem causa aparente, mas sem dor, ou adolescentes com sintomas leves que
possam ser sinais iniciais de endometriose.
Além
do Endotest, um grande ensaio clínico está avaliando um exame de sangue de
microRNA chamado DotEndo, baseado nas pesquisas de Taylor. Taylor integra o
conselho consultivo científico da empresa. O ensaio foi elaborado em consulta
com a FDA, disse Heather Bowerman, fundadora e CEO da DotLab, fabricante do
teste. Se os resultados forem bons, afirmou ela, a DotLab poderá solicitar a
aprovação da FDA já em 2027, embora ainda não tenha decidido qual caminho
regulatório seguirá.
Ao
mesmo tempo, novas descobertas ressaltam o quanto os pesquisadores talvez ainda
desconheçam.
Um
artigo recente da equipe de Taylor foi um dos primeiros a relatar que
adolescentes com endometriose em estágio inicial podem apresentar marcadores de
microRNA diferentes dos observados em adultas. Isso pode significar que sejam
necessários testes diferentes, diz a autora principal, Alla Vash-Margita,
professora associada de obstetrícia, ginecologia e ciências reprodutivas de
Yale.
Taylor
diz acreditar que "teremos métodos não invasivos de diagnóstico da
endometriose em um futuro próximo". Mas acrescenta: "É difícil saber
se algum dos que estamos vendo agora será o melhor teste".
Fonte _ Folha/SP






