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sexta-feira, 20 de março de 2026

InfoGripe indica aumento da circulação de influenza A no Brasil

 


O novo Boletim InfoGripe da Fiocruz alerta para o aumento da circulação da influenza A no país antes de sua sazonalidade convencional: o vírus costuma apresentar alta atividade no outono e no inverno. O outono tem início nesta sexta-feira (20/3) e a análise é referente à Semana Epidemiológica (SE) 10, período de 8 a 14 de março. O Boletim indica que a influenza A segue avançando em nível nacional, impulsionando o aumento de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) no Mato Grosso e na maioria dos estados do Nordeste (exceto Piauí) e em alguns estados do Norte (Amapá, Pará e Rondônia) e do Sudeste (Rio de Janeiro e Espírito Santo). 

O Ministério da Saúde definiu três estratégias nacionais de vacinação para 2026, com foco na ampliação da cobertura vacinal e na redução de doenças imunopreveníveis. A campanha de vacinação contra a influenza nas regiões Nordeste, Centro-Oeste, Sul e Sudeste será realizada de 28 de março a 30 de maio, com o Dia D marcado para o primeiro dia da ação. "A principal forma de prevenção contra os casos graves e óbitos é a vacina. Já temos a vacina contra o VSR para as gestantes e no dia 28 começa a vacinação contra a influenza A para os grupos prioritários", afirma a pesquisadora Tatiana Portella, da Fiocruz.

A atualização mostra que, em nível nacional, o cenário atual aponta que os casos notificados de SRAG indicam aumento na tendência de longo prazo. Referente ao ano epidemiológico 2026, já foram notificados 20.311 casos de SRAG, sendo 7.523 (37%) com resultado laboratorial positivo para algum vírus respiratório, 8.398 (41,3%) negativos e cerca de 2.853 (14%) aguardando resultado laboratorial. Dados de positividade para semanas recentes estão sujeitos a grandes alterações em atualizações seguintes por conta do fluxo de notificação de casos e inserção do resultado laboratorial associado.


Estados e capitais

Segundo a análise, o número de casos SRAG apresenta sinal de aumento no cenário nacional nas tendências de longo (últimos seis meses) e de curto prazo (últimos três meses). Todos os estados, exceto Piauí, sinalizam crescimento nos casos de SRAG na tendência de longo prazo até a SE 10.

Crianças e adolescentes têm sido afetados principalmente pelo rinovírus. Entre jovens, adultos e idosos a principal causa tem sido a influenza A. O vírus sincicial respiratório (VSR) também tem contribuído para o aumento de SRAG nas crianças pequenas. Já a Covid-19 afeta principalmente os idosos (embora esteja concentrado apenas em alguns estados do Sudeste, como Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo) e apresenta ainda níveis baixos de incidência. Com relação ao aumento das hospitalizações, as principais causas tem sido o rinovírus (especialmente entre crianças e adolescentes de 2 a 14 anos), a influenza A e o VSR.

Em relação ao VSR, o vírus segue contribuindo para o crescimento de SRAG em crianças menores de dois anos em muitos estados do Norte (Acre, Amazonas, Pará, Roraima e Rondônia), além de em alguns estados Centro-Oeste (Mato Grosso e Goiás) e Nordeste (Paraíba e Sergipe). Entre os estados, 20 estão com nível de atividade de SRAG em alerta, risco ou alto risco (últimas duas semanas): Acre, Amazonas, Pará, Amapá, Rondônia, Roraima, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Distrito Federal, Maranhão, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Sergipe, Alagoas, Bahia, Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro.

O Boletim verificou que 18 das 27 capitais apresentam nível de atividade de SRAG em alerta, risco ou alto risco, com sinal de crescimento na tendência de longo prazo até a SE 10: Aracaju (Sergipe), Belo Horizonte (Minas Gerais), Brasília (Distrito Federal), Boa Vista (Roraima), Campo Grande (Mato Grosso do Sul), Cuiabá (Mato Grosso), Fortaleza (Ceará), Goiânia (Goiás), João Pessoa (Paraíba), Macapá (Amapá), Maceió (Alagoas), Manaus (Amazonas), Natal (Rio Grande do Norte), Porto Velho (Rondônia), Recife (Pernambuco), Rio de Janeiro (Rio de Janeiro), Salvador (Bahia) e São Luís (Maranhão).

Prevalência de casos e óbitos

Em 2026, os casos positivos se deram em 41,9% devido ao rinovírus; em 21,8% à influenza A; em 14,7% ao Sars-CoV-2 (Covid-19); em 13,4% ao VSR; e em 1,5% à influenza B. Nas quatro últimas semanas epidemiológicas, a prevalência entre os casos positivos foi de 45,4% para o rinovírus; 25,4% para a influenza A; 13,4% para o VSR; 11,3% para o Sars-CoV-2 (Covid-19); e 1,3% para influenza B.

Dentre os óbitos positivos do ano corrente, observou-se 37,3% de Sars-CoV-2 (Covid-19); 28,6% de influenza A; 21,8% de rinovírus; 4,5% de VSR; e 2,5% de influenza B. Nas quatro últimas semanas epidemiológicas, a prevalência entre os óbitos positivos foi de 30,8% para influenza A; 30,8% para Sars-CoV-2; 27,5% para rinovírus; 5,5% para VSR; e 2,7% para influenza B.

Boletim InfoGripe é uma estratégia do Sistema Único de Saúde (SUS) voltada ao monitoramento de casos de SRAG no país. A iniciativa oferece suporte às vigilâncias em saúde na identificação de locais prioritários para ações, preparações e resposta a eventos em saúde pública.

Fonte _ FioCruz

quinta-feira, 19 de março de 2026

Anvisa determina recolhimento de esmaltes em gel da Impala por substância que pode afetar fertilidade

 


Anvisa determinou que a Impala recolha todos os lotes de esmaltes em gel por conterem um ingrediente proibido pelo órgão. Os produtos são o Plus Gel Esmalte Impala Gel, Esmalte Gel Impala Gel Plus, Gel Plus Impala Esmalte Gel, Esmalte Gel Plus Impala e Top Coat Gel Impala Gel Plus Clear.

A medida, anunciada nesta segunda-feira (16), foi tomada após a empresa do grupo Mundial SA comunicar sobre o recolhimento voluntário, segundo nota do órgão de vigilância sanitária. A Impala afirma que passou a restringir o uso da substância em produtos cosméticos assim que tomou conhecimento da proibição e adotou medidas imediatas de adequação regulatória.

"Importante esclarecer que nem todos os produtos da linha Impala Gel Plus continham TPO em sua composição. A medida, portanto, se restringe exclusivamente às tonalidades específicas da linha que utilizavam a substância", diz a nota.

A empresa orienta os clientes a entrar em contato com o SAC para receber orientações ou esclarecimentos adicionais.

Os produtos têm na formulação o TPO (Trimethylbenzoyl Diphenylphosphine Oxide), substância vetada na produção de cosméticos, produtos de higiene pessoal e perfumes no Brasil, que pode estar presente em produtos usados para fazer unhas artificiais em gel ou esmaltes em gel, que precisam ser expostos à luz ultravioleta (UV) ou LED

A proibição foi decretada em outubro do ano passado pela Anvisa —junto com outra substância, a DMPT—, como medida para proteger a saúde de quem usa o produto e, sobretudo, dos profissionais que trabalham com eles.

A Anvisa partiu de estudos internacionais feitos em animais que confirmaram que a substância apresenta riscos, como ser tóxico para a reprodução, podendo prejudicar a fertilidade. A União Europeia também baniu o ingrediente recentemente.

O texto publicado no Diário Oficial diz que "os eventos adversos dessas substâncias estão, em geral, associados a exposições repetidas e prolongadas, de modo que contatos ocasionais ou pouco frequentes representam risco significativamente menor, o que, contudo, não afasta a necessidade de uma medida tempestiva de proibição dessas substâncias".

A resolução foi publicada em 30 de outubro de 2025 e estabeleceu o prazo de 90 dias para que a comercialização dos produtos já existentes fosse concluída --ou seja, até 2 de fevereiro deste ano. A Impala afirma que em 28 de janeiro já havia comunicado distribuidores e clientes sobre a interrupção das vendas e recolhimento dos itens.

A diretora Daniela Marreco diz na decisão que "ainda que o risco ocupacional seja mais intenso, usuárias e usuários também estão sujeitos aos efeitos nocivos decorrentes da exposição, reforçando sua dimensão social".

"Cabe destacar que os referidos produtos foram desenvolvidos e comercializados em conformidade com o marco regulatório vigente à época de sua fabricação e comercialização, tendo sido a medida adotada pela empresa motivada pela posterior atualização normativa que alterou os critérios de utilização da referida substância em cosméticos", diz a Impala em nota.

Veja a lista completa de produtos que serão recolhidos

  • Esmalte Gel - Impala Gel Plus - Cremoso - Inspiradora Blister
  • Esmalte Gel - Impala Gel Plus - Cremoso - Expressiva Blister
  • Esmalte Gel - Impala Gel Plus - Cremoso - Enigmática Blister
  • Esmalte Gel - Impala Gel Plus - Cremoso - Envolvente Blister
  • Esmalte Gel - Impala Gel Plus - Cremoso - Talentosa Blister
  • Esmalte Gel - Impala Gel Plus - Cremoso - Ousada Blister
  • Esmalte Gel - Impala Gel Plus - Cremoso - Branco Puro Blister
  • Esmalte Gel - Impala Gel Plus - Cremoso - Forte Blister
  • Esmalte Gel - Impala Gel Plus - Cremoso - Artista Blister
  • Esmalte Gel - Impala Gel Plus - Cremoso - Preto Intenso Blister
  • Esmalte Gel - Impala Gel Plus - Cremoso - Espontânea Blister
  • Esmalte Gel - Impala Gel Plus - Cremoso - Otimista Blister
  • Esmalte Gel - Impala Gel Plus - Cremoso - Motivada Blister
  • Esmalte Gel - Impala Gel Plus - Cremoso - Sempre Clássica Blister
  • Esmalte Gel - Impala Gel Plus - Cremoso - Sonhadora Blister
  • Top Coat Camuflagem Impala Gel Plus - Crystal Rose - Blister
  • Top Coat Camuflagem Impala Gel Plus - Crystal Nude - Blister
  • Top Coat Camuflagem Impala Gel Plus - Crystal Shimmer - Blister
  • Top Coat Camuflagem Impala Gel Plus - Crystal Soft - Blister
  • Top Coat Gel - Impala Gel Plus - Clear Blister

 

Fonte _ Folha/SP

Como se fabricou a ancestralidade do veneno do sapo 5-MeO-DMT

 


O bode preto no salão VIP do renascimento psicodélico é um sapo, Incilius alvarius. Também conhecida como bufo ou veneno do sapo, a substância 5-MeO-DMT está no centro de uma ancestralidade fabricada para satisfazer a romantização indígena de medicinas sagradas contra a miséria espiritual do mundo presente.

Agradeço ao psicólogo Bruno Ramos Gomes pela indicação do erudito artigo de Ana Maria Ortiz Bernal, Charles Raison e colaboradores no periódico Psychedelics. O texto reconstrói o fascinante percurso de transmutação de uma substância sintetizada em 1936 em prática milenar dos Comcáac de Sonora, noroeste do México, também conhecido como povo Seri.

Antes de puxar o fio da meada com Ortiz e Raison, cabe algum contexto sobre 5-MeO-DMT. Embora tenha sido produzida em laboratório por químicos japoneses na década de 1930, o composto está presente também em glândulas de defesa do sapo-do-deserto-de-sonora (I. alvarius, antes denominado Bufo alvarius), como se verificou em 1965.

Esse alterador da consciência não provoca fortes manifestações visuais, à diferença de outros psicodélicos clássicos como mescalina, LSD, DMT da ayahuasca ou psilocibina de cogumelos. Caiu nas graças de psiconautas a partir de 1984, ano em que Ken Nelson fumou a secreção e escreveu um panfleto sobre a experiência.

O efeito da substância foi descrito em artigo científico de Wade Davis e Andrew Weil em 1992. Manifesta-se em segundos e dura cerca de 20 minutos, no que também diverge dos clássicos, cujas viagens duram de 4 a 10 horas. Uma descrição da experiência pode ser encontrada num texto de 2024 neste blog que também apresenta uma sessão com cetamina.

Não foram só psiconautas a se entusiasmar com a transcendência propiciada, pois seu potencial terapêutico também cativou a atenção de investidores em psicodélicos para tratar transtornos mentais. Caso da empresa Beckley PsyTech, hoje AtaiBeckley, que busca patentes e licenças para o tratamento breve contra depressão.

Por fim, a 5-MeO-DMT conta com uso tradicional na forma de rapés preparados por indígenas da América Central e do Sul com sementes de angico (Anadenanthera peregrina) ou com a seiva da virola (Virola theiodora). Não há registro etnográfico do consumo cerimonial do veneno do sapo entre povos tradicionais, embora tenha se espalhado a prática de fumar a "sagrada medicina do sapo".

O artigo rastreia essa fábula lucrativa até o ano de 2011, quando uma comunidade Comcáac cria a Fundação OTA.C ("otac" em sua língua é um termo geral para sapo, depois erigido em nome próprio como suposto enteógeno ancestral). O uso da secreção havia sido introduzido para combater o abuso crescente de metanfetamina por jovens do grupo.

A lenda do costume ancestral dos Comcáac foi propagada em obras como o livro "O Sapo da Aurora" (2016), de Octavio Rettig Hinojosa, e o documentário "OTAC e a Cerimônia da Antiga Medicina Sagrada" (2019), de Leonardo Bondani. O consumo do veneno do sapo se popularizou, a espécie está ameaçada em certas regiões e um quilo da secreção pode custar US$ 50 mil no mercado enteogênico internacional. A OTA.C passou a emitir permissões para cerimônias "autênticas" por US$ 500.

Ancestralização é uma coisa, fabricação de ancestralidade é outra. No primeiro caso se encaixa entre outras a história do povo Yudja (Juruna) do Xingu, que passou a consumir ayahuasca recentemente e a contemplou em mitos recondicionados como medicina que teria sido perdida quando antepassados abandonaram o território ancestral após dilúvio mítico.

Mesmo entre povos ayahuasqueiros da selva amazônica haverá aqueles que adquiriram ou retomaram o uso da bebida em período recente, em sua luta para reconstruir a própria cultura dizimada pelo genocídio colonial. Assim se reinventam e sobrevivem as sociedades tradicionais, tudo normal.

No segundo caso, pode-se alegar desvio ético, com a construção de uma narrativa em busca de legitimidade para uma atividade comercial, que responde ao anseio de consumidores abastados por sabedoria indígena para edulcorar suas experiências psicodélicas. Uma das muitas distorções e apropriações culturais abusivas engendradas no pujante mercado neoxamânico global.

Fonte _ Folha/SP

terça-feira, 17 de março de 2026

Entenda o que é meningite meningocócica bacteriana; Inglaterra registra surto da doença

 


Um surto de 15 casos de meningite meningocócica (bacteriana), declarado na Inglaterra causou a morte de dois jovens, anunciou nesta terça-feira (17) o ministro da Saúde britânico, Wes Streeting. Trata-se de uma infecção que se instala quando uma bactéria ataca as meninges, três membranas que envolvem e protegem o encéfalo, a medula espinhal e outras partes do sistema nervoso central. A transmissão é por via respiratória.

Desses 15 casos, quatro, incluindo as duas mortes, foram infecções meningocócicas "do grupo B", raras, mas muito graves.

Os dois mortos são uma aluna do último ano do ensino médio, de 18 anos, da Queen Elizabeth's Grammar School em Faversham, e um estudante de 21 anos da Universidade de Kent. Saiba mais sobre a doença a seguir.

Desde então, dados do Google Trends mostram que o interesse por meningite no Reino Unido atingiu, em março, o maior nível já registrado. Parte relevante das buscas está relacionada à vacina contra a doença.


O que é e quais são os sintomas?

Meningite é uma doença grave que atinge as meninges, a camada que protege todo o cérebro, afirma Rosana Richtmann, infectologista do Instituto de Infectologia Emílio Ribas. A inflamação pode gerar dor de cabeça, febre, vômitos e até convulsão.

"O que assusta muito na meningite meningocócica é a rápida evolução entre o início dos sintomas e o paciente estar em coma grave e morrer. Estamos falando de 24 ou 48 horas", afirma.

O período de incubação é curto. Após contato com a bactéria, com dois dias é possível já apresentar sinais no quadro clínico. A transmissão acontece através de gotículas respiratórias, ou seja, atos de tossir, falar e beijar podem transmitir a doença. Por isso, adultos jovens e adolescentes são mais propícios a carregarem a bactéria sem os sintomas, segundo a especialista. "Não é incomum a gente ver surtos em ambientes fechados, como no caso do Reino Unido", acrescenta.

Os sintomas dependem da idade, segundo Renato Kfouri, pediatra infectologista. Crianças maiores e adolescentes têm febre alta, dor de cabeça e vômito. No exame, o sintoma clássico é a rigidez na nuca.

Por que pode levar à morte?

meningite meningocócica desencadeia uma resposta inflamatória intensa no organismo. Quando a bactéria atinge o sistema nervoso central ou a corrente sanguínea, o corpo reage de forma exagerada, o que pode levar à falência de órgãos, afirma Alexandre Naime Barbosa, chefe do Departamento de Infectologia da Unesp.

"No caso da meningococcemia, ocorre uma espécie de tempestade inflamatória, com queda da pressão arterial, dificuldade de circulação e comprometimento de órgãos vitais como rins, pulmões e coração, também chamado de choque séptico", diz o especialista. No cérebro, o processo pode aumentar a pressão do crânio, prejudicando funções essenciais.

Como é o tratamento?

Segundo Naime, o tratamento é uma emergência e deve começar imediatamente, com antibióticos na veia. Os mais usados, diz ele, são as cefalosporinas de terceira geração, como a ceftriaxona, porque agem rápido e cobrem os casos suspeitos.

Mesmo assim, o risco de morte no Brasil gira em torno de 20%, diz Richtmann. "Do ponto de vista de pessoas que entraram em contato com a bactéria, o ideal, e o Reino Unido está fazendo isso, é logo tirar o estado de carreador de nasofaringe, ou seja, dar antibiótico para pessoas sem sintomas e que são candidatos a estarem carregando a bactéria, para tentar evitar que o surto se dissemine", explica.

No país britânico, a letalidade é em torno de 10%, acrescenta Kfouri. "Tem a ver com diagnóstico precoce e instituição de tratamento rápido".

O que é o subtipo do grupo B, que gerou duas mortes na Inglaterra?

meningococo é classificado em diferentes sorogrupos, que são variações da bactéria com características imunológicas distintas, afirma Naime. O grupo B é um desses sorogrupos e tem particular relevância porque é uma causa importante de meningite em vários países, inclusive o Brasil.

"O desafio histórico é que ele é mais difícil de prevenir com vacinas tradicionais, porque sua estrutura é semelhante a componentes do próprio organismo humano, o que dificulta o desenvolvimento de imunizantes", diz.

Apesar disso, já existem vacinas específicas contra o meningococo B, desenvolvidas com tecnologias mais modernas.

Existem vacinas?

Sim. Diversas bactérias podem causas a doença. No Brasil, a vacina meningocócica C faz parte do calendário infantil do SUS (Sistema Único de Saúde), segundo Naime, com impactos comprovados na redução de casos graves.

Além dela, existe a vacina ACWY, que protege contra os quatro sorogrupos e está no Programa Nacional de Imunizações.

Já a vacina contra o meningococo B, que cobre o tipo da bactéria que causou as duas mortes no Reino Unidos, não está disponível no SUS, conforme Kfouri. A indicação para esses imunizantes pode variar conforme idade, risco e disponibilidade.

Fonte _ Folha/SP

segunda-feira, 16 de março de 2026

Acre tem 8 vagas abertas para especialização em enfermagem neonatal pelo SUS

 


Ministério da Saúde inicia, nesta segunda-feira (16), a seleção de profissionais de enfermagem que atuam em unidades neonatais de referência no Sistema Único de Saúde (SUS), por meio da Especialização em Enfermagem Neonatal. Com investimento de R$ 2,6 milhões, serão ofertadas 310 vagas por meio de edital nacional. As inscrições estão abertas a partir de hoje e vão até o dia 6 de abril na plataforma SIGA-LS (veja abaixo). O estado do Acre conta com 8 vagas a serem preenchidas na capital, Rio Branco. 

As oportunidades são voltadas às regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, onde há maior déficit dessa especialização. A previsão de início do curso é no mês de junho. 

De acordo com o secretário de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde, Felipe Proenço, a iniciativa é mais uma ação para qualificar a força de trabalho e ampliar a cobertura de atendimentos para o público feminino. “Nosso objetivo é fortalecer e valorizar a enfermagem no âmbito do SUS, além de qualificar a oferta dos serviços. Ao atacar desigualdades históricas, fortalecemos a resolutividade nas redes regionais”, destaca.  

O curso será executado pelo Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz). A especialização em Enfermagem Neonatal para o SUS: Redução de desigualdades e Qualificação de Atenção Neonatal terá duração de 14 meses. Com a formação, que integra o programa Agora Tem Especialistas, será possível ampliar em mais de 30% o número atual de enfermeiros neonatais que atuam no SUS. 

Oportunidades nas capitais e no interior 

Do total de vagas, 206 são para capitais (66%) e 104 para municípios do interior (34%). Regionalmente, a oferta será de 56 para o Centro-Oeste, 182 para o Nordeste e 72 para o Norte, contemplando 64 hospitais em 36 municípios brasileiros.  Em Rio Branco, as vagas serão destinadas a duas unidades de saúde: a Maternidade e Clínicas de Mulheres Barbara Heliodora e o Hospital Santa Juliana. 

O edital também reserva 172 vagas para ações afirmativas. A oferta de mais profissionais especializados possibilita identificação precoce de riscos, manejo clínico oportuno e intervenção segura, reduzindo óbitos evitáveis. 

Reforço para a Saúde da Mulher 

O Ministério da Saúde tem investido na formação de mais especialistas para fortalecer a atenção obstétrica e neonatal no SUS. Em 2025, foram destinados R$ 17 milhões à realização da Especialização em Enfermagem Obstétrica - Rede Alyne. O curso conta com 760 profissionais de enfermagem, em parceria com 38 instituições vinculadas às Instituições de Ensino Superior (IES) e Escolas de Saúde Pública (ESP). O curso é executado pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com o apoio da Associação Brasileira de Obstetrizes e Enfermeiros Obstetras (Abenfo).

O curso teve como diferencial a priorização de profissionais que atuam em territórios interiorizados, fortalecendo o compromisso com a equidade e a ampliação do acesso à formação especializada. Dessa forma, a maior concentração de aprovados, por meio de edital, foi no Nordeste 264 (35%), em 368 municípios. Além de presença nos nove estados da Amazônia legal, com total de 194 vagas disponibilizadas. 

Acesse o edital

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Fonte _ Saúde.gov

IBu 125 anos | O Butantan nos braços dos brasileiros: a trajetória da produção de vacinas do Instituto ao longo de mais de um século


No Especial 125 anos do Instituto Butantan, viaje pela História e pelas histórias que fazem dessa instituição centenária uma referência global em pesquisa, produção e educação científica.

Embora os soros estejam diretamente ligados à origem do Butantan, as dezenas de vacinas desenvolvidas e produzidas pelo Instituto ao longo de seus 125 anos de existência também tiveram papel decisivo para consolidar sua importância na história da saúde pública brasileira. Da campanha de erradicação da varíola, na década de 1970, ao enfrentamento de emergências sanitárias recentes, como as pandemias de gripe e Covid-19, a instituição deixou sua marca nos principais momentos da imunização no país.

Ao longo desse percurso, desenvolveu, fabricou e distribuiu vacinas que protegeram milhões de brasileiros de doenças como tuberculose, difteria, tétano, coqueluche, hepatite B e gripe. E, agora, inicia um novo capítulo com a chegada aos postos de saúde da Butantan-DV, imunizante capaz de proteger contra os quatro sorotipos da dengue.

Entre avanços científicos, desafios tecnológicos e décadas de investimento em pesquisa, a história das vacinas no Instituto Butantan acompanha e impulsiona a própria evolução das políticas de imunização no Brasil.

Registro de um dos laboratórios do Instituto Vacinogênico em 1905 (Acervo do Instituto Butantan/Centro de Memória)

O nascimento dos institutos de saúde paulistas

No final do século XIX, o sucesso da cultura cafeeira fez com que o estado de São Paulo experimentasse um rápido desenvolvimento econômico, atraindo imigrantes e migrantes de todo o país. Esse grande salto populacional, atrelado às particularidades sanitárias da época, contribuiu para que diversos municípios se tornassem redutos de doenças como a peste bubônica e a varíola.

A fim de combater as crescentes epidemias, o governo estadual apostou na criação de instituições de saúde e pesquisa, inspiradas no modelo do Instituto Pasteur, na França, que tinha como missão o tratamento de doenças infecciosas por meio de pesquisa, ensino e iniciativas de saúde pública.

Em São Paulo surgiram então o Instituto Bacteriológico, criado em 1892 com foco no estudo científico de doenças e no fornecimento de imunobiológicos e tratamentos preventivos; o Instituto Vacinogênico, fundado em 1894 para suprir a demanda por vacinas contra varíola; e o próprio Instituto Butantan (na época, chamado Instituto Serumtherapico), dedicado em um primeiro momento à fabricação do soro antipestoso. 

Em 1917, o Instituto Vacinogênico deixou de ser um órgão autônomo, sendo primeiramente anexado pelo Bacteriológico, até que em 1924 suas instalações foram transferidas para o Butantan. O movimento consolidou o então Instituto Serumtherapico como o laboratório responsável por preparar a maior parte dos soros e vacinas requisitados pelo Serviço Sanitário do estado

Etapa de tuberculização de bovino no antigo Instituto Vacinogênico (Acervo Instituto Butantan/Centro de Memória)

“Um só [laboratório], com várias seções subordinadas, ofereceria maior vantagem. A nosso ver, em Butantã, não fosse a dificuldade ainda existente de meios de locomoção e transporte para o mesmo, é que se deveriam reunir todos os nossos laboratórios e unificar-se, assim, diversos serviços de uma só natureza. Alguma coisa já fizemos nesse sentido, como a anexação do Instituto Vacinogênico ao Serumtherapico, que assim formarão um instituto para o preparo de todos os soros, vacinas e demais produtos de que necessite o Serviço Sanitário”

(Geraldo Horácio de Paula Souza, médico e diretor do Serviço Sanitário de São Paulo entre 1922 e 1927, em memória publicada no número 17 do “Boletim do Instituto de Higiene de São Paulo”, 1923)

Apesar de ter fornecido o imunizante contra a varíola em escala industrial ao longo de seus sete anos de funcionamento, o Instituto Vacinogênico focou no desenvolvimento de um único produto, não diversificando seu portfólio e nem ampliando seus experimentos. Por outro lado, o Butantan foi além do que lhe foi designado: assumiu a vanguarda dos estudos contra o ofidismo, ampliou a área de pesquisa científica e a gama de produtos fabricados. Em 1925, a instituição já produzia as vacinas antipestosa, gonocócica, estreptocócica, estafilocócica e tífica, além dos soros antiofídicos e antipestoso.

“O soro foi uma das primeiras intervenções terapêuticas que possibilitou salvar vidas de doenças infecciosas. E quando o mundo começou a fazer vacinas, o Butantan seguiu essa tendência. É interessante que as vacinas seguem praticamente o mesmo princípio dos soros, mas em vez de oferecer uma imunização passiva e ser usado quando a pessoa já está doente, elas conferem uma imunização ativa. Foi um curso natural, uma evolução”, observa o gerente de Desenvolvimento e Inovação de Produtos do Instituto Butantan, Paulo Lee Ho. 

Fachada da antiga Seção de Vacina Jenneriana do Instituto Butantan ((Acervo do Instituto Butantan/Centro de Memória)

Início da produção da vacina contra varíola

Com a extinção do Instituto Vacinogênico em 1925, o Butantan assumiu a produção do imunizante e criou a Seção de Vacina Jenneriana. O nome do setor fazia referência ao médico britânico Edward Jenner (1749-1823), que em 1796 desenvolveu o primeiro imunizante da história, capaz de proteger contra a varíola. Após observar que os trabalhadores rurais que ordenhavam vacas desenvolviam apenas uma forma mais branda da doença, Jenner decidiu utilizar o vírus bovino para proteger as pessoas da versão humana da varíola, que tinha altíssima mortalidade.

Por conta dessa particularidade, a produção do imunológico no Butantan envolvia o uso de vitelos. Os animais serviam como um tipo de “incubadora” para a reprodução do vírus, que era inoculado diretamente na epiderme. Após 96 horas, o líquido das pústulas formadas sobre a pele lesionada do bicho era coletado e, posteriormente, centrifugado, tratado e liofilizado. Segundo registros, essa estrutura foi responsável pela fabricação de mais de 25 milhões de doses de vacina contra a varíola entre os anos de 1939 e 1947.

Paralelamente, o Instituto também trabalhava na produção de outros imunizantes. Ao longo da década de 1950, foram implementadas em escala industrial as vacinas contra raiva, febre amarela e coqueluche. A BCG, por exemplo, chegou à marca de mais de 1,5 milhão de doses anuais no período.

Jandyra Planet do Amaral colhendo sangue de alunos do grupo escolar do Butantan (Acervo do Instituto Butantan/Centro de Memória)

A erradicação da varíola

Apesar dos esforços de produção do Butantan, a varíola continuava sendo uma ameaça constante para a saúde dos brasileiros, uma vez que as campanhas de imunização não contavam com uma boa adesão populacional. Na década de 1960, o Brasil era o único país da América do Sul a ainda registrar casos de varíola.

Nesse contexto, a pesquisadora Jandyra Planet do Amaral (1905-2010) assumiu a diretoria-geral do Instituto Butantan, cargo que ocupou entre 1968 e 1975. Graduada pela Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo (atual Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo), ela foi uma das mulheres pioneiras na conquista do grau de doutora no país, além de ser uma das primeiras a integrar o corpo científico da instituição. A pesquisadora trabalhou na modernização dos laboratórios produtores de vacina, a fim de torná-los mais bem equipados e independentes, suprindo as demandas estaduais.

Tais esforços coincidiram com a Campanha de Erradicação da Varíola (CEV), encabeçada pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Lançado no final da década de 1950, o programa foi reorganizado em 1965, com foco em campanhas de imunização em massa, vigilância e contenção de casos. Como parte da ação, o Butantan recebeu uma visita técnica da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) – os especialistas do órgão conheceram a capacidade operacional do Instituto e puderam identificar oportunidades de melhorias. 

A parceria com a entidade internacional também permitiu que, em 1970, técnicos do Butantan realizassem um estágio no Instituto Malbran, na Argentina, para aprender o método de produção do imunizante em ovinos. Além do manejo simplificado, o uso do animal ajudou a reduzir os custos operacionais e a aumentar a potência do produto.

Todas essas melhorias contribuíram para que, em 1974, a produção da vacina contra varíola do Butantan superasse as 20 milhões de doses anuais – volume que desde 1968 era solicitado pela Secretaria de Saúde. Embora a doença tenha sido considerada erradicada no Brasil em 1971 e nas Américas em 1973, o Instituto seguiu com a produção do imunizante até meados da década de 1980 para a manutenção de reservas estratégicas do imunobiológico.

A produção em larga escala da vacina contra a varíola e o sucesso da vacinação em massa proposta pela CEV serviram como base para a implantação do Programa Nacional de Imunizações (PNI). Criado em 1975, o PNI é responsável por implementar políticas públicas de vacinação em todo o Brasil, sendo reconhecido internacionalmente por sua abrangência e efetividade.

Interior de laboratório da Seção de BCG do Instituto Butantan, no final da década de 1930 (Acervo do Instituto Butantan/Centro de Memória)

Jandyra do Amaral e o “boom” das vacinas

Além de sua atuação no combate e erradicação da varíola, Jandyra teve papel fundamental na implementação de outros imunizantes fabricados pelo Butantan ao longo das décadas de 1960 e 1970.

BCG, vacina capaz de proteger contra a tuberculose, por exemplo, foi um dos principais focos de estudo da pesquisadora. Tanto que, em 1958, ela passou uma temporada de seis meses no Instituto Pasteur, na França, a fim de aprimorar as técnicas e modernizar a linha fabril do Butantan, que era praticamente a mesma desde a década de 1920.

Complicado, o desenvolvimento do produto envolvia o uso de cerca de 100 kg mensais de batatas, horas de higienização de vidraria, além da operação de equipamentos extremamente complexos, como a máquina liofilizadora. “O crescimento do bacilo exigia uma técnica totalmente dependente da manipulação dos técnicos. Era um verdadeiro artesanato. Justamente por conta disso, as chances de desvios eram enormes”, lembra a pesquisadora científica e diretora técnica do Laboratório de Biológicos Recombinantes do Instituto Butantan, Elizabeth Martins. 

A instituição foi um dos mais importantes fornecedores de vacina BCG ao Ministério da Saúde até o início dos anos 2000, quando decidiu encerrar a produção por questões estratégicas de mercado. 

A pesquisadora Hisako Gondo Higashi esteve à frente do Instituto Butantan entre o final da década de 1990 e o início dos anos 2000 (Acervo do Instituto Butantan/Centro de Memória)

Era dos imunizantes bacterianos

A famosa vacina DTP, aplicada ainda nos primeiros meses de vida e capaz de proteger contra difteria, tétano e coqueluche, também foi herança do trabalho de Jandyra. O imunizante foi implementado em escala industrial no Butantan em 1965, após uma fase cuidadosa de experimentação encabeçada pela pesquisadora. 

Embora a fabricação só tenha sido alavancada após a década de 1970, o Instituto já dominava a produção isolada de seus componentes desde o início do século por conta dos soros antidiftérico e antitetânico. Já os estudos para o preparo da vacina contra a coqueluche (pertussis) haviam começado de forma experimental já na década de 1930.

Outra pesquisadora chave no processo de consolidação da vacina DTP em escala industrial foi Hisako Gondo Higashi. Formada em farmácia e bioquímica pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), ela chegou ao Butantan na década de 1960 e assumiu a direção geral do Instituto em dois momentos: entre março de 1997 e março de 1999; e novembro de 1999 a fevereiro de 2002.

“Foi muito difícil [a produção da DTP], porque tivemos que partir praticamente do zero até chegar a uma formulação correta. [...] Mas foi uma grande conquista, porque contribuímos para a redução do número de vacinas aplicadas nas crianças”
(Hisako Gondo Higashi em entrevista à Revista Pesquisa Fapesp, 2007)

Até o final da década de 1980 os imunizantes fabricados no Butantan abrangiam etapas artesanais e sistemas abertos, o que aumentava o risco de contaminação. Na fabricação da DTP, por exemplo, boa parte do crescimento das bactérias ainda acontecia em garrafas de vidro.

Com a consolidação do Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde (INCQS) em 1981, as lacunas na produção brasileira de imunobiológicos tornaram-se ainda mais evidentes. Para enfrentar a questão, o Ministério da Saúde impulsionou o Programa Nacional de Autossuficiência em Imunobiológicos (PASNI), que destinou recursos para a modernização das plantas nacionais. 

Foi nesse período de reestruturação que o pesquisador Isaias Raw (1927-2022), liderança científica da Universidade de São Paulo (USP), integrou-se ao Butantan, onde permaneceu à frente do Instituto e da Fundação entre as décadas de 1990 e 2000. “O Isaias foi inovador em todas as áreas que atuou. Aqui no Butantan ele encabeçou uma verdadeira revolução na área produtiva, buscando inspiração na indústria do leite, uma vez que a experiência havia mostrado que o alimento talhava quando existia contato humano. Partindo dessa premissa, ele implementou sistemas de produção completamente fechados e automatizados”, declara o gerente de Desenvolvimento e Inovação de produtos, Paulo Lee Ho, que esteve à frente da produção de vacinas da instituição entre os anos 2012 e 2016.

Após realizar melhorias na cadeia de soros, Isaias aplicou o mesmo racional nas linhas de vacinas, elevando o padrão de segurança e a qualidade dos produtos.

Registro da planta de produção de Vacinas Bacterianas tipo Pertussis, em 1993 (Acervo do Instituto Butantan/Centro de Memória)

O sucesso da tríplice bacteriana

No Butantan, o desenvolvimento da DTP dividia-se entre a produção dos concentrados aeróbicos (difteria e pertussis) e anaeróbico (tétano), que aconteciam respectivamente nos Prédios 53 e 39, além das etapas de formulação e envasamento, que ocorriam no Prédio 41. Após a modernização, as linhas ganharam biorreatores com controle automatizado e sistema de amostragem por bolsas estéreis, evitando a manipulação.

A DTP foi o carro-chefe das vacinas do Instituto Butantan por mais de duas décadas. Entre 1991 e 2009, a instituição entregou 327 milhões de doses do imunizante ao Ministério da Saúde, reduzindo a incidência dessas doenças de 15/100.000 crianças para menos de 1/100.000.

Em 2010, uma norma técnica (RDC 17/2010) da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) instituiu novos requisitos na fabricação de medicamentos, padronizando  as chamadas Boas Práticas de Fabricação (BPF). Por conta da necessidade de adequações da planta, a produção dos concentrados de DTP acabou sendo interrompida dois anos depois.

“É importante pontuar que a produção de diversos imunobiológicos do Butantan nasceu antes mesmo da própria Anvisa [criada em 1999]. Essa necessidade de adequação não indica que os produtos fabricados até ali não tinham qualidade, pelo contrário. Com o tempo, entendemos que essas mudanças fazem parte do processo. São pequenos ajustes que sempre vão ocorrer para tornar o produto cada vez melhor”, ressalta a diretora técnica de Vacinas Bacterianas, Milena Akamatsu, que chegou ao Butantan em 2007 para trabalhar na produção do imunobiológico,

Como a reforma das plantas dos concentrados de DTP teria um custo elevado, em um primeiro momento acabou-se optando pela construção de um novo prédio. Antes da parada programada, em 2012, o Butantan intensificou a produção e aumentou os estoques dos concentrados de difteria, tétano e pertussis, permitindo a formulação e entrega do imunizante ao Ministério da Saúde até 2016.

O pesquisador Isaias Raw (ao centro) durante inauguração da planta de produção de vacina contra a Hepatite B por recombinação genética (Acervo do Instituto Butantan/Centro de Memória)

A inovação da hepatite B

Desenvolvida em meados da década de 1990, a vacina contra a hepatite B foi uma das primeiras do país a ser obtida por meio de engenharia genética – mais precisamente com a técnica de DNA recombinante. No método, um gene capaz de codificar uma certa proteína do vírus causador da doença é inserido em levedura de fermento de cerveja, onde cápsulas idênticas às dele serão produzidas. 

A produção da vacina de hepatite B exigia o uso de maquinários altamente sofisticados, como biorreatores com capacidade para 2.000 litros e centrífugas de alta performance. O investimento do Instituto na produção do imunizante permitiu que seu preço reduzisse sensivelmente, tornando-o acessível ao sistema público de saúde brasileiro.

“A tecnologia não é simples, não apenas no que se refere à engenharia genética, mas porque a produção exige o emprego de centrífugas que atingem 200 mil vezes a força da gravidade e que foram desenvolvidas para a indústria de urânio”
(Isaias Raw em entrevista ao Portal Drauzio Varella, 2012)

Assim como a DTP, a fabricação do imunizante da hepatite B também foi interrompida em 2012 após a atualização das normas de Boas Práticas de Fabricação da Anvisa. Atualmente, o Butantan continua participando do abastecimento da vacina no país, atuando como intermediário na aquisição do imunizante e repassando as doses para distribuição pelo PNI.

Todos os anos, o Butantan envia mais de 80 milhões de doses da vacina contra a gripe ao Ministério da Saúde (Comunicação Butantan)

Influenza: o imunizante que mudou a escala produtiva do Butantan

Resultado de um acordo firmado em outubro de 1999 com a multinacional Sanofi Pasteur, o projeto tornou o Instituto pioneiro na produção da vacina da gripe no hemisfério Sul, além de ser a primeira transferência de tecnologia concluída com sucesso na instituição. “O objetivo era garantir a autonomia nacional diante de possíveis pandemias causadas pelo vírus influenza, conhecido por sua alta mutação. Naquela época, em um cenário de emergência só haveria imunizantes para os países do ‘eixo de cima’”, pontua Elizabeth Martins. 

Além de precisar ser atualizada anualmente com as cepas dos vírus que mais estão em circulação, a vacinação contra influenza envolve diferentes públicos, como idosos, crianças, gestantes e profissionais de saúde, ampliando a demanda por doses. Para efeito de comparação, em 2013 – ano em que o Butantan entregou ao Ministério da Saúde as primeiras 6 milhões de doses produzidas em sua própria planta – a pasta adquiriu no total 43 milhões de doses do imunizante contra a gripe, 20 milhões de doses da vacina contra hepatite B e 10 milhões de doses da tríplice bacteriana

Para viabilizar a produção em larga escala, foi necessária a construção de uma nova fábrica. Iniciado em 2005, o projeto foi concluído dois anos depois. A fim de acelerar o processo de transferência de tecnologia, paralelamente às obras, uma equipe dedicada colocava a mão na massa em um laboratório piloto, onde passou a dominar as técnicas de cultivo do vírus em ovos embrionados. 

Durante a campanha de produção da vacina da gripe, o Butantan recebe mais de 500 mil ovos todos os dias (Comunicação Butantan)


Um ponto sensível do processo foi a produção dos bancos de vírus: um tipo de “estoque” dos microrganismos utilizados como matéria-prima para a produção da vacina. Como a etapa não havia sido contemplada no processo de transferência de tecnologia, os colaboradores e especialistas do Butantan desenvolveram internamente a capacidade sob a liderança da pesquisadora científica Cosue Miyaki, consolidando assim a autonomia científica e produtiva do Instituto.

“A transferência da vacina da gripe foi um ponto de virada para o Butantan: esse contato com uma empresa multinacional trouxe um olhar que foi além do sistema de produção, trazendo inputs de gestão, recursos humanos, qualidade e biossegurança”, afirma o diretor do Centro Bioindustrial do Instituto Butantan, Ricardo das Neves Oliveira, que participou do projeto desde o início.

Com a conclusão do processo de transferência em 2013 e a pré-qualificação da vacina pela OMS em 2021, o Instituto passou não apenas a suprir a demanda nacional enviando cerca de 80 milhões de doses anuais ao PNI, mas também exportando o imunizante para outros países, como Colômbia, Bolívia, Uruguai e Cuba. “É até difícil colocar em palavras e explicar como chegamos até aqui. Há 20 anos estávamos processando muitas e muitas bandejas de ovos e ficando de cabelo em pé com todas as etapas envolvidas na fabricação da vacina da gripe”, celebra Ricardo das Neves Oliveira.

Em novembro de 2025, a Anvisa aprovou o uso da vacina contra a dengue do Instituto Butantan (Comunicação Butantan)


O futuro das vacinas no Butantan

Após a consolidação da produção da sua vacina Influenza, o Instituto passou por um novo ciclo de expansão científica e industrial, voltando-se para a incorporação de plataformas biotecnológicas mais avançadas e o fortalecimento da produção nacional de imunizantes estratégicos, como a Butantan-DV.

O desenvolvimento dessa vacina, capaz de proteger contra os quatro sorotipos do vírus da dengue, envolveu mais de uma década de trabalho científico, clínico e industrial, até que ela fosse aprovada pela Anvisa em novembro de 2025. Desde então, mais de 1,3 milhão de doses já foram entregues ao Ministério da Saúde, que iniciou a vacinação do público-alvo no início de 2026. Na mesma planta onde a Butantan-DV é feita também acontece a produção da vacina contra chikungunya. Desenvolvido em conjunto com a farmacêutica Valneva, o imunobiológico também foi aprovado pela Anvisa em 2025.

Novas parcerias e transferências de tecnologia têm ampliado o portfólio de vacinas da instituição – caso dos imunizantes contra o HPV e a hepatite A, cuja produção deverá ser incorporada à infraestrutura industrial do Instituto nos próximos anos. 

O Butantan também trabalha para recuperar a produção da vacina tríplice bacteriana. A nova planta está sendo construída no mesmo terreno onde antes havia o prédio de produção do concentrado tetânico e foi projetada para permitir tanto a versão tradicional das vacinas DTP e DT, quanto a versão acelular (DTPa), feita em parceria com a farmacêutica GSK e destinada à imunização de gestantes.

O futuro do Instituto Butantan também passa pela incorporação de novas plataformas capazes de acelerar o desenvolvimento de imunizantes e ampliar as possibilidades da instituição. Dentre as principais tecnologias, destaque para a de RNA mensageiro, que tem infraestrutura prevista no Centro de Produtos Recombinantes (CPR), alocado no Centro de Produção Multipropósito de Vacinas (CPMV). 

Com a expansão dessas instalações e a busca contínua por certificações internacionais, o Butantan pretende não apenas fortalecer a autonomia brasileira na produção de imunobiológicos, mas também ampliar sua capacidade de fornecer vacinas para outros países, principalmente os da América Latina e do eixo sul global.


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O veneno que vira antídoto: conheça a jornada evolutiva da produção de soros no Instituto Butantan – e no Brasil


Referências:
100 anos de Butantan

A anexação do Instituto Vacinogênico ao Instituto Butantan e o desenvolvimento das ciências médicas em São Paulo

Apontamentos acerca da luta contra a varíola

Butantan já produz vacina contra hepatite B. Revista Fapesp

Campanha de Erradicação da Varíola

A carreira científica da dra. Jandyra Planet do Amaral

Dedicação de corpo e alma. Revista Fapesp

Etapas da produção da vacina antivariólica no Instituto Butantan

Instituto Butantan (1983)

Instituto Butantan (2007-2010)

Instituto Butantan – Histórico, organização e funcionamento (1946)

Papel do Instituto Butantan na campanha de erradicação da varíola na gestão de Jandyra Planet do Amaral

Produção de vacinas | Entrevista

Soros e vacinas (2018)

A trajetória do Instituto Butantan: pesquisa e produção de imunobiológicos para a saúde pública. Revista Brasileira de Inovação

Transferência tecnológica da vacina de influenza no acordo entre o Instituto Butantan e a Sanofis/Pasteur

Fonte _ Butantan