O
Brasil parece ter motivos para celebrar neste Dia Nacional da
Imunização, celebrado em 9/6. Depois de um período marcado pela redução
das coberturas e pelo aumento da hesitação vacinal, indicadores mais recentes
apontam uma retomada gradual nos índices de vacinação no país. Ainda assim, é
preciso manter o sinal de alerta, uma vez que a maior parte dos imunizantes
ofertados pelo Programa Nacional de Imunizações (PNI) ainda permanece com
índices abaixo dos preconizados – um cenário preocupante, que favorece o
reaparecimento de doenças já controladas, como sarampo e poliomielite.
“Temos
muito a comemorar, porque cada conquista é importante. Mas precisamos entender
que mesmo quando atingirmos essas metas não podemos baixar a guarda. Sempre
seguiremos vacinando, trata-se de uma ação contínua”, reforça a gerente de
farmacovigilância do Instituto Butantan e diretora da Sociedade Brasileira de
Imunizações (SBIm), Mayra Moura.
O
Dia Nacional da Imunização busca chamar a atenção para a importância da
vacinação, tanto individualmente como para a saúde coletiva. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS),
os imunizantes foram responsáveis por aproximadamente 40% da redução global da
mortalidade infantil nos últimos 50 anos. Desde 1974, estima-se que a vacinação
tenha evitado 154 milhões de mortes em todo o mundo, sendo 95% delas entre
menores de 5 anos.
Coberturas
estão em recuperação, mas metas ainda não foram alcançadas
Os
dados disponibilizados pelos Painéis de Vacinação do Ministério da Saúde revelam
um cenário de recuperação no país desde 2022, quando observou-se uma tendência
de crescimento gradual em diversas coberturas, embora a maioria das vacinas
ainda não tenha alcançado os percentuais considerados ideais para garantir
proteção coletiva, acima de 95%.
Em
2024, por exemplo, apenas três dos 16 imunizantes indicados até o primeiro ano
de vida atingiram as metas preconizadas pelo órgão federal. Foram eles: BCG (98,63%),
capaz de prevenir formas graves de tuberculose, e hepatite B (97,39%)
– ambos aplicados logo após o nascimento; além da primeira dose da tríplice
viral (95,85%), que é administrada aos 12 meses e protege contra
sarampo, caxumba e rubéola.
Já
em 2025, as coberturas de BCG e hepatite B mantiveram-se
acima do índice recomendado de 95%, registrando uma cobertura superior a 99%.
Outro destaque positivo foi a cobertura da vacina contra o rotavírus,
que ficou pouco acima dos 90% – média considerada ideal para esse
imunizante.
Apesar
dos números indicarem uma constante melhora nas coberturas vacinais no Brasil,
até abril de 2026 nenhum dos imunizantes ofertados pelo PNI atingiu a chamada
“meta ótima” de cobertura, sendo que muitas encontram-se abaixo dos 80%. As
mais alarmantes são a da segunda dose da tríplice viral, com 72,54%; da vacina
contra a varicela, com 73,93%; e o primeiro reforço da DTP, com 74,71%.
“A
imunização tornou-se uma prioridade estratégica do atual momento do país,
resultando em maiores investimentos financeiros e na implementação do
microplanejamento para adaptar as ações às realidades locais. Agora, estamos em
um momento de ajustes finos, já que sair dos 10% para os 50% é mais fácil do
que saltar dos 80% para os 90%”, observa Mayra Moura.
Riscos
de reintrodução de doenças controladas
Outra
cobertura que tem causado preocupação é a da vacinação contra a poliomielite,
uma vez que o Brasil não alcança a meta de 95% desde 2016. Segundo o Anuário VacinaBR 2025, elaborado pelo Instituto Questão
de Ciência (IQC) com apoio da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) e
parceria do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), a queda na
imunização contra a doença se intensificou entre 2020 e 2021 – período mais
intenso da pandemia de Covid-19 –, mostrando leve recuperação a partir de
2022.
Desde
novembro de 2024, o esquema vacinal contra a doença mudou, sendo a vacina
injetável contra a poliomielite (VIP) aplicada no lugar do imunizante em gotas
(VOP). O atual esquema vacinal contra a doença é de três doses, com aplicação
no segundo, quarto e sexto mês de vida, e uma única dose de reforço aos 15
meses.
Em
2025, nenhum estado brasileiro atingiu a meta de 95% de vacinação contra a
poliomielite,
sendo o Norte a região com o menor índice do país (78,8%). Até abril de 2026, a
cobertura com a VIP foi de 85,16% entre menores de 1 ano e de 77,50% em
crianças de até 1 ano.
Embora
o Brasil esteja livre da circulação do poliovírus selvagem há décadas, as taxas
de imunização menores do que a meta acendem o alerta para o risco de
reintrodução de doenças erradicadas por meio de casos importados.
“As
metas de cobertura são estipuladas para reduzir consideravelmente a incidência
de uma doença ou até mesmo eliminá-la. Quando não conseguimos atingir esse
índice, uma parte da população ainda fica bastante suscetível. Estamos falando
de doenças que se espalham rapidamente”, pontua a gerente de farmacovigilância
do Instituto Butantan.
O registro de um caso confirmado de sarampo na capital paulista, em março de
2026, ilustra essa vulnerabilidade. O vírus foi contraído por um bebê de seis
meses durante uma viagem em família para a Bolívia, país que enfrenta problemas
com a doença. A criança não estava vacinada, pois ainda não tinha idade para
receber a tríplice viral – de acordo com o calendário do PNI, a primeira dose
do imunizante deve ser aplicada aos 12 meses com um reforço aos 15.
Mayra
Moura explica que em situações como essa, a proteção depende justamente da
chamada imunidade coletiva: ou seja, quanto maior a proporção de
pessoas vacinadas na comunidade, menor a circulação do vírus e o risco de
exposição dos indivíduos vulneráveis.
Apesar
de o Brasil manter o certificado de país livre da circulação endêmica do
sarampo, concedido pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) em 2024, a
manutenção desse status depende da vigilância epidemiológica contínua e da
manutenção de coberturas vacinais elevadas em todo o território nacional.
HPV
e influenza também são desafios
Indicada
para meninos e meninas entre 9 e 14 anos, a cobertura da vacina contra
o HPV nunca atingiu de forma homogênea a meta estabelecida de 90%,
desde que integrou a lista do PNI.
Os
dados mais recentes mostram oscilações importantes entre as
coberturas dos públicos feminino e masculino, assim como nas diferentes faixas
etárias contempladas pela estratégia. Em 2026, a cobertura entre meninas de 9 a
14 anos é de 74,14% até o momento, e entre os meninos o número é de 66,14%.
No
entanto, a vacinação aos 9 anos, idade inicial para receber o imunizante,
registra coberturas muito baixas, de apenas 19,85% entre as meninas e de 16,29%
entre os meninos. Entre os adolescentes de 11 a 14 anos há as maiores
coberturas, superiores a 80%.
A
imunização contra o HPV é uma ferramenta fundamental para a prevenção de
diversos tipos de câncer e outras doenças associadas ao papilomavírus humano. O
cenário reforça a necessidade de ampliar as ações de conscientização para
garantir a proteção antes do início da vida sexual, momento em que a vacina
apresenta maior efetividade.
Outra
preocupação das autoridades são as baixas coberturas da vacinação
contra a gripe no país, que protege contra o vírus influenza. O
imunizante é recomendado para crianças de 6 meses a menores de 6 anos,
gestantes, puérperas e pessoas acima dos 60 anos, e deve ser administrado
anualmente, uma vez que o microrganismo tem alta capacidade de mutação.
Em
2025, a cobertura dos grupos prioritários alcançou pouco mais da metade do
público-alvo nas regiões Sul, Sudeste, Centro Oeste e Nordeste. Apenas
1,38% dos municípios das regiões registraram cobertura vacinal significativa,
acima dos 80%; enquanto 48,95% marcaram índices de vacinação entre 41% e
60%. Já no Norte, onde a campanha acontece no segundo
semestre, por conta da sazonalidade da doença, a cobertura vacinal foi ainda
menor: de apenas 47,98%.
Rejeição
aos imunizantes
De
acordo com a gerente de farmacovigilância do Instituto Butantan, quando o
assunto é hesitação vacinal, tem pesado na balança os constantes
questionamentos à segurança do produto explorado pelos chamados “antivacinas”.
Fundamentado na disseminação de fake News e que ganhou força com a pandemia de
Covid-19.
“As
vacinas estão entre os medicamentos mais seguros que existem. Assim como
qualquer produto, no Brasil elas passam por uma avaliação rigorosa da Agência
Nacional de Vigilância Sanitária [Anvisa] – que é uma das mais
respeitadas no mundo –, antes de serem aplicadas na população”, afirma a
especialista. Para isso, os imunizantes são submetidos a uma série de testes
que confirmam sua segurança.
A
gerente de farmacovigilância do Instituto Butantan explica que mesmo depois do
aval da Anvisa, esses produtos continuam sendo monitorados. “Enquanto as
pessoas estiverem sendo vacinadas, a farmacovigilância estará ativa. O objetivo
será sempre garantir que o benefício de um imunizante seja superior a um
possível risco que ela possa trazer. Na maioria das vezes, as vacinas
desencadeiam reações leves a moderadas, como dor e vermelhidão no local da
aplicação, febre baixa e mal-estar e são autolimitadas, ou seja, duram poucos
dias”, conclui Mayra Moura.
Fonte _ Butantan







