domingo, 1 de novembro de 2026
Número de brasileiros com obesidade atendidos na rede básica do SUS aumenta 259% em dez anos
O
número de brasileiros com obesidade
monitorados pelo Sisvan (Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional), do Ministério
da Saúde, passou de 3,09 milhões em 2016 para 11,12 milhões neste ano
—mais de um terço (36%) de todo o público adulto acompanhado no sistema. A alta
no período foi de 259%.
O
Sisvan reúne informações sobre o estado nutricional da população atendida na Atenção
Primária à Saúde no SUS
(Sistema Único de Saúde).
No
mesmo período, os indicadores de sobrepeso
saltaram de cerca de 4,19 milhões para 10,76 milhões —elevação de 156,8%.
Juntas,
as duas condições somam 21,88 milhões de indivíduos. O dado revela que 71,5%
dos adultos assistidos pelo Sisvan estão acima do peso adequado.
O
excesso de peso abrange os dois níveis: sobrepeso e obesidade. É considerada
com sobrepeso uma pessoa que tenha IMC (índice
de massa corporal) de 25 a 29,9; na obesidade, considerada doença
crônica inflamatória e multifatorial, o índice é igual ou superior a
30. O indicador é calculado dividindo o peso dividido pelo quadrado da altura.
O
endocrinologista Bruno
Halpern, presidente da Federação Mundial da Obesidade e vice-presidente
da Abeso (Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome
Metabólica), diz que os gargalos da assistência à condição
no SUS vão desde a escassez de medicamentos até a falta de capacitação
profissional.
De
acordo com o médico, a rede pública carece de um protocolo de tratamento
clínico unificado e abrangente para os quadros agudos de excesso de peso. Como
a cirurgia
bariátrica é indicada apenas para casos de obesidade grave, a maior
parte da população afetada fica sem amparo. Além disso, o acesso ao
procedimento é desigual e marcado por filas de espera, que variam em tempo e
tamanho conforme a região do país.
Brasil
precisa debater com farmacêuticas formas de baratear canetas emagrecedoras, diz
Bruno Halpern
Quais
cuidados é preciso ter com a saúde após o emagrecimento com cirurgia bariátrica
HC
de Ribeirão Preto afasta médico que expôs prontuário e debochou de paciente nas
redes sociais
Segundo
Halpern, mesmo para os pacientes que conseguem fazer a cirurgia, o suporte
pós-operatório é deficiente, com destaque para a ausência de fornecimento
regular de suplementos polivitamínicos essenciais.
"Não
há linhas de cuidado bem trabalhadas", afirma o endocrinologista,
acrescentando que há algumas ilhas de excelência na abordagem da mudança
de estilo de vida no SUS, mas nada
estrutural. "E os profissionais
de saúde têm pouca educação em obesidade."
A
obesidade é associada a mais de 240 doenças, entre elas diferentes tipos de
câncer e danos cardiológicos, e redução de expectativa de vida.
A
capacidade dos sistemas de saúde de oferecer prevenção, acompanhamento e
tratamento adequado à população foi um dos temas abordados durante o XVI
Congresso Latino-Americano de Obesidade, realizado entre 28 e 31 de outubro, em
Salvador.
Em
24 das 27 unidades federativas, o total de adultos
com obesidade em atendimento na atenção
básica já supera o de pessoas com o peso considerado adequado. Em 18
estados brasileiros, pelo menos 70% dos assistidos pelo sistema apresentam excesso
de peso (sobrepeso
ou obesidade).
O
Rio Grande do Sul lidera os índices nacionais: 42,6% dos acompanhados
apresentam obesidade
e 75,9%, excesso
de peso.
São
Paulo e Rio
de Janeiro têm, respectivamente, 40,5% (1,74 milhão) e 40,1% (759,2
mil) de pessoas com
obesidade em atendimento. Minas Gerais contabiliza 1,16 milhão (34,6%),
e a Bahia,
735,3 mil (31,9%).
Quando
analisada a taxa geral de excesso de peso em 2026, as marcas mais altas nos
registros do Sisvan ficam com o Rio
Grande do Norte (75,5%), Amapá
(74,5%) e São Paulo (74,3%).
Os
números estaduais refletem a tendência nacional: em dez anos, a taxa nacional
de obesidade escalou de 25,1% em 2016 para os atuais 36,4%. Esta é a primeira
vez que os registros de obesidade (11,12 milhões) superaram os de sobrepeso
(10,76 milhões).
"Sabemos
que a obesidade cresce e continuará subindo no Brasil. O que tentaremos fazer é
que essa curva seja menos pronunciada", diz o especialista.
Para
combater a obesidade são necessárias ações simultâneas de prevenção e de
tratamento, explica Bruno Halpern. A primeira frente envolve políticas públicas
como incentivar o consumo de alimentos naturais e desestimular o de ultraprocessados.
A segunda exige redes de cuidado efetivas para garantir qualidade
de vida a quem já vive com a doença.
A
obesidade no mundo
No
congresso realizado em Salvador, Halpern apresentou os dados globais do estudo
MAPPS II (sigla em inglês para Management and Advocacy for Providers, Patients
and Systems), da Federação Mundial da Obesidade.
A
pesquisa avalia as políticas públicas e o tratamento contra a obesidade em
vários países. Os resultados revelam que os governos dão pouco apoio financeiro
ao setor, com notas entre 1 e 3 em uma escala até 10.
Segundo
o especialista, a falta de verba obriga os pacientes a pagarem pelo próprio
tratamento, o que exclui as populações de baixa
renda, sobretudo em nações em desenvolvimento.
O
levantamento também apontou outras barreiras para o controle da doença. Entre
elas estão falta de equipes multidisciplinares e de integração entre os ministérios
da Saúde, Educação e Economia; precariedade dos serviços públicos; e
preconceito e estigma contra o excesso de peso, inclusive por parte dos profissionais
de saúde.
Os
resultados globais do MAPPS II serão publicados em 4 de março de 2027, Dia
Mundial da Obesidade.
A federação também lancará um relatório específico sobre o Brasil ao longo do
próximo ano.
Fonte _ Folha/SP
Diabetes do doador não reduz sucesso de transplante de rim, diz estudo da Unifesp
O
fato de um doador de
órgãos ter tido diabetes
em vida não significa que o desempenho dos seus rins será inferior após transplante
no paciente que irá recebê-los.
É o
que conclui o estudo da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) Five-Year
Outcomes and Clinicopathological Correlations of Kidney Transplants From
Deceased Donors With Diabetes, publicado na revista científica Clinical
Transplantation.
Os
pesquisadores avaliaram os resultados de 3.058 adultos com 18 anos ou mais, do
Hospital do Rim, em São Paulo.
A análise acompanhou transplantes realizados entre janeiro de 2013 e dezembro
de 2017.
Do
total de pacientes, 244 receberam órgãos de doadores com
diabetes e com KDPI (Kidney Donor Profile Index, ou Índice de Perfil de
Doadores de Rins) superior ao daqueles sem a doença.
O
KDPI é um sistema de pontuação em percentuais que avalia a qualidade e estima a
longevidade
de um rim de doador
morto.
Para
garantir uma comparação adequada e sem distorções nos resultados, cada doador
com diabetes
foi pareado com dois sem a condição, mas com características de saúde
semelhantes. O estudo acompanhou o desempenho do rim transplantado por até
cinco anos após a cirurgia.
Segundo
Lúcio Roberto Requião Moura, professor adjunto da disciplina de Nefrologia da
EPM/Unifesp e coautor da pesquisa, inicialmente, foram identificados resultados
inferiores de função renal no grupo que recebia rins de doadores com diabetes.
Entretanto,
o estudo revelou que o perfil clínico dos doadores era mais complexo —em média,
dez anos mais velho, com o dobro de incidência de hipertensão
arterial e histórico de morte
por AVC (acidente vascular cerebral).
Para
isolar o impacto do diabetes e impedir a interferência de outras variáveis, foi
utilizado o pareamento por escore de propensão (propensity score matching). A
metodologia estatística comparou os grupos como se os indivíduos tivessem
idade, níveis de pressão
arterial e causa da morte iguais —o diabetes era a única diferença.
A
função renal ao final de cinco anos foi equivalente entre os receptores de rins
de doadores com e sem a doença.
"O
estudo tem duas grandes mensagens: quando você inclui no processo de decisão
sobre doadores falecidos que têm potencialmente uma contraindicação para ser
doador a biópsia renal, desperdiça menos órgãos, aproveita mais órgãos que sem
a biópsia você desperdiçaria. A outra coisa é que não pode olhar uma
característica isoladamente, mas o conjunto todo", diz o professor.
Transplante
renal pareado amplia opção para pacientes que têm doador, mas não podem receber
o rim
'Perdi
1.800 órgãos até conseguir fazer um transplante de rim', diz paciente
Como
ser doador de órgãos em vida ou após a morte? Entenda
Brasil
tem 66,5 mil pessoas à espera de transplantes de órgãos, diz relatório
Decisão
da família é soberana na hora de doar órgãos, mesmo que o paciente tenha
deixado a vontade registrada
Custo
de transplantes para o SUS envolve transporte dos órgãos, internações e
cirurgias
Como
é o protocolo
O
diabetes não é um critério de exclusão para a doação de rim de falecido, desde
que a pessoa não tenha apresentado insuficiência
renal crônica antes da morte
encefálica.
A
equipe médica avaliará o tempo de evolução da doença, o histórico clínico, além
de realizar biópsias ou exames físicos detalhados no órgão para descartar
nefropatia diabética grave ou danos macroscópicos severos. Em vida, para a
segurança do doador, a doença é uma contraindicação para o procedimento.
"Doadores
com diabetes tendem a ser menos aceitos considerando que a condição é a
principal causa de doença
renal. Há a percepção de que o desfecho do paciente, se receber um rim
com diabetes seria pior. Na verdade, a comparação a ser feita é receber
um rim com diabetes ou continuar em diálise?
Alguns estudos avaliam que é melhor do que o paciente permanecer em diálise",
afirma o pesquisador.
Vale
esclarecer que o sistema eletrônico apenas direciona e envia o rim disponível.
A decisão de aceitar ou recusar um órgão com riscos pertence à equipe do centro
transplantador.
Para
o professor e pesquisador Lúcio Roberto Requião Moura, não há o que mudar no
SNT (Sistema Nacional de Transplantes). Desde 2010, ele prioriza a
compatibilidade genética como o principal pilar biológico de desempate.
"A
legislação foi revisada no ano passado. O sistema de alocação está sendo
planejado para colocar as regras de distribuição em vigência. Deve começar em
fevereiro do próximo ano. Além da compatibilidade genética, também ganhou peso
um valor que eu classifico como social: o tempo em fila de espera.
Pessoas com mais tempo na lista de espera terão maior probabilidade de
transplantar", explica.
"O
sistema de transplante brasileiro é uma das políticas públicas mais
bem-sucedidas. É justo, transparente e correto. As regras são baseadas em
evidências científicas. O Brasil tem o maior programa público de transplante do
mundo. Os serviços estão preparados para transplantar doadores que não são
considerados ideais, mas podem ser aproveitados e garantir um resultado clínico
melhor do que a diálise".
Fonte _ Folha/SP
sábado, 31 de outubro de 2026
Pesquisas indicam que evolução elevou risco moderno de doenças autoimunes
A
evolução não tem propósitos, apenas resultados. A seleção natural darwiniana
não molda os seres vivos para que sejam "melhores" ou
"superiores" em algum sentido objetivo e transcendental —ela os molda
para que sejam bem-sucedidos no aqui e agora.
O
que funciona em determinado ambiente ou período pode se mostrar prejudicial em
outro. Alguns cientistas afirmam que esse fato da evolução pode ajudar a
explicar as origens das doenças
autoimunes humanas.
As
doenças autoimunes são um tanto misteriosas, mas estão longe de ser raras.
Entre elas estão a esclerose
múltipla, a artrite
reumatoide, o diabetes
tipo 1, o lúpus, a doença de Crohn,
a psoríase e, possivelmente,
mais de 100 outras.
Algumas
causam sofrimento; outras, desconforto e transtornos; e algumas podem ser
fatais. O que essas condições têm em comum é que, por razões ainda pouco
claras, as células imunológicas de uma pessoa começam a atacar os próprios
tecidos e órgãos do corpo, em vez de apenas defendê-lo de invasores como vírus
e bactérias.
Acredita-se
que as doenças autoimunes afetem cerca de 15 milhões de pessoas nos Estados
Unidos e entre 5% e 10% da população dos países industrializados, além
de uma porcentagem menor nos países em desenvolvimento.
Esses
números estão aumentando, provavelmente devido a fatores ambientais, como alimentação
e poluentes, que contribuem para desencadear essas doenças. Mas fatores
genéticos provavelmente também têm influência —e é nesse ponto que pesquisas
realizadas nos últimos anos revelaram um padrão intrigante.
As
doenças autoimunes podem surgir, em parte, da ação de genes e combinações
genéticas que foram valiosos em fases anteriores da história humana, mas que
hoje são desvantajosos. Mais especificamente, cientistas encontraram evidências
de seleção natural de certas variantes genéticas durante a Idade do Bronze,
iniciada há cerca de 5.000 anos e que se estendeu por dois milênios.
Essas
mesmas variantes podem aumentar o risco de doenças autoimunes nas pessoas que
hoje as carregam. O termo para esses efeitos opostos é "pleiotropia
antagônica", e uma forma simples de explicá-lo é dizer que, às vezes, um
gene ajuda e, em outras, prejudica.
Por
que algumas variantes genéticas teriam prestado um serviço valioso aos seres
humanos antigos, mas hoje seriam prejudiciais? Uma resposta, respaldada por
estudos recentes que recorrem ao sequenciamento genético de DNA humano antigo e
à comparação dessas sequências com genomas modernos, envolve as doenças
infecciosas.
Durante
aqueles milênios remotos, os seres humanos deixaram de viver como
caçadores-coletores em pequenos grupos nômades e adotaram dois outros modos de
vida: o de agricultores e o de pastores.
Novos estudos revelam mecanismos do lúpus, mas cura continua
distante
Novartis suspende testes de medicamento para doenças autoimunes
após morte de três pacientes
Esclerose múltipla também afeta crianças; diagnóstico e
tratamento precoces levam a maior controle da doença
Estudo identifica moléculas relacionadas ao aparecimento de
doenças autoimunes
Novo medicamento cura pacientes graves com diabetes tipo 1 com
injeção única
Os
agricultores eram sedentários. Os pastores transformaram animais selvagens em
gado bovino, ovelhas e cabras e percorriam grandes áreas para que seus rebanhos
pudessem pastar. A agricultura colocou as pessoas em contato próximo com as
plantas. O pastoreio colocou-as em contato próximo com os vírus, as bactérias e
outros agentes infecciosos carregados por animais selvagens —e, mais tarde,
domesticados.
Muitos
desses patógenos passaram para os pastores, dando origem ao que hoje chamamos
de doenças zoonóticas —infecções animais que saltam para os seres humanos.
Sobreviver a essas ameaças dependia de sorte e de genes. A seleção natural
eliminou os menos afortunados, deixando populações de sobreviventes que
carregavam variantes genéticas favoráveis, capazes de conferir resistência às
infecções.
Mas
essas variantes genéticas protetoras da Idade do Bronze, ao que tudo indica
agora, podem exercer um efeito negativo em nossa era moderna de bons sistemas
de saneamento, antibióticos, antissépticos e outras medidas de controle de
infecções. Ao elevar a sensibilidade do sistema imunológico a um nível extremo,
elas se transformaram em fatores de risco para doenças autoimunes. Essa, ao
menos, é a hipótese da pleiotropia antagônica.
E
cientistas encontraram evidências que a sustentam. Pesquisadores da
Universidade de Oxford e seus colaboradores em outras instituições relataram
uma forte correlação entre certas variantes genéticas que se disseminaram
rapidamente entre as populações europeias há cerca de 5.000 anos e aquelas hoje
associadas a uma probabilidade elevada de desenvolver esclerose múltipla.
Essas
variantes se tornaram mais comuns quando pastores migrantes das estepes da
Eurásia começaram a chegar à Europa. A
maioria delas oferecia alguma proteção contra determinadas infecções virais e
bacterianas ou contra parasitas, ajudando os seres humanos a se adaptar não
apenas ao estilo de vida pastoril, mas também ao aumento da densidade
populacional, que intensificou a transmissão e a circulação de doenças
infecciosas.
Hoje,
segundo os pesquisadores, essas mesmas variantes genéticas parecem exercer o
efeito oposto. Com as doenças infecciosas mais bem controladas e a prevalência
da esclerose múltipla em alta, "voltamos a observar uma correlação
marcante com mudanças em nosso ambiente, incluindo escolhas de estilo de vida e
melhores condições de higiene, que já não favorecem a arquitetura genética
anterior", escreveram. Em outras palavras, genes que antes nos protegiam
podem agora nos colocar em risco.
Outro
estudo, realizado por uma equipe internacional de pesquisadores, examinou um
momento histórico mais recente de mudança demográfica abrupta: a Peste
Negra. Essa pandemia de peste do século 14 —causada pela bactéria
Yersinia pestis, transportada por pulgas que, por sua vez, são carregadas por
ratos— varreu a Europa, o Oriente Médio e o norte da África entre 1346 e 1353,
matando entre 30% e 50% da população dessas regiões.
Os
pesquisadores analisaram minuciosamente sequências de DNA de pessoas mortas na
Inglaterra e na Dinamarca: algumas enterradas pouco antes dos anos da peste,
outras durante o período e outras depois. Uma de suas fontes foi East
Smithfield, um cemitério coletivo da Peste Negra situado pouco a leste da Torre
de Londres.
Ali
e em outros locais, os pesquisadores encontraram quatro variantes genéticas
ligadas à imunidade nos genomas de um número maior de pessoas enterradas após a
peste do que antes ou durante a epidemia, o que sugere que essas variantes
haviam proporcionado uma vantagem de sobrevivência. Depois que outra equipe
contestou seus métodos matemáticos, os pesquisadores reformularam sua
conclusão, concentrando-a em uma única variante.
Essa
variante, aparentemente adaptativa contra a peste, é hoje um fator de risco
conhecido para a doença de Crohn. Assim, ao que parece, a Peste Negra, tal como
a transição para o pastoreio durante a Idade do Bronze, pode ter sido um evento
seletivo que aumentou a vulnerabilidade das gerações futuras às doenças
autoimunes.
Embora
a equipe de Oxford, em seu estudo sobre a esclerose múltipla, tenha chamado
essa situação de um caso de "arquitetura genética" ultrapassada, há
outra metáfora que expressa a mesma ideia de forma mais vívida. Basta lembrar o
ditado sobre as falhas da liderança militar: em tempos de paz, os generais se
preparam para travar a guerra passada, e não a próxima.
Eles
se apegam a táticas, estratégias e armamentos obsoletos —coisas que funcionaram
bem no passado— apesar da passagem do tempo e do surgimento de novidades.
Aparentemente, foi isso que a evolução fez com as variantes genéticas que
muitos de nós carregamos hoje. As doenças autoimunes do século 21 podem
representar os esforços do sistema imunológico humano para travar uma guerra
que um dia foi catastrófica, mas que agora é menos intensa: a guerra contra
doenças infecciosas onipresentes e incuráveis.
Para
algumas pessoas, o sofrimento causado pela esclerose múltipla, pelo lúpus ou
por outras doenças autoimunes é um infortúnio cruel. Outras têm mais sorte. Eu,
por exemplo: tenho apenas minha psoríase —herdada de meu pai, que a herdou de
uma linhagem de camponeses noruegueses— como lembrete de que meu próprio
sistema imunológico está pronto e ávido, ávido demais, para travar a guerra
passada: a guerra entre um pastor da Idade do Bronze e um vírus que ele
contraiu de uma de suas cabras.
Fonte _ Folha/SP
Como tendência de compartilhamento de sangue pode estar alimentando nova crise de HIV
Na
semana passada, Fiji
declarou estado de emergência nacional devido à alta dos
casos de HIV. O aumento acelerado das infecções transformou o
arquipélago em um dos principais focos de expansão da epidemia no mundo.
A
decisão também foi um lembrete contundente de que, apesar do progresso global,
o HIV
e a Aids
continuam sendo uma ameaça significativa em algumas regiões e os surtos podem
rapidamente sair do controle.
Aproximadamente
um em cada 60 adultos no arquipélago do Pacífico
vive atualmente com o vírus, em comparação com um em cada 167 há cinco
anos.
Globalmente,
estima-se que cerca de 41 milhões de pessoas tenham HIV, segundo a agência da
ONU para a Aids, a Unaids.
O
que agrava ainda mais essa crise recente é a prática alarmante de
compartilhamento de sangue entre usuários
de drogas conhecida como bluetoothing.
Ela
consiste em retirar sangue de alguém que acabou de consumir uma droga e
injetá-lo em outra pessoa para que esta obtenha o mesmo efeito. Os usuários
consideram isso uma forma de economizar dinheiro, fazendo com que drogas
intravenosas rendam mais.
Essa
prática também foi observada em países africanos, incluindo Lesoto, Zimbábue e África do Sul.
A
extensão do problema e sua parcela de responsabilidade pela crise em Fiji são
controversas. No entanto, agentes comunitários de saúde afirmam que se trata de
um problema real e estão pressionando governos e agências de saúde do mundo
todo a levarem a questão a sério.
"Quantas
vidas precisamos perder antes de realmente fazermos algo a respeito?",
questiona Kalesi Volatabu, diretor executivo da ONG Drug Free Fiji.
Como
casos de HIV aumentaram mais de 1.000% em um pequeno país do Pacífico
Próximos
desafios no combate ao HIV
Estudo
em Porto Alegre mostra que diagnóstico tardio de HIV ocorre mais em
heterossexuais casados
Por
que o bluetoothing é tão arriscado?
O
HIV é uma doença transmitida pelo sangue,
portanto, o processo de transferência de sangue de uma pessoa para outra sempre
traz o risco de transmissão
do vírus.
A OMS
(Organização Mundial da Saúde) afirma que essa prática cria um "risco
excepcionalmente alto" de transmissão de outras infecções, incluindo hepatite
B e C, além de infecções bacterianas graves.
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agulhas já é uma prática comum em Fiji, onde o acesso a equipamentos de injeção
esterilizados para usuários de drogas pode ser difícil. Mas a chegada do
bluetoothing sugere que a pobreza é um dos principais fatores por trás dessa
prática perigosa.
Volatabu
diz que ficou chocada quando testemunhou o ocorrido pela primeira vez.
"Havia
cinco ou seis pessoas em volta, prontas para tomar a injeção", disse ela
ao Serviço Mundial da BBC.
"E
eles podem infectar outras cinco pessoas. Então, literalmente, de apenas cinco
pessoas, você já tem de 25 a 30 pessoas infectadas. E é assim tão fácil."
Em
2024, o Ministério
da Saúde de Fiji reconheceu essa prática como um dos fatores que
contribuíram para o aumento dos casos
de HIV no país. Em janeiro, o ministério descreveu um surto de HIV como
uma "crise nacional" e afirmou que implementaria um programa de
distribuição de seringas e agulhas como parte de sua resposta.
A
OMS afirmou que havia poucas evidências que sugerissem que o uso do
bluetoothing fosse generalizado em Fiji, após uma avaliação rápida
realizada em dezembro do ano passado.
A
pesquisa entrevistou 56 pessoas que injetavam drogas —apenas duas relataram
praticar o compartilhamento de sangue, enquanto quatro disseram ter presenciado
a prática diretamente, segundo o relatório.
Mas
Volatabu diz que ela também estava relutante em acreditar que alguém realmente
estivesse fazendo isso até que viu com os próprios olhos.
Ela
também acredita que o estigma e a vergonha em torno do uso de drogas injetáveis
fazem com que o governo de Fiji se mostre relutante em lidar com o problema.
HIV
em todo o mundo
O
HIV é um vírus que danifica as células do sistema
imunológico e enfraquece a capacidade do corpo de combater infecções e
doenças comuns.
É
transmitida por fluidos corporais, geralmente durante relações sexuais
desprotegidas, mas também por meio de cortes e injeção de drogas com agulhas
compartilhadas. Pode ainda ser transmitida
da mãe para o filho durante a gravidez, o parto e a amamentação.
A
Aids (síndrome da imunodeficiência adquirida) ocorre quando uma série de
infecções e doenças potencialmente fatais se manifestam após o sistema
imunológico ter sido gravemente danificado pelo vírus HIV.
Os
avanços nas opções de tratamento melhoraram significativamente a expectativa de
vida das pessoas diagnosticadas com HIV
nas últimas décadas.
Em
2025, cerca de 570 mil pessoas morreram em todo o mundo por causas relacionadas
ao HIV,
73% a menos em comparação com o pico de 2004, de acordo com a OMS.
O
tratamento recomendado atualmente inclui a Tarv (terapia antirretroviral), que
normalmente reduz a carga viral a níveis indetectáveis, protegendo o sistema
imunológico e prevenindo a transmissão
sexual do
vírus.
No
entanto, no ano passado, a diretora-geral da Unaids, Winnie Byanyima, afirmou
que a decisão do presidente dos EUA, Donald Trump,
de suspender a ajuda externa ao programa levaria a 2.000 novas infecções por
HIV por dia e a mais de seis milhões de mortes nos próximos quatro anos.
Segundo
a Unaids, as novas infecções por HIV aumentaram em três regiões e 21 países em
2025, incluindo Afeganistão,
Sri Lanka, Nepal,
Quênia, Sudão, Brasil, Paquistão,
Iêmen, Egito,
Senegal e Filipinas.
Onde
mais está ocorrendo a prática do bluetoothing?
O
Lesoto tem a segunda maior taxa de prevalência de HIV do mundo e o vírus é a
principal causa de morte entre as mulheres, de acordo com a OMS.
Uma
organização que tenta combater o bluetoothing na região é a Mokhosi oa
Mangoana, ou "O Grito de uma Mãe". Este grupo de mulheres compartilha
suas experiências com filhos que enfrentam problemas de abuso de substâncias.
Eles
tinham ouvido falar do que estava acontecendo na África do Sul, mas só
perceberam que também estava ocorrendo muito mais perto de casa em 2024 -
especificamente em "trap houses" - imóveis abandonados usados para
venda e consumo ilegal de drogas.
A
filha de Ponto Tumisi era uma aluna exemplar antes de começar a usar
metanfetamina. Ela diz que o bluetoothing ocorre quando as pessoas têm
uma quantidade pequena de drogas para compartilhar.
"Independentemente
de saberem ou não a compatibilidade dos seus grupos sanguíneos,
independentemente de conhecerem ou não as doenças que carregam através desse
sangue. Isso, para eles, é irrelevante", diz ela.
Tumisi
afirma que profissionais de saúde lhe disseram que essa prática "não
existe", pois seria impossível alguém sobreviver à transfusão de sangue.
Formas
semelhantes de compartilhamento direto de sangue foram documentadas em outros
lugares sob nomes diferentes, incluindo flashblood (algo como sangue
instantâneo, em português) entre pessoas que injetam drogas na Tanzânia, diz
Eamonn Murphy, diretor regional da Unaids, embora tenha acrescentado que não se
trata de uma "tendência global generalizada".
Mas
Tumisi teme que esses novos métodos de consumo de drogas, menos conhecidos,
possam passar despercebidos em outros países.
Ela
alerta que aqueles que vivem na linha de frente do abuso de drogas devem estar
vigilantes e se informar sobre os primeiros sinais de alerta.
"Se
você é pai ou mãe, independentemente de em que parte do mundo esteja, você é um
ser humano. Isso significa que você está em risco. Com o vício em drogas, tudo
pode acontecer."
O
texto foi publicado originalmente aqui.
Fonte _ Folha/SP
Programa da OMS propõe acompanhar saúde, autonomia e cognição de idosos no SUS anualmente
Assim
como a criança
tem peso e altura conferidos a cada consulta no posto de saúde, o idoso poderia
ter, uma vez por ano, a capacidade de andar, lembrar, enxergar, ouvir, se
alimentar e manter o ânimo medida e comparada com a de pessoas da mesma idade.
É a
lógica do Icope (Cuidados Integrados para a Pessoa Idosa), programa lançado
pela OMS
(Organização Mundial da Saúde) em 2019 e testado hoje em 16 centros de
pesquisa no Brasil.
"É
como se fosse uma puericultura invertida", resume Eduardo Ferriolli,
professor titular de geriatria da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de
São Paulo) e um dos coordenadores do estudo no país. Puericultura é o
acompanhamento médico e de enfermagem que verifica se o crescimento e o
desenvolvimento de crianças estão dentro do padrão.
"Se
uma pessoa de 67 anos já tem a força muscular diminuída, uma dificuldade de
locomoção que não tinha no ano passado, então precisa ver o que está
acontecendo", exemplifica.
A
proposta tira o foco das doenças isoladas e olha para a chamada capacidade
intrínseca, dividida em seis domínios: locomoção, cognição, saúde
psicológica, vitalidade (sobretudo o estado nutricional), visão e audição.
A
avaliação básica leva cerca de cinco minutos e usa testes simples: lembrar três
palavras, como "flor, porta, arroz"; levantar-se de uma cadeira cinco
vezes, sem usar os braços, em até 14 segundos; dizer se perdeu mais de 3 kg sem
querer nos últimos três meses.
Se
algum domínio dá sinal de queda, o protocolo prevê, ainda na atenção primária,
uma avaliação detalhada das causas (doenças, efeito de remédios, problemas
sociais ou do ambiente), um plano de cuidado com vários profissionais e, se
necessário, o encaminhamento a especialistas. A ideia é agir enquanto o
declínio ainda é reversível.
A
segunda edição do manual, de 2024, ganhou versão em português da Opas (Organização Pan-Americana da Saúde)
neste ano. Ela amplia a triagem para identificar também incontinência urinária,
falta de apoio social e sobrecarga dos cuidadores, em sua maioria mulheres da
família, e reforça a vacinação.
Promessa
de Lula aos idosos esbarra em plano de cuidados que anda devagar
Quais
desafios pessoas com deficiência podem enfrentar ao envelhecer?
Cinco
mudanças de hábito retardam declínio cognitivo em idosos, mostra estudo
latino-americano
Solidão
é o fator mais ligado à pior saúde mental no Brasil, mostra pesquisa
Pessoas
que socializam mais são mais resistentes ao declínio cognitivo
Idosos
que mudam hábitos depois dos 60 ganham saúde e autonomia, dizem especialistas
Um
em cada quatro adultos com diabetes tem perda auditiva, aponta estudo
Na
última quinta (29) Hilda Maria da Conceição, 84, e a filha Maria da Soledade
Conceição, 61, se vacinaram contra a Covid. Ambas são acompanhadas no
ambulatório do idoso da USP, no Centro de Saúde Escola Geraldo de Paula Souza,
na zona oeste de São Paulo.
Hilda
tem diagnóstico de Alzheimer há cinco anos.
A filha, uma das cuidadoras da mãe, diz que no espaço a mãe passa por consulta,
faz exames e ela recebe orientação sobre alimentação, atividade física, medicamentos,
entre outros.
"Com
esse apoio, minha mãe tem conseguido manter a autonomia e eu aprendo como
cuidar melhor dela e de mim também. Ela ainda cozinha a própria comida, cuida
da casa", conta Maria.
De
acordo com o Icope, a primeira triagem para acompanhamento dos idosos pode ser
feita na comunidade, por agentes
comunitários de saúde. A OMS justifica a urgência com números: o mundo
tinha 1,18 bilhão de pessoas com 60 anos ou mais em 2024 e terá 2,1 bilhões em
2050, 22% da população.
No
Brasil, a pesquisa começou com um piloto em Porto Alegre, entre 2022 e o início
de 2024, numa unidade básica vinculada ao Hospital de Clínicas da UFRGS
(Universidade Federal do Rio Grande do Sul).
Os
instrumentos usados hoje na atenção
básica buscam identificar a fragilidade. Mas, entre os idosos não
frágeis, quase metade já tinha algum problema de locomoção, parte significativa
apresentava dificuldades
cognitivas e quase um quarto tinha sintomas depressivos.
"Cerca
de 80% da população
idosa brasileira é funcional e não se enquadra nos estratos de maior
vulnerabilidade", afirma Renato Bandeira de Mello, professor da UFRGS.
"Existe uma transição entre ser uma pessoa idosa robusta e uma vulnerável,
e essa é uma grande janela de oportunidade para intervir."
Existe
uma transição entre ser uma pessoa idosa robusta e uma vulnerável, e essa é uma
grande janela de oportunidade para intervir
Renato
Bandeira de Mello
médico
e professor da UFRGS
A
intervenção pode ser simples: exercício, alimentação, apoio social e familiar.
O grupo gaúcho usa um protocolo europeu de exercícios feitos em casa e
ajustados à capacidade de cada um. Um ensaio clínico, com pacientes
acompanhados após a alta hospitalar, mostrou melhora funcional significativa.
O
estudo nacional, o Icope Brasil, já incluiu mais de 2.600 idosos em centros de
todas as regiões, de Manaus (AM) a Araranguá (SC). Eles serão acompanhados por
três anos para medir a capacidade intrínseca da população idosa e a precisão da
triagem rápida da OMS.
O
país mais avançado na aplicação do modelo é a França. Em Toulouse, a equipe de
geriatria da universidade, centro colaborador da OMS, começou a usar o Icope em
janeiro de 2020, dois meses antes do primeiro confinamento da pandemia.
Segundo
Philipe de Souto Barreto, professor de gerontologia da Universidade de Toulouse
e codiretor do centro, o trabalho não parou graças a uma infraestrutura
digital: o aplicativo Icope Monitor, ligado a uma base de dados segura que cada
profissional consulta para acompanhar seus pacientes.
Mais
de 10 mil profissionais foram treinados e mais de 150 mil idosos, registrados.
O governo ampliou a experiência para outras regiões e, em março deste ano, uma
lei estendeu a triagem a todo o país.
Para
Barreto, o maior desafio é mudar o hábito de tratar cada doença separadamente.
"Quando você trata um idoso que tem cinco, seis doenças, ele vai acabar
com 12, 13, 14 medicamentos."
Ele
rebate a queixa, recorrente no Brasil, de que um programa desse tipo poderia
sobrecarregar ainda mais as equipes da atenção primária. "Não é
colocar mais alguma coisa, é colocar algo que abarque várias coisas. O erro a
evitar é adicionar uma ferramenta a outra."
Ainda
faltam provas de impacto econômico, o argumento que mais pesa para gestores. Um
estudo randomizado em Toulouse compara idosos no Icope com os que recebem o
cuidado usual, mas os resultados levarão de três a quatro anos. "A
probabilidade de que o programa seja eficaz é elevada", diz.
No
Brasil, o modelo ficou fora da Política
Nacional de Cuidados. Segundo Ferriolli, o grupo já submeteu duas vezes
ao Ministério da Saúde uma proposta de piloto em unidades de saúde, com
teleconsultoria da USP para casos complexos. Mas, segundo ele, não houve
interesse.
Os
argumentos para recusar, diz ele, foram falta de recursos, risco de sobrecarga
da atenção primária e outras iniciativas recém-implantadas.
A fala
do presidente Lula (PT) pondo o cuidado com idosos como prioridade após a
reeleição animou os pesquisadores, que pretendem retomar as conversas.
A Opas (Organização Pan-Americana de Saúde) vê o Brasil como potencial exemplo
na região.
Barreto
conta que tem reunião marcada com o ministério para apresentar o Longeva,
ferramenta digital que exibe a triagem em curvas de percentis, como as do
crescimento infantil. "A malha sanitária brasileira seria perfeita para o
Icope", diz. "É incompreensível que não esteja na política."
Em
nota, o Ministério da Saúde informou que acompanha, junto à OMS, a adoção de
ferramentas voltadas ao cuidado de pessoas idosas, bem como as pesquisas
realizadas por centros brasileiros.
Seguindo
essas mesmas diretrizes, a pasta diz que o país incorporou, no fim de 2024, o
Índice de Vulnerabilidade Clínico-Funcional (IVCF-20), desenvolvido
nacionalmente, validado e adaptado à realidade do país e do SUS para o
acompanhamento da saúde dessa população.
"O
IVCF-20 está disponível no prontuário eletrônico e-SUS APS para as equipes das
UBSs (Unidades Básicas de Saúde), inclusive agentes comunitários de saúde. Tem
aplicação simples e rápida para medir a saúde física e mental dos
pacientes", diz a nota.
Segundo
o ministério, em 2025, primeiro ano de difusão da ferramenta, foram realizados
mais de 2,1 milhões de registros, e a expectativa é que esse número aumente a
cada ano. Outras ferramentas, como o Icope, estão em constante análise e passam
por processo de validação para uso na realidade brasileira.
O projeto
Saúde Pública tem apoio da Umane, associação civil que tem como
objetivo auxiliar iniciativas voltadas à promoção da saúde.
Fonte _ Folha/SP






