Imuniza SUS

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Países-sede da Copa vivem surto de sarampo e elevam risco de reintrodução do vírus no Brasil

 


Os países-sede da Copa do Mundo de 2026 exibem altos números de contaminação por sarampo, o que preocupa entidades médicas brasileiras e o Ministério da Saúde, sob o risco de importação de casos para o Brasil.

A pouco mais de um mês do Mundial, o México soma 9.207 casos e é o epicentro da doença no continente. Esse número foi contabilizado até a primeira quinzena de abril, ou seja, o contingente hoje pode ser maior.

Em todo o ano passado, o país registrou 6.152 casos. A situação é alarmante se comparada com 2024, quando foram registradas apenas sete infecções pela doença.

Embora registrem menos casos, Canadá e Estados Unidos não diferem da situação mexicana. O primeiro fechou 2025 com 5.062 casos e perdeu o status de país livre do sarampo. Neste ano, contabiliza 871.

Nos EUA, país cujo secretário de Saúde, Robert F. Kennedy Jr., desacredita a vacinação, foram 2.144 casos em 2025, e 1.730 neste ano.


Para efeito de comparação, o Brasil, hoje considerado um país livre da doença, somou 38 casos no ano passado. Neste ano, são três confirmações.

Diante desse cenário nos países-sede, há possibilidade de que novos casos surjam no Brasil após o torneio. Trazidos de fora, eles podem iniciar uma epidemia local. O sarampo tem transmissão respiratória de pessoa para pessoa. Suas partículas virais conseguem se manter em aerossol e suspensão por horas.

Segundo a pediatra Flávia Bravo, diretora da SBIm (Sociedade Brasileira de Imunizações) e especialista em medicina do viajante, o Brasil tem lacunas que podem possibilitar a reintrodução do vírus.

"A gente recuperou a cobertura vacinal, que vinha em queda, mas esses cálculos são feitos com crianças. Há algum grau de pessoas adultas sem o esquema vacinal completo, e são majoritariamente essas pessoas que vão à Copa", explica.

Segundo a especialista, a questão é complexa porque, em eventos como a Copa, pessoas de todas as regiões do Brasil viajam.

"Graças à nossa vigilância, a gente vem de anos com casos apenas importados. Porém, se várias pessoas retornam ao país com o vírus incubado e se distribuem para diferentes regiões, isso torna muito mais difícil a identificação pela vigilância, e pode resultar em surtos locais, que são o começo das epidemias", afirma.

A estratégia de segurança mais eficiente, explica Bravo, é a vacinação. Para ela, os movimentos contrários aos imunizantes, conhecidos como antivax, são os principais responsáveis pelo retorno volumoso de circulação do vírus.

O patologista Helio Magarinos Torres Filho, diretor médico do Richet Medicina e membro da SBPC (Sociedade Brasileira de Patologia Clínica), cita outras razões para o ressurgimento do sarampo nas Américas.

"Devido à pandemia de Covid, muitos calendários vacinais ficaram desorganizados e pessoas deixaram de completar o esquema, com 2 doses. Houve também maior hesitação e alguns nichos de baixa cobertura permaneceram", diz.

Torres Filho lembra que espaços de aglomeração, como aeroportos, propiciam a circulação do vírus. "A transmissão pode acontecer por meio de pessoas que ainda não apresentam sintomas típicos, por isso sinais de febre associadas a manchas avermelhadas pelo corpo, tosse, coriza, conjuntivite e histórico de viagem ou contato com caso suspeito devem servir de ponto de alerta."

Ministério da Saúde publicou no fim de abril uma nota técnica alertando para o risco de reintrodução do sarampo no país. "O cenário epidemiológico atual reforça a vulnerabilidade do Brasil frente à reintrodução do vírus. A combinação de surtos ativos em países vizinhos, fluxo contínuo de viajantes, brasileiros não vacinados e a confirmação de casos importados faz com que o risco seja alto", diz trecho do texto.

Segundo a pasta, o percentual de vacinação contra o sarampo está em 92%, para a 1ª dose, e 78%, para a 2ª dose. A OMS (Organização Mundial de Saúde) preconiza 95%.

Casos importados de sarampo exigem grande mobilização das autoridades de saúde para mapear possíveis contaminados, testá-los e imunizá-los. Uma importação em larga escala torna esse trabalho ainda mais delicado.

A publicação do Ministério da Saúde também cita uma convocação da Opas (Organização Pan-Americana da Saúde) para que os países intensifiquem suas ações de imunização.

As coberturas vacinais não foram suficientes para evitar o aumento acelerado da doença, segundo a organização. Em 2025, foram confirmados 14.767 casos em 13 países, quase 32 vezes mais do que em 2024.

Em 2026, até 5 de abril, mais de 15,3 mil casos de sarampo já haviam sido registrados. O montante é superior a 2025.

Fonte _ Folha/SP

Posso tomar a vacina da dengue do Instituto Butantan mesmo se já tive dengue?

 


Quem já teve a doença pode contrair outros sorotipos do vírus da dengue e por isso deve tomar a Butantan-DV para ficar completamente protegido

A vacina tetravalente contra dengue de dose única desenvolvida pelo Instituto Butantan, a Butantan-DV, é indicada mesmo para quem já contraiu dengue

Isso porque existem quatro tipos de vírus da dengue (DENV-1, DENV- 2, DENV- 3 e DENV4) e uma pessoa pode adoecer até quatro vezes, já que fica imune apenas ao vírus que contraiu inicialmente. Assim, mesmo quem já teve dengue deve se vacinar, com intuito de prevenir uma nova infecção pelos outros sorotipos para o qual o corpo ainda não desenvolveu proteção. 

“A pessoa que já teve a doença pode ter de novo, e a vacina protege contra os diferentes tipos do vírus. Por isso, ela continua sendo recomendada para quem teve dengue. Porém, a pessoa só deve receber o imunizante seis meses depois de ter tido a doença”, ressalta a gerente de farmacovigilância do Butantan e membro da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Mayra Moura.

A Butantan-DV somente é contraindicada para pessoas com histórico de reação alérgica grave a qualquer um dos componentes da vacina; pessoas com algum tipo de imunossupressão ou alteração da imunidade, ou seja, por doença ou pelo uso de medicamentos; gestantes ou mulheres em período de amamentação.

A Butantan-DV foi aprovada no Brasil pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em 26 de novembro de 2025 para ser usada em pessoas de 12 a 59 anos, de acordo com a indicação feita na bula do imunizante. 

A vacina contra dengue foi incorporada ao Programa Nacional de Imunizações (PNI), do Ministério da Saúde, e começou a ser aplicada em janeiro de 2026 em pessoas de 15 a 59 anos em um projeto piloto realizado em cidades de São Paulo, Minas Gerais e Ceará. Em fevereiro, o Ministério da Saúde começou a vacinação de 1,2 milhão de profissionais de saúde em todo o país.

O Ministério da Saúde recomenda a vacinação contra a dengue, utilizando as vacinas disponibilizadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS), independentemente de infecção prévia. 

Saiba mais sobre a Butantan-DV

Os resultados do ensaio clínico de fase 3 da Butantan-DV revelaram uma eficácia de 80,5% contra casos de dengue grave e dengue com sinais de alarme (desfecho combinado) ao longo de cinco anos. O estudo, publicado na prestigiada revista científica Nature Medicine, acompanhou quase 17 mil pessoas no Brasil e confirmou que a proteção se mantém sólida em longo prazo. 

No que diz respeito à eficácia geral para prevenir a dengue sintomática (causada por qualquer sorotipo), o imunizante atingiu a marca de 65% durante os cinco anos de monitoramento.

Além da alta proteção contra quadros severos, o estudo demonstrou que a Butantan-DV protegeu contra hospitalizações por dengue, já que não houve nenhum registro de internação no grupo vacinado, contra oito casos no grupo placebo.


O imunizante utiliza vírus vivos, mas "enfraquecidos" (atenuados) em laboratório, para que não causem a doença enquanto são capazes de estimular uma resposta imune. As cepas utilizadas são baseadas em uma tecnologia originalmente desenvolvida pelos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos (NIH, na sigla em inglês).

Saiba mais sobre a doença

A dengue é uma arbovirose [doença transmitida por artrópodes, como mosquitos e carrapatos], que tem como vetor a fêmea do mosquito Aedes aegypti

Os primeiros sintomas da dengue são febre alta, dores no corpo e atrás dos olhos, vermelhidão na pele e fadiga. Nessa fase, a doença é classificada como dengue clássica ou dengue sem sinais de alerta, e pode ser controlada com hidratação intensa e certas medicações até seu desaparecimento, em alguns dias.

Em uma minoria, outros sintomas mais específicos podem surgir, como dores abdominais, vômitos intensos, desidratação, falta de apetite e sangramentos nas mucosas. Essa é a fase da dengue com sinais de alerta, nome dado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) por indicar uma gravidade do quadro clínico. Nesse momento, é importante ter acompanhamento médico.

Fonte _ Butantan

terça-feira, 5 de maio de 2026

O que os médicos querem que você saiba sobre cannabis e saúde

 


O presidente Trump recentemente flexibilizou as restrições à maconha medicinal, e milhões de americanos já estão usando para tratar dor crônica e outras condições.

Especialistas dizem estar esperançosos de que a medida fomente mais pesquisas sobre a droga, o que poderia revelar novas aplicações terapêuticas para a cannabis e seus compostos, como o canabidiol, ou CBD. Mas, ao mesmo tempo, disseram eles, isso pode reforçar concepções equivocadas sobre a segurança e a utilidade da droga.

HÁ APENAS ALGUNS USOS COMPROVADOS CIENTIFICAMENTE

A Food and Drug Administration (FDA) aprovou um punhado de medicamentos que contêm cannabis, componentes da cannabis ou produtos sintéticos similares, que são prescritos para tratar náuseas induzidas por quimioterapia, uma síndrome de emagrecimento relacionada à Aids e um tipo de convulsão.

Além desses, dizem os especialistas, talvez a evidência mais forte até agora seja sobre o uso de cannabis para alívio da dor. Cerca de 53% das pessoas que dizem usar por motivos de saúde afirmam fazê-lo para aliviar a dor, e a maioria dos estados permite o uso de maconha medicinal por esse motivo.

Médicos cujos pacientes com dor crônica usam cannabis dizem que, embora ela apenas modere a dor de forma moderada, parece ajudar as pessoas a lidar com ela.

"A intensidade real da dor deles não mudou muito, mas o humor está melhor, eles dormem melhor, a qualidade de vida está melhor", diz Ali John Zarrabi, internista e médico de cuidados paliativos do Winship Cancer Institute.

Mesmo assim, sociedades médicas como a Associação Internacional para o Estudo da Dor não recomendam a cannabis como tratamento de primeira linha, porque os dados são limitados e há risco de efeitos colaterais, incluindo tontura, sonolência e náusea.

EVIDÊNCIAS SOBRE OUTRAS ALEGAÇÕES SÃO ESCASSAS

Estados em todo o país autorizaram a maconha medicinal, que é vendida em dispensários e online, para uma ampla gama de condições de saúde. Alguns estados permitem o uso medicinal por qualquer motivo que um médico considere apropriado.

Mas há pouca ou nenhuma evidência sólida mostrando que ela beneficia muitas condições que estão nas listas de qualificação, incluindo transtorno de estresse pós-traumático, doença de Parkinson, glaucoma e ELA, de acordo com Almut Gertrud Winterstein, diretora do Consortium for Medical Marijuana Clinical Outcomes Research.

Depois da dor, a ansiedade é o motivo medicinal mais comum que os consumidores citam. A Associação Americana de Psiquiatria se opõe ao uso medicinal da cannabis e diz que há evidências insuficientes de que ela seja eficaz para tratar qualquer doença psiquiátrica. A organização também afirma que há uma forte associação entre o uso de cannabis e o início e a exacerbação de transtornos psiquiátricos, especialmente entre crianças, adolescentes e adultos jovens.

Outro uso comum é para combater a insônia. As evidências de que a cannabis melhora o sono também são limitadas, porém, e as sociedades de medicina do sono desencorajam seu uso.

ELA É MAIS POTENTE DO QUE VOCÊ PODE IMAGINAR

Os produtos de cannabis disponíveis hoje têm concentrações de THC muito maiores —o componente da planta que produz o "barato"— do que tinham décadas atrás.

Embora as estimativas do aumento de potência variem amplamente, análises do National Institute on Drug Abuse de produtos de cannabis ilegais descobriram que a quantidade de THC neles quadruplicou entre 1995 e 2022. Concentrados de cannabis vendidos em dispensários podem conter níveis de THC de até 40%.

Especialistas dizem que produtos de maior potência têm mais probabilidade de levar ao transtorno pelo uso, que é definido como a incapacidade de parar de usar mesmo quando a droga está causando danos.

"Há uma concepção equivocada definitiva de que a cannabis não é viciante", diz Smita Das, professora clínica de psiquiatria e ciências comportamentais na Stanford University School of Medicine.

"Isso pode ter sido verdade anos atrás, quando as pessoas apenas enrolavam baseados à moda antiga, com pedaços da flor seca", diz Das. Mas os produtos mais potentes de hoje podem criar uma sensação maior de euforia. "Quando começa a sair do sistema deles, eles sentem mais vontade, então da próxima vez, podem precisar de mais e usar mais."

É difícil prever quem desenvolverá transtorno por uso de Cannabis, que se estima afetar até três em cada dez pessoas que usam cannabis.

Aqueles com risco elevado incluem homens; pessoas que iniciaram o uso na adolescência; qualquer pessoa com pai ou irmão que tenha transtorno por uso de substâncias; e aqueles que têm uma condição de saúde mental como depressão e usam cannabis para se automedicar.

Estudos canadenses associaram o transtorno por uso a um risco maior de morte, incluindo por trauma, suicídio e outras causas.

SE VOCÊ USA, SEU MÉDICO DEVE SABER

Como qualquer outra droga, a cannabis vem com efeitos colaterais e pode interagir perigosamente com outros medicamentos prescritos, particularmente anticoagulantes, antidepressivos e medicamentos para dor.

Essa é uma razão pela qual vale a pena conversar com seu médico se você está usando cannabis. Outra é que seu médico pode precisar observar potenciais efeitos de curto ou longo prazo que você pode experimentar.

A maioria dos estudos sobre cannabis e saúde não mostra causa e efeito. No entanto, esses estudos associaram o uso a um risco aumentado de doença cardiovascular, derrames e ataques cardíacos, mesmo entre adultos mais jovens. O risco parece começar com o uso semanal e aumenta com a frequência de uso e o nível de THC. O uso crônico foi associado a um risco aumentado de esquizofrenia e outros transtornos psicóticos, com os usuários mais frequentes apresentando o maior risco.

O uso prolongado de fumar a droga também foi associado a piora dos sintomas respiratórios e episódios mais frequentes de bronquite e chiado no peito.

Além disso, algumas pessoas que são usuárias pesadas de cannabis podem desenvolver sintomas da síndrome de hiperêmese canabinoide, que causa dores de estômago, náusea e vômito. Uma pesquisa descobriu que pouco menos de um em cada cinco usuários diários de longa data relatou sintomas da síndrome.

É MELHOR QUE GESTANTES E ADOLESCENTES EVITEM

Certos grupos são particularmente vulneráveis a resultados prejudiciais, incluindo gestantes, algumas das quais usaram cannabis para lidar com náusea e vômito.

No ano passado, o American College of Obstetricians and Gynecologists publicou novas diretrizes pedindo que mulheres grávidas e lactantes se abstenham de usar a droga. O grupo observou que ela foi associada a resultados ruins no parto, incluindo baixo peso ao nascer e, potencialmente, natimorto. Também foi associada a problemas neurocognitivos e comportamentais em crianças.

"Seja comendo ou fumando, ela entra no corpo, atravessa a placenta e pode chegar ao bebê", diz Melissa Russo, médica de medicina materno-fetal.

Os adolescentes também são particularmente vulneráveis porque seus cérebros ainda estão em desenvolvimento, diz Kevin Gray, professor de psiquiatria e ciências comportamentais na Medical University of South Carolina. Ele aconselha os adolescentes a adiar o uso pelo maior tempo possível.

"O uso regular de cannabis prejudica a cognição", diz Gray. "Embora pensemos que ela pode se recuperar uma vez que a pessoa para de usar, um dos principais objetivos na adolescência é aprender e avançar na educação, e a cannabis interfere nisso."

Os adolescentes podem ser mais suscetíveis do que os adultos a se tornarem dependentes, acrescenta. Um estudo canadense também descobriu que eles tinham um risco significativamente elevado de psicose quando comparados com adolescentes que não usavam cannabis. Esse risco elevado não foi encontrado em adultos jovens que usavam.

Fonte _ Folha/SP

segunda-feira, 4 de maio de 2026

Anvisa autoriza produção nacional da vacina contra a chikungunya pelo Instituto Butantan

 


Butantan-Chik, versão brasileira da vacina desenvolvida em parceria com a Valneva, será fabricada localmente; imunizante foi aprovado em abril de 2025

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou nesta segunda-feira (4), a fabricação local da vacina contra a chikungunya do Instituto Butantan, batizada de Butantan-Chik. Desta forma, a versão feita no Butantan do imunizante – desenvolvido em parceria com a farmacêutica franco-austríaca Valneva – está liberada para uso no Brasil e poderá ser incorporada ao Sistema Único de Saúde (SUS). O público-alvo inclui pessoas de 18 a 59 anos.

A vacina da chikungunya foi aprovada pela Anvisa em abril de 2025, tendo as fábricas da Valneva como locais registrados de produção. Com o novo parecer do órgão regulatório, o Instituto Butantan passa a ser oficializado como local de fabricação e pode desenvolver parte do processo produtivo em suas fábricas com a mesma qualidade, segurança e eficácia.

Trata-se da mesma vacina, mas formulada e envasada no Brasil. A aprovação da produção local representa um importante passo na transferência de tecnologia entre as instituições, além de facilitar a incorporação do imunizante ao SUS.

“Mais um marco importante para o Instituto Butantan e para a saúde da população. Ao executar a maior parte do processo de fabricação, o Instituto Butantan, por ser uma instituição pública, poderá entregar a vacina com um preço menor e mais acessível, com a mesma qualidade e segurança”, afirma Esper Kallás, diretor do Instituto Butantan.

A vacina da chikungunya foi avaliada em 4 mil voluntários de 18 a 65 anos nos Estados Unidos. Segundo os resultados publicados na The Lancet em 2023, 98,9% dos participantes produziram anticorpos neutralizantes. O imunizante foi bem tolerado e demonstrou um bom perfil de segurança, com eventos adversos leves e moderados, sendo os mais relatados dor de cabeça, dor no corpo, fadiga e febre. 

Em fevereiro de 2026, o imunizante começou a ser aplicado no SUS em municípios que registram grande incidência da doença, a partir de uma estratégia piloto do Ministério da Saúde.

“Essa autorização reforça o nosso compromisso em parceria com o Instituto Butantan de proteger comunidades da América Latina contra a chikungunya. Cerca de 23 mil brasileiros já receberam a vacina como parte da campanha piloto, e possibilitar a fabricação e distribuição local é um marco crucial para oferecer esse imunizante tão necessário a populações de risco”, diz o diretor médico da Valneva, Juan Carlos Jaramillo.

A transferência de tecnologia da vacina da chikungunya da Valneva para o Instituto Butantan contou com apoio da Coalizão para Inovações em Preparação para Epidemias (CEPI), visando o desenvolvimento e a fabricação de uma versão local do imunizante. O acordo garante o fornecimento prioritário da vacina a preços acessíveis para países de baixa e média renda afetados por surtos da doença.

Além do Brasil, a vacina também foi aprovada no Canadá, Europa e Reino Unido.

Impactos da chikungunya

A vacina do Butantan e da Valneva foi a primeira a ser registrada contra a doença no mundo. Só em 2025, a chikungunya acometeu cerca de 620 mil pessoas globalmente, segundo a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS). No Brasil, foram notificados mais de 127 mil casos, com 125 óbitos, de acordo com o Ministério da Saúde.

O vírus da chikungunya é transmitido pela picada do mosquito Aedes aegypti, o mesmo que transmite dengue e Zika. A doença pode causar febre de início súbito (acima de 38,5°C) e dores intensas nas articulações de pés e mãos – dedos, tornozelos e punhos. Outros sintomas comuns são dor de cabeça, dor muscular e manchas vermelhas na pele. 

A principal consequência da infecção é a dor crônica nas articulações, que pode durar de meses a anos e afetar gravemente a qualidade de vida. Pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte observaram que pessoas afetadas pela forma crônica da doença apresentam um risco 13 vezes maior de desenvolver depressão, além de 76 vezes mais chance de ter problemas de locomoção.

Nos Estados Unidos, um estudo conduzido com 500 pacientes na Universidade George Washington apontou que uma em cada oito pessoas diagnosticadas com chikungunya teve dor articular persistente por três anos.

A aprovação da produção local é, portanto, mais um importante passo no enfrentamento da doença. No entanto, continua sendo importante evitar a proliferação do mosquito vetor, eliminando focos de água parada em objetos como pneus, latas e vasos de plantas. Caixas d’água, cisternas e tambores, por exemplo, devem ser mantidos fechados, orienta o Ministério da Saúde.

Fonte _ Butantan

Ministério da Saúde destina 37 veículos para transporte de pacientes do SUS no Acre

 


Ministério da Saúde vai garantir o transporte de pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) que precisam ser atendidos longe de casa no Acre. O estado será contemplado com 37 veículos, sendo 17 ambulâncias, 14 micro-ônibus e 6 vans, destinados a deslocamentos superiores a 50 km até os serviços de saúde. A iniciativa integra o programa Agora Tem Especialistas – Caminhos da Saúde e tem como objetivo ampliar o acesso da população a consultas, exames, cirurgias e tratamentos contínuos, como oncologia e hemodiálise. A ação faz parte do Novo PAC Saúde e, em âmbito nacional, prevê a entrega de 3,3 mil veículos, com investimento de R$ 1,4 bilhão.

É a primeira vez que o Ministério da Saúde compra e oferta transporte sanitário diretamente a estados e municípios, enfrentando um dos principais obstáculos no acesso à saúde especializada: a distância entre o local de residência do paciente e os serviços de média e alta complexidade. Dos 3.300 veículos adquiridos, 1.824 serão entregues diretamente às prefeituras para usos em múltiplas finalidades, enquanto os outros 1.476 vão ser direcionados ao transporte de pacientes de radioterapia e hemodiálise.

No Acre, 27 veículos serão destinados diretamente a 17 municípios para uso em múltiplas finalidades, enquanto outros 10 atenderão ao transporte de pacientes em radioterapia e hemodiálise. A definição dos locais de destino desses últimos será pactuada entre o estado e os municípios no âmbito da Comissão Intergestores Bipartite (CIB).

Segundo o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, a iniciativa representa uma mudança concreta na vida destes brasileiros. No caso do tratamento de câncer, os pacientes do SUS em média precisam se deslocar mais de 140 km. “Muitas pessoas precisam acordar de madrugada, viajar por horas, passar o dia inteiro em tratamento e retornar apenas à noite, muitas vezes em condições precárias. Esse é o caminho do sofrimento que o governo do presidente Lula está transformando. Pelo Agora Tem Especialistas, o Caminhos da Saúde garante dignidade, segurança e qualidade no deslocamento até o atendimento”, afirma.

Confira a lista dos municípios beneficiados

Transporte para garantir acesso dos pacientes a atendimento

Os veículos destinados a atender pacientes da radioterapia e hemodiálise serão distribuídos pelos estados às macrorregiões contempladas, permitindo que gestores locais organizem rotas, fluxos e tipos de transporte de acordo com a realidade de cada território.

A destinação dos veículos do Agora Tem Especialistas - Caminhos da Saúde segue critérios técnicos que consideram as desigualdades no acesso à saúde e a organização regional do SUS. A previsão é que todas as macrorregiões de saúde do país sejam contempladas, com reforço para aquelas com maior número de casos de câncer e maior dependência do SUS.

Para o transporte de pacientes em radioterapia, a divisão leva em conta a oferta de serviços de aceleradores lineares e a necessidade de deslocamento. No caso da hemodiálise, os critérios consideram a distância até os serviços de terapia renal substitutiva. A definição do arranjo para uso dos veículos será pactuada entre o estado e seus municípios na respectiva Comissão Intergestores Bipartite (CIB).

Mais equipamentos e mais recursos para radioterapia no SUS

Além de garantir o transporte, o programa Agora Tem Especialistas também atua para otimizar o uso dos aceleradores lineares disponíveis no país. Cada equipamento tem capacidade para realizar cerca de 700 tratamentos por ano, mas muitos ainda operam abaixo desse potencial. 

Para garantir que esses aceleradores atuem em sua capacidade máxima, o Ministério da Saúde estabeleceu incentivos para que os serviços ampliem o atendimento, em um total de R$ 906 milhões por ano. Com isso, cada unidade pode ganhar até 30% mais, dentro de uma nova forma de financiamento que supera de vez a antiga Tabela SUS.

Além disso, neste governo, foram adquiridos mais de 100 aceleradores lineares e já são quase 40 novos aparelhos entregues desde 2023, reforçando a capacidade de atendimento e garantindo mais rapidez no início do tratamento. Com mais equipamentos de ponta, o Ministério da Saúde fortalece os centros regionais de tratamento de câncer, garantindo também atendimento mais perto de casa.

Com essas medidas, somadas a expansão do diagnóstico, consultas e cirurgias, o Governo do Brasil, pelo Agora Tem Especialistas, realiza o maior acesso a assistência oncológica da história do SUS.

O programa visa expandir o atendimento especializado no país e reduzir o tempo de espera por consultas, exames e cirurgias em áreas prioritárias. A iniciativa prevê também a realização de mutirões - incluindo, em março deste ano, o maior mutirão voltado à saúde da mulher, com 230 mil atendimentos; a oferta de serviços pelas Carretas das Saúde, unidades móveis que já atenderam pacientes de mais de 1.700 municípios; e o atendimento de pacientes do SUS por hospitais privados a partir de créditos financeiros para quitar impostos com a União.

Entre os resultados o SUS bateu recorde de cirurgias em 2025, com um total de 14,9 milhões de procedimentos, 42% mais que em 2022. Também registrou recorde de exames (1,3 milhão) e de internações (14 milhões).

Fonte _ Saúde.gov

quinta-feira, 30 de abril de 2026

Os animais no DNA do Instituto Butantan: da produção de soros ao compromisso com a conservação e educação ambiental

 


IBu 125 anos

Especialista em envenenamento e lar para animais resgatados do tráfico, Instituto Butantan consegue unir o trabalho pelas pessoas e pelo meio ambiente

Esta matéria contou com a contribuição dos pesquisadores do Instituto Butantan Felipe Grazziotin, Silvia Travaglia Cardoso e Vania Mattaraia. Agradecimento especial ao Centro de Memória do Instituto Butantan

No Especial 125 anos do Instituto Butantan, viaje pela História e pelas histórias que fazem dessa instituição centenária uma referência global em pesquisa, produção e educação científica.

A relação com os animais é parte substancial da rotina do Instituto Butantan desde a sua criação, em 1901. Essa simbiose – um ciclo de cooperação mútua que envolve sociedade, ciência e conservação – é o que equilibra o ecossistema da instituição, possibilitando a produção de soros que salvam vidas, a educação ambiental e o desenvolvimento de pesquisas voltadas à saúde pública e ao bem-estar animal. Juntos, esses pilares tornam o Butantan um protagonista em Saúde Única ou Uma Só Saúde – conceito que conecta saúde humana, animal e ambiental.

Seja na extração de veneno que o médico sanitarista Vital Brazil demonstrava à população curiosa que visitava o Instituto no início do século XX, ou nos atuais museus do Parque da Ciência que recebem cerca de 200 mil visitantes por ano; seja na produção de soros em laboratórios improvisados no começo do século passado, ou nas fábricas que hoje entregam 600 mil frascos de antiveneno anualmente, o Butantan sempre se pautou pelas necessidades das pessoas, dos animais e do meio ambiente.

Por meio do antigo sistema de permuta introduzido por Vital, as serpentes chegavam ao Instituto com a ajuda da população. No imaginário popular, a instituição foi se tornando referência no recebimento de animais peçonhentos, ao mesmo tempo em que conscientizava o público sobre a importância de estudá-los e preservá-los. Mais tarde, passou também a ser casa para espécimes resgatados do tráfico, por meio de operações do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e das polícias Ambiental, Rodoviária Federal e Civil. 

Para dar conta dessa atuação multifacetada, foi preciso criar uma extensa estrutura voltada ao recebimento e manejo responsável de animais vivos. Há décadas, todos os espécimes que chegam ao Instituto Butantan entram pelo setor de Recepção de Animais, que avalia, registra e concede o destino adequado para cada um. Entre cobras, aranhas e escorpiões, foi se estruturando uma rede composta por quatro frentes: uma dedicada às exposições de caráter educativo; uma com a função de identificar, registrar, armazenar e conservar os animais; uma focada no estudo dos venenos; e outra responsável pela produção de soros.

Auxiliar de laboratório pressionando as glândulas veneníferas de uma jararaca. Sem data. (Acervo Instituto Butantan/Centro de Memória)


A jornada dos animais no Butantan

Ao longo de seus 125 anos, o Instituto Butantan desenvolveu diferentes mecanismos para receber animais. O primeiro surgiu diante da urgência de se produzir soros contra os acidentes ofídicos, que levou Vital Brazil a estabelecer um sistema de permuta com a população: trabalhadores rurais enviavam serpentes em caixas de madeira especialmente projetadas pelo médico sanitarista, e em troca recebiam soro, instrumentos de contenção para ajudar na captura do animal e material informativo. 

Essa prática deixou de existir há muito tempo e, hoje, os soros só podem ser encontrados nas unidades de saúde e administrados por profissionais qualificados. Apesar disso, a instituição continua sendo referência para os brasileiros que se deparam com animais peçonhentos em suas residências e, por vezes, recebe doações de espécimes que contribuem para apoiar suas pesquisas científicas e a produção de antivenenos.

Devido à sua expertise na área, o Butantan também se tornou parceiro de órgãos federais e estaduais, como o Ibama e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), e passou a receber animais apreendidos do tráfico. Nesse caso, a missão do Instituto é cuidar e dar uma nova vida aos bichos resgatados, que não podem ser reintroduzidos na natureza.

Os animais que chegam por doação ou por apreensão podem ser destinados à extração de veneno, para produção de soros; à pesquisa científica; à exposição nos museus e viveiros, como forma de fomentar a educação ambiental; e à coleção zoológica, responsável por descrever espécies, armazená-las e preservá-las.

No caso das serpentes, por exemplo, a maioria das nativas peçonhentas é enviada ao Laboratório de Herpetologia, que mantém um plantel para extração de veneno, enquanto as não peçonhentas ou exóticas (que não ocorrem no Brasil) seguem para os museus ou para outros laboratórios para fins de pesquisa. Todas passam por uma quarentena e atendimento veterinário, a fim de eliminar parasitas e garantir que estão saudáveis. 

Outra forma de entrada de animais no Butantan é por meio das expedições de campo, realizadas por pesquisadores para conduzir estudos, descobrir novas espécies e acompanhar a saúde de populações. 

Expedição do Butantan na Ilha da Queimada Grande, lar da jararaca-ilhoa, espécie criticamente ameaçada de extinção (Foto: Marília Ruberti)


Uma biblioteca nacional de biodiversidade

“Na conservação, tudo começa com a descrição da espécie, porque não há como conservar o que não se conhece” (Felipe Grazziotin, pesquisador e curador da Coleção Herpetológica do Laboratório de Coleções Zoológicas do Butantan)

Imagine por um momento qual seria o impacto ambiental se cada pesquisador do mundo dedicado a jararacas ou cascavéis precisasse ter um exemplar em mãos para conduzir seus estudos. Graças às coleções zoológicas, isso não é necessário: os cientistas podem fazer pesquisas sobre serpentes e outros animais sem usá-los diretamente. As coleções funcionam como “guardiãs” da história evolutiva e da biodiversidade, sendo responsáveis por armazenar, preservar e produzir conhecimento sobre os animais, disponibilizando esses dados para outros cientistas. 

O trabalho do Laboratório de Coleções Zoológicas do Butantan envolve identificar novas espécies, entender sua distribuição geográfica e estudar sua evolução. Para identificar a espécie coletada durante uma expedição ou descrevê-la como uma nova espécie, os cientistas utilizam a comparação com os chamados “espécimes-tipo” das coleções zoológicas – os originais usados para descrever a espécie pela primeira vez. Eles são armazenados por décadas e usados como referência permanente, o que ajuda a reduzir o uso de animais vivos em pesquisa e traçar estratégias eficazes de conservação.

Quando um animal entra para a coleção, os pesquisadores realizam a coleta de diversos materiais – veneno, glândulas de veneno, sangue, fezes e tecidos. Isso ajuda a gerar as informações necessárias para que qualquer cientista, no presente ou no futuro, possa estudar aspectos como genética, reprodução e alimentação, contribuindo para a preservação das espécies.

“A amostra temporal é outro fator indispensável: precisamos saber o quanto aquela população mudou ao longo do tempo, coletando espécimes em diferentes espaços temporais. Com isso, conseguimos traçar a evolução da ocupação do solo, da saúde dessas populações e da biodiversidade em si”, diz o pesquisador Felipe Grazziotin.

Vista geral da Coleção de Serpentes. Sem data. (Acervo Instituto Butantan/Centro de Memória)


Em construção desde o começo do século XX, a Coleção Herpetológica (de serpentes) é a mais antiga do Instituto, e surgiu por uma necessidade de saúde pública. Era preciso um lugar para armazenar as diferentes espécies de cobras peçonhentas que eram base para a produção dos respectivos antivenenos, específicos para cada uma. Com o passar dos anos, a coleção foi se ampliando e passou a incluir outros animais de interesse em saúde, como aranhas, escorpiões, insetos, ácaros e carrapatos.

O acervo de serpentes do Butantan já foi o maior do Brasil e um dos maiores do mundo. A participação da sociedade no antigo sistema de permuta foi peça-chave para o desenvolvimento inicial da coleção. Nas primeiras décadas de 1900, o número de serpentes enviadas ao Instituto crescia exponencialmente: só no ano de 1931, o Instituto recebeu 20.000 exemplares vivos. Até hoje, durante suas expedições no interior do país, o pesquisador Felipe Grazziotin encontra famílias que guardam com orgulho as caixas de transporte de serpentes, que então eram fornecidas pelo Butantan à população, como símbolos dessa colaboração histórica.

Vista de serpente urutu sendo colocada na caixa de transporte. Sem data. (Acervo Instituto Butantan/Centro de Memória)


Tudo mudou em 2010, quando um incêndio de grandes proporções acometeu o prédio que abrigava o acervo herpetológico do Instituto. A tragédia culminou na perda de mais de 80% dos 96 mil exemplares, e cerca de 900 eram espécimes-tipo – utilizadas na descrição de novas espécies por pesquisadores do mundo todo. O edifício foi reinaugurado em 2013 com um sistema avançado de segurança e prevenção de incêndios, e hoje o laboratório desenvolve projetos inovadores para recuperar e preservar a coleção. Tecnologias como sequenciamento genético e microtomografia computadorizada permitem estudar todos os aspectos dos animais sem precisar manuseá-los.

Atualmente, a entrada de serpentes no Instituto se limita a 1.500 a 2.000 exemplares por ano. A redução dos números reflete uma sociedade mais consciente sobre conservação, que prioriza manter os animais em seu ambiente natural, e os esforços da própria instituição, que trabalha em prol da preservação das espécies em seu habitat nativo.



Veneno que gera conhecimento

As décadas de trabalho com serpentes e outros animais peçonhentos possibilitaram não só que o Instituto Butantan se tornasse referência mundial na fabricação de antivenenos, mas também se especializasse em investigar os componentes das peçonhas e suas diversas aplicações biomédicas.

Nas mãos e mentes dos pesquisadores do Butantan, os venenos dos animais peçonhentos ganham novos significados por meio de estudos em toxinologia. Essa área busca desvendar os mecanismos por trás do envenenamento e descrever a composição dos venenos, em uma investigação constante de possíveis novos usos para suas moléculas.

Muitos desses trabalhos resultaram na descoberta de proteínas com potencial farmacológico, visando o desenvolvimento de terapias para problemas de saúde como câncer, dor crônica e doenças autoimunes. Exemplo disso é a crotoxina, proteína do veneno da cascavel estudada pelo Instituto há mais de 20 anos, que demonstrou atividade anti-inflamatória e antitumoral em diferentes pesquisas.

Exemplar de cascavel (Foto: José Felipe Batista)


“Graças ao trabalho de gerações de pesquisadores do Butantan, as serpentes brasileiras figuram como as mais estudadas do mundo. Há métodos de pesquisa, como geração de dados genéticos desses animais, que foram feitos pela primeira vez aqui, com as serpentes nativas”, aponta o pesquisador Felipe Grazziotin.

A expertise do Instituto em toxinologia também evoluiu fora do eixo das serpentes, com pesquisas sobre os venenos de escorpiões, aranhas, lagartas, anfíbios e peixes. Na lagarta Lonomia obliqua, por exemplo, cientistas identificaram moléculas com ação de regeneração celular, que apresentam potencial para cicatrização de queimaduras e para tratamento de doenças articulares e degenerativas. Já no veneno do peixe niquim (Thalassophryne nattereri), foi descrito um peptídeo anti-inflamatório que demonstrou atividade contra asma em testes em modelos animais.

Conforme a produção de conhecimento avançava, o Instituto Butantan também se tornou referência na formação de novos profissionais especializados em toxinologia, contando com um dos únicos programas gratuitos de pós-graduação brasileiros voltados à área. Ao mesmo tempo, continuou trazendo a população para perto da ciência, por meio de seus museus, atividades educativas e, mais recentemente, cursos gratuitos voltados ao público geral.

Demonstração com serpente para visita escolar. Sem data. (Acervo Instituto Butantan/Centro de Memória)


Educar para preservar

O contato próximo com a sociedade civil sempre foi um dos pilares fundamentais do Instituto Butantan. Em 1914, a instituição inaugurou o Serpentário – viveiro de serpentes a céu aberto – e seu primeiro museu, que mostrava parte da coleção zoológica, buscando conscientizar a população sobre animais peçonhentos. Mais tarde, passou a expor espécimes vivas, como serpentes, aranhas, escorpiões e lagartos, no local hoje conhecido como Museu Biológico. O Mão na Cobra, atividade tradicional de divulgação científica do Butantan, é uma das tantas ações que até hoje ajudam a desmistificar as serpentes, comumente vistas como “vilãs”, possibilitando que as pessoas se aproximem de bichos vivos para além dos familiares mamíferos.

“A solução de Vital Brazil foi brilhante: ele transformou ciência em espetáculo. Demonstrações públicas de serpentes e programas educacionais atraíram multidões, que vinham pelo entretenimento e ficavam pela ciência” (Silvia Travaglia-Cardoso e Erika Hingst-Zaher. Where museum meets zoo: Butantan’s living Herpetological Collection. Responsible Herpetoculture Journal. #25 January-February 2026)

Cobra coral e cascavel em exposição no Museu Biológico. Sem data.  (Acervo Instituto Butantan/Centro de Memória)


Antigamente, os animais ficavam em recintos parecidos entre si, com plantas artificiais e pouco ou nenhum substrato. Quem visita hoje o Museu Biológico do Instituto Butantan encontra recintos personalizados e pensados para cada espécie, com plantas naturais, troncos, abrigos e temperaturas específicas que simulam seu habitat natural. Essa ambientação, além de aumentar o bem-estar dos animais, permite que eles expressem seu comportamento natural. Assim, os pesquisadores conseguem estudá-los e compreendê-los com mais profundidade, gerando conhecimentos indispensáveis para a conservação.

Os atuais recintos do Museu Biológico são construídos para imitar o ambiente natural dos animais (Foto: José Felipe Batista)


Além do Museu Biológico e do Serpentário, o Butantan conta com outras exposições de animais vivos, como o Macacário, que abriga descendentes de uma colônia de macacos Rhesus trazidos da Ásia em 1929; o Reptário, um viveiro com lagartos e quelônios; e o Laboratório de Ecologia e Evolução (LEEv), que apresenta o universo dos répteis brasileiros ameaçados em visitas guiadas e desenvolve pesquisas focadas em conservação. No LEEv, é possível observar serpentes, lagartos, cágados e jabutis em ambientes que simulam seu habitat natural, além de um recinto com três sucuris-verdes.

Recinto das sucuris-verdes no Laboratório de Ecologia e Evolução foi inaugurado em fevereiro de 2026. (Foto: José Felipe Batista)


Grande parte dos animais expostos no Parque da Ciência são resgatados do comércio ilegal pelo Ibama e pela polícia. Muitos são exóticos (espécies que não ocorrem no Brasil) e alguns são nativos, mas não é possível determinar a sua origem exata nem as condições em que eles estavam vivendo. Pela segurança do próprio animal e do meio ambiente, ele não pode ser reintroduzido na natureza, pois poderia gerar um desequilíbrio ecológico entre as espécies locais. Além disso, teria dificuldade para caçar e sobreviver por ter crescido em cativeiro.

Ao serem acolhidos pelo Butantan, esses animais ganham uma nova possibilidade de vida. Tornam-se símbolos da educação ambiental, contribuindo para a conscientização sobre os impactos do tráfico animal e a importância da preservação das espécies. No Brasil, segundo a Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres (Renctas), cerca de 38 milhões de animais silvestres são retirados ilegalmente da natureza a cada ano.

Serpente asiática víbora-dos-lábios-brancos, resgatada do tráfico animal em 2023 e hoje exposta no Museu Biológico (Foto: José Felipe Batista)


No Butantan, os animais passam por acompanhamento veterinário periodicamente. “Hoje em dia, temos veterinários especializados inclusive em aranhas. O cuidado foi se aprimorando, o que também aumentou a longevidade de todos esses animais”, conta a pesquisadora do Museu Biológico Silvia Regina Travaglia Cardoso. Uma das serpentes mais velhas em exposição é a sucuri carinhosamente apelidada de Muzinha, que vive no Butantan há mais de 20 anos e impressiona visitantes com seus mais de 5 metros de comprimento e 97 kg.

O Instituto também oferece capacitação para o Corpo de Bombeiros e a polícia ambiental, ensinando os profissionais sobre o manejo seguro de serpentes e outros animais peçonhentos. Além disso, promove ações educativas para moradores de comunidades isoladas, que vivem em maior risco de sofrer acidentes com serpentes.

A sucuri Muzinha, habitante do Museu Biológico (Foto: Marília Ruberti)


Ética e bem-estar animal como motores

Com recintos que se aproximam da vida na natureza, viveiros ao ar livre, estratégias para reduzir o uso de modelos vivos em pesquisa e trabalhos de conservação, o Butantan mantém a ética e o bem-estar animal como norte de suas atividades. A prática do enriquecimento ambiental, que norteia a criação dos recintos do Museu Biológico e dos outros espaços de manutenção de animais vivos do Butantan, oferece estímulos sensoriais, sociais, cognitivos, estruturais ou alimentares imprevisíveis, semelhantes ao que eles encontrariam na natureza, contribuindo para sua saúde cognitiva.

Os habitantes do Macacário, por exemplo, vivem em um espaço com lago, balanços, pneus e troncos para escalar, permitindo que eles expressem seu comportamento natural. Herdeiros dos macacos trazidos para o Brasil em 1929 para contribuir na pesquisa de uma vacina contra a febre amarela, hoje esses animais figuram como pequenos educadores ambientais, sendo a única colônia de macacos Rhesus no país aberta à visitação do público.

O Macacário abriga uma colônia de macacos Rhesus (Foto: Comunicação Butantan)


Um elemento essencial para a manutenção de todo esse complexo é o Biotério Central, responsável pela criação de animais de laboratório, que fornece alimentação para os exemplares das exposições e da produção de soros, contribui para o desenvolvimento das pesquisas do Instituto e capacita profissionais na área de bioterismo. Um recente projeto de expansão da área deu origem ao Centro de Bem-Estar Animal, que visa o desenvolvimento de modelos experimentais mais precisos, alinhando o Butantan ao movimento global de redução do uso animal em testes.

Ainda com esse objetivo, o Instituto investe em modelos experimentais inovadores, como o zebrafish (peixe paulistinha). A espécie possui alta similaridade genética com seres humanos, é de fácil manejo e permite a realização de testes sem procedimentos invasivos, contribuindo para reduzir o uso de mamíferos em laboratório.

“O Butantan é uma instituição de vanguarda – nós já tínhamos as nossas próprias comissões de ética antes de haver legislação sobre o uso de animais em pesquisa no Brasil. O Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal [CONCEA] foi criado em 2008 e trouxe muitos ganhos para o bem-estar animal”, reflete a pesquisadora e diretora do Biotério Central do Butantan, Vania Mattaraia.

No LEEv, visitantes podem aprender sobre a jararaca-ilhoa (Foto: José Felipe Batista)


Somado a isso, entre os esforços de conservação animal, destacam-se projetos voltados às serpentes insulares, como a jararaca-ilhoa, residente da Ilha da Queimada Grande – popularmente chamada de “Ilha das Cobras”. A partir da manutenção ex situ (fora do ambiente natural), os cientistas investigam aspectos como reprodução, alimentação e uso do habitat, buscando viabilizar a preservação genética e o aumento da população da espécie ameaçada.

Trabalhando com e pelos animais, instituições como o Butantan reforçam a importância de conhecer e preservar a biodiversidade e de conectar a sociedade com a ciência. As portas abertas, por meio de museus, viveiros e da própria natureza que habita o Parque da Ciência, servem como um instrumento educativo e uma lembrança de que a nossa saúde também está ligada à saúde animal e ambiental, e que cuidar do ambiente é cuidar de todos nós.

"Nosso legado de ciência cidadã, iniciado por Vital Brazil há mais de um século, continua por meio de programas educativos que transformam o medo em fascínio e os visitantes em defensores da conservação de répteis e anfíbios." (Silvia Travaglia-Cardoso e Erika Hingst-Zaher. Where museum meets zoo: Butantan’s living Herpetological Collection. Responsible Herpetoculture Journal. #25 January-February 2026)

Atividade da Semana de Férias no Butantan, com os "Astros do Museu Biológico". (Foto: José Felipe Batista)


Referências:

Calleffo, M. E. V., & Barbarini, C. C. (2007). A origem e a constituição dos acervos ofiológicos do Instituto Butantan. Cadernos De História Da Ciência, 3(2), 73–100.

https://doi.org/10.47692/cadhistcienc.2007.v3.35725

Canter, Henrique Moisés. 100 anos de Butantan. 2000.

TEIXEIRA-COSTA, Luiz Antônio; HINGST-ZAHER, E. Vital Brazil: um pioneiro na prática da ciência cidadã. Cadernos de História da Ciência, v. 10, p. 2014-54, 2015. Disponível em:

https://ohs.coc.fiocruz.br/artigo/vital-brazil-um-pioneiro-na-pratica-da-ciencia-cidada/.

Travaglia-Cardoso, Silvia Regina. Hingst-Zaher, Erika. Where museum meets zoo: Butantan’s living Herpetological Collection. Responsible Herpetoculture Journal. #25 January-February 2026.

Vaz, Eduardo. Fundamentos da História do Instituto Butantan – Seu desenvolvimento. 1949.

Fonte _ Butantan