sábado, 31 de outubro de 2026

Jornais - Informações na Madrugada

 






Pesquisas indicam que evolução elevou risco moderno de doenças autoimunes

 


A evolução não tem propósitos, apenas resultados. A seleção natural darwiniana não molda os seres vivos para que sejam "melhores" ou "superiores" em algum sentido objetivo e transcendental —ela os molda para que sejam bem-sucedidos no aqui e agora.

O que funciona em determinado ambiente ou período pode se mostrar prejudicial em outro. Alguns cientistas afirmam que esse fato da evolução pode ajudar a explicar as origens das doenças autoimunes humanas.

As doenças autoimunes são um tanto misteriosas, mas estão longe de ser raras. Entre elas estão a esclerose múltipla, a artrite reumatoide, o diabetes tipo 1, o lúpus, a doença de Crohn, a psoríase e, possivelmente, mais de 100 outras.

Algumas causam sofrimento; outras, desconforto e transtornos; e algumas podem ser fatais. O que essas condições têm em comum é que, por razões ainda pouco claras, as células imunológicas de uma pessoa começam a atacar os próprios tecidos e órgãos do corpo, em vez de apenas defendê-lo de invasores como vírus e bactérias.

Acredita-se que as doenças autoimunes afetem cerca de 15 milhões de pessoas nos Estados Unidos e entre 5% e 10% da população dos países industrializados, além de uma porcentagem menor nos países em desenvolvimento.

Esses números estão aumentando, provavelmente devido a fatores ambientais, como alimentação e poluentes, que contribuem para desencadear essas doenças. Mas fatores genéticos provavelmente também têm influência —e é nesse ponto que pesquisas realizadas nos últimos anos revelaram um padrão intrigante.

As doenças autoimunes podem surgir, em parte, da ação de genes e combinações genéticas que foram valiosos em fases anteriores da história humana, mas que hoje são desvantajosos. Mais especificamente, cientistas encontraram evidências de seleção natural de certas variantes genéticas durante a Idade do Bronze, iniciada há cerca de 5.000 anos e que se estendeu por dois milênios.

Essas mesmas variantes podem aumentar o risco de doenças autoimunes nas pessoas que hoje as carregam. O termo para esses efeitos opostos é "pleiotropia antagônica", e uma forma simples de explicá-lo é dizer que, às vezes, um gene ajuda e, em outras, prejudica.

Por que algumas variantes genéticas teriam prestado um serviço valioso aos seres humanos antigos, mas hoje seriam prejudiciais? Uma resposta, respaldada por estudos recentes que recorrem ao sequenciamento genético de DNA humano antigo e à comparação dessas sequências com genomas modernos, envolve as doenças infecciosas.

Durante aqueles milênios remotos, os seres humanos deixaram de viver como caçadores-coletores em pequenos grupos nômades e adotaram dois outros modos de vida: o de agricultores e o de pastores.

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Os agricultores eram sedentários. Os pastores transformaram animais selvagens em gado bovino, ovelhas e cabras e percorriam grandes áreas para que seus rebanhos pudessem pastar. A agricultura colocou as pessoas em contato próximo com as plantas. O pastoreio colocou-as em contato próximo com os vírus, as bactérias e outros agentes infecciosos carregados por animais selvagens —e, mais tarde, domesticados.

Muitos desses patógenos passaram para os pastores, dando origem ao que hoje chamamos de doenças zoonóticas —infecções animais que saltam para os seres humanos. Sobreviver a essas ameaças dependia de sorte e de genes. A seleção natural eliminou os menos afortunados, deixando populações de sobreviventes que carregavam variantes genéticas favoráveis, capazes de conferir resistência às infecções.

Mas essas variantes genéticas protetoras da Idade do Bronze, ao que tudo indica agora, podem exercer um efeito negativo em nossa era moderna de bons sistemas de saneamento, antibióticos, antissépticos e outras medidas de controle de infecções. Ao elevar a sensibilidade do sistema imunológico a um nível extremo, elas se transformaram em fatores de risco para doenças autoimunes. Essa, ao menos, é a hipótese da pleiotropia antagônica.

E cientistas encontraram evidências que a sustentam. Pesquisadores da Universidade de Oxford e seus colaboradores em outras instituições relataram uma forte correlação entre certas variantes genéticas que se disseminaram rapidamente entre as populações europeias há cerca de 5.000 anos e aquelas hoje associadas a uma probabilidade elevada de desenvolver esclerose múltipla.

Essas variantes se tornaram mais comuns quando pastores migrantes das estepes da Eurásia começaram a chegar à Europa. A maioria delas oferecia alguma proteção contra determinadas infecções virais e bacterianas ou contra parasitas, ajudando os seres humanos a se adaptar não apenas ao estilo de vida pastoril, mas também ao aumento da densidade populacional, que intensificou a transmissão e a circulação de doenças infecciosas.

Hoje, segundo os pesquisadores, essas mesmas variantes genéticas parecem exercer o efeito oposto. Com as doenças infecciosas mais bem controladas e a prevalência da esclerose múltipla em alta, "voltamos a observar uma correlação marcante com mudanças em nosso ambiente, incluindo escolhas de estilo de vida e melhores condições de higiene, que já não favorecem a arquitetura genética anterior", escreveram. Em outras palavras, genes que antes nos protegiam podem agora nos colocar em risco.

Outro estudo, realizado por uma equipe internacional de pesquisadores, examinou um momento histórico mais recente de mudança demográfica abrupta: a Peste Negra. Essa pandemia de peste do século 14 —causada pela bactéria Yersinia pestis, transportada por pulgas que, por sua vez, são carregadas por ratos— varreu a Europa, o Oriente Médio e o norte da África entre 1346 e 1353, matando entre 30% e 50% da população dessas regiões.

Os pesquisadores analisaram minuciosamente sequências de DNA de pessoas mortas na Inglaterra e na Dinamarca: algumas enterradas pouco antes dos anos da peste, outras durante o período e outras depois. Uma de suas fontes foi East Smithfield, um cemitério coletivo da Peste Negra situado pouco a leste da Torre de Londres.

Ali e em outros locais, os pesquisadores encontraram quatro variantes genéticas ligadas à imunidade nos genomas de um número maior de pessoas enterradas após a peste do que antes ou durante a epidemia, o que sugere que essas variantes haviam proporcionado uma vantagem de sobrevivência. Depois que outra equipe contestou seus métodos matemáticos, os pesquisadores reformularam sua conclusão, concentrando-a em uma única variante.

Essa variante, aparentemente adaptativa contra a peste, é hoje um fator de risco conhecido para a doença de Crohn. Assim, ao que parece, a Peste Negra, tal como a transição para o pastoreio durante a Idade do Bronze, pode ter sido um evento seletivo que aumentou a vulnerabilidade das gerações futuras às doenças autoimunes.

Embora a equipe de Oxford, em seu estudo sobre a esclerose múltipla, tenha chamado essa situação de um caso de "arquitetura genética" ultrapassada, há outra metáfora que expressa a mesma ideia de forma mais vívida. Basta lembrar o ditado sobre as falhas da liderança militar: em tempos de paz, os generais se preparam para travar a guerra passada, e não a próxima.

Eles se apegam a táticas, estratégias e armamentos obsoletos —coisas que funcionaram bem no passado— apesar da passagem do tempo e do surgimento de novidades. Aparentemente, foi isso que a evolução fez com as variantes genéticas que muitos de nós carregamos hoje. As doenças autoimunes do século 21 podem representar os esforços do sistema imunológico humano para travar uma guerra que um dia foi catastrófica, mas que agora é menos intensa: a guerra contra doenças infecciosas onipresentes e incuráveis.

Para algumas pessoas, o sofrimento causado pela esclerose múltipla, pelo lúpus ou por outras doenças autoimunes é um infortúnio cruel. Outras têm mais sorte. Eu, por exemplo: tenho apenas minha psoríase —herdada de meu pai, que a herdou de uma linhagem de camponeses noruegueses— como lembrete de que meu próprio sistema imunológico está pronto e ávido, ávido demais, para travar a guerra passada: a guerra entre um pastor da Idade do Bronze e um vírus que ele contraiu de uma de suas cabras.

Fonte _ Folha/SP

Como tendência de compartilhamento de sangue pode estar alimentando nova crise de HIV

 


Na semana passada, Fiji declarou estado de emergência nacional devido à alta dos casos de HIV. O aumento acelerado das infecções transformou o arquipélago em um dos principais focos de expansão da epidemia no mundo.

A decisão também foi um lembrete contundente de que, apesar do progresso global, o HIV e a Aids continuam sendo uma ameaça significativa em algumas regiões e os surtos podem rapidamente sair do controle.

Aproximadamente um em cada 60 adultos no arquipélago do Pacífico vive atualmente com o vírus, em comparação com um em cada 167 há cinco anos.

Globalmente, estima-se que cerca de 41 milhões de pessoas tenham HIV, segundo a agência da ONU para a Aids, a Unaids.

O que agrava ainda mais essa crise recente é a prática alarmante de compartilhamento de sangue entre usuários de drogas conhecida como bluetoothing.

Ela consiste em retirar sangue de alguém que acabou de consumir uma droga e injetá-lo em outra pessoa para que esta obtenha o mesmo efeito. Os usuários consideram isso uma forma de economizar dinheiro, fazendo com que drogas intravenosas rendam mais.

Essa prática também foi observada em países africanos, incluindo Lesoto, Zimbábue e África do Sul.

A extensão do problema e sua parcela de responsabilidade pela crise em Fiji são controversas. No entanto, agentes comunitários de saúde afirmam que se trata de um problema real e estão pressionando governos e agências de saúde do mundo todo a levarem a questão a sério.

"Quantas vidas precisamos perder antes de realmente fazermos algo a respeito?", questiona Kalesi Volatabu, diretor executivo da ONG Drug Free Fiji.

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Por que o bluetoothing é tão arriscado?

O HIV é uma doença transmitida pelo sangue, portanto, o processo de transferência de sangue de uma pessoa para outra sempre traz o risco de transmissão do vírus.

A OMS (Organização Mundial da Saúde) afirma que essa prática cria um "risco excepcionalmente alto" de transmissão de outras infecções, incluindo hepatite B e C, além de infecções bacterianas graves.

Compartilhar agulhas já é uma prática comum em Fiji, onde o acesso a equipamentos de injeção esterilizados para usuários de drogas pode ser difícil. Mas a chegada do bluetoothing sugere que a pobreza é um dos principais fatores por trás dessa prática perigosa.

Volatabu diz que ficou chocada quando testemunhou o ocorrido pela primeira vez.

"Havia cinco ou seis pessoas em volta, prontas para tomar a injeção", disse ela ao Serviço Mundial da BBC.

"E eles podem infectar outras cinco pessoas. Então, literalmente, de apenas cinco pessoas, você já tem de 25 a 30 pessoas infectadas. E é assim tão fácil."

Em 2024, o Ministério da Saúde de Fiji reconheceu essa prática como um dos fatores que contribuíram para o aumento dos casos de HIV no país. Em janeiro, o ministério descreveu um surto de HIV como uma "crise nacional" e afirmou que implementaria um programa de distribuição de seringas e agulhas como parte de sua resposta.

A OMS afirmou que havia poucas evidências que sugerissem que o uso do bluetoothing fosse generalizado em Fiji, após uma avaliação rápida realizada em dezembro do ano passado.

A pesquisa entrevistou 56 pessoas que injetavam drogas —apenas duas relataram praticar o compartilhamento de sangue, enquanto quatro disseram ter presenciado a prática diretamente, segundo o relatório.

Mas Volatabu diz que ela também estava relutante em acreditar que alguém realmente estivesse fazendo isso até que viu com os próprios olhos.

Ela também acredita que o estigma e a vergonha em torno do uso de drogas injetáveis fazem com que o governo de Fiji se mostre relutante em lidar com o problema.

HIV em todo o mundo

O HIV é um vírus que danifica as células do sistema imunológico e enfraquece a capacidade do corpo de combater infecções e doenças comuns.

É transmitida por fluidos corporais, geralmente durante relações sexuais desprotegidas, mas também por meio de cortes e injeção de drogas com agulhas compartilhadas. Pode ainda ser transmitida da mãe para o filho durante a gravidez, o parto e a amamentação.

A Aids (síndrome da imunodeficiência adquirida) ocorre quando uma série de infecções e doenças potencialmente fatais se manifestam após o sistema imunológico ter sido gravemente danificado pelo vírus HIV.

Os avanços nas opções de tratamento melhoraram significativamente a expectativa de vida das pessoas diagnosticadas com HIV nas últimas décadas.

Em 2025, cerca de 570 mil pessoas morreram em todo o mundo por causas relacionadas ao HIV, 73% a menos em comparação com o pico de 2004, de acordo com a OMS.

O tratamento recomendado atualmente inclui a Tarv (terapia antirretroviral), que normalmente reduz a carga viral a níveis indetectáveis, protegendo o sistema imunológico e prevenindo a transmissão sexual do vírus.

No entanto, no ano passado, a diretora-geral da Unaids, Winnie Byanyima, afirmou que a decisão do presidente dos EUA, Donald Trump, de suspender a ajuda externa ao programa levaria a 2.000 novas infecções por HIV por dia e a mais de seis milhões de mortes nos próximos quatro anos.

Segundo a Unaids, as novas infecções por HIV aumentaram em três regiões e 21 países em 2025, incluindo Afeganistão, Sri Lanka, Nepal, Quênia, Sudão, Brasil, Paquistão, Iêmen, Egito, Senegal e Filipinas.

Onde mais está ocorrendo a prática do bluetoothing?

O Lesoto tem a segunda maior taxa de prevalência de HIV do mundo e o vírus é a principal causa de morte entre as mulheres, de acordo com a OMS.

Uma organização que tenta combater o bluetoothing na região é a Mokhosi oa Mangoana, ou "O Grito de uma Mãe". Este grupo de mulheres compartilha suas experiências com filhos que enfrentam problemas de abuso de substâncias.

Eles tinham ouvido falar do que estava acontecendo na África do Sul, mas só perceberam que também estava ocorrendo muito mais perto de casa em 2024 - especificamente em "trap houses" - imóveis abandonados usados para venda e consumo ilegal de drogas.

A filha de Ponto Tumisi era uma aluna exemplar antes de começar a usar metanfetamina. Ela diz que o bluetoothing ocorre quando as pessoas têm uma quantidade pequena de drogas para compartilhar.

"Independentemente de saberem ou não a compatibilidade dos seus grupos sanguíneos, independentemente de conhecerem ou não as doenças que carregam através desse sangue. Isso, para eles, é irrelevante", diz ela.

Tumisi afirma que profissionais de saúde lhe disseram que essa prática "não existe", pois seria impossível alguém sobreviver à transfusão de sangue.

Formas semelhantes de compartilhamento direto de sangue foram documentadas em outros lugares sob nomes diferentes, incluindo flashblood (algo como sangue instantâneo, em português) entre pessoas que injetam drogas na Tanzânia, diz Eamonn Murphy, diretor regional da Unaids, embora tenha acrescentado que não se trata de uma "tendência global generalizada".

Mas Tumisi teme que esses novos métodos de consumo de drogas, menos conhecidos, possam passar despercebidos em outros países.

Ela alerta que aqueles que vivem na linha de frente do abuso de drogas devem estar vigilantes e se informar sobre os primeiros sinais de alerta.

"Se você é pai ou mãe, independentemente de em que parte do mundo esteja, você é um ser humano. Isso significa que você está em risco. Com o vício em drogas, tudo pode acontecer."

O texto foi publicado originalmente aqui.

Fonte _ Folha/SP

Programa da OMS propõe acompanhar saúde, autonomia e cognição de idosos no SUS anualmente

 


Assim como a criança tem peso e altura conferidos a cada consulta no posto de saúde, o idoso poderia ter, uma vez por ano, a capacidade de andar, lembrar, enxergar, ouvir, se alimentar e manter o ânimo medida e comparada com a de pessoas da mesma idade.

É a lógica do Icope (Cuidados Integrados para a Pessoa Idosa), programa lançado pela OMS (Organização Mundial da Saúde) em 2019 e testado hoje em 16 centros de pesquisa no Brasil.

"É como se fosse uma puericultura invertida", resume Eduardo Ferriolli, professor titular de geriatria da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) e um dos coordenadores do estudo no país. Puericultura é o acompanhamento médico e de enfermagem que verifica se o crescimento e o desenvolvimento de crianças estão dentro do padrão.

"Se uma pessoa de 67 anos já tem a força muscular diminuída, uma dificuldade de locomoção que não tinha no ano passado, então precisa ver o que está acontecendo", exemplifica.

A proposta tira o foco das doenças isoladas e olha para a chamada capacidade intrínseca, dividida em seis domínios: locomoção, cognição, saúde psicológica, vitalidade (sobretudo o estado nutricional), visão e audição.

A avaliação básica leva cerca de cinco minutos e usa testes simples: lembrar três palavras, como "flor, porta, arroz"; levantar-se de uma cadeira cinco vezes, sem usar os braços, em até 14 segundos; dizer se perdeu mais de 3 kg sem querer nos últimos três meses.

Se algum domínio dá sinal de queda, o protocolo prevê, ainda na atenção primária, uma avaliação detalhada das causas (doenças, efeito de remédios, problemas sociais ou do ambiente), um plano de cuidado com vários profissionais e, se necessário, o encaminhamento a especialistas. A ideia é agir enquanto o declínio ainda é reversível.

A segunda edição do manual, de 2024, ganhou versão em português da Opas (Organização Pan-Americana da Saúde) neste ano. Ela amplia a triagem para identificar também incontinência urinária, falta de apoio social e sobrecarga dos cuidadores, em sua maioria mulheres da família, e reforça a vacinação.

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Na última quinta (29) Hilda Maria da Conceição, 84, e a filha Maria da Soledade Conceição, 61, se vacinaram contra a Covid. Ambas são acompanhadas no ambulatório do idoso da USP, no Centro de Saúde Escola Geraldo de Paula Souza, na zona oeste de São Paulo.

Hilda tem diagnóstico de Alzheimer há cinco anos. A filha, uma das cuidadoras da mãe, diz que no espaço a mãe passa por consulta, faz exames e ela recebe orientação sobre alimentação, atividade física, medicamentos, entre outros.

"Com esse apoio, minha mãe tem conseguido manter a autonomia e eu aprendo como cuidar melhor dela e de mim também. Ela ainda cozinha a própria comida, cuida da casa", conta Maria.

De acordo com o Icope, a primeira triagem para acompanhamento dos idosos pode ser feita na comunidade, por agentes comunitários de saúde. A OMS justifica a urgência com números: o mundo tinha 1,18 bilhão de pessoas com 60 anos ou mais em 2024 e terá 2,1 bilhões em 2050, 22% da população.

No Brasil, a pesquisa começou com um piloto em Porto Alegre, entre 2022 e o início de 2024, numa unidade básica vinculada ao Hospital de Clínicas da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul).

Os instrumentos usados hoje na atenção básica buscam identificar a fragilidade. Mas, entre os idosos não frágeis, quase metade já tinha algum problema de locomoção, parte significativa apresentava dificuldades cognitivas e quase um quarto tinha sintomas depressivos.

"Cerca de 80% da população idosa brasileira é funcional e não se enquadra nos estratos de maior vulnerabilidade", afirma Renato Bandeira de Mello, professor da UFRGS. "Existe uma transição entre ser uma pessoa idosa robusta e uma vulnerável, e essa é uma grande janela de oportunidade para intervir."

Existe uma transição entre ser uma pessoa idosa robusta e uma vulnerável, e essa é uma grande janela de oportunidade para intervir

Renato Bandeira de Mello

médico e professor da UFRGS

A intervenção pode ser simples: exercício, alimentação, apoio social e familiar. O grupo gaúcho usa um protocolo europeu de exercícios feitos em casa e ajustados à capacidade de cada um. Um ensaio clínico, com pacientes acompanhados após a alta hospitalar, mostrou melhora funcional significativa.

O estudo nacional, o Icope Brasil, já incluiu mais de 2.600 idosos em centros de todas as regiões, de Manaus (AM) a Araranguá (SC). Eles serão acompanhados por três anos para medir a capacidade intrínseca da população idosa e a precisão da triagem rápida da OMS.

O país mais avançado na aplicação do modelo é a França. Em Toulouse, a equipe de geriatria da universidade, centro colaborador da OMS, começou a usar o Icope em janeiro de 2020, dois meses antes do primeiro confinamento da pandemia.

Segundo Philipe de Souto Barreto, professor de gerontologia da Universidade de Toulouse e codiretor do centro, o trabalho não parou graças a uma infraestrutura digital: o aplicativo Icope Monitor, ligado a uma base de dados segura que cada profissional consulta para acompanhar seus pacientes.

Mais de 10 mil profissionais foram treinados e mais de 150 mil idosos, registrados. O governo ampliou a experiência para outras regiões e, em março deste ano, uma lei estendeu a triagem a todo o país.

Para Barreto, o maior desafio é mudar o hábito de tratar cada doença separadamente. "Quando você trata um idoso que tem cinco, seis doenças, ele vai acabar com 12, 13, 14 medicamentos."

Ele rebate a queixa, recorrente no Brasil, de que um programa desse tipo poderia sobrecarregar ainda mais as equipes da atenção primária. "Não é colocar mais alguma coisa, é colocar algo que abarque várias coisas. O erro a evitar é adicionar uma ferramenta a outra."

Ainda faltam provas de impacto econômico, o argumento que mais pesa para gestores. Um estudo randomizado em Toulouse compara idosos no Icope com os que recebem o cuidado usual, mas os resultados levarão de três a quatro anos. "A probabilidade de que o programa seja eficaz é elevada", diz.

No Brasil, o modelo ficou fora da Política Nacional de Cuidados. Segundo Ferriolli, o grupo já submeteu duas vezes ao Ministério da Saúde uma proposta de piloto em unidades de saúde, com teleconsultoria da USP para casos complexos. Mas, segundo ele, não houve interesse.

Os argumentos para recusar, diz ele, foram falta de recursos, risco de sobrecarga da atenção primária e outras iniciativas recém-implantadas.

A fala do presidente Lula (PT) pondo o cuidado com idosos como prioridade após a reeleição animou os pesquisadores, que pretendem retomar as conversas. A Opas (Organização Pan-Americana de Saúde) vê o Brasil como potencial exemplo na região.

Barreto conta que tem reunião marcada com o ministério para apresentar o Longeva, ferramenta digital que exibe a triagem em curvas de percentis, como as do crescimento infantil. "A malha sanitária brasileira seria perfeita para o Icope", diz. "É incompreensível que não esteja na política."

Em nota, o Ministério da Saúde informou que acompanha, junto à OMS, a adoção de ferramentas voltadas ao cuidado de pessoas idosas, bem como as pesquisas realizadas por centros brasileiros.

Seguindo essas mesmas diretrizes, a pasta diz que o país incorporou, no fim de 2024, o Índice de Vulnerabilidade Clínico-Funcional (IVCF-20), desenvolvido nacionalmente, validado e adaptado à realidade do país e do SUS para o acompanhamento da saúde dessa população.

"O IVCF-20 está disponível no prontuário eletrônico e-SUS APS para as equipes das UBSs (Unidades Básicas de Saúde), inclusive agentes comunitários de saúde. Tem aplicação simples e rápida para medir a saúde física e mental dos pacientes", diz a nota.

Segundo o ministério, em 2025, primeiro ano de difusão da ferramenta, foram realizados mais de 2,1 milhões de registros, e a expectativa é que esse número aumente a cada ano. Outras ferramentas, como o Icope, estão em constante análise e passam por processo de validação para uso na realidade brasileira.

O projeto Saúde Pública tem apoio da Umane, associação civil que tem como objetivo auxiliar iniciativas voltadas à promoção da saúde.

Fonte _ Folha/SP

Estudo aponta possíveis causas da agressividade do câncer de intestino em jovens

 


Um estudo publicado nesta quinta-feira (29) na revista científica Nature Medicine identificou diferenças biológicas que podem ajudar a explicar por que o câncer de intestino, ou câncer colorretal, costuma ser mais agressivo em pessoas com menos de 50 anos.

Entre os achados estão a maior presença de células que podem contribuir para a resistência à quimioterapia e diferenças na atividade dos genes, que influenciam o funcionamento das células. Nos tumores de pacientes mais jovens, algumas dessas alterações podem favorecer a disseminação do câncer para outros órgãos.

A pesquisa analisou 189 tumores de pacientes com idades entre 29 e mais de 90 anos; 54 deles receberam o diagnóstico antes dos 50 anos, e 135, a partir dessa idade. Com uma técnica chamada sequenciamento de RNA de núcleo único, os pesquisadores avaliaram a atividade genética de mais de 850 mil células presentes nos tumores.

A análise mostrou que os tumores de pacientes mais jovens tinham maior proporção de células do estroma, tecido que dá sustentação ao tumor e pode influenciar seu crescimento e a resposta ao tratamento.

O coloproctologista André Silva, coordenador do serviço de coloproctologia do Hospital Santa Lúcia Norte, em Brasília, e membro da SBCP (Sociedade Brasileira de Coloproctologia), explica que esse tecido pode dificultar a ação de medicamentos.

"O estroma atua como uma barreira física, como se fosse um escudo protetor, podendo dar uma característica de maior resistência ao tumor", afirma.

Segundo ele, a maior proporção dessas células poderia contribuir para uma menor resposta à quimioterapia. Essa possibilidade, porém, se baseia em estudos anteriores com outros tumores sólidos, já que a nova pesquisa não avaliou diretamente a eficácia dos tratamentos.

Os pesquisadores também observaram que genes como o FN1, associados a processos que podem facilitar a disseminação do câncer, estavam mais ativos nos tumores de pessoas com menos de 50 anos.

Para Silva, os resultados sugerem que o comportamento mais agressivo da doença pode estar relacionado não apenas às características das células cancerígenas, mas também ao ambiente que se forma ao redor delas.

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A maior agressividade do câncer colorretal nessa faixa etária já havia sido observada em pesquisas clínicas. Em setembro de 2025, um estudo brasileiro, conduzido por Silva, com 434 pacientes do Hospital Universitário de Brasília mostrou que adultos entre 18 e 49 anos têm risco 93% maior de recidiva da doença em comparação aos mais velhos.

Os pacientes jovens também apresentaram maior proporção de tumores indiferenciados, caracterizados por células que perderam características do tecido de origem e tendem a apresentar comportamento mais agressivo.

O novo estudo pode ajudar a compreender os mecanismos por trás dessas diferenças. Os pesquisadores investigaram, por exemplo, se as características dos tumores poderiam ser explicadas pelo diagnóstico tardio, já que pessoas com menos de 50 anos frequentemente não estão incluídas nas recomendações habituais de rastreamento.

Para isso, levaram em conta fatores como o estágio da doença, o sexo dos pacientes e os tratamentos realizados antes da cirurgia. Ainda assim, as diferenças biológicas entre os grupos permaneceram, sugerindo que o comportamento do câncer nessa população pode estar relacionado a características próprias dos tumores, não apenas ao diagnóstico tardio.

Silva ressalta, porém, que a pesquisa publicada nesta quinta-feira na Nature Medicine não avaliou desfechos como recidiva e sobrevida, nem a resposta aos tratamentos. Por isso, ainda não é possível afirmar que as alterações identificadas sejam responsáveis pela maior agressividade da doença ou que pacientes jovens necessariamente respondam pior à quimioterapia.

Para o médico, as descobertas podem abrir caminho para o desenvolvimento de medicamentos direcionados às células do estroma e aos mecanismos identificados. Outra possibilidade seria investigar se essas alterações poderiam servir como marcadores para acompanhar os pacientes após o tratamento e detectar sinais de recidiva.

Antes, serão necessários estudos laboratoriais para compreender melhor esses mecanismos e verificar se podem ser utilizados como alvos terapêuticos sem comprometer células saudáveis.

O câncer colorretal está entre os tumores mais frequentes no Brasil. Segundo estimativas do Inca (Instituto Nacional de Câncer), o país deve registrar 53.810 novos casos por ano entre 2026 e 2028, sendo 26.270 em homens e 27.540 em mulheres.

Excluídos os tumores de pele não melanoma, o câncer de intestino é o terceiro mais frequente no país e o segundo mais comum tanto entre homens como entre mulheres.

Os fatores de risco incluem sedentarismo, tabagismo, excesso de gordura corporal, consumo de álcool, alto consumo de carnes vermelhas e processadas e baixa ingestão de fibras. Histórico pessoal ou familiar de câncer colorretal ou de pólipos e doenças inflamatórias intestinais crônicas também elevam o risco.

Fonte _ Folha/SP

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 Investigação Discovery

sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Jornais - Informações na Madrugada

 








Casos de anorexia e bulimia crescem 71% em duas décadas

 


Entre 1990 e 2023, a anorexia e a bulimia nervosa cresceram 71% no mundo. Com o aumento, o ano de 2023 registrou mais de 18,12 milhões de pessoas diagnosticadas com um desses transtornos alimentares, que afetam principalmente mulheres e meninas entre 10 e 24 anos.

E, ao que tudo indica, essa tendência deve continuar, adverte um estudo publicado na quarta-feira (28) na revista Jama Psychiatry.

Desenvolvida no âmbito da iniciativa Global Burden of Disease, o maior esforço científico do mundo para medir a perda de saúde e o impacto das doenças, a pesquisa analisou a prevalência e a mortalidade por anorexia e bulimia nervosa em 204 países e territórios entre 1990 e 2023, com projeções até 2050.

O estudo foi realizado por pesquisadores do Children's Hospital da Universidade Médica de Nanjing, na China. A bulimia nervosa, que concentra o maior número de casos (14,2 milhões em 2023), também registrou o crescimento mais acelerado (75,1%), enquanto a anorexia chegou a 3,92 milhões de casos em 2023, após um aumento de 57,9%.

Mulheres representam o maior número de casos, com 12,6 milhões de afetadas (70% do total), frente a 5,5 milhões de homens (30%).

Por faixa etária, o trabalho revela que quatro em cada dez casos (41,2%) ocorrem em pessoas entre 10 e 24 anos, com pico entre os 20 e 24 anos. Especificamente, a anorexia atinge seu pico entre os 15 e 19 anos, enquanto a bulimia registra a maior incidência entre os 30 e 34 anos.

Regiões com mais casos de anorexia e bulimia

As regiões de alta renda mantêm as taxas mais elevadas, lideradas pela Australásia (Austrália, Nova Zelândia e Nova Guiné), com 946,4 casos por 100 mil habitantes, e pela Europa Ocidental, com 502,4 casos por 100 mil habitantes. No total, essa região acumulava 1,9 milhão de casos em 2023, após um aumento de 20% desde 1990.

O estudo aponta que os maiores aumentos desses transtornos ocorreram em regiões asiáticas que passaram por rápidas transformações socioeconômicas, como o Leste Asiático (+61,5%), o Sul da Ásia (+48,5%) e o Sudeste Asiático (+44,2%).

Por país, a prevalência de anorexia e bulimia aumentou em 156 dos 204 territórios avaliados, com a Guiné Equatorial na liderança, registrando alta de 92,6%. Por outro lado, houve redução em 11 países, sendo a maior queda observada na Venezuela, com recuo de 27,2%.

Para os autores, esses resultados ressaltam a necessidade urgente de integrar a atenção e a prevenção dos transtornos alimentares aos sistemas de saúde pública em todo o mundo.

Fonte _ Folha/SP

Apenas 1,47% dos municípios cumprem meta de vacinação contra gripe

 


A cobertura vacinal contra o vírus influenza, causador da gripe, está muito aquém da meta de imunizar 90% do grupo prioritário, se consideradas as regiões Sul, Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste do Brasil.

Dos 5.119 municípios dessas regiões, somente 82 (1,47%) alcançaram ou ultrapassaram o índice ideal de proteção; outros 139 (2,5%) tiveram avanço significativo e estão acima de 80% de cobertura.

Na maioria dos casos (2.935 municípios ou 52,68%) a cobertura está entre 41% e 60%; outras 1.571 cidades (28,2%) vacinaram de 61% a 80% da população. As informações foram extraídas nesta quinta-feira (29) do painel de vacinação de influenza do Ministério da Saúde.

Nessas quatro regiões, 52,45% do público-alvo está imunizado —pessoas com 60 anos ou mais, crianças de 6 meses a menores de seis anos e gestantes.

Desde 2023, a campanha de vacinação contra a gripe no Norte é realizada no segundo semestre do ano, em meados novembro, devido ao inverno amazônico. Por isso ainda não há dados disponíveis da região. No resto do país, a campanha começa em março.

A infectologista Rosana Richtmann, do comitê de imunizações da SBI (Sociedade Brasileira de Infectologia), argumenta que as mudanças de temperatura no Sul e Sudeste favorecem a transmissão de influenza e outros vírus respiratórios.

"É um ano crítico, devido à influência do El Niño. O problema não é só a baixa cobertura, mas também o fato de que a vacina confere uma proteção que não é tão prolongada, em torno de seis meses. Muita gente tomou vacina em março, por exemplo, e nós estamos em outubro. Essas pessoas podem se infectar", diz a médica.

"Neste ano está tudo diferente em termos climáticos, e estamos vendo casos de influenza fora de época. As temperaturas baixas favorecem a transmissão do vírus, e nós deixamos os ambientes menos ventilados."

Segundo Ritchmann, o influenza provoca um quadro clínico agressivo se comparado a outros vírus respiratórios. Os idosos estão no centro da preocupação dos especialistas porque o sistema imunológico já não responde à vacinação com a mesma eficiência de antes.

A infectologista observa que o cenário atual revela uma inversão no histórico de imunização. Até três anos atrás, o grupo com mais de 70 anos mantinha adesão regular às campanhas contra a gripe, um padrão que se perdeu. Em contrapartida, houve evolução positiva na cobertura de gestantes e crianças.

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A baixa cobertura entre os idosos acende um alerta urgente devido à gravidade de eventuais complicações, como pneumonia bacteriana, internação ou problema cardiovascular.

"Existe uma relação comprovada cientificamente do vírus influenza levando, por exemplo, ao infarto agudo do miocárdio", afirma a médica.

Até 19 de outubro de 2026, o Brasil registrou 17.679 casos de gripe (influenza A H1N1, A H3N2, A não subtipada e influenza B) e 1.343 mortes, segundo dados do Ministério da Saúde. No mesmo período de 2025 foram 25.438 infecções e 3.176 óbitos.

Quem ainda não tomou a vacina deve tomá-la, em especial se for viajar para o Hemisfério Norte, onde a circulação do vírus é intensa nesta época.

Fonte _ Folha/SP