Criado para levar as informações aos profissionais da enfermagem do Vale do Juruá. Tem o objetivo de fortalecer a Classe da Enfermagem no contexto social, econômico e político.
Desde
o início de 2026 o Brasil registrou 149 casos de mpox,
entre confirmados e prováveis, de acordo com o painel de monitoramento do Ministério
da Saúde, atualizado na segunda-feira (9). Nenhum óbito foi
contabilizado no país neste ano.
Com
93 confirmações, o estado de São Paulo lidera o ranking nacional, seguido por
Rio de Janeiro (18), Rondônia (11), Minas Gerais (11), Rio Grande do
Norte (3), Rio Grande do Sul (3) e Santa Catarina (3). Paraná tem 2 casos. Amazônia,
Ceará, Distrito Federal, Pará e Sergipe registram 1 caso cada.
O
Ministério da Saúde afirma que o cenário atual não indica situação de crise e
que o SUS (Sistema
Único de Saúde)
está preparado para diagnóstico, tratamento e monitoramento dos casos, com
investigação epidemiológica e rastreamento de contágios. A pasta diz ainda que
mantém vigilância ativa e acompanhamento dos pacientes.
Segundo
a organização internacional, ambos os pacientes apresentaram sintomas
semelhantes aos demais clados sem evolução grave, e a avaliação de risco
permanece moderada para grupos com maior exposição —como homens que fazem sexo
com homens, trabalhadores do sexo e pessoas com múltiplos parceiros— e baixa
para a população geral.
O
que é a mpox?
A
mpox, anteriormente conhecida como "monkeypox" (varíola
dos macacos, em português), é uma infecção causada pelo vírus Mpox, que
pertence à família do gênero orthopoxvirus, o mesmo da varíola, explica
infectologista Flávia Falci, do Grupo Santa Joana.
Os
sintomas iniciais são febre, dor de cabeça, dor no corpo, cansaço e aumento dos
linfonodos. Se evoluir para a chamada fase eruptiva, surgem também lesões na
pele que podem ocorrer na face, região genital, perianal, palmas das mãos e dos
pés e mucosa. Segundo a médica, casos graves podem evoluir com manifestações
neurológicas e oculares.
O
vírus que causa a mpox se
divide em dois clados, que são agrupamentos de espécies semelhantes com
ancestral evolutivo comum. Os clados 1 e 2 se dividem em dois subclados: 1a e
1b, 2a e 2b.
"Essa
avaliação indica a circulação do vírus", diz o infectologista Dyemison
Pinheiro, mestre em saúde coletiva e assistente no pronto-socorro do Instituto
de Infectologia Emílio Ribas. "Classicamente, o 1a circula entre países da
África Central e o 2b foi primeiro detectado na Nigéria, que seguiu causando
infecção entre humanos." Os sintomas causados pelo clado
1b tendem a ser mais exacerbados em pessoas mais vulneráveis ao
vírus, com déficit de imunidade, complementa.
Como
a doença é transmitida?
A
principal forma
de transmissão da doença é entre seres humanos, afirma Juvencio
Furtado, infectologista do Hospital Heliópolis. Segundo ele, é raro a
transmissão vinda de um animal, sendo o mais comum ser do contato próximo entre
pessoas, com lesões, fluidos corporais, gotículas respiratórias e objetos
pessoais contaminados.
"O
vírus penetra no ser humano através de lesões de pele, mesmo que essas lesões
não sejam visíveis. Pode penetrar raramente pelo trato respiratório, membranas
mucosas, como nos olhos, boca e nariz", diz Furtado. Outra via de
transmissão em debate, afirma, é a vertical via placentária, a chamada mpox
congênita.
A
transmissão sexual também é possível, afirma o médico, tendo ocorrido de forma
mais frequente entre homens que fazem sexo com outros homens. No entanto, o
risco não é restrito a esse grupo e pode acontecer com qualquer pessoa que
tenha contato com a lesão com mucosas ou lesões cutâneas.
A
doença também pode ser transmitida mesmo antes de se apresentar qualquer tipo
de sintoma ou por pacientes assintomáticos, explica Falci.
O
que posso fazer para prevenir a contaminação?
Para
Furtado, a medida protetiva mais importante é evitar o contato corporal pele a
pele. Além disso, as pessoas que tiverem as manifestações clínicas da doença
devem ficar afastadas durante o período de transmissibilidade, que corresponde
ao período em que as lesões estão ativas, diz.
Outra
forma de prevenção eficaz é a vacinação da
população. O Ministério da Saúde afirma que realizou a aquisição emergencial da
vacina para pessoas que vivem com HIV/Aids e
que possuem CD4 entre 100 e 200 células, usuários de PrEP e profissionais de
saúde que manipulem amostras do vírus.
No
entanto, Pinheiro diz que as
vacinas têm sido insuficientes. "Temos observado no dia a dia
um aumento no número de casos suspeitos e confirmados, inclusive do clado 1b,
pouco identificado em circulação no Brasil", afirma.
Falci
indica também mudanças comportamentais em relação às parcerias sexuais e o uso
de equipamento de proteção por profissionais de saúde em ambientes
hospitalares, além da higiene rigorosa do ambiente em que o paciente foi
atendido.
O
Ministério da Saúde recomenda a adoção de medidas de higiene, como a lavagem
frequente das mãos e, em caso de sintomas ou suspeita de contato próximo com
casos suspeitos ou confirmados, que se procure uma unidade de saúde para
avaliação clínica e isolamento até avaliação médica.
O
sistema imune é responsável por proteger o organismo contra infecções causadas
por patógenos, como vírus, bactérias e fungos, e contra outras moléculas e
células estranhas, como as cancerígenas. Repleto de ferramentas complexas, esse
sistema é dividido em dois tipos: a imunidade inata e a imunidade
adaptativa.
A imunidade
inataé aquela que nasce com o indivíduo: trata-se de uma
reação primária e não específica do nosso corpo, que acontece imediatamente
após o contato com um invasor. Essa resposta envolve diferentes tipos de
células, como monócitos, macrófagos, neutrófilos, NK (natural killers) e
células dendríticas, que têm um objetivo comum: eliminar moléculas estranhas.
Essas
células possuem uma gama de receptores em sua superfície, sendo capazes de
reconhecer diversos padrões moleculares estranhos e associados a danos no
organismo.
“As
células do sistema imune inato têm uma ação imediata de controle, a partir da
liberação de uma grande quantidade de citocinas pró-inflamatórias, moléculas
que intensificam a resposta inflamatória e ajudam a matar o microrganismo”,
explica a pesquisadora do Laboratório de Desenvolvimento de Vacinas do
Instituto Butantan, Dunia Rodriguez Soto, que é doutora em Imunologia.
Além
disso, algumas dessas células têm capacidade de ingerir e destruir o patógeno,
para depois apresentar seus fragmentos (os antígenos) a outras células de
defesa – os famosos linfócitos T e B –, ajudando a desenvolver a chamada memória
imunológica.
É
nesse momento que entra em cena a imunidade adaptativa: ao serem
expostos ao antígeno, os linfócitos aprendem a reconhecê-lo e ficam preparados
para combatê-lo de forma rápida e eficaz caso ele apareça novamente. O
linfócito T tem a função de destruir as células infectadas, enquanto o
linfócito B produz os anticorpos, proteínas que se ligam ao antígeno circulante
para destruí-lo.
A
imunidade adaptativa é um recurso de defesa mais sofisticado e exclusivo
dos vertebrados – peixes, anfíbios, répteis, aves e mamíferos, como os
humanos.
E
a imunidade adquirida pelas vacinas?
Todas
essas etapas acontecem tanto quando temos uma infecção e ficamos doentes, como
quando recebemos uma vacina. A diferença é que o imunizante não provoca uma
infecção de fato, somente simula o invasor para induzir uma resposta por meio
da apresentação de antígenos. Assim, o corpo aprende a reconhecer aquele
microrganismo e, quando entra em contato com ele novamente, já tem as armas
necessárias para se proteger.
A
maioria das vacinas é aplicada no braço, na camada superficial da pele, justamente
porque esse local concentra muitas células do sistema imune inato, capazes
de reconhecer vários tipos de antígenos. As mucosas em geral, como a boca e o
nariz, também possuem grande quantidade dessas células – afinal, essas regiões
são a porta de entrada dos microrganismos e precisam de uma camada extra de
proteção. Por isso, também existem imunizantes de aplicação oral, como a famosa
gotinha contra poliomielite (paralisia infantil).
A
administração de vacinas por via oral é mais desafiadora, pois o antígeno
encontra muitas barreiras que podem destruí-lo antes que ele seja absorvido,
como a acidez do estômago. No entanto, existem tecnologias, como
nanopartículas, que ajudam a “encapsular” e proteger o antígeno da vacina para
que ele conclua seu objetivo.
Recentemente,
alguns imunizantes de aplicação intranasal também têm sido desenvolvidos, como
uma vacina contra Covid-19 aprovada na Índia em 2023.
Mantenha
sua carteira de vacinação em dia
Todos
os anos, a vacinação previne de 3,5 milhões a 5 milhões de mortes no
mundo todo por doenças como difteria, tétano, coqueluche, gripe e
sarampo, segundo a Organização
Mundial da Saúde (OMS). Outras enfermidades graves, como a
varíola, só foram erradicadas graças à imunização.
As
vacinas são as maiores aliadas do nosso sistema imune, e mantê-las atualizadas
é a melhor forma de se proteger contra doenças graves. Fique atento ao calendário
nacional de imunização do Ministério da Saúde e veja quais são os
imunizantes indicados para cada faixa etária.
Uma
nova edição do Boletim InfoGripe da Fiocruz, divulgada nesta
sexta-feira (6/3), aponta aumento do número de casos de Síndrome Respiratória
Aguda Grave (SRAG) em todo o país. A análise destaca que este cenário vem sendo
impulsionado principalmente pelo aumento do número de hospitalizações por rinovírus
em crianças e adolescentes de 2 a 14 anos, pelo vírus sincicial respiratório
(VSR) nas crianças menores de 2 anos e por influenza A na população de jovens,
adultos e idosos. A análise é referente à Semana Epidemiológica 8, período de
22 a 28 de fevereiro.
Com
exceção de Roraima, Tocantins, Espírito Santo e Rio Grande do Sul, todas as
unidades da Federação (UF) sinalizam crescimento no número de casos de SRAG na
tendência de longo prazo (últimas seis semanas) até a Semana 8. Entre elas, dez
estão com nível de atividade de SRAG em alerta, risco ou alto risco (últimas
duas semanas) até a Semana 8: Acre, Amazonas, Pará,
Amapá, Rondônia, Mato Grosso, Goiás, Distrito Federal, Maranhão e
Sergipe.
Na
maioria desses estados, exceto Acre, Pará, Amapá e Maranhão,
verifica-se aumento de SRAG nas crianças e adolescentes, causado principalmente
pelo rinovírus. Em alguns estados do Norte (Acre, Amazonas e
Pará), Centro-Oeste (Mato Grosso e Goiás), e em Sergipe, também há início ou
manutenção do aumento dos casos de SRAG nas crianças de até 2 anos, associado
ao VSR. A influenza A também tem incrementado o aumento de casos de SRAG no
Pará, Amapá, Mato Grosso e Maranhão, em geral na população de jovens, adultos e
idosos.
“O
aumento de casos de SRAG em crianças e adolescentes muito provavelmente está
relacionado ao retorno às aulas. Portanto, recomendamos que, caso a criança ou
adolescente apresente algum sintoma de gripe ou resfriado, que os pais evitem
levá-la à escola, para evitar a transmissão do vírus para outras crianças. Se
não for possível deixar a criança ou adolescente em casa, o ideal é que ela use
uma boa máscara, especialmente dentro da sala de aula”, reforça a pesquisadora
Tatiana Portella, do Boletim InfoGripe, desenvolvido pelo Programa
de Computação Científica da Fiocruz.
Capitais
O InfoGripe sinaliza
que 12 das 27 capitais apresentam nível de atividade de SRAG em alerta, risco
ou alto risco (últimas duas semanas) com sinal de crescimento na tendência de
longo prazo (últimas 6 semanas) até a Semana 8. São elas Aracaju (SE), Belém
(PA), Belo Horizonte (MG), Brasília (DF), Cuiabá (MT), Fortaleza (CE), João
Pessoa (PB), Macapá (AP), Manaus (AM), Porto Velho (RO), Rio Branco
(AC) e São Luís (MA).
Dados
epidemiológicos
O
quadro nacional é de aumento de ocorrência de SRAG nas tendências de longo
prazo (últimas seis semanas) e de curto prazo (últimas três semanas). Em 2026
já foram notificados 14.370 casos de SRAG, sendo 5.029 (35%) com resultado
laboratorial positivo para algum vírus respiratório, 6.193 (43,1%) negativos e
ao menos 2.073 (14,4%) aguardando resultado laboratorial.
Quanto
aos casos positivos do ano deste ano, observou-se 20% de influenza A, 1,7% de
influenza B, 13,6% de vírus sincicial respiratório, 40% de rinovírus, e 17% de
Sars-CoV-2. Nas quatro últimas semanas epidemiológicas, a prevalência entre os
casos positivos foi de 20,8% de influenza A, 1,6% de influenza B, 15,4% de
vírus sincicial respiratório, 45,4% de rinovírus, e 14,3% de Sars-CoV-2.
Incidência
e mortalidade
A
incidência e a mortalidade semanais médias, nas últimas oito semanas
epidemiológicas, mantêm o padrão característico de maior impacto nos extremos
das faixas etárias analisadas. A incidência de SRAG é mais elevada entre as
crianças pequenas, enquanto a mortalidade se concentra principalmente nos
idosos.
Prevalência
O
Boletim chama atenção também que nas quatro últimas semanas epidemiológicas, a
prevalência entre os casos positivos de SRAG foi maior pelo rinovírus (45,4%).
A seguir estão as ocorrências por influenza A (20,8%), vírus sincicial
respiratório (15,4%) e Sars-CoV-2 (Covid-19) (14,3%).
Óbitos
Entre
os óbitos, o estudo mostra que as maiores ocorrências são por Covid-19, seguida
pela influenza A. A presença destes mesmos vírus entre os positivos e no mesmo
recorte temporal foi de 39,1% de Sars-CoV-2 (Covid-19), 27,5% de influenza A,
17,4% de rinovírus, 8,7% de vírus sincicial respiratório e 3,6% de influenza B.
O Boletim
InfoGripe é uma estratégia do Sistema Único de Saúde (SUS) voltada ao
monitoramento de casos de SRAG no país. A iniciativa oferece suporte às
vigilâncias em saúde na identificação de locais prioritários para ações,
preparações e resposta a eventos em saúde pública.
Os
resultados do ensaio clínico de fase 3 da vacina tetravalente Butantan-DV,
produzida pelo Instituto Butantan, revelaram uma eficácia de 80,5%
contra casos de dengue grave e dengue com sinais de alarme (desfecho
combinado) ao longo de cinco anos. O estudo, publicado na
prestigiada revista científica Nature Medicine, acompanhou
quase 17 mil pessoas no Brasil e confirmou que a proteção se mantém sólida em
longo prazo.
O
ensaio clínico foi conduzido em 16 centros de pesquisa distribuídos pelas cinco
regiões do Brasil. Entre fevereiro de 2016 e julho de 2019, foram recrutados
16.235 participantes com idades entre dois e 59 anos. Do total, 10.259
receberam a dose única da vacina e 5.976 receberam placebo.
Além
da alta proteção contra quadros severos, o estudo demonstrou que a
Butantan-DV protegeu contra hospitalizações por dengue, já que não
houve nenhum registro de internação no grupo vacinado, contra oito casos no
grupo placebo.
No
que diz respeito à eficácia geral para prevenir a dengue
sintomática (causada por qualquer sorotipo), o imunizante atingiu a
marca de 65% durante os cinco anos de monitoramento.
“Os
dados publicados recentemente na Nature confirmam a eficácia da Butantan-DV
contra casos de dengue sintomática e, principalmente, contra casos de dengue
grave e com sinais de alarme. Esta vacina se consolida como uma ferramenta de
grande importância no combate à dengue no Brasil, com potencial para contribuir
para diminuição da circulação do vírus, para além da proteção individual”,
afirma a diretora médica de Ensaios Clínicos do Butantan, Fernanda Boulos.
A
vacina Butantan-DV foi aprovada pela Agência
Nacional de Vigilância Sanitária(Anvisa) em 26/11/2025, para ser
utilizada pela população brasileira de 12 a 59 anos. Desde então, o Instituto
Butantan já enviou 1,3 milhão de doses para o Programa Nacional de Imunizações
(PNI), que as distribui ao Sistema Único de Saúde (SUS).
O
Ministério da Saúde começou
a vacinação em janeiro deste ano em Nova Lima (MG), Maranguape
(CE) e Botucatu (SP), por meio de um projeto piloto que visa imunizar 90% do
público-alvo destas cidades. Em 9 de fevereiro, deu início à vacinação de
profissionais de saúde da Atenção Básica em
evento realizado no Instituto Butantan.
Perfil
de segurança
A vacina
demonstrou um perfil de segurança sólido em todas as idades. Não foram
observadas preocupações de segurança a longo prazo mesmo no grupo mais jovem (2
a 6 anos), o que diferencia a Butantan-DV de outras tecnologias.
Após
a aplicação da vacina, a maioria dos eventos adversos registrados entre os
participantes foram de intensidade leve a moderada, como dor de
cabeça (36,7%), fadiga (19,4%), erupção na pele (22,7%), dor muscular (17,7%) e
prurido (19,3%).
Um
ponto fundamental destacado no estudo é a segurança da Butantan-DV para
quem nunca contraiu dengue. Ao contrário de outras vacinas licenciadas, que
apresentaram um aumento no risco de hospitalização ou dengue grave em crianças
que nunca tinham tido contato com o vírus, a Butantan-DV não apresentou
preocupações de segurança nem desequilíbrio de casos graves entre os
participantes soronegativos durante os cinco anos de monitoramento.
Não
houve registro de nenhum caso de dengue grave entre os
participantes que receberam a vacina Butantan-DV durante os cinco anos de
acompanhamento, e apenas seis casos de dengue com sinais de alarme. Esta
proteção total contra a forma mais severa da doença reflete a alta eficácia do
imunizante para evitar complicações críticas.
Eficácia
por sorotipo e histórico de exposição
A
vacina Butantan-DV demonstrou ser eficaz independentemente de a pessoa já ter
tido dengue ou não antes da vacinação. Para quem já havia sido exposto ao
vírus (soropositivo), a eficácia contra qualquer sorotipo foi de 77,1%,
enquanto para aqueles sem exposição prévia (soronegativo), o índice foi
de 58,9%. Essa diferença se deve à forma como o sistema imunológico
reage ao imunizante após uma exposição prévia ao vírus.
Em
relação aos sorotipos específicos, para DENV-1 a eficácia foi de 79,4%
para quem já teve dengue e 71,4% para quem nunca teve; para
o DENV-2, a eficácia de 75,2% para os soropositivos e 36,7%
para os soronegativos.
Apesar
de a estimativa pontual para o DENV-2 em indivíduos sem exposição prévia ser
numericamente inferior, os pesquisadores destacam que ela permaneceu positiva
em todos os grupos. Além disso, a vacina atingiu os objetivos primários (dado
geral) e secundários (doença grave) de eficácia, independentemente do histórico
de cada voluntário com a dengue.
Como
durante o período da pesquisa, os sorotipos DENV-3 e DENV-4 não circularam de
forma significativa no Brasil, não foi possível medir estatisticamente a
eficácia contra eles. No entanto, o estudo ressalta que a vacina contém
componentes quase completos desses sorotipos e induz anticorpos neutralizantes
específicos, o que deve garantir proteção contra as quatro cepas do
vírus.
Eficácia
de diferentes faixas etárias
A
eficácia da Butantan-DV variou entre as faixas etárias, apresentando uma
tendência de maior proteção conforme aumentava a idade dos participantes. Ainda
assim, as estimativas permaneceram positivas em todas as idades após cinco anos
de acompanhamento.
A
eficácia contra a dengue sintomática (causada por qualquer sorotipo) em
adultos de 18 a 59 anos foi de 74,8%; em adolescentes de 7 a 17 anos, de 69,5%;
e em crianças de dois a 6 anos, de 60,6%.
Essa
variação está relacionada ao perfil imunológico de cada grupo. O estudo mostra
que a proporção de pessoas que nunca tiveram dengue (soronegativas) diminui
drasticamente com o passar da idade. Isto é, enquanto 80,7% das crianças de 2 a
6 anos eram soronegativas no início do estudo, esse número caía para 36% entre
adolescentes e para apenas 26,8% entre os adultos.
Como
a eficácia da vacina tende a ser maior em indivíduos que já tiveram exposição
prévia ao vírus, os grupos mais velhos acabam apresentando índices de proteção
mais elevados.
Eficácia
a longo prazo
Ao
final dos cinco anos de acompanhamento, a eficácia geral da
vacina contra a dengue sintomática (causada por qualquer sorotipo)
consolidou-se em 65,0%. Isso indica que a proteção se manteve
sólida e dentro da margem esperada, não representando queda drástica na
imunidade.
A
vacina atingiu todos os objetivos primários e secundários de eficácia
estabelecidos no protocolo, confirmando sua capacidade de proteção em
longo prazo.
“Os
dados de seguimento de longo prazo confirmam que a eficácia gerada pela
vacinação em dose única foi duradoura e que o perfil de segurança da vacina é
positivo em todos os grupos avaliados. Esta avaliação solidifica a robustez nos
dados de segurança, confirmando que a Butantan-DV pode ser utilizada em pessoas
sem exposição prévia à dengue”, ressalta Fernanda Boulos.
Sobre
a Butantan-DV
A
vacina da dengue do Instituto Butantan protege contra os diferentes
tipos de vírus da dengue por meio de sua composição tetravalente, o
que significa que ela contém componentes específicos para combater os quatro
sorotipos conhecidos: DENV-1, DENV-2, DENV-3 e DENV-4.
O
imunizante utiliza vírus vivos, mas "enfraquecidos" (atenuados) em
laboratório, para que não causem a doença enquanto são capazes de estimular uma
resposta imune. As cepas utilizadas são baseadas em uma tecnologia
originalmente desenvolvida pelos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados
Unidos (NIH, na sigla em inglês).
Para
os sorotipos DENV-1, DENV-3 e DENV-4, a vacina utiliza genomas quase completos
dos respectivos vírus. Já para o DENV-2, a proteção é construída utilizando-se
de vírus quimérico, que consiste nas proteínas de superfície do DENV-2 montadas
sobre a estrutura ("esqueleto") atenuada do vírus DENV-4.
Uma
vez aplicada, a vacina gera uma viremia vacinal, que é a replicação controlada
desses vírus atenuados no corpo. Isso induz o sistema imunológico a
produzir anticorpos neutralizantes específicos para cada um dos quatro
sorotipos. O objetivo é criar uma imunidade específica para cada um
deles, para que o organismo reconheça e neutralize as variantes de forma
individualizada.
A
vantagem da dose única
Um
dos grandes diferenciais da vacina Butantan-DV é o seu esquema de dose única, o
que facilita a logística de vacinação, melhora a adesão da população e promove
uma cobertura vacinal mais rápida.
A
razão pela qual apenas uma dose é necessária reside na alta capacidade de
replicação inicial do vírus vacinal, que induz uma resposta imune suficiente
para prevenir a replicação de doses subsequentes.
Estudos
demonstraram que uma segunda dose não produzia nova viremia vacinal nem
reforçava a resposta de anticorpos, o que indica que a primeira dose já
atinge o patamar de proteção necessário. Esta é uma característica
comum em outras vacinas de vírus vivos atenuados que apresentam sucesso em dose
única.
Diferentemente
de vacinas que exigem duas ou três doses, a tecnologia do Butantan permite que
a proteção contra a dengue sintomática e casos graves seja estabelecida com
apenas uma aplicação, independentemente de a pessoa já ter tido a doença
anteriormente.
O
ensaio clínico de fase 3 da Butantan-DV contou com financiamento do Ministério
da Saúde, do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), da
Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e da Fundação
Butantan.
O
aumento global no número de casos de influenza sazonal (que predomina nos meses
de inverno) tem chamado a atenção de autoridades sanitárias nos últimos meses.
Identificada como gripe K, a variante por trás desse crescimento é um subclado
do vírus influenza A (H3N2) – portanto, não se trata de uma nova
doença, mas de uma variação genética de um patógeno já conhecido. Desde
meados de 2025, ela vem circulando em países da Europa, Ásia e América do
Norte, e foi identificada no Brasil no final do ano passado.
Por
ter apresentado um aumento repentino a partir de agosto de 2025, a variante da
gripe K não faz parte da composição das vacinas de gripe que serão oferecidas à
população no inverno de 2026.
Isso
se deve à data na qual os imunizantes começam a ser produzidos. Todos os anos,
a vacina da gripe é atualizada com as cepas do vírus influenza mais circulantes
no período anterior, conforme o acompanhamento da Organização Mundial da Saúde
(OMS). Em 2025, a instituição divulgou a composição das vacinas trivalentes e
tetravalentes em meados de setembro – quando a gripe K ainda não tinha se
consolidado como um ponto de atenção.
Ainda
assim, as vacinas de influenza que estão sendo aplicadas atualmente, tanto na
rede pública quanto na rede privada, contribuem, sim, para proteger contra a
variante K. Em dezembro, a
OMS emitiu um alerta sobre a gripe K afirmando que mesmo
os imunizantes que não puderam ser atualizados com a nova variante continuam
fornecendo proteção contra formas graves da doença e hospitalização.
Vale
lembrar que a versão de 2026 da vacina da gripe do Instituto Butantan, que é
fornecida gratuitamente à população por meio do Programa Nacional de
Imunizações, inclui uma cepa de influenza A (H3N2), de onde veio a variante K,
além de uma cepa de influenza A (H1N1) e de influenza B (linhagem Victoria).
Segundo
o pesquisador científico e gerente de Desenvolvimento e Inovação de Produtos do
Butantan, Paulo Lee Ho, tomar a vacina da gripe todos os anos é
fundamental para manter a imunidade e prevenir casos graves, especialmente em
crianças pequenas e idosos, que são os grupos mais suscetíveis a
complicações.
“É
extremamente importante que as pessoas tomem a vacina Influenza atualizada
durante a campanha de vacinação, que ocorre antes do período de maior
circulação do vírus. As evidências mostram que pessoas vacinadas que se
infectaram com a cepa K ficaram protegidas contra os sintomas graves da
doença”, afirma.
O
especialista explica, ainda, que é comum haver aumento de infecções diante da
circulação de uma nova cepa, e que uma alta cobertura vacinal é a melhor forma
de reduzir transmissões e evitar que a variante se espalhe pelo país.
Como
surgiu a gripe K
A
variante K (também chamada de J.2.4.1) é originada do subclado J.2 do H3N2. Ela
possui sete mutações em seu material genético e, por esse motivo, tornou-se
capaz de “escapar” da resposta imune, ocasionando um maior número de
infecções.
As
mutações dos vírus influenza podem acontecer de duas maneiras: quando duas
cepas infectam o mesmo hospedeiro e o material genético dos dois vírus “se
mistura”, ou de forma espontânea, por meio da evolução natural do patógeno –
este último é o caso da variante K. “A cepa K foi selecionada naturalmente; ela
foi ‘escapando’ do sistema imune com a aquisição de cada uma dessas mutações”,
diz Paulo Lee Ho.
A
OMS destaca que, embora o subclado K represente “uma evolução notável” do vírus
H3N2, os dados epidemiológicos não indicam que ele provoque um aumento na
gravidade da doença.
Há
risco de pandemia?
O
cientista do Butantan esclarece que as cepas com potencial pandêmico costumam
ser geradas por meio de rearranjos do material genético entre diferentes
patógenos durante uma coinfecção – o que não é o caso do subclado K, que
evoluiu naturalmente.
“A
literatura mostra que, para chegar a uma cepa pandêmica, com elevado potencial
de transmissão, é necessário haver mudanças genéticas muito mais profundas”,
diz Paulo.
A
pandemia de H1N1 que ocorreu em 2009, por exemplo, foi fruto de múltiplos
eventos de rearranjo genético, que reuniram segmentos genômicos do vírus da
influenza suína H1N1 clássico, do vírus da influenza sazonal humana H3N2, do
vírus da influenza aviária norte-americana e de um vírus da influenza suína de
origem aviária eurasiática, segundo artigo publicado na
Nature.
Por
que os vírus influenza sofrem tantas mutações?
A
frequência de modificações nos vírus da gripe é resultado da própria biologia
do patógeno. Os influenza são vírus de RNA capazes de duplicar o seu material
genético, mas não de corrigi-lo.
“Isso
significa que, quando o vírus se replica, se um nucleotídeo é posicionado da
forma errada, diferente da fita de RNA original, ele não é corrigido, gerando
assim uma mutação no material genético”, resume Paulo Lee Ho.
Vacina
da gripe agora está disponível o ano todo
Em
abril de 2025, a vacina Influenza foi
inserida no Calendário Nacional de Vacinação de rotina para
crianças de 6 meses a menores de 6 anos, gestantes e pessoas com 60 anos ou
mais. Assim, o imunizante está disponível ao longo de todo o ano para esses
públicos nos postos de saúde, não apenas durante a campanha sazonal.
Os
demais grupos prioritários, como profissionais da saúde, professores,
integrantes das forças de segurança, população privada de liberdade e pessoas
com doenças crônicas ou deficiências, continuarão recebendo a vacina anualmente
durante as campanhas sazonais e em estratégias especiais.
A
Campanha Nacional de Vacinação contra a Gripe de 2026 deve ocorrer entre os
meses de Outubro e Dezembro na Região Norte.
Recebe
a cientista e pesquisadora Tatiana Sampaio. Líder da pesquisa sobre a
polilaminina, a cientista Tatiana Sampaio, da Universidade Federal do Rio de
Janeiro (UFRJ), detalha a descoberta da molécula que se tornou esperança para
reverter paralisias por lesão na medula.
A
descoberta da bióloga é resultado de 30 anos de pesquisa sobre a polilaminina,
versão recriada em laboratório da laminina, proteína produzida naturalmente
pelo corpo e que ajuda os neurônios a se conectarem.
Segundo
dados do Ministério da Saúde, entre 2024 e 2025 Sabará
contabilizou 590 casos de chikungunya; Congonhas registrou 73
casos; Maracanaú teve 18 casos; e Simão Dias, 30
casos
Nesta
segunda (23/2), os municípios de Sabará (MG), Congonhas
(MG), Maracanaú (CE) e Simão
Dias (SE) começam a vacinar sua população contra a
chikungunya. A iniciativa faz parte de uma estratégia piloto realizada com o
apoio do Ministério da Saúde e que utiliza o imunizante produzido pelo
Instituto Butantan em parceria com a farmacêutica franco-austríaca Valneva. A
campanha é gratuita e a vacinação é realizada nos postos de saúde municipais.
Poderão
se vacinar pessoas de 18 a 59 anos que sejam moradoras das cidades
participantes da estratégia e que atendam aos seguintes critérios: não ser
gestante e/ou lactante; não possuir imunodeficiências ou imunossupressão; não
estar fazendo quimioterapia ou radioterapia, nem ter feito transplante; não
possuir comorbidades mal controladas, ou mais de uma comorbidade, entre outros.
As
principais reações adversas que podem ocorrer após a aplicação da vacina são
dor de cabeça, enjoo, cansaço, dor muscular, dor nas articulações, febre e
reações no local da injeção (sensibilidade, dor, vermelhidão, endurecimento,
inchaço).
Durante
e após a estratégia, o Instituto Butantan vai monitorar os casos positivos e
negativos de chikungunya que ocorrerem nos municípios participantes, a fim de
avaliar a efetividade do imunizante no mundo real. Também serão realizados
estudos com o objetivo de monitorar a segurança da vacina a longo prazo.
Essa
é a segunda etapa da estratégia vacinal, que foi iniciada em Mirassol (SP), em
2/2. Além dos cinco municípios já divulgados, o piloto incluirá outras cinco
cidades de Sergipe, Ceará e Minas Gerais. Os territórios envolvidos foram
selecionados a partir de um estudo epidemiológico, que utilizou um modelo
matemático para predizer as regiões com maior risco de apresentar surtos de
chikungunya entre 2025 e 2027.
Sobre
a chikungunya e a vacina do Butantan
A
chikungunya é uma doença viral transmitida pela picada do mosquito Aedes
aegypti, o mesmo vetor da dengue e da Zika. Ela pode ser assintomática, ou
causar reações como febre alta (39-40°C), dor intensa e inchaço nas
articulações, dor de cabeça e manchas vermelhas pelo corpo. A dor crônica nas
articulações é sua principal sequela, e pode perdurar por meses ou anos. Em
pessoas que possuem outras comorbidades, como hipertensão, diabetes, doenças do
coração ou do rim, a chikungunya pode gerar quadros clínicos mais graves,
descompensando as enfermidades pré-existentes e podendo levar a óbito.
A
vacina do Butantan é a primeira do mundo a ser disponibilizada para prevenir a
doença. Aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em
abril de 2025, ela teve sua segurança e capacidade de gerar anticorpos
comprovadas em estudos clínicos feitos nos Estados Unidos e publicados na revista científica The Lancet. Dos 4 mil
voluntários adultos que participaram da pesquisa, 98,9% produziram anticorpos
neutralizantes. Além do Brasil, o produto já foi aprovado para uso no Canadá,
Reino Unido e Europa.
A carreta
de saúde do programa do governo federal Agora Tem Especialistas chega,
nesta sexta-feira (20), ao município de Tarauacá, no Acre.
Essa unidade móvel oferta para os pacientes do SUSatendimentos
para prevenção de câncer de mama e do
colo do útero, essenciais para garantir o tratamento de doenças graves
no tempo certo. Antes, a unidade móvel prestou atendimento para a população de
Brasiléia.
Além
do município acreano, outras seis cidades brasileiras recebem as carretas de
saúde nesta sexta: São João de Meriti e Campo Grande (RJ), Mossoró (RN), Caxias
do Sul (RS), São José (SC) e Bom Jesus (PI). Ao todo, 47 unidades móveis de
saúde especializada do governo federal estão em todo o país e no DF,
posicionadas em regiões de difícil acesso, alta demanda por assistência
especializada ou cidades-polo, referência para atendimento de outros municípios
da região. Desde outubro de 2025, quando começaram a ampliar a oferta de
atendimento, as unidades móveis já reduziram o tempo de espera em mais de 100
regiões de saúde.
“O
principal objetivo do programa Agora Tem Especialistas é fortalecer serviços
que já existem no território, porém em quantidade reduzida; e ainda, ofertar
atendimentos que não existem. Esse aumento da oferta, possibilitado pela
carreta, impacta diretamente na redução do tempo de espera para consultas e
exames especializados, voltados à saúde da mulher. Tudo isso trazendo esse
serviço pertinho da usuária do SUS”, explica o superintendente do Ministério da
Saúde no Acre, Pedro Oliveira.
As
pacientes da rede pública de Tarauacá, previamente agendadas e encaminhadas
pela secretaria de saúde local, podem fazer consultas especializadas,
mamografias, ultrassonografias pélvicas e transvaginal e até biópsias para
diagnosticar precocemente câncer de mama e de colo de útero. Uma equipe
multiprofissional, composta por médico, técnico de enfermagem e enfermeiro, já
está pronta para receber a população.
Carretas
desafogam atendimento local e zeram filas em 15 municípios
Até
o final deste ano, um total de 150 unidades móveis estará em funcionamento no
país. Das 47 atualmente disponíveis, 33 são de saúde da mulher, nove de exames
de imagem e cinco especializadas em oftalmologia. Todas estão estruturadas com
equipamentos, insumos e equipes multiprofissionais e atuam para desafogar a
demanda reprimida. Quinze municípios, inclusive, já zeraram a fila por
atendimento.
É o
que aconteceu em Ceilândia (DF), Garanhuns (PE), Urucânia (RJ), Brasiléia
(AC), Tauá (CE), Cariacica (ES), Taiobeiras (MG), Princesa Isabel
(PB), Parnamirim (RN) e em Canoinhas (SC), em que todos que precisavam fazer
diagnóstico de câncer de mama e exames ginecológicos receberam o atendimento. O
mesmo aconteceu em Ribeirão Preto (SP) e Ariquemes (RO) para aqueles que
esperavam por cirurgia de catarata.
Com
mais de 1,2 mil procedimentos cirúrgicos realizados em todas as carretas
oftalmológicas do programa, 1 mil pessoas voltaram a enxergar. Essas unidades
móveis ofertam, também, outros procedimentos como mapeamento de retina e
ultrassom ocular.
Já
em Santana do Ipanema (AL), todos os pacientes do município e de outros 13 da
região que precisavam de tomografia se submeteram ao procedimento, garantindo
maior agilidade para descobrir condições graves de saúde ou descartar
hipóteses, contribuindo para levar o paciente para o diagnóstico correto. O
mesmo ocorreu em Crato (CE) e Paracambi (RJ), que também receberam carretas
especializadas em exames de imagem.
Mais
acesso e cuidado especializado
Para
desafogar a demanda por atendimento especializado nos estados e municípios, o
Agora Tem Especialistas tem em andamento várias ações, com a mobilização da
estrutura de saúde da rede pública e privada. Para aumentar a oferta de
atendimento do SUS e reduzir o tempo de espera, oferece, além das carretas,
mutirões, ampliação do horário de atendimento em policlínicas, provimento de
mais médicos especialistas, atendimento aos pacientes da rede pública em
hospitais privados, entre outros.
Bióloga
da UFRJ, Tatiana de Coekho Sampaio lidera pesquisa mundialmente
promissora na regeneração da medula espinhal
A
cientista brasileira Tatiana Coelho de Sampaio é uma
bióloga, professora e pesquisadora da Universidade Federal do Rio
de Janeiro(UFRJ) cujo trabalho inovador em biologia
regenerativa e celular tem despertado atenção no Brasil e no mundo por seu
potencial de transformar o tratamento de lesões da medula espinhal —
e, segundo veículos nacionais, poderá até mesmo colocar um nome brasileiro
na corrida por um Prêmio
Nobel de Medicina.
Com
formação acadêmica sólida em biologia e
décadas de pesquisa dedicadas ao estudo da matriz extracelular — a rede de
proteínas e moléculas que fornece suporte estrutural às células — Tatiana se
especializou no papel das lamininas, proteínas fundamentais para a organização
dos tecidos e a comunicação celular. Desde os anos 2000, ela coordena o
Laboratório de Biologia da Matriz Extracelular no Instituto de Ciências
Biomédicas da UFRJ, onde orienta estudantes de diversas etapas da formação
científica e lidera colaborações nacionais e internacionais.
Estudo
revolucionário
O
foco mais divulgado de sua pesquisa é o desenvolvimento da polilaminina,
uma forma polimerizada da proteína laminina que age como um verdadeiro “andaime
biológico” ao ser aplicada diretamente em áreas lesionadas da medula espinhal.
Essa substância cria um ambiente favorável para que os axônios — fibras
nervosas responsáveis pela transmissão de impulsos entre o cérebro e
o corpo — possam reconectar-se após danos severos, um processo que até
agora a medicina considerava praticamente impossível em casos de paraplegia e
tetraplegia profunda.
Segundo
relatos divulgados pela imprensa brasileira, 16 pacientes receberam
autorização judicial para uso experimental da polilaminina, e pelo menos
cinco deles apresentaram recuperação parcial de movimentos, um resultado
considerado por especialistas um avanço enorme diante de décadas de pesquisa.
O
trabalho de Tatiana ainda está em fases iniciais de ensaios
clínicos, com autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa)
para estudos exploratórios de segurança e eficácia em humanos, passo
fundamental para validar a tecnologia antes de permitir seu uso terapêutico em
larga escala.
A
repercussão desse avanço é grande: nas redes sociais e na mídia
especializada, Tatiana tem sido apontada como uma das
cientistas brasileiras com chances de ser reconhecida com um Prêmio Nobel, caso
sua pesquisa se consolide e prove impacto clínico significativo para milhões de
pacientes com lesões medulares no mundo — um feito que colocaria o Brasil em
evidência na fronteira da medicina regenerativa.
Para
além da polilaminina, a carreira de Tatiana Coelho de Sampaio é
marcada por artigos científicos revisados por pares, participação em eventos
acadêmicos e contribuições à compreensão dos mecanismos que regem a regeneração
neural e a organização tecidual.
Uma
trajetória que se inicia com o manejo empírico de serpentes em uma fazenda, até
alcançar escala industrial de ponta para a fabricação de mais de 600 mil
frascos a cada ano
No
Especial 125 anos do Instituto Butantan, viaje pela História e pelas histórias
que fazem dessa instituição centenária uma referência global em pesquisa,
produção e educação científica.
Em
23 de fevereiro de 1901, por meio da assinatura do Decreto nº 878-A pelo então presidente do estado
de SãoPaulo Francisco de Paula Rodrigues Alves (1848-1919), foi
oficializada a criação do Instituto Serumtherapico – atual Instituto
Butantan. Sob a liderança do médico sanitarista Vital Brazil(1865-1950),
primeiro diretor da instituição, um quadro enxuto de funcionários (um ajudante,
um administrador, um escriturário, dois auxiliares, um cocheiro e alguns poucos
“camaradas”) dedicava-se a uma nobre missão: garantir a produção do soro
antipestoso, utilizado para o tratamento da peste bubônica que havia chegado ao
país poucos anos antes. O primeiro lote do medicamento foi entregue pouco
depois da criação do Instituto, em 11 de junho de 1901.
Naquele
mesmo ano, também foram fabricados os primeiros frascos do produto que se
mantém até hoje como um dos carros-chefe do Butantan: os soros
antiofídicos. Na época, os acidentes com serpentes eram frequentes,
principalmente nas zonas rurais – registros do período apontam quase 2.000 óbitos
apenas no estado de São Paulo, entre 1902 e 1915. Empenhado em reduzir tais
números, Vital Brazil demonstrou que a eficácia do tratamento dos
quadros de envenenamento dependia da especificidade antigênica –
ou seja, o soro aplicado deveria ser específico contra o veneno do gênero
responsável pela picada.
Mais
de um século depois, a lógica que sustenta a chamada soroterapia permanece
essencialmente a mesma: a utilização de anticorpos produzidos a partir da
imunização de cavalos para neutralizar toxinas específicas. O que mudou foi
todo o resto. Se no início os soros do Butantan eram preparados em condições
quase artesanais, entre baias e cocheiras, hoje o Instituto é reconhecido como
um dos principais produtores de imunobiológicos do mundo. Uma saga construída
pouco a pouco, década após década, marcada por ajustes técnicos, crises
sanitárias, avanços científicos e decisões institucionais que consolidaram a
produção de soros no Brasil.
Sangria
de equino para retirada de plasma realizada no final da década de 1930 (Centro
de Memória/Instituto Butantan)
Os
antivenenos na era de Vital Brazil
Nas
primeiras décadas do século XX, o processo de fabricação de soros no Butantan
era predominantemente artesanal, realizado em instalações rudimentares e com a
ajuda de equipamentos bastante simplórios. A extração de veneno das serpentes
era a primeira etapa do processo e, por incrível que pareça, a ação acontecia a
céu aberto.
A
tarefa ficava a cargo de técnicos pouco paramentados – que, no máximo, calçavam
botas pouco mais robustas. Enquanto um devia conter o animal, o outro
massageava as glândulas de veneno. “Era comum que os funcionários
fossem picados. Por conta disso, muitos apresentavam sequelas físicas, como
dedos tortos”, lembra o pesquisador científico e diretor do Laboratório de
Herpetologia do Instituto Butantan, Sávio Stefanini Sant’Anna.
Após
a coleta, o veneno seguia para outro ambiente, onde passava por um processo de
secagem até se transformar em algo parecido com pequenos cristais. Na etapa de
imunização dos cavalos, esses cristais eram diluídos e injetados em doses
crescentes com o objetivo de estimular a produção de anticorpos.
Coleta
de plasma hiperimune de cavalo em becker (Centro de Memória/Instituto Butantan)
Concluída
essa fase, os equinos eram encaminhados para a sangria, que acontecia em baias
abertas, exatamente onde hoje se localiza o auditório do famoso Museu Biológico. Cerca de seis litros de sangue eram
retirados pela veia jugular do animal e coletados em frascos de vidro apenas
cobertos por panos, constantemente manuseados por técnicos sem a devida
paramentação.
De
volta ao laboratório, o sangue era deixado em repouso por 48 horas para separar
as hemácias (parte sólida) do plasma (parte líquida). Depois, o plasma passava
por um filtro de vela, capaz apenas de reter partículas maiores de impureza.
Por fim, funcionárias enchiam ampolas de vidro com o soro, e realizavam o
fechamento dos frascos com o auxílio de uma chama. A fim de atestar a eficácia,
pombos recebiam doses de veneno e, posteriormente, do soro fabricado.
Um
registro audiovisual raro de 1926, recuperado pela Cinemateca
Brasileira, ajuda a compreender, em detalhes, como funcionava esse
processo. Confira:
Defesa
contra o ofidismo: um pacto com os brasileiros
Já
naquela época, os soros antiofídicos do Butantan mostraram-se decisivos para a
saúde pública. “Não podemos deixar de valorizar todos esses processos
estabelecidos pelo Vital Brazil no início do século. Além de ter salvado muita
gente, foi isso que deu a base para que pudéssemos estar aqui. Hoje, somos
também o mais importante produtor da América Latina de antitoxinas diftérica,
tetânica e botulínica, além da imunoglobulina equina antirrábica”, afirma a
diretora técnica de produção de soros hiperimunes do Instituto Butantan, Fan
Hui Wen.
O
êxito do produto trouxe um desafio logístico: para sustentar o fornecimento da
principal matéria-prima dos soros – ou seja, os venenos – era preciso assegurar
a chegada de serpentes ao Butantan. Foi então que Vital Brazil estruturou o
programa Defesa contra o Ofidismo, que estabeleceu um pacto inédito
entre entidade científica e sociedade. A estratégia procurava incentivar a
população, sobretudo os moradores do interior, a capturar serpentes e enviá-las
ao Instituto. Em troca, recebiam soros. Segundo registros da época, quatro a seis serpentes
podiam ser trocadas por uma ampola de soro, seis serpentes por uma agulha de 10
cm³ e oito serpentes por uma seringa de 20 cm³.
Pombo
recebe injeção endovenosa para verificação do soro antes do consumo humano
(Centro de Memória/Instituto Butantan)
A
logística desse programa apoiava-se na amplitude da malha ferroviária da época.
O Instituto firmou parcerias com diversas estradas de ferro, a fim de garantir
o transporte gratuito das serpentes. Os animais viajavam em caixas de madeira
desenvolvidas especialmente para esse fim. Para facilitar a captura, os
“fornecedores” cadastrados também recebiam um laço para o correto manuseio do
animal. Diariamente, um caminhão do Butantan percorria as estações terminais
das ferrovias paulistas na cidade de São Paulo, recolhendo as caixas que
chegavam de trem cheias e redistribuindo as vazias para o interior.
O
arranjo acabou se consolidando como uma inovadora rede de comunicação
científica. Ao chegar na instituição, todas as serpentes eram devidamente
identificadas. Posteriormente, os remetentes recebiam uma carta de
agradecimento com informações da espécie enviada, assim como as ampolas de
soro. Em contrapartida, também era solicitado a eles o envio ao Butantan de
dados relacionados a possíveis acidentes ofídicos em que os pacientes fossem
tratados com o produto.
Dessa
forma, Vital Brazil manteve intensa correspondência com médicos e
farmacêuticos, recebendo informações valiosas sobre os efeitos dos venenos em
indivíduos picados por diferentes tipos de serpentes, e registrando a evolução
do tratamento com a utilização do soro. “Foi um sistema embrionário de
vigilância epidemiológica, que permitiu dimensionar o problema de saúde,
conhecer o espectro clínico dos envenenamentos, acompanhar os resultados
terapêuticos e ajustar práticas produtivas”, observa Fan Hui Wen.
Vital
Brazil no antigo "cobril" do Instituto Butantan (Centro de
Memória/Instituto Butantan)
Manutenção
das serpentes: uma demanda urgente
O
recebimento massivo de serpentes, impulsionado pelo programa de permutas
estabelecido por Vital Brazil, gerou nova demanda: a necessidade de uma
infraestrutura adequada para a manutenção dos animais.
Nos
primeiros anos de existência do Instituto, os espécimes que chegavam eram
mantidos em “cobris” – tipo de fosso de alvenaria protegido por tampas. Embora
existisse uma separação simplificada entre espécies, as serpentes não recebiam
nenhum tipo de profilaxia antes de integrarem o plantel. Não havia protocolos
de alimentação, controle ambiental, quarentena ou acompanhamento veterinário, o
que comprometia a saúde dos animais e favorecia a mortalidade elevada. Naquele
tempo, a expectativa de vida de uma serpente que chegasse ao Butantan não
passava dos 15 dias.
Técnicos
do Instituto realizam extração de veneno de uma serpente ao ar livre no
Serpentário (Centro de Memória/Instituto Butantan)
Em
1914, o Instituto deu um importante passo ao inaugurar seu serpentário – existente até os dias de hoje. Com
cerca de 500 metros quadrados, o espaço foi concebido para cumprir dupla
função: concentrar a manutenção de serpentes e contribuir para a divulgação
científica. Instalado em área aberta, o ambiente reunia abrigos similares a
iglus que ajudavam os animais a se protegerem do sol e da chuva, além de
espaços destinados a demonstrações públicas de manejo e extração de
veneno.
Apesar
do projeto elaborado, o novo serpentário não resolveu antigos problemas. A taxa
de mortalidade anual dos animais seguia acima dos 90% e a sobrevida não
ultrapassava os 30 dias. Com o passar dos anos, uma realidade tornou-se cada
vez mais clara: a expansão da soroterapia no Butantan dependia menos da
quantidade de animais recebidos e mais da capacidade de mantê-los vivos.
Interior
do laboratório onde ocorria o processo de filtração de soros (Centro de
Memória/Instituto Butantan)
Primeiras
melhorias no processo produtivo
A
construção do chamado “Prédio Novo”, na década de 1940, trouxe mudanças
importantes no processamento dos soros ao ampliar e organizar laboratórios
dedicados à produção. Esse ambiente mais adequado permitiu o refinamento de
etapas que, até então, seguiam praticamente as mesmas do início do século.
Imagens
da década de 1950 mostram que a produção passou a realizar o isolamento da
chamada “massa proteica” – fração do plasma em que se concentram os anticorpos
–, por meio de um filtro prensa, capaz de extrair a parte líquida
excedente. A massa resultante era submetida a um procedimento de
purificação que utilizava sacos de papel celofane para remover impurezas e
concentrar as proteínas. Confira:
A
implementação de um biotério
Em
1963, sob a coordenação do veterinário Hélio Emerson Belluomini (1923-2014), as
serpentes utilizadas no processo de extração de venenos foram transferidas para
ambientes internos. Os novos espaços ocuparam antigas baias desativadas e
permitiram avanços inéditos. Acondicionados em grupos menores, os animais
passaram a receber cuidados individualizados, e as salas ganharam controle de
temperatura, luminosidade e umidade.
Técnica
manipula serpente nas primeiras instalações do biotério de serpentes, no
Laboratório de Herpetologia (Centro de Memória/Instituto Butantan)
O
impacto foi imediato: a sobrevida das serpentes saltou para cerca de 2 meses,
ampliando o número de extrações por indivíduo e, consequentemente, a quantidade
de veneno disponível para a produção de soros. Nos anos seguintes, outro avanço
importante foi a introdução do uso de gás carbônico (CO2) para anestesia
temporária das serpentes durante o processo de extração de veneno, tornando o
procedimento mais seguro para os técnicos e menos estressante para os
animais.
Nessa
mesma época, ocorreu também a transferência da cavalaria de imunização e
sangria para a Fazenda São Joaquim, localizada no município de Araçariguama
(SP) – a propriedade foi adquirida pelo governo do estado na década de 1940 e
repassada ao Instituto como compensação pela área cedida para a criação da
Cidade Universitária, vinculada à Universidade de São Paulo (USP). A mudança
foi motivada para melhorar o bem-estar dos animais, que passaram a ser mantidos
em regime de vida livre.
Máquina
de envase e fechamento de ampolas por chamas em antigo laboratório de produção
de soros (Centro de Memória/Instituto Butantan)
A
grande crise nacional e a revolução na produção
Dezesseis
tipos de soros eram produzidos pelo Butantan no início da década de 1980:
antibotrópico, para acidentes com jararaca; anticrotálico, para envenenamento
por cascavel; antiofídico (polivalente), para quando não se sabia se a picada
foi de jararaca ou cascavel; antielapídico, para quadros de envenenamento por
coral-verdadeira; antilaquético, para acidentes com surucucu-pico-de-jaca;
antibotrópico-laquético, para quando não se sabia se o envenenamento foi
causado por jararaca ou surucucu-pico-de-jaca; antiaracnídico (polivalente),
usado tanto no envenenamento por escorpião, como nas picadas por aranha-marrom;
antiescorpiônico; antiloxoscélico, para envenenamento causado por
aranha-marrom; antidiftérico; antitetânico (veterinário); antigangrenoso; antirrábico;
antibotulínico “A”; antibotulínico “B” e antibotulínico “AB”.
Embora
o Instituto tivesse atingido picos de produção nas décadas de 1960 e 1970,
superando o volume de 350 mil ampolas no acumulado entre 1960 e 1965, a
escassez de recursos direcionados para manutenção e modernização do processo
passaram a impactar a fabricação dos imunobiológicos.
A
criação do Programa Nacional de Imunização (PNI), em 1973, e do Instituto
Nacional de Controle de Qualidade em Saúde (INCQS), na década seguinte, também
provocou efeitos significativos na saúde pública brasileira. Inspeções
realizadas pelo órgão de controle mostraram que diversos lotes de produtos
fabricados por laboratórios nacionais e estrangeiros estavam
contaminados.
Com
o aumento das exigências, a multinacional Syntex do Brasil, até então detentora
de quase 80% do mercado nacional de soros, decidiu, em 1983, encerrar a linha
de fabricação de produtos biológicos. Foi um golpe que atingiu em cheio a
população, deflagrando um grave problema de desabastecimento de soros em vários
estados do país. A escassez dos imunobiológicos teve consequências imediatas e
se refletiu no aumento de mortes.
O
processo de extração de veneno de serpente nos dias de hoje (Comunicação
Butantan)
A
situação repercutiu ainda mais após o óbito de uma criança no Distrito Federal,
em 1986. Diante do cenário calamitoso, o Ministério da Saúde impulsionou o
Programa Nacional de Autossuficiência em Imunobiológicos (PASNI), criado no ano
anterior, destinando recursos para a modernização e reestruturação das plantas
de produção nacional de imunobiológicos.
No
Instituto Butantan, a resposta veio com o Plano para Intensificação e Aprimoramento da Produção de Soros
Antipeçonhentos, que estabeleceu metas de expansão, padronização de
processos e fortalecimento do controle de qualidade. “A reação foi
rápida porque a instituição contava com profissionais extremamente capacitados.
O professor Isaias Raw [(1927-2022)] já era uma liderança
científica importante da USP e veio para o Butantan justo nessa época. Ele foi
o grande artífice da reconstrução da nossa produção dos soros”, reforça Fan
Hui Wen.
“O
primeiro desafio era repensar a produção do soro que não poderia ser importado.
Podia-se comprar vacina, mas não se podia comprar soro contra venenos de
serpentes brasileiras. Teríamos que inovar na tecnologia”
(Entrevista com Isaias Raw sobre o Centro de Biotecnologia do Instituto
Butantan, 2007)
O
médico e pesquisador, que atuou como diretor do Instituto Butantan entre 1991 e
1997, e como diretor da Fundação Butantan entre 2005 e 2009, se inspirou na
indústria de produção do leite para desenhar e implementar um sistema de processamento de plasma fechado e automatizado.
A nova estrutura também permitiu a incorporação de tecnologias mais
sofisticadas de purificação, como a centrifugação industrial e a digestão
enzimática controlada. O objetivo era obter produtos eficazes, garantir a
esterilidade e reduzir o potencial de reações adversas.
Ampolas
de soro antibotrópico do Instituto Butantan produzidas em 2025 (Comunicação
Butantan)
“Propus
que aprendêssemos com a indústria do leite. Quando alguém manipula o leite, ele
talha; então, se não se podia pôr a mão no leite, tampouco no soro”
(Entrevista com Isaias Raw sobre o Centro de
Biotecnologia do Instituto Butantan, 2007)
O
plano do Butantan também incluiu a modernização do biotério de serpentes, que
passou por nova reforma no ano de 1987. “Quando a demanda do Ministério
chegou, o diretor do biotério na época já estava com o projeto de melhoria na
gaveta”, brinca Sávio Sant’Anna. “Foi um novo momento de virada,
com a implementação de um processo de quarentena e a desvermifugação das
serpentes que chegavam ao plantel”, completa a pesquisadora científica do
Laboratório de Herpetologia, Kathleen Grego Fernandes. Os ajustes contribuíram
para que a sobrevida dos animais saltasse de dois meses para quase um ano.
A
cultura de inovação não se restringiu à modernização de processos, mas incluiu
também a diversificação de produtos. Em 1994, o Instituto desenvolveu o soro
antilonômico, destinado ao tratamento de acidentes com lagartas do
gênero Lonomia, que vinham causando quadros graves de saúde no Sul
do Brasil. A integração do imunobiológico ao portfólio do Butantan exemplifica
uma de suas principais características: a capacidade de oferecer soluções para
problemas de saúde pública ignorados pela indústria tradicional.
Imagem
interna da atual plata de Processamento de Plasmas Hiperimunes (Comunicação
Butantan)
A
era moderna: consolidação industrial e últimas inovações
Entre
2013 e 2016, a produção passou por um novo desafio: a necessidade de se adequar
às Boas Práticas de Fabricação (BPF) que passaram a ser exigidas pela Agência
Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Foi necessário realizar uma série de
mudanças que envolveu a modernização de sistemas, a validação de processos e a
implementação de “células” de Garantia da Qualidade em todas as áreas fabris,
incluindo a planta de Processamento de Plasmas Hiperimunes (PPH)
– anos antes, o setor havia se consolidado como o “coração” da produção ao
reunir as etapas de processamento e purificação dos 12 tipos de soros
concentrados, posteriormente encaminhados para formulação, envase e
acondicionamento.
Em
2016, o Butantan foi o primeiro produtor nacional a obter a certificação BPF da
Anvisa para a fabricação de insumos farmacêuticos ativos de imunoglobulinas
heterólogas.
Os
avanços também se aprofundaram no manejo animal. O Laboratório de
Herpetologia, responsável por abrigar as serpentes envolvidas na extração
de veneno, incorporou exames rotineiros de ultrassonografia para monitorar as
fêmeas em fase de reprodução e diagnosticar possíveis patologias em serpentes
idosas. Recentemente, foram instaladas quatro unidades de terapia intensiva
para aprimorar ainda mais o cuidado dos animais. Hoje, cerca de 60% do plantel
utilizado na fabricação de soros já nasceu em ambiente controlado. As
constantes melhorias fizeram com que a expectativa de vida das
serpentes saltasse para uma média de 10 anos.
Os
cavalos que contribuem com a produção de soros na Fazenda São Joaquim
(Comunicação Butantan)
O
conceito de área produtiva também foi incorporado ao Biotério de
Artrópodes, inaugurado em 2016, que abriga ambientes totalmente
climatizados e setores separados para criação de escorpiões e aranhas
destinados à extração de venenos para a produção dos soros antiescorpiônico e
antiaracnídico, além de baratas e grilos utilizados nos protocolos de
alimentação dos animais.
Já
no setor de Obtenção de Plasmas Hiperimunes (OPH), localizado
na Fazenda São Joaquim, em 2018 foi implementada a coleta automatizada de
plasma, que substituiu a sangria dos cavalos. Neste sistema, denominado
plasmaférese, o sangue retirado é misturado a um anticoagulante e separado por
centrifugação. O plasma obtido é transferido para bolsas estéreis, enquanto as
hemácias são “devolvidas” ao animal. O processo aumentou o bem-estar dos
equinos, garantindo uma condição corporal adequada e a melhoria do estado de
saúde dos animais, além de um plasma de qualidade superior e sem
contaminação.
Como
resultado da expansão, estima-se uma capacidade de produção de 1,2 milhão de
frascos de soros por ano. Já com a nova área de envase, a previsão anual será
de 5,2 milhões de frascos na forma líquida e 7,1 milhões de doses na forma
liofilizada, tanto de soros como de vacinas, garantindo assim que os produtos
do Butantan continuem chegando a todos aqueles que os necessitam.