Poucas
coisas fazem tanto pelo corpo e pela mente quanto caminhar. E nem é necessário
percorrer longas distâncias, contar calorias queimadas ou gastar horas: um
relatório publicado no The British Journal of Sports Medicine concluiu que
andar 11 minutos por dia de forma despretensiosa já reduz os riscos de
desenvolver doenças
cardíacas, vários tipos de câncer e
a mortalidade em geral.
Além
de poderoso, é o exercício físico mais democrático que existe: requer apenas um
sapato confortável.
Pouco
já é muito
Um
dos maiores atrativos para calçar o tênis e sair andando é não precisar traçar
trajetos megalomaníacos nem caminhar por horas a fio.
Uma
pesquisa publicada na Lancet Public Health aponta que caminhadas a
partir de 2.300 passos já diminuem o risco cardiovascular —somando outros mil
passos, a mortalidade cai mais 15%. A pesquisa recomenda 7.000 passos diários,
quantidade suficiente para reduzir em 47% a chance de mortalidade por todas as
causas.
Já
a OMS (Organização
Mundial da Saúde) reforça a importância de botar o coração para funcionar,
recomendando pelo menos 150 minutos de atividade moderada por semana.
Isso
significa que, para uma caminhada entrar na conta, é necessário apertar o passo
e elevar os batimentos cardíacos a cerca de 60% a 70% da frequência cardíaca
máxima, entrando na chamada zona 2 de treinamento —na prática, isso quer dizer
que você se sentirá levemente ofegante ao manter uma conversa.
Esse
exercício também pode reduzir o risco de alguns tipos de câncer. Um estudo da
American Cancer Society acompanhou mulheres cuja única atividade
física era caminhar e descobriu que as que andavam sete ou mais
horas por semana tinham 14% menos risco de desenvolver câncer de mama do que as
que caminhavam três horas ou menos.
De
acordo com outro artigo da Harvard Medical School, andar 20 minutos por dia,
cinco ou mais vezes por semana, fortalece o sistema imunológico, melhora a
lubrificação das articulações e tonifica os músculos que as sustentam, além de
prevenir artrite.
Faxina
cerebral
Dar
uma volta a pé também ajuda a reorganizar a cabeça. Perambular um pouco melhora
o fluxo sanguíneo cerebral e, consequentemente, a memória. Um estudo publicado
na revista científica PNAS indica que caminhadas regulares podem aumentar o
volume do hipocampo, responsável pelo funcionamento cognitivo. Isso contribui
para a prevenção dos efeitos do envelhecimento: depois dos 50, essa região do
cérebro encolhe de 1% a 2% ao ano, o que eleva os riscos de demência e outras
doenças.
Sabe
aquela sensação de ruminar o mesmo pensamento por horas, dias e semanas? Um
passeio é capaz de interromper esse looping, baixar a ansiedade e regular o
humor. Se isso acontecer perto da natureza, melhor ainda: outro estudo
publicado na PNAS mostrou que andar com o verde ao redor reduz a atividade do
córtex pré-frontal subgenual, associado ao pensamento repetitivo e à depressão.
Se
faltar inspiração, dar alguns passos também vai servir: parece balela, mas a
moda do Vale
do Silício de fazer reuniões andando em vez de se trancar em uma
sala tem respaldo científico. Pesquisadores da Universidade de Stanford
descobriram que o movimento dá uma turbinada na criatividade.
Dar
uma volta ainda pode ser uma forma de incluir outros tipos de lazer na rotina:
dá para ouvir um podcast ou um audiobook,
colocar o papo em dia com um amigo ou parente, fazer uma meditação guiada,
passear pelo bairro com o pet ou simplesmente aproveitar o silêncio, sem fone e
sem tela.
Cidade
caminhável
Bater
perna é mais prazeroso quando o mundo lá fora colabora com a experiência — e,
para muita gente, é também o único jeito de se locomover. No Brasil, 39% dos
deslocamentos urbanos são feitos exclusivamente a pé, segundo levantamento da
ANTP (Associação Nacional de Transportes Públicos).
Seja
por escolha, seja por necessidade, ter ruas seguras e calçadas bem cuidadas é
um direito básico. Por isso, desde 2012, a Política Nacional de Mobilidade
Urbana estabelece que caminhar, pedalar e outros modos de transporte movidos
pelo esforço do próprio corpo devem ser prioridade no planejamento urbano.
Isso
significa construir cidades pensadas não só para os carros, mas para os
pedestres, ampliando áreas de caminhada, espaços verdes e até promovendo o
consumo local. Com ruas seguras, fica mais fácil fazer esse investimento na
saúde: abrir a porta de casa e sair, sem pensar muito, só aproveitando o
caminho.
Fonte _ Folha/SP







