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quinta-feira, 12 de março de 2026

Casos de mpox no Brasil chegam a 149; veja em quais estados

 


Desde o início de 2026 o Brasil registrou 149 casos de mpox, entre confirmados e prováveis, de acordo com o painel de monitoramento do Ministério da Saúde, atualizado na segunda-feira (9). Nenhum óbito foi contabilizado no país neste ano.


Com 93 confirmações, o estado de São Paulo lidera o ranking nacional, seguido por Rio de Janeiro (18), Rondônia (11), Minas Gerais (11), Rio Grande do Norte (3), Rio Grande do Sul (3) e Santa Catarina (3). Paraná tem 2 casos. Amazônia, Ceará, Distrito Federal, Pará e Sergipe registram 1 caso cada.

O Ministério da Saúde afirma que o cenário atual não indica situação de crise e que o SUS (Sistema Único de Saúde) está preparado para diagnóstico, tratamento e monitoramento dos casos, com investigação epidemiológica e rastreamento de contágios. A pasta diz ainda que mantém vigilância ativa e acompanhamento dos pacientes.

Entre os casos paulistas, dois foram identificados ainda em janeiro como pertencentes ao clado 1b, subvariante historicamente associada a quadros mais graves. Em fevereiro, a OMS (Organização Mundial da Saúde) detectou na Índia e no Reino Unido dois casos de uma nova cepa recombinante dos clados 1b e 2b.

Segundo a organização internacional, ambos os pacientes apresentaram sintomas semelhantes aos demais clados sem evolução grave, e a avaliação de risco permanece moderada para grupos com maior exposição —como homens que fazem sexo com homens, trabalhadores do sexo e pessoas com múltiplos parceiros— e baixa para a população geral.

O que é a mpox?

A mpox, anteriormente conhecida como "monkeypox" (varíola dos macacos, em português), é uma infecção causada pelo vírus Mpox, que pertence à família do gênero orthopoxvirus, o mesmo da varíola, explica infectologista Flávia Falci, do Grupo Santa Joana.

Os sintomas iniciais são febre, dor de cabeça, dor no corpo, cansaço e aumento dos linfonodos. Se evoluir para a chamada fase eruptiva, surgem também lesões na pele que podem ocorrer na face, região genital, perianal, palmas das mãos e dos pés e mucosa. Segundo a médica, casos graves podem evoluir com manifestações neurológicas e oculares.

O vírus que causa a mpox se divide em dois clados, que são agrupamentos de espécies semelhantes com ancestral evolutivo comum. Os clados 1 e 2 se dividem em dois subclados: 1a e 1b, 2a e 2b.

"Essa avaliação indica a circulação do vírus", diz o infectologista Dyemison Pinheiro, mestre em saúde coletiva e assistente no pronto-socorro do Instituto de Infectologia Emílio Ribas. "Classicamente, o 1a circula entre países da África Central e o 2b foi primeiro detectado na Nigéria, que seguiu causando infecção entre humanos." Os sintomas causados pelo clado 1b tendem a ser mais exacerbados em pessoas mais vulneráveis ao vírus, com déficit de imunidade, complementa.

Como a doença é transmitida?

A principal forma de transmissão da doença é entre seres humanos, afirma Juvencio Furtado, infectologista do Hospital Heliópolis. Segundo ele, é raro a transmissão vinda de um animal, sendo o mais comum ser do contato próximo entre pessoas, com lesões, fluidos corporais, gotículas respiratórias e objetos pessoais contaminados.

"O vírus penetra no ser humano através de lesões de pele, mesmo que essas lesões não sejam visíveis. Pode penetrar raramente pelo trato respiratório, membranas mucosas, como nos olhos, boca e nariz", diz Furtado. Outra via de transmissão em debate, afirma, é a vertical via placentária, a chamada mpox congênita.

A transmissão sexual também é possível, afirma o médico, tendo ocorrido de forma mais frequente entre homens que fazem sexo com outros homens. No entanto, o risco não é restrito a esse grupo e pode acontecer com qualquer pessoa que tenha contato com a lesão com mucosas ou lesões cutâneas.

A doença também pode ser transmitida mesmo antes de se apresentar qualquer tipo de sintoma ou por pacientes assintomáticos, explica Falci.

O que posso fazer para prevenir a contaminação?

Para Furtado, a medida protetiva mais importante é evitar o contato corporal pele a pele. Além disso, as pessoas que tiverem as manifestações clínicas da doença devem ficar afastadas durante o período de transmissibilidade, que corresponde ao período em que as lesões estão ativas, diz.

Outra forma de prevenção eficaz é a vacinação da população. O Ministério da Saúde afirma que realizou a aquisição emergencial da vacina para pessoas que vivem com HIV/Aids e que possuem CD4 entre 100 e 200 células, usuários de PrEP e profissionais de saúde que manipulem amostras do vírus.

No entanto, Pinheiro diz que as vacinas têm sido insuficientes. "Temos observado no dia a dia um aumento no número de casos suspeitos e confirmados, inclusive do clado 1b, pouco identificado em circulação no Brasil", afirma.

Falci indica também mudanças comportamentais em relação às parcerias sexuais e o uso de equipamento de proteção por profissionais de saúde em ambientes hospitalares, além da higiene rigorosa do ambiente em que o paciente foi atendido.

O Ministério da Saúde recomenda a adoção de medidas de higiene, como a lavagem frequente das mãos e, em caso de sintomas ou suspeita de contato próximo com casos suspeitos ou confirmados, que se procure uma unidade de saúde para avaliação clínica e isolamento até avaliação médica.

Fonte _ Folha/SP

quarta-feira, 11 de março de 2026

Imunidade inata e adaptativa: entenda como nosso corpo se defende de vírus, bactérias e outros microrganismos

 


O sistema imune é responsável por proteger o organismo contra infecções causadas por patógenos, como vírus, bactérias e fungos, e contra outras moléculas e células estranhas, como as cancerígenas. Repleto de ferramentas complexas, esse sistema é dividido em dois tipos: a imunidade inata e a imunidade adaptativa.

A imunidade inata é aquela que nasce com o indivíduo: trata-se de uma reação primária e não específica do nosso corpo, que acontece imediatamente após o contato com um invasor. Essa resposta envolve diferentes tipos de células, como monócitos, macrófagos, neutrófilos, NK (natural killers) e células dendríticas, que têm um objetivo comum: eliminar moléculas estranhas.

Essas células possuem uma gama de receptores em sua superfície, sendo capazes de reconhecer diversos padrões moleculares estranhos e associados a danos no organismo.

“As células do sistema imune inato têm uma ação imediata de controle, a partir da liberação de uma grande quantidade de citocinas pró-inflamatórias, moléculas que intensificam a resposta inflamatória e ajudam a matar o microrganismo”, explica a pesquisadora do Laboratório de Desenvolvimento de Vacinas do Instituto Butantan, Dunia Rodriguez Soto, que é doutora em Imunologia. 

Além disso, algumas dessas células têm capacidade de ingerir e destruir o patógeno, para depois apresentar seus fragmentos (os antígenos) a outras células de defesa – os famosos linfócitos T e B –, ajudando a desenvolver a chamada memória imunológica.

É nesse momento que entra em cena a imunidade adaptativa: ao serem expostos ao antígeno, os linfócitos aprendem a reconhecê-lo e ficam preparados para combatê-lo de forma rápida e eficaz caso ele apareça novamente. O linfócito T tem a função de destruir as células infectadas, enquanto o linfócito B produz os anticorpos, proteínas que se ligam ao antígeno circulante para destruí-lo.

A imunidade adaptativa é um recurso de defesa mais sofisticado e exclusivo dos vertebrados – peixes, anfíbios, répteis, aves e mamíferos, como os humanos.


E a imunidade adquirida pelas vacinas?

Todas essas etapas acontecem tanto quando temos uma infecção e ficamos doentes, como quando recebemos uma vacina. A diferença é que o imunizante não provoca uma infecção de fato, somente simula o invasor para induzir uma resposta por meio da apresentação de antígenos. Assim, o corpo aprende a reconhecer aquele microrganismo e, quando entra em contato com ele novamente, já tem as armas necessárias para se proteger.

A maioria das vacinas é aplicada no braço, na camada superficial da pele, justamente porque esse local concentra muitas células do sistema imune inato, capazes de reconhecer vários tipos de antígenos. As mucosas em geral, como a boca e o nariz, também possuem grande quantidade dessas células – afinal, essas regiões são a porta de entrada dos microrganismos e precisam de uma camada extra de proteção. Por isso, também existem imunizantes de aplicação oral, como a famosa gotinha contra poliomielite (paralisia infantil).

A administração de vacinas por via oral é mais desafiadora, pois o antígeno encontra muitas barreiras que podem destruí-lo antes que ele seja absorvido, como a acidez do estômago. No entanto, existem tecnologias, como nanopartículas, que ajudam a “encapsular” e proteger o antígeno da vacina para que ele conclua seu objetivo.

Recentemente, alguns imunizantes de aplicação intranasal também têm sido desenvolvidos, como uma vacina contra Covid-19 aprovada na Índia em 2023.

Mantenha sua carteira de vacinação em dia

Todos os anos, a vacinação previne de 3,5 milhões a 5 milhões de mortes no mundo todo por doenças como difteria, tétano, coqueluche, gripe e sarampo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Outras enfermidades graves, como a varíola, só foram erradicadas graças à imunização. 

As vacinas são as maiores aliadas do nosso sistema imune, e mantê-las atualizadas é a melhor forma de se proteger contra doenças graves. Fique atento ao calendário nacional de imunização do Ministério da Saúde e veja quais são os imunizantes indicados para cada faixa etária.

Fonte _ Butantan

terça-feira, 10 de março de 2026

InfoGripe: número de casos de SRAG volta a aumentar em quase todo o país

 


Uma nova edição do Boletim InfoGripe da Fiocruz, divulgada nesta sexta-feira (6/3), aponta aumento do número de casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) em todo o país. A análise destaca que este cenário vem sendo impulsionado principalmente pelo aumento do número de hospitalizações por rinovírus em crianças e adolescentes de 2 a 14 anos, pelo vírus sincicial respiratório (VSR) nas crianças menores de 2 anos e por influenza A na população de jovens, adultos e idosos. A análise é referente à Semana Epidemiológica 8, período de 22 a 28 de fevereiro.

Com exceção de Roraima, Tocantins, Espírito Santo e Rio Grande do Sul, todas as unidades da Federação (UF) sinalizam crescimento no número de casos de SRAG na tendência de longo prazo (últimas seis semanas) até a Semana 8. Entre elas, dez estão com nível de atividade de SRAG em alerta, risco ou alto risco (últimas duas semanas) até a Semana 8: Acre, Amazonas, Pará, Amapá, Rondônia, Mato Grosso, Goiás, Distrito Federal, Maranhão e Sergipe.

Na maioria desses estados, exceto Acre, Pará, Amapá e Maranhão, verifica-se aumento de SRAG nas crianças e adolescentes, causado principalmente pelo rinovírus. Em alguns estados do Norte (Acre, Amazonas e Pará), Centro-Oeste (Mato Grosso e Goiás), e em Sergipe, também há início ou manutenção do aumento dos casos de SRAG nas crianças de até 2 anos, associado ao VSR. A influenza A também tem incrementado o aumento de casos de SRAG no Pará, Amapá, Mato Grosso e Maranhão, em geral na população de jovens, adultos e idosos.

“O aumento de casos de SRAG em crianças e adolescentes muito provavelmente está relacionado ao retorno às aulas. Portanto, recomendamos que, caso a criança ou adolescente apresente algum sintoma de gripe ou resfriado, que os pais evitem levá-la à escola, para evitar a transmissão do vírus para outras crianças. Se não for possível deixar a criança ou adolescente em casa, o ideal é que ela use uma boa máscara, especialmente dentro da sala de aula”, reforça a pesquisadora Tatiana Portella, do Boletim InfoGripe, desenvolvido pelo Programa de Computação Científica da Fiocruz.


Capitais

InfoGripe sinaliza que 12 das 27 capitais apresentam nível de atividade de SRAG em alerta, risco ou alto risco (últimas duas semanas) com sinal de crescimento na tendência de longo prazo (últimas 6 semanas) até a Semana 8. São elas Aracaju (SE), Belém (PA), Belo Horizonte (MG), Brasília (DF), Cuiabá (MT), Fortaleza (CE), João Pessoa (PB), Macapá (AP), Manaus (AM), Porto Velho (RO), Rio Branco (AC) e São Luís (MA).

Dados epidemiológicos

O quadro nacional é de aumento de ocorrência de SRAG nas tendências de longo prazo (últimas seis semanas) e de curto prazo (últimas três semanas). Em 2026 já foram notificados 14.370 casos de SRAG, sendo 5.029 (35%) com resultado laboratorial positivo para algum vírus respiratório, 6.193 (43,1%) negativos e ao menos 2.073 (14,4%) aguardando resultado laboratorial.

Quanto aos casos positivos do ano deste ano, observou-se 20% de influenza A, 1,7% de influenza B, 13,6% de vírus sincicial respiratório, 40% de rinovírus, e 17% de Sars-CoV-2. Nas quatro últimas semanas epidemiológicas, a prevalência entre os casos positivos foi de 20,8% de influenza A, 1,6% de influenza B, 15,4% de vírus sincicial respiratório, 45,4% de rinovírus, e 14,3% de Sars-CoV-2.

Incidência e mortalidade

A incidência e a mortalidade semanais médias, nas últimas oito semanas epidemiológicas, mantêm o padrão característico de maior impacto nos extremos das faixas etárias analisadas. A incidência de SRAG é mais elevada entre as crianças pequenas, enquanto a mortalidade se concentra principalmente nos idosos.

Prevalência

O Boletim chama atenção também que nas quatro últimas semanas epidemiológicas, a prevalência entre os casos positivos de SRAG foi maior pelo rinovírus (45,4%). A seguir estão as ocorrências por influenza A (20,8%), vírus sincicial respiratório (15,4%) e Sars-CoV-2 (Covid-19) (14,3%).

Óbitos

Entre os óbitos, o estudo mostra que as maiores ocorrências são por Covid-19, seguida pela influenza A. A presença destes mesmos vírus entre os positivos e no mesmo recorte temporal foi de 39,1% de Sars-CoV-2 (Covid-19), 27,5% de influenza A, 17,4% de rinovírus, 8,7% de vírus sincicial respiratório e 3,6% de influenza B.

Boletim InfoGripe é uma estratégia do Sistema Único de Saúde (SUS) voltada ao monitoramento de casos de SRAG no país. A iniciativa oferece suporte às vigilâncias em saúde na identificação de locais prioritários para ações, preparações e resposta a eventos em saúde pública.

Fonte _ FioCruz

quinta-feira, 5 de março de 2026

Vacina da dengue do Butantan mantém 80,5% de eficácia contra casos graves e com sinais de alerta após cinco anos

 


Os resultados do ensaio clínico de fase 3 da vacina tetravalente Butantan-DV, produzida pelo Instituto Butantan, revelaram uma eficácia de 80,5% contra casos de dengue grave e dengue com sinais de alarme (desfecho combinado) ao longo de cinco anos. O estudo, publicado na prestigiada revista científica Nature Medicine, acompanhou quase 17 mil pessoas no Brasil e confirmou que a proteção se mantém sólida em longo prazo. 

O ensaio clínico foi conduzido em 16 centros de pesquisa distribuídos pelas cinco regiões do Brasil. Entre fevereiro de 2016 e julho de 2019, foram recrutados 16.235 participantes com idades entre dois e 59 anos. Do total, 10.259 receberam a dose única da vacina e 5.976 receberam placebo.

Além da alta proteção contra quadros severos, o estudo demonstrou que a Butantan-DV protegeu contra hospitalizações por dengue, já que não houve nenhum registro de internação no grupo vacinado, contra oito casos no grupo placebo. 

No que diz respeito à eficácia geral para prevenir a dengue sintomática (causada por qualquer sorotipo), o imunizante atingiu a marca de 65% durante os cinco anos de monitoramento.

“Os dados publicados recentemente na Nature confirmam a eficácia da Butantan-DV contra casos de dengue sintomática e, principalmente, contra casos de dengue grave e com sinais de alarme. Esta vacina se consolida como uma ferramenta de grande importância no combate à dengue no Brasil, com potencial para contribuir para diminuição da circulação do vírus, para além da proteção individual”, afirma a diretora médica de Ensaios Clínicos do Butantan, Fernanda Boulos.

A vacina Butantan-DV foi aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em 26/11/2025, para ser utilizada pela população brasileira de 12 a 59 anos. Desde então, o Instituto Butantan já enviou 1,3 milhão de doses para o Programa Nacional de Imunizações (PNI), que as distribui ao Sistema Único de Saúde (SUS).

O Ministério da Saúde começou a vacinação em janeiro deste ano em Nova Lima (MG), Maranguape (CE) e Botucatu (SP), por meio de um projeto piloto que visa imunizar 90% do público-alvo destas cidades. Em 9 de fevereiro, deu início à vacinação de profissionais de saúde da Atenção Básica em evento realizado no Instituto Butantan.

Perfil de segurança

vacina demonstrou um perfil de segurança sólido em todas as idades. Não foram observadas preocupações de segurança a longo prazo mesmo no grupo mais jovem (2 a 6 anos), o que diferencia a Butantan-DV de outras tecnologias.

Após a aplicação da vacina, a maioria dos eventos adversos registrados entre os participantes foram de intensidade leve a moderada, como dor de cabeça (36,7%), fadiga (19,4%), erupção na pele (22,7%), dor muscular (17,7%) e prurido (19,3%).

Um ponto fundamental destacado no estudo é a segurança da Butantan-DV para quem nunca contraiu dengue. Ao contrário de outras vacinas licenciadas, que apresentaram um aumento no risco de hospitalização ou dengue grave em crianças que nunca tinham tido contato com o vírus, a Butantan-DV não apresentou preocupações de segurança nem desequilíbrio de casos graves entre os participantes soronegativos durante os cinco anos de monitoramento.

Não houve registro de nenhum caso de dengue grave entre os participantes que receberam a vacina Butantan-DV durante os cinco anos de acompanhamento, e apenas seis casos de dengue com sinais de alarme. Esta proteção total contra a forma mais severa da doença reflete a alta eficácia do imunizante para evitar complicações críticas.

Eficácia por sorotipo e histórico de exposição

A vacina Butantan-DV demonstrou ser eficaz independentemente de a pessoa já ter tido dengue ou não antes da vacinação. Para quem já havia sido exposto ao vírus (soropositivo), a eficácia contra qualquer sorotipo foi de 77,1%, enquanto para aqueles sem exposição prévia (soronegativo), o índice foi de 58,9%. Essa diferença se deve à forma como o sistema imunológico reage ao imunizante após uma exposição prévia ao vírus.

Em relação aos sorotipos específicos, para DENV-1 a eficácia foi de 79,4% para quem já teve dengue e 71,4% para quem nunca tevepara o DENV-2, a eficácia de 75,2% para os soropositivos e 36,7% para os soronegativos. 

Apesar de a estimativa pontual para o DENV-2 em indivíduos sem exposição prévia ser numericamente inferior, os pesquisadores destacam que ela permaneceu positiva em todos os grupos. Além disso, a vacina atingiu os objetivos primários (dado geral) e secundários (doença grave) de eficácia, independentemente do histórico de cada voluntário com a dengue.

Como durante o período da pesquisa, os sorotipos DENV-3 e DENV-4 não circularam de forma significativa no Brasil, não foi possível medir estatisticamente a eficácia contra eles. No entanto, o estudo ressalta que a vacina contém componentes quase completos desses sorotipos e induz anticorpos neutralizantes específicos, o que deve garantir proteção contra as quatro cepas do vírus. 


Eficácia de diferentes faixas etárias 

A eficácia da Butantan-DV variou entre as faixas etárias, apresentando uma tendência de maior proteção conforme aumentava a idade dos participantes. Ainda assim, as estimativas permaneceram positivas em todas as idades após cinco anos de acompanhamento.

A eficácia contra a dengue sintomática (causada por qualquer sorotipo) em adultos de 18 a 59 anos foi de 74,8%; em adolescentes de 7 a 17 anos, de 69,5%; e em crianças de dois a 6 anos, de 60,6%.

Essa variação está relacionada ao perfil imunológico de cada grupo. O estudo mostra que a proporção de pessoas que nunca tiveram dengue (soronegativas) diminui drasticamente com o passar da idade. Isto é, enquanto 80,7% das crianças de 2 a 6 anos eram soronegativas no início do estudo, esse número caía para 36% entre adolescentes e para apenas 26,8% entre os adultos. 

Como a eficácia da vacina tende a ser maior em indivíduos que já tiveram exposição prévia ao vírus, os grupos mais velhos acabam apresentando índices de proteção mais elevados.

Eficácia a longo prazo

Ao final dos cinco anos de acompanhamento, a eficácia geral da vacina contra a dengue sintomática (causada por qualquer sorotipo) consolidou-se em 65,0%. Isso indica que a proteção se manteve sólida e dentro da margem esperada, não representando queda drástica na imunidade.

A vacina atingiu todos os objetivos primários e secundários de eficácia estabelecidos no protocolo, confirmando sua capacidade de proteção em longo prazo.

“Os dados de seguimento de longo prazo confirmam que a eficácia gerada pela vacinação em dose única foi duradoura e que o perfil de segurança da vacina é positivo em todos os grupos avaliados. Esta avaliação solidifica a robustez nos dados de segurança, confirmando que a Butantan-DV pode ser utilizada em pessoas sem exposição prévia à dengue”, ressalta Fernanda Boulos.


Sobre a Butantan-DV

A vacina da dengue do Instituto Butantan protege contra os diferentes tipos de vírus da dengue por meio de sua composição tetravalente, o que significa que ela contém componentes específicos para combater os quatro sorotipos conhecidos: DENV-1, DENV-2, DENV-3 e DENV-4.

O imunizante utiliza vírus vivos, mas "enfraquecidos" (atenuados) em laboratório, para que não causem a doença enquanto são capazes de estimular uma resposta imune. As cepas utilizadas são baseadas em uma tecnologia originalmente desenvolvida pelos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos (NIH, na sigla em inglês).

Para os sorotipos DENV-1, DENV-3 e DENV-4, a vacina utiliza genomas quase completos dos respectivos vírus. Já para o DENV-2, a proteção é construída utilizando-se de vírus quimérico, que consiste nas proteínas de superfície do DENV-2 montadas sobre a estrutura ("esqueleto") atenuada do vírus DENV-4.

Uma vez aplicada, a vacina gera uma viremia vacinal, que é a replicação controlada desses vírus atenuados no corpo. Isso induz o sistema imunológico a produzir anticorpos neutralizantes específicos para cada um dos quatro sorotipos. O objetivo é criar uma imunidade específica para cada um deles, para que o organismo reconheça e neutralize as variantes de forma individualizada.

A vantagem da dose única 

Um dos grandes diferenciais da vacina Butantan-DV é o seu esquema de dose única, o que facilita a logística de vacinação, melhora a adesão da população e promove uma cobertura vacinal mais rápida. 

A razão pela qual apenas uma dose é necessária reside na alta capacidade de replicação inicial do vírus vacinal, que induz uma resposta imune suficiente para prevenir a replicação de doses subsequentes. 

Estudos demonstraram que uma segunda dose não produzia nova viremia vacinal nem reforçava a resposta de anticorpos, o que indica que a primeira dose já atinge o patamar de proteção necessário. Esta é uma característica comum em outras vacinas de vírus vivos atenuados que apresentam sucesso em dose única.

Diferentemente de vacinas que exigem duas ou três doses, a tecnologia do Butantan permite que a proteção contra a dengue sintomática e casos graves seja estabelecida com apenas uma aplicação, independentemente de a pessoa já ter tido a doença anteriormente. 

O ensaio clínico de fase 3 da Butantan-DV contou com financiamento do Ministério da Saúde, do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e da Fundação Butantan.

Fonte _ Butantan

quarta-feira, 4 de março de 2026

O que é gripe K e por que devemos tomar a vacina Influenza todo ano; especialista do Butantan explica

 


O aumento global no número de casos de influenza sazonal (que predomina nos meses de inverno) tem chamado a atenção de autoridades sanitárias nos últimos meses. Identificada como gripe K, a variante por trás desse crescimento é um subclado do vírus influenza A (H3N2) – portanto, não se trata de uma nova doença, mas de uma variação genética de um patógeno já conhecido. Desde meados de 2025, ela vem circulando em países da Europa, Ásia e América do Norte, e foi identificada no Brasil no final do ano passado.

Por ter apresentado um aumento repentino a partir de agosto de 2025, a variante da gripe K não faz parte da composição das vacinas de gripe que serão oferecidas à população no inverno de 2026. 

Isso se deve à data na qual os imunizantes começam a ser produzidos. Todos os anos, a vacina da gripe é atualizada com as cepas do vírus influenza mais circulantes no período anterior, conforme o acompanhamento da Organização Mundial da Saúde (OMS). Em 2025, a instituição divulgou a composição das vacinas trivalentes e tetravalentes em meados de setembro – quando a gripe K ainda não tinha se consolidado como um ponto de atenção.

Ainda assim, as vacinas de influenza que estão sendo aplicadas atualmente, tanto na rede pública quanto na rede privada, contribuem, sim, para proteger contra a variante K. Em dezembro, a OMS emitiu um alerta sobre a gripe K afirmando que mesmo os imunizantes que não puderam ser atualizados com a nova variante continuam fornecendo proteção contra formas graves da doença e hospitalização.

Vale lembrar que a versão de 2026 da vacina da gripe do Instituto Butantan, que é fornecida gratuitamente à população por meio do Programa Nacional de Imunizações, inclui uma cepa de influenza A (H3N2), de onde veio a variante K, além de uma cepa de influenza A (H1N1) e de influenza B (linhagem Victoria).

Segundo o pesquisador científico e gerente de Desenvolvimento e Inovação de Produtos do Butantan, Paulo Lee Ho, tomar a vacina da gripe todos os anos é fundamental para manter a imunidade e prevenir casos graves, especialmente em crianças pequenas e idosos, que são os grupos mais suscetíveis a complicações.

“É extremamente importante que as pessoas tomem a vacina Influenza atualizada durante a campanha de vacinação, que ocorre antes do período de maior circulação do vírus. As evidências mostram que pessoas vacinadas que se infectaram com a cepa K ficaram protegidas contra os sintomas graves da doença”, afirma.

O especialista explica, ainda, que é comum haver aumento de infecções diante da circulação de uma nova cepa, e que uma alta cobertura vacinal é a melhor forma de reduzir transmissões e evitar que a variante se espalhe pelo país.

Como surgiu a gripe K

A variante K (também chamada de J.2.4.1) é originada do subclado J.2 do H3N2. Ela possui sete mutações em seu material genético e, por esse motivo, tornou-se capaz de “escapar” da resposta imune, ocasionando um maior número de infecções. 

As mutações dos vírus influenza podem acontecer de duas maneiras: quando duas cepas infectam o mesmo hospedeiro e o material genético dos dois vírus “se mistura”, ou de forma espontânea, por meio da evolução natural do patógeno – este último é o caso da variante K. “A cepa K foi selecionada naturalmente; ela foi ‘escapando’ do sistema imune com a aquisição de cada uma dessas mutações”, diz Paulo Lee Ho.

A OMS destaca que, embora o subclado K represente “uma evolução notável” do vírus H3N2, os dados epidemiológicos não indicam que ele provoque um aumento na gravidade da doença.

Há risco de pandemia?

O cientista do Butantan esclarece que as cepas com potencial pandêmico costumam ser geradas por meio de rearranjos do material genético entre diferentes patógenos durante uma coinfecção – o que não é o caso do subclado K, que evoluiu naturalmente.

“A literatura mostra que, para chegar a uma cepa pandêmica, com elevado potencial de transmissão, é necessário haver mudanças genéticas muito mais profundas”, diz Paulo.

A pandemia de H1N1 que ocorreu em 2009, por exemplo, foi fruto de múltiplos eventos de rearranjo genético, que reuniram segmentos genômicos do vírus da influenza suína H1N1 clássico, do vírus da influenza sazonal humana H3N2, do vírus da influenza aviária norte-americana e de um vírus da influenza suína de origem aviária eurasiática, segundo artigo publicado na Nature.


Por que os vírus influenza sofrem tantas mutações?

A frequência de modificações nos vírus da gripe é resultado da própria biologia do patógeno. Os influenza são vírus de RNA capazes de duplicar o seu material genético, mas não de corrigi-lo. 

“Isso significa que, quando o vírus se replica, se um nucleotídeo é posicionado da forma errada, diferente da fita de RNA original, ele não é corrigido, gerando assim uma mutação no material genético”, resume Paulo Lee Ho.

Vacina da gripe agora está disponível o ano todo

Em abril de 2025, a vacina Influenza foi inserida no Calendário Nacional de Vacinação de rotina para crianças de 6 meses a menores de 6 anos, gestantes e pessoas com 60 anos ou mais. Assim, o imunizante está disponível ao longo de todo o ano para esses públicos nos postos de saúde, não apenas durante a campanha sazonal.

Os demais grupos prioritários, como profissionais da saúde, professores, integrantes das forças de segurança, população privada de liberdade e pessoas com doenças crônicas ou deficiências, continuarão recebendo a vacina anualmente durante as campanhas sazonais e em estratégias especiais. 

A Campanha Nacional de Vacinação contra a Gripe de 2026 deve ocorrer entre os meses de Outubro e Dezembro na Região Norte.

Fonte _ Butantan