O
acesso a métodos contraceptivos ainda é limitado em regiões onde o deslocamento
até a cidade pode levar até dias. No Riozinho do Rola, zona rural a 120 km
de Rio
Branco, essa realidade começa a mudar com a oferta gratuita pelo SUS (Sistema Único de
Saúde) de um implante subdérmico de longa duração.
Pela
primeira vez, mulheres ribeirinhas no Acre tiveram
acesso ao Implanon durante uma ação do programa Saúde Rural
Itinerante Fluvial. O projeto percorre rios e igarapés levando atendimento
básico às comunidades mais distantes. O dispositivo está disponível para
pacientes a partir dos 14 anos.
Em
quase 30 dias de ação, 129 mulheres, entre ribeirinhas, extrativistas,
agricultoras e donas de casa, passaram a contar com o implante, ampliando o
acesso ao planejamento
reprodutivo em áreas onde esse direito é historicamente limitado.
Deste total, 27 eram adolescentes.
A
maior parte dos implantes subdérmicos foi fornecida pelo Ministério
da Saúde. Para a faixa etária de 14 a 19 anos, um Implanon específico
foi ofertado pela Secretaria de Estado da Saúde. A Prefeitura de Rio Branco
disponibilizou barcos e os profissionais de saúde.
Na
capital acreana, desde novembro de 2025, já foram inseridos 1.760 dispositivos.
Para
muitas mulheres, especialmente aquelas que não conseguem manter o uso regular
de pílulas, injeções ou outras formas contraceptivas, o implante surge como uma
alternativa.
Moradora
da comunidade Barro Alto, Flávia Queiroz Leite, 29, decidiu aderir ao método
após enfrentar dificuldades com outros contraceptivos.
"Já
usei a pílula, me adaptei bem. Decidi usar o Implanon porque além de mais
prático pelo fato de não esquecer de tomar, ele é o método mais seguro que
tem", afirma. "E também é muito bom a durabilidade dele, sem contar
que é uma economia não gastar comprando a pílula anticoncepcional."
Para
Sheila Coelho Amorim, 40, o implante representa uma mudança após anos lidando
com limitações de outros métodos. Moradora da comunidade União Floresta, ela
percorreu cerca de 26 km para participar da ação.
"Eu,
há muitos anos, usei pílula. Tem mais de 15 anos que eu deixei de tomar. Só
usava preservativo, e engravidei usando preservativo", conta. "Eu
deixei de usar pílula porque não me dou com pílula, ficava tonta. Agora que eu
estou com o Implanon me sinto mais segura".
O implante é considerado uma alternativa eficaz para regiões remotas. Com duração de até três anos e eficácia superior a 99%, o método dispensa uso contínuo ou visitas frequentes a unidades de saúde, um desafio para quem vive longe dos centros urbanos.
Segundo
o secretário de Saúde de Rio Branco, Rennan Biths, a iniciativa busca adaptar a
política pública à realidade local.
"Tem
essa vantagem também da economia, da praticidade e da biodisponibilidade, que é
um método que vai ficar ali na região subcutânea sendo liberado automaticamente
no organismo dela por três anos", diz Biths. "Outra vantagem é a
segurança da inserção, uma segurança de que vai ser um método efetivo, eficaz,
e ela consegue ficar tranquila".
O
acesso a métodos contraceptivos também busca diminuir os casos de gravidez
não planejada, especialmente na adolescência. No Acre, quase 20% dos
nascidos vivos em 2024 foram de mães adolescentes, segundo dados do Sistema de
Informações sobre Nascidos Vivos (Sinasc), do Ministério da Saúde.
As
comunidades do Riozinho do Rola reúnem cerca de 7.000 moradores, entre
ribeirinhos, extrativistas e agricultores familiares. O acesso depende, em
grande parte, das cheias e vazantes dos rios, o que dificulta a oferta contínua
de serviços públicos.
A
chegada do implante nessas regiões indica um esforço de adaptação das políticas
de saúde às condições locais. Ao reduzir a necessidade de acompanhamento
frequente, o método amplia as possibilidades de acesso ao planejamento
reprodutivo em áreas onde a assistência básica de saúde ainda é precária.
Fonte _ Folha/SP


Nenhum comentário:
Postar um comentário