domingo, 1 de novembro de 2026
Número de brasileiros com obesidade atendidos na rede básica do SUS aumenta 259% em dez anos
O
número de brasileiros com obesidade
monitorados pelo Sisvan (Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional), do Ministério
da Saúde, passou de 3,09 milhões em 2016 para 11,12 milhões neste ano
—mais de um terço (36%) de todo o público adulto acompanhado no sistema. A alta
no período foi de 259%.
O
Sisvan reúne informações sobre o estado nutricional da população atendida na Atenção
Primária à Saúde no SUS
(Sistema Único de Saúde).
No
mesmo período, os indicadores de sobrepeso
saltaram de cerca de 4,19 milhões para 10,76 milhões —elevação de 156,8%.
Juntas,
as duas condições somam 21,88 milhões de indivíduos. O dado revela que 71,5%
dos adultos assistidos pelo Sisvan estão acima do peso adequado.
O
excesso de peso abrange os dois níveis: sobrepeso e obesidade. É considerada
com sobrepeso uma pessoa que tenha IMC (índice
de massa corporal) de 25 a 29,9; na obesidade, considerada doença
crônica inflamatória e multifatorial, o índice é igual ou superior a
30. O indicador é calculado dividindo o peso dividido pelo quadrado da altura.
O
endocrinologista Bruno
Halpern, presidente da Federação Mundial da Obesidade e vice-presidente
da Abeso (Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome
Metabólica), diz que os gargalos da assistência à condição
no SUS vão desde a escassez de medicamentos até a falta de capacitação
profissional.
De
acordo com o médico, a rede pública carece de um protocolo de tratamento
clínico unificado e abrangente para os quadros agudos de excesso de peso. Como
a cirurgia
bariátrica é indicada apenas para casos de obesidade grave, a maior
parte da população afetada fica sem amparo. Além disso, o acesso ao
procedimento é desigual e marcado por filas de espera, que variam em tempo e
tamanho conforme a região do país.
Brasil
precisa debater com farmacêuticas formas de baratear canetas emagrecedoras, diz
Bruno Halpern
Quais
cuidados é preciso ter com a saúde após o emagrecimento com cirurgia bariátrica
HC
de Ribeirão Preto afasta médico que expôs prontuário e debochou de paciente nas
redes sociais
Segundo
Halpern, mesmo para os pacientes que conseguem fazer a cirurgia, o suporte
pós-operatório é deficiente, com destaque para a ausência de fornecimento
regular de suplementos polivitamínicos essenciais.
"Não
há linhas de cuidado bem trabalhadas", afirma o endocrinologista,
acrescentando que há algumas ilhas de excelência na abordagem da mudança
de estilo de vida no SUS, mas nada
estrutural. "E os profissionais
de saúde têm pouca educação em obesidade."
A
obesidade é associada a mais de 240 doenças, entre elas diferentes tipos de
câncer e danos cardiológicos, e redução de expectativa de vida.
A
capacidade dos sistemas de saúde de oferecer prevenção, acompanhamento e
tratamento adequado à população foi um dos temas abordados durante o XVI
Congresso Latino-Americano de Obesidade, realizado entre 28 e 31 de outubro, em
Salvador.
Em
24 das 27 unidades federativas, o total de adultos
com obesidade em atendimento na atenção
básica já supera o de pessoas com o peso considerado adequado. Em 18
estados brasileiros, pelo menos 70% dos assistidos pelo sistema apresentam excesso
de peso (sobrepeso
ou obesidade).
O
Rio Grande do Sul lidera os índices nacionais: 42,6% dos acompanhados
apresentam obesidade
e 75,9%, excesso
de peso.
São
Paulo e Rio
de Janeiro têm, respectivamente, 40,5% (1,74 milhão) e 40,1% (759,2
mil) de pessoas com
obesidade em atendimento. Minas Gerais contabiliza 1,16 milhão (34,6%),
e a Bahia,
735,3 mil (31,9%).
Quando
analisada a taxa geral de excesso de peso em 2026, as marcas mais altas nos
registros do Sisvan ficam com o Rio
Grande do Norte (75,5%), Amapá
(74,5%) e São Paulo (74,3%).
Os
números estaduais refletem a tendência nacional: em dez anos, a taxa nacional
de obesidade escalou de 25,1% em 2016 para os atuais 36,4%. Esta é a primeira
vez que os registros de obesidade (11,12 milhões) superaram os de sobrepeso
(10,76 milhões).
"Sabemos
que a obesidade cresce e continuará subindo no Brasil. O que tentaremos fazer é
que essa curva seja menos pronunciada", diz o especialista.
Para
combater a obesidade são necessárias ações simultâneas de prevenção e de
tratamento, explica Bruno Halpern. A primeira frente envolve políticas públicas
como incentivar o consumo de alimentos naturais e desestimular o de ultraprocessados.
A segunda exige redes de cuidado efetivas para garantir qualidade
de vida a quem já vive com a doença.
A
obesidade no mundo
No
congresso realizado em Salvador, Halpern apresentou os dados globais do estudo
MAPPS II (sigla em inglês para Management and Advocacy for Providers, Patients
and Systems), da Federação Mundial da Obesidade.
A
pesquisa avalia as políticas públicas e o tratamento contra a obesidade em
vários países. Os resultados revelam que os governos dão pouco apoio financeiro
ao setor, com notas entre 1 e 3 em uma escala até 10.
Segundo
o especialista, a falta de verba obriga os pacientes a pagarem pelo próprio
tratamento, o que exclui as populações de baixa
renda, sobretudo em nações em desenvolvimento.
O
levantamento também apontou outras barreiras para o controle da doença. Entre
elas estão falta de equipes multidisciplinares e de integração entre os ministérios
da Saúde, Educação e Economia; precariedade dos serviços públicos; e
preconceito e estigma contra o excesso de peso, inclusive por parte dos profissionais
de saúde.
Os
resultados globais do MAPPS II serão publicados em 4 de março de 2027, Dia
Mundial da Obesidade.
A federação também lancará um relatório específico sobre o Brasil ao longo do
próximo ano.
Fonte _ Folha/SP
Diabetes do doador não reduz sucesso de transplante de rim, diz estudo da Unifesp
O
fato de um doador de
órgãos ter tido diabetes
em vida não significa que o desempenho dos seus rins será inferior após transplante
no paciente que irá recebê-los.
É o
que conclui o estudo da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) Five-Year
Outcomes and Clinicopathological Correlations of Kidney Transplants From
Deceased Donors With Diabetes, publicado na revista científica Clinical
Transplantation.
Os
pesquisadores avaliaram os resultados de 3.058 adultos com 18 anos ou mais, do
Hospital do Rim, em São Paulo.
A análise acompanhou transplantes realizados entre janeiro de 2013 e dezembro
de 2017.
Do
total de pacientes, 244 receberam órgãos de doadores com
diabetes e com KDPI (Kidney Donor Profile Index, ou Índice de Perfil de
Doadores de Rins) superior ao daqueles sem a doença.
O
KDPI é um sistema de pontuação em percentuais que avalia a qualidade e estima a
longevidade
de um rim de doador
morto.
Para
garantir uma comparação adequada e sem distorções nos resultados, cada doador
com diabetes
foi pareado com dois sem a condição, mas com características de saúde
semelhantes. O estudo acompanhou o desempenho do rim transplantado por até
cinco anos após a cirurgia.
Segundo
Lúcio Roberto Requião Moura, professor adjunto da disciplina de Nefrologia da
EPM/Unifesp e coautor da pesquisa, inicialmente, foram identificados resultados
inferiores de função renal no grupo que recebia rins de doadores com diabetes.
Entretanto,
o estudo revelou que o perfil clínico dos doadores era mais complexo —em média,
dez anos mais velho, com o dobro de incidência de hipertensão
arterial e histórico de morte
por AVC (acidente vascular cerebral).
Para
isolar o impacto do diabetes e impedir a interferência de outras variáveis, foi
utilizado o pareamento por escore de propensão (propensity score matching). A
metodologia estatística comparou os grupos como se os indivíduos tivessem
idade, níveis de pressão
arterial e causa da morte iguais —o diabetes era a única diferença.
A
função renal ao final de cinco anos foi equivalente entre os receptores de rins
de doadores com e sem a doença.
"O
estudo tem duas grandes mensagens: quando você inclui no processo de decisão
sobre doadores falecidos que têm potencialmente uma contraindicação para ser
doador a biópsia renal, desperdiça menos órgãos, aproveita mais órgãos que sem
a biópsia você desperdiçaria. A outra coisa é que não pode olhar uma
característica isoladamente, mas o conjunto todo", diz o professor.
Transplante
renal pareado amplia opção para pacientes que têm doador, mas não podem receber
o rim
'Perdi
1.800 órgãos até conseguir fazer um transplante de rim', diz paciente
Como
ser doador de órgãos em vida ou após a morte? Entenda
Brasil
tem 66,5 mil pessoas à espera de transplantes de órgãos, diz relatório
Decisão
da família é soberana na hora de doar órgãos, mesmo que o paciente tenha
deixado a vontade registrada
Custo
de transplantes para o SUS envolve transporte dos órgãos, internações e
cirurgias
Como
é o protocolo
O
diabetes não é um critério de exclusão para a doação de rim de falecido, desde
que a pessoa não tenha apresentado insuficiência
renal crônica antes da morte
encefálica.
A
equipe médica avaliará o tempo de evolução da doença, o histórico clínico, além
de realizar biópsias ou exames físicos detalhados no órgão para descartar
nefropatia diabética grave ou danos macroscópicos severos. Em vida, para a
segurança do doador, a doença é uma contraindicação para o procedimento.
"Doadores
com diabetes tendem a ser menos aceitos considerando que a condição é a
principal causa de doença
renal. Há a percepção de que o desfecho do paciente, se receber um rim
com diabetes seria pior. Na verdade, a comparação a ser feita é receber
um rim com diabetes ou continuar em diálise?
Alguns estudos avaliam que é melhor do que o paciente permanecer em diálise",
afirma o pesquisador.
Vale
esclarecer que o sistema eletrônico apenas direciona e envia o rim disponível.
A decisão de aceitar ou recusar um órgão com riscos pertence à equipe do centro
transplantador.
Para
o professor e pesquisador Lúcio Roberto Requião Moura, não há o que mudar no
SNT (Sistema Nacional de Transplantes). Desde 2010, ele prioriza a
compatibilidade genética como o principal pilar biológico de desempate.
"A
legislação foi revisada no ano passado. O sistema de alocação está sendo
planejado para colocar as regras de distribuição em vigência. Deve começar em
fevereiro do próximo ano. Além da compatibilidade genética, também ganhou peso
um valor que eu classifico como social: o tempo em fila de espera.
Pessoas com mais tempo na lista de espera terão maior probabilidade de
transplantar", explica.
"O
sistema de transplante brasileiro é uma das políticas públicas mais
bem-sucedidas. É justo, transparente e correto. As regras são baseadas em
evidências científicas. O Brasil tem o maior programa público de transplante do
mundo. Os serviços estão preparados para transplantar doadores que não são
considerados ideais, mas podem ser aproveitados e garantir um resultado clínico
melhor do que a diálise".
Fonte _ Folha/SP


