Um
surto de 15 casos de meningite
meningocócica (bacteriana), declarado na Inglaterra causou
a morte de dois jovens, anunciou nesta terça-feira (17) o ministro
da Saúde britânico,
Wes Streeting. Trata-se de uma infecção que se instala quando uma bactéria
ataca as meninges, três membranas que envolvem e protegem o encéfalo, a medula
espinhal e outras partes do sistema nervoso central. A transmissão é por via
respiratória.
Desses
15 casos, quatro, incluindo as duas mortes, foram infecções meningocócicas
"do grupo B", raras, mas muito graves.
Os
dois mortos são uma aluna do último ano do ensino médio, de 18 anos, da Queen
Elizabeth's Grammar School em Faversham, e um estudante de 21 anos da
Universidade de Kent. Saiba mais sobre a doença a seguir.
Desde então, dados do Google Trends mostram que o interesse por meningite no Reino Unido atingiu, em março, o maior nível já registrado. Parte relevante das buscas está relacionada à vacina contra a doença.
O
que é e quais são os sintomas?
Meningite
é uma doença
grave que atinge as meninges, a camada que protege todo o cérebro,
afirma Rosana Richtmann, infectologista do Instituto de Infectologia Emílio
Ribas. A inflamação pode gerar dor de cabeça, febre, vômitos e até convulsão.
"O
que assusta muito na meningite
meningocócica é a rápida evolução entre o início dos sintomas e o
paciente estar em coma grave e morrer. Estamos falando de 24 ou 48 horas",
afirma.
O
período de incubação é curto. Após contato com a bactéria, com dois dias é
possível já apresentar sinais no quadro clínico. A transmissão acontece através
de gotículas respiratórias, ou seja, atos de tossir, falar e beijar podem
transmitir a doença. Por isso, adultos jovens e adolescentes são mais propícios
a carregarem a bactéria sem os sintomas, segundo a especialista. "Não é
incomum a gente ver surtos em ambientes fechados, como no caso do Reino Unido",
acrescenta.
Os
sintomas dependem da idade, segundo Renato Kfouri, pediatra infectologista.
Crianças maiores e adolescentes têm febre alta, dor de cabeça e vômito. No
exame, o sintoma clássico é a rigidez na nuca.
Por
que pode levar à morte?
A meningite
meningocócica desencadeia uma resposta inflamatória intensa no
organismo. Quando a bactéria atinge o sistema nervoso central ou a corrente
sanguínea, o corpo reage de forma exagerada, o que pode levar à falência de
órgãos, afirma Alexandre Naime Barbosa, chefe do Departamento de Infectologia
da Unesp.
"No
caso da meningococcemia, ocorre uma espécie de tempestade inflamatória, com
queda da pressão arterial, dificuldade de circulação e comprometimento de
órgãos vitais como rins, pulmões e coração, também chamado de choque
séptico", diz o especialista. No cérebro, o processo pode aumentar a
pressão do crânio, prejudicando funções essenciais.
Como
é o tratamento?
Segundo
Naime, o tratamento é uma emergência e deve começar imediatamente, com
antibióticos na veia. Os mais usados, diz ele, são as cefalosporinas de
terceira geração, como a ceftriaxona, porque agem rápido e cobrem os casos
suspeitos.
Mesmo
assim, o risco de morte no Brasil gira em torno de 20%, diz Richtmann. "Do
ponto de vista de pessoas que entraram em contato com a bactéria, o ideal, e o
Reino Unido está fazendo isso, é logo tirar o estado de carreador de
nasofaringe, ou seja, dar antibiótico para pessoas sem sintomas e que são
candidatos a estarem carregando a bactéria, para tentar evitar que o surto se
dissemine", explica.
No
país britânico, a letalidade é em torno de 10%, acrescenta Kfouri. "Tem a
ver com diagnóstico precoce e instituição de tratamento rápido".
O
que é o subtipo do grupo B, que gerou duas mortes na Inglaterra?
O meningococo é
classificado em diferentes sorogrupos, que são variações da bactéria com
características imunológicas distintas, afirma Naime. O grupo B é um desses
sorogrupos e tem particular relevância porque é uma causa importante de
meningite em vários países, inclusive o Brasil.
"O
desafio histórico é que ele é mais difícil de prevenir com vacinas
tradicionais, porque sua estrutura é semelhante a componentes do próprio
organismo humano, o que dificulta o desenvolvimento de imunizantes", diz.
Apesar
disso, já existem vacinas específicas contra o meningococo B, desenvolvidas com
tecnologias mais modernas.
Existem
vacinas?
Sim.
Diversas bactérias podem causas a doença. No Brasil, a vacina meningocócica C
faz parte do calendário
infantil do SUS (Sistema
Único de Saúde), segundo Naime, com impactos comprovados na redução de casos
graves.
Além
dela, existe a vacina ACWY, que protege contra os quatro sorogrupos e está no
Programa Nacional de Imunizações.
Já a
vacina contra o meningococo B, que cobre o tipo da bactéria que causou as duas
mortes no Reino Unidos, não está disponível no SUS, conforme
Kfouri. A indicação para esses imunizantes pode variar conforme idade, risco e
disponibilidade.
Fonte _ Folha/SP


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