O
bode preto no salão VIP do renascimento psicodélico é um sapo, Incilius
alvarius. Também conhecida como bufo ou veneno do sapo, a
substância 5-MeO-DMT está no centro de uma ancestralidade fabricada para
satisfazer a romantização indígena de medicinas sagradas contra a miséria
espiritual do mundo presente.
Agradeço
ao psicólogo Bruno Ramos Gomes pela indicação do erudito artigo de
Ana Maria Ortiz Bernal, Charles Raison e colaboradores no periódico
Psychedelics. O texto reconstrói o fascinante percurso de transmutação de uma
substância sintetizada em 1936 em prática milenar dos Comcáac de Sonora,
noroeste do México, também conhecido como povo Seri.
Antes
de puxar o fio da meada com Ortiz e Raison, cabe algum contexto sobre
5-MeO-DMT. Embora tenha sido produzida em laboratório por químicos japoneses na
década de 1930, o composto está presente também em glândulas de defesa do
sapo-do-deserto-de-sonora (I. alvarius, antes denominado Bufo
alvarius), como se verificou em 1965.
Esse
alterador da consciência não provoca fortes manifestações visuais, à diferença
de outros psicodélicos clássicos como mescalina, LSD, DMT da ayahuasca ou
psilocibina de cogumelos. Caiu nas graças de psiconautas a partir de 1984, ano
em que Ken Nelson fumou a secreção e escreveu um panfleto sobre a experiência.
O
efeito da substância foi descrito em artigo científico de Wade Davis e Andrew
Weil em 1992. Manifesta-se em segundos e dura cerca de 20 minutos, no que
também diverge dos clássicos, cujas viagens duram de 4 a 10 horas. Uma
descrição da experiência pode ser encontrada num texto de
2024 neste blog que também apresenta uma sessão com cetamina.
Não
foram só psiconautas a se entusiasmar com a transcendência propiciada, pois seu
potencial terapêutico também cativou a atenção de investidores em psicodélicos
para tratar transtornos mentais. Caso da empresa Beckley PsyTech, hoje
AtaiBeckley, que busca patentes e licenças para o tratamento
breve contra depressão.
Por
fim, a 5-MeO-DMT conta com uso tradicional na forma de rapés preparados por
indígenas da América Central e do Sul com sementes de angico (Anadenanthera
peregrina) ou com a seiva da virola (Virola theiodora).
Não há registro etnográfico do consumo cerimonial do veneno do sapo entre povos
tradicionais, embora tenha se espalhado a prática de fumar a "sagrada
medicina do sapo".
O
artigo rastreia essa fábula lucrativa até o ano de 2011, quando uma comunidade
Comcáac cria a Fundação OTA.C ("otac" em sua língua é um termo geral
para sapo, depois erigido em nome próprio como suposto enteógeno ancestral). O
uso da secreção havia sido introduzido para combater o abuso crescente de
metanfetamina por jovens do grupo.
A
lenda do costume ancestral dos Comcáac foi propagada em obras como o livro
"O Sapo da Aurora" (2016), de Octavio Rettig Hinojosa, e o
documentário "OTAC e a Cerimônia da Antiga Medicina Sagrada" (2019),
de Leonardo Bondani. O consumo do veneno do sapo se popularizou, a espécie está
ameaçada em certas regiões e um quilo da secreção pode custar US$ 50 mil no
mercado enteogênico internacional. A OTA.C passou a emitir permissões para
cerimônias "autênticas" por US$ 500.
Ancestralização
é uma coisa, fabricação de ancestralidade é outra. No primeiro caso se encaixa
entre outras a história do povo
Yudja (Juruna) do Xingu, que passou a consumir ayahuasca
recentemente e a contemplou em mitos recondicionados como medicina que teria
sido perdida quando antepassados abandonaram o território ancestral após
dilúvio mítico.
Mesmo
entre povos ayahuasqueiros da selva amazônica haverá aqueles que adquiriram ou
retomaram o uso da bebida em período recente, em sua luta para reconstruir a
própria cultura dizimada pelo genocídio colonial. Assim se reinventam e
sobrevivem as sociedades tradicionais, tudo normal.
No
segundo caso, pode-se alegar desvio ético, com a construção de uma narrativa em
busca de legitimidade para uma atividade comercial, que responde ao anseio de
consumidores abastados por sabedoria indígena para edulcorar suas experiências
psicodélicas. Uma das muitas distorções e apropriações culturais abusivas
engendradas no pujante mercado neoxamânico global.
Fonte _ Folha/SP

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