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sexta-feira, 8 de maio de 2026

Fiocruz obtém patente para tratamento contra malária resistente

 


A Fiocruz obteve a patente de um método de tratamento considerado promissor contra a malária, sobretudo nos casos resistentes aos medicamentos tradicionais. A concessão foi feita pelo escritório norte-americano United States Patent and Trademark Office (USPTO) e pesquisadores da Fiocruz Minas são os responsáveis pela inovação. O método utiliza o composto DAQ, que apresentou ação contra cepas resistentes do Plasmodium falciparum, parasita responsável pelas formas mais graves da doença.

“A recente aprovação da patente do método de tratamento contra parasitos da malária é um marco importante, pois além de ter baixo custo, essa molécula possui mecanismo único de superar a resistência desenvolvida pelo P. falciparum, parasito causador da malária humana letal caso não seja tratada adequadamente”, afirma a pesquisadora Antoniana Krettli, coordenadora do estudo.

A malária segue como um grave problema de saúde pública global, com milhões de casos anuais. Embora a DAQ não seja uma molécula inédita, uma vez que sua atividade antimalárica já havia sido descrita na década de 1960, o diferencial do estudo foi revisitar o composto à luz de abordagens contemporâneas. “Essa molécula já tinha sido descrita como promissora, mas acabou sendo deixada de lado. O nosso grupo retomou esse estudo e mostrou um mecanismo único de superar mecanismos de resistência desenvolvidos pelo parasito, ao identificar uma característica estrutural decisiva: a presença de uma ligação tripla na cadeia química”, explica o pesquisador colaborador da Fiocruz Minas, Wilian Cortopassi. 

Assim como a cloroquina, o DAQ interfere em um processo essencial para a sobrevivência do parasito. Durante a digestão da hemoglobina, o microrganismo produz uma substância tóxica que normalmente é neutralizada. O composto bloqueia esse mecanismo, levando à morte do parasito. Estudos indicam que o DAQ é eficaz contra cepas sensíveis e resistentes do Plasmodium falciparum, com ação rápida nas fases iniciais da infecção.

A pesquisadora Anna Caroline Aguiar ressalta que o composto também demonstrou atividade contra o Plasmodium vivax, espécie responsável pela maioria dos casos de malária no Brasil, reforçando o potencial da molécula em contextos epidemiológicos relevantes para o país. “Nós vimos que a molécula funcionou tanto para falciparum quanto para vivax, o que é extremamente relevante”, afirma a pesquisadora, que participou de uma série de experimentos durante o mestrado e doutorado, realizados sob orientação de Antoniana Krettli.

Outro aspecto relevante é o baixo custo da molécula, uma característica especialmente importante, considerando que a malária afeta majoritariamente países de baixa e média renda. “Esse fator amplia o potencial de aplicação da tecnologia em contextos de maior vulnerabilidade”, ressalta Cortopassi.

Os estudos contaram com a colaboração de instituições como a University of California San Francisco (UCSF), por meio do programa Catalyst Awards, a Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). As pesquisas seguem em andamento, com novos estudos conduzidos em parceria com a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Próximos passos

Apesar dos resultados promissores, o desenvolvimento do DAQ como medicamento ainda exige uma série de etapas. Será necessário avançar nos estudos de toxicidade, definir a dose mais segura e eficaz e desenvolver a formulação adequada. Segundo a equipe, apenas a fase pré-clínica já demanda investimentos significativos.

Nesse cenário, a proteção intelectual se torna estratégica para viabilizar o avanço da tecnologia. De acordo com a coordenadora do Núcleo de Inovação Tecnológica (NIT), Ana Paula Granato, a patente representa um diferencial competitivo e um passo importante na prospecção de parcerias com a indústria farmacêutica. “É, sem dúvida, um reconhecimento importante, pois demonstra a ineditismo e o potencial da tecnologia”, afirma. Concedida em março deste ano, a patente tem validade até 05 de setembro de 2041.

Antoniana Krettli destaca o papel estratégico da Fiocruz nesse processo. “A instituição tem forte atuação na Amazônia, com diagnóstico e acompanhamento de pacientes, além de experiência em testes clínicos. Isso facilita parcerias e o avanço de novos medicamentos”, afirma.

Para os pesquisadores, o estudo também acende um alerta. Embora ainda existam tratamentos eficazes, o parasito continua evoluindo, o que reforça a necessidade de desenvolver novas alternativas desde já, evitando um cenário de escassez terapêutica nos próximos anos.

Fonte _ FioCruz

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