Inovação
com patente concedida pelo INPI mostra que nanopartículas de prata produzidas
com substrato de origem fúngica eliminam patógenos preservando o ecossistema
aquático
Utilizando
o conceito de nanotecnologia verde, cientistas do Laboratório de
Desenvolvimento e Inovação (LDI) do Instituto Butantan desenvolveram nanopartículas
de prata com altíssima eficácia contra o parasita causador da esquistossomose (Schistosoma
mansoni) e contra larvas do mosquito Aedes aegypti, causador de
doenças como dengue, zika e chikungunya.
As
nanopartículas formadas a partir da reação de compostos produzidos pelo fungo
Aspergillus tubingensis com sal de prata eliminam esses patógenos de ambientes
aquáticos, sem causar desequilíbrio no ecossistema, mantendo a vida dos
microcrustáceos e peixes.
Os
resultados do estudo foram publicados em artigo científico na prestigiada
revista internacional Environmental Science: Nano, do grupo editorial
britânico Royal Society of Chemistry (RSC).
Sob
coordenação da pesquisadora científica do LDI, Ana Olivia de Souza, em
colaboração com o pesquisador Edison Barbieri, do Instituto de Pesca de São
Paulo, o trabalho foi desenvolvido pelo pesquisador Luiz Gustavo Ribeiro
durante seu doutorado, com a participação de especialistas do Laboratório de
Parasitologia do Butantan.
"Nós
temos algumas espécies de fungos que são efetivas na formação de nanopartículas
metálicas. De todas as que avaliamos no laboratório, as nanopartículas obtidas
com substratos produzidos pelo Aspergillus tubingensis foram as que
apresentaram a maior atividade biocida e antimicrobiana, aliada a uma alta
estabilidade ", afirma Ana Olivia de Souza.
A
utilização de fungos em nanotecnologia verde é uma abordagem inovadora e
sustentável. Diferente dos métodos químicos convencionais de síntese de
nanopartículas metálicas, que empregam reagentes tóxicos, solventes poluentes e
geram resíduos agressivos ao meio ambiente, o processo biológico empregado no
Instituto Butantan utiliza o secretoma (conjunto de proteínas e substâncias
produzidas pelo microrganismo) do fungo para a formação das
nanopartículas.
Isso
é possível porque os fungos atuam como verdadeiras "nanofábricas".
Na reação com íons metálicos (no caso do Butantan, foram usados íons de prata)
as biomoléculas presentes no secretoma do fungo promovem a formação das
nanopartículas.
Essas biomoléculas atuam simultaneamente na redução dos íons de prata e na estabilização das nanopartículas criando um biocida biogênico, de origem natural, utilizado para controlar, neutralizar ou eliminar organismos vivos nocivos, como bactérias, fungos ou insetos.
O
trabalho foi desenvolvido pelo pesquisador Luiz Gustavo Ribeiro com coordenação
da pesquisadora científica do LDI, Ana Olivia de Souza
Da
bancada à parceria com a Parasitologia
Inicialmente
focada na caracterização físico-química e na avaliação de propriedades
antimicrobianas contra fungos e bactérias patogênicas para humanos e plantas, a
equipe de Ana Olivia percebeu que a tecnologia possuía um potencial muito mais
amplo. O passo decisivo ocorreu quando os pesquisadores do LDI decidiram unir
forças com os especialistas em doenças parasitárias da instituição.
“Sabendo
que a esquistossomose é um grave problema de saúde pública que praticamente não
possui opções de tratamento preventivo no ambiente, testamos as nanopartículas
diretamente contra as cercárias [larva infectante do verme]. Ficamos
impressionados com os resultados", diz o pesquisador Luiz Gustavo Ribeiro.
A
esquistossomose, causada pelo helminto S. mansoni, afeta mais de 200
milhões de pessoas no mundo e permanece endêmica em diversas regiões do Brasil.
A transmissão ocorre quando o indivíduo entra em contato com águas doces
contaminadas por cercárias — a forma larval infectante liberada pelos caramujos
aquáticos do gênero Biomphalaria.
O
tratamento da doença é realizado com o medicamento praziquantel e a aplicação
de moluscicidas químicos nos corpos d'água auxiliam no controle para exterminar
os caramujos.
Entretanto,
os moluscicidas químicos tradicionalmente usados, como a niclosamida, são
altamente tóxicos para peixes, anfíbios e invertebrados aquáticos,
apresentam elevado custo e se acumulam no ambiente.
“Em vez de atingir a população de caramujos e destruir o ecossistema local, a nanopartícula biogênica tem maior seletividade e elimina diretamente a cercária, o elo infectante da cadeia epidemiológica”, esclarece Ana Olivia de Souza.
A
utilização de fungos em nanotecnologia verde é uma abordagem inovadora e
sustentável
Ataque
cirúrgico à cercária da esquistossomose
Os
resultados publicados pela revista científica Environmental Science: Nano,
demonstraram a alta eficiência das nanopartículas de prata micogênicas, que em
baixa concentração eliminou 100% das cercárias de S.mansoni em somente
duas horas de exposição.
"Com
a nanopartícula no ambiente aquático, a cercária é eliminada rapidamente antes
de conseguir infectar o ser humano ou reinfectar o caramujo. Assim, é possível
interromper o ciclo de transmissão da doença sem precisar erradicar o caramujo
nem destruir a fauna aquática local", explica Luiz Gustavo Ribeiro.
O estudo avaliou também o impacto das nanopartículas nos diferentes estágios de desenvolvimento do caramujo Biomphalaria glabrata. Os estágios embrionários iniciais (blástula e gástrula) mostraram-se sensíveis à ação das nanopartículas em baixas concentrações, o que contribui para controlar a superpopulação do hospedeiro intermediário. Já os caramujos adultos demonstraram ser significativamente mais resistentes, confirmando a ação seletiva das nanopartículas sobre as formas infecciosas do parasita.
A
pesquisadora Ana Olivia de Souza confere a qualidade da amostra no Laboratório
de Desenvolvimento e Inovação
Nova
arma de combate ao Aedes aegypti e às arboviroses
Outra
abordagem do estudo foi expandir os testes para o mosquito Aedes aegypti
que é um grande desafio de saúde pública no país.
Em
colaboração com pesquisadores do Laboratório de Parasitologia, especialistas em
vetores, as nanopartículas foram testadas e apresentaram ação contra larvas do
mosquito no quarto e último estágio de desenvolvimento após 48 horas de
exposição contínua na água. A ação larvicida progressiva impede que o mosquito
atinja a fase adulta, impedindo a proliferação do vetor na origem. Os
resultados comprovaram a versatilidade da inovação nanotecnológica do
Butantan.
"Diante
do cenário recorrente de epidemias de dengue no Brasil e do surgimento de
populações de mosquitos resistentes aos inseticidas químicos tradicionais,
pensamos: por que não testar a nanopartícula contra as larvas do Aedes
aegypti? Vimos que ela funciona como um nanobioinseticida muito potente.
Comparada a outros biopesticidas relatados na literatura internacional, a nossa
nanopartícula micogênica exige doses substancialmente menores para atingir
quase 100% de letalidade nas larvas", afirma Luiz Gustavo Ribeiro.
Entre
os vírus transmitidos pelo A. aegypti, o da dengue parece ser o que se
espalha mais rápido pelo mundo. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de metade da
população mundial está agora em risco de contrair dengue, com uma estimativa de
100 a 400 milhões de infecções a cada ano, enquanto o Brasil vive surtos e
epidemias constantemente; com mais de 1 milhão de casos em 2025, e 6,6 milhões
na epidemia de 2024.
O
segredo da seletividade e preservação ambiental
Um
dos aspectos mais relevantes do trabalho publicado na Environmental Science:
Nano foi a rigorosa avaliação ecotoxicológica conduzida em parceria com o
Instituto de Pesca. A grande preocupação da comunidade científica ao introduzir
qualquer novo biocida na natureza é o impacto sobre os organismos não-alvo que
compõem o ecossistema aquático.
Para
avaliar essa questão, a equipe testou a nanopartícula em organismos
bioindicadores padrão, como zebrafish usado como organismo modelo, nos
microcrustáceos Daphnia magna (conhecida como “pulga-d'água”) e Cypricercus
centrura, e em peixes de água doce como tilápia (Oreochromis niloticus),
lambari (Deuterodon iguape) e cará (Geophagus brasiliensis). Além
disso, os testes foram conduzidos em organismo costeiro, como o
camarão-fantasma (Palaemon pandaliformis).
Os
testes mostraram que os organismos não-alvo foram significativamente menos
sensíveis às nanopartículas do que os alvos, cercárias e larvas do mosquito A.
aegypti. Como exemplo, a concentração necessária para matar exemplares dos
microcrustáceos seria 22 vezes superior à concentração necessária para matar o
parasita da esquistossomose.
"As
biomoléculas produzidas e secretadas pelo fungo Aspergillus tubingensis formam
um revestimento ao redor do núcleo de prata. Essa camada externa funciona como
uma cápsula protetora que modula a liberação dos íons de prata de forma lenta e
gradual, evitando picos agudos de toxicidade que afetariam peixes e
microcrustáceos. É exatamente esse revestimento que confere a alta seletividade
do nosso material em relação aos organismos alvo", destaca Ana Olivia de
Souza.
Para esclarecer o mecanismo de funcionamento das biomoléculas, a pesquisadora faz uma analogia com medicamentos de liberação prolongada. "Alguns medicamentos precisam ser tomados a cada quatro ou oito horas porque são absorvidos e eliminados do corpo rapidamente, enquanto outros revestidos e de liberação controlada liberam o princípio ativo aos poucos no organismo, permitindo que a pessoa tome menos medicamentos por dia. Na água, nossa nanopartícula faz o mesmo: a corona biomolecular libera gradualmente a prata, mantendo a ação biocida contra larvas e cercárias por mais tempo e sem agredir o ecossistema aquático", explica.
Luiz
Gustavo Ribeiro: "Ficamos impressionados com os resultados dos testes das
nanopartículas contra as cercárias"
Estabilidade
de 5 anos e patente concedida pelo INPI
Um
dos maiores desafios para a comercialização de nanobioinseticidas de origem
biológica é manter a estabilidade ao longo do tempo, ou seja, evitar que se
degradem.
Porém,
as nanopartículas desenvolvidas no Instituto Butantan são altamente estáveis em
temperatura ambiente, mantendo o tamanho, a morfologia e a mesma eficiência
biocida após mais de cinco anos. A estabilidade foi confirmada por análises de
espalhamento dinâmico de luz (DLS) e microscopia eletrônica de transmissão.
O
reconhecimento da originalidade e do caráter inovador do trabalho foi
evidenciado com a concessão oficial da carta-patente do processo pelo Instituto
Nacional da Propriedade Industrial (INPI) ao Instituto Butantan, em 21 de julho
de 2026.
"A
concessão da patente pelo INPI, evidencia o potencial e garante a proteção
intelectual da tecnologia e abre portas para parcerias de desenvolvimento
industrial", comenta a pesquisadora científica do LDI.
Dispositivos
biodegradáveis e o futuro no conceito One Health
Com
a validação científica de bancada concluída e a patente assegurada, os
pesquisadores do LDI já trabalham na próxima fase da tecnologia durante o
pós-doutorado de Luiz Gustavo Ribeiro.
Atualmente
produzida na forma de uma suspensão, a nanopartícula está sendo associada a
outros materiais para facilitar o transporte e o armazenamento de grandes
quantidades, assim como o uso em diferentes escalas.
"É
uma tecnologia totalmente alinhada ao conceito de Saúde Única (One Health),
integrando saúde humana, animal e preservação ambiental”, ressalta Luiz Gustavo
Ribeiro.
Para
a pesquisadora Ana Olivia de Souza, “trata-se de uma tecnologia e inovação
sustentável que utiliza a biodiversidade brasileira a um custo viável para a
saúde pública, refletindo exatamente o compromisso que o Instituto Butantan
mantém ao longo de seus 125 anos de história: desenvolver ciência de excelência
com impacto direto na vida da população”, conclui.
Fonte _ Butantan
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