Lançamento
do novo inventário do MUSPER traz luz a campanhas de combate a endemias e
epidemias ao longo do século XX; acervo de 6599 peças foi digitalizado e já
pode ser acessado pelo público geral
Traçar
uma linha do tempo da saúde pública brasileira e preservar essa memória também
é um dos compromissos do Instituto Butantan. Nesse contexto, entender como a
prevenção a doenças e as campanhas de conscientização da população mudaram ao
longo dos anos fica ainda mais fácil quando essa evolução pode ser vista em
imagens – ou cartazes. É exatamente isso que o Museu de Saúde Pública Emílio
Ribas (MUSPER) do Instituto Butantan disponibiliza ao público geral a partir
desta sexta (17/4) por meio do Inventário
das Coleções de Cartazes de Campanha e Material Educativo da Área da Saúde e
do Catálogo
dos Cartazes de Dengue e Febre Amarela da Coleção de Cartazes de Campanhas de
Saúde.
Após três anos de um minucioso trabalho de higienização e identificação de aproximadamente 7000 itens - sendo 1725 exemplares únicos de cartazes, 262 materiais educativos e cópias das respectivas coleções -, o MUSPER transpõe para o ambiente digital um acervo antes restrito à consulta presencial. As Coleções de Cartazes de Campanha e Material Educativo da Área da Saúde oferecem um mergulho na comunicação visual brasileira desde a década de 1940, cobrindo temas que vão do combate ao alcoolismo e tabagismo à prevenção de doenças como pneumonia, cólera, tuberculose e HIV. O material educativo, além de sensibilizar a população com relação à prevenção de doenças, era utilizado como recurso pedagógico no treinamento de profissionais da saúde em educação sanitária. O inventário como um todo permite que pesquisadores e educadores analisem as profundas mudanças estéticas e de tom que moldaram o combate a epidemias no Brasil ao longo de um século.
O
esforço de sistematização do acervo, iniciado em 2014, ganhou fôlego em 2023
com uma força-tarefa de higienização, reparos físicos e catalogação técnica. O
projeto vai além da conservação física das peças: a digitalização permite
decifrar as mudanças históricas nas estratégias de saúde pública. Ao tornar
acessíveis desde ilustrações feitas à mão até campanhas modernas, o inventário
oferece um mapa visual de como o Brasil enfrentou suas epidemias e moldou o
discurso de educação sanitária ao longo do tempo.
“Essa coleção, com diversidade de temas e períodos, nos possibilita interpretar como a visão sobre doenças e educação sanitária se modificam ao longo dos anos e observar os períodos de epidemias. Além da questão visual, porque temos desde cartazes que eram desenhados à mão, poder digitalizar e tornar eles acessíveis é um ganho muito grande para pesquisa e o interesse geral”, aponta Maria Talib Assad, analista de Documentação do MUSPER.
Dengue
em destaque
Em
um recorte ainda mais específico, o Catálogo dos Cartazes de Dengue e
Febre Amarela chega alguns meses depois da disponibilização à
população brasileira da Butantan-DV, vacina contra a dengue desenvolvida e
produzida pelo Instituto. “O Butantan lançou um olhar atento sobre essa doença,
ocupando um espaço de conscientização que, em certos períodos, perdeu o devido
destaque nas esferas governamentais”, afirma a coordenadora cultural do MUSPER,
Elisandra Gasparini Silva.
O
inventário permite inclusive identificar que a preocupação com doenças
transmitidas por mosquitos vem desde muito antes da dengue se tornar uma
preocupação nacional, a partir dos anos 1980. “Há um documento no
inventário da década de 1920 dizendo que o código sanitário da época previa
multa para reincidência de focos. A responsabilização já começava desde aquela
época”, conta Maria.
Esse
documento é o folheto O Mosquito (pernilongo), elaborado pelo
Serviço Sanitário de São Paulo, que já estipulava multas para quem falhasse nos
esforços de eliminar focos do mosquito Aedes aegypti, transmissor da dengue e,
então, da febre amarela urbana. Era a "Guerra aos Mosquitos", onde o
cidadão era um alvo da lei. “O Codigo Sanitário do Estado de São Paulo
determina que sejam multados os responsáveis pelas casas e terrenos, onde fôrem
encontrados na reincidencia, fócos de mosquitos. (sic)” (trecho do
Folheto “O mosquito (pernilongo)”. Fundo Serviço Sanitário do Estado de São
Paulo. [1925-1937]. Acervo MUSPER)
Ao longo do tempo, houve uma mudança da representação do Aedes aegypti – tanto na figura quanto na intensidade do discurso à população. “Antes predominava um discurso de medo, com cartazes que personificavam o mosquito como um vilão. Hoje, a abordagem é mais educativa e próxima do cotidiano”, aponta Elisandra. “O público mudou, e a nossa forma de dialogar com a sociedade também se transformou”, completa ela.
Evolução
do discurso
Em
um dos textos incluídos no inventário, a professora Associada da Faculdade de
Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP) e doutora em História Social
Maria Cristina da Costa Marques aponta que, desde o século XVIII, o Estado
deixou de ser apenas uma "polícia médica" para se tornar um gestor,
buscando melhorar, prolongar e tornar a vida das pessoas mais produtiva. Se
antes a higiene flertava com a eugenia para moldar comportamentos, o desafio
atual é “atuar na perspectiva da Educação e Comunicação em Saúde voltada ao
encontro cultural, participativo e de direito ao conhecimento em saúde”. A
consequência dessa mudança é que, ao longo dos séculos XX e XXI, “a Educação
Sanitária ganhou status de política pública com estratégias de intervenção na
saúde individual e coletiva”.
Outro
nome a assinar um dos textos do inventário é a gerente de Projetos do
Laboratório Piloto de Vacinas Virais do Instituto Butantan, Neuza Maria
Frazatti Gallina, uma das pesquisadoras responsáveis pelo desenvolvimento da
Butantan-DV. “Quando uma pessoa se depara com cartazes dizendo ‘Não dê chance à
dengue’, ‘Dengue. Um país inteiro não pode ser derrotado por um mosquito’ ou
‘Eu não deixo a dengue entrar aqui’ está sendo estimulada não somente ao
combate à dengue, mas também a sua cidadania e a união de um país”, resume.
Segundo
Neuza, enquanto a ciência busca vacinas seguras, a comunicação combate a
desinformação. O cartaz é um instrumento de cidadania que conecta o passado de
"polícia médica" ao presente de proteção social. “Nos tempos em que a
desinformação tomou conta da mídia, os cartazes continuam com seu papel de
informar bem, para transformar. Cartazes nas campanhas de saúde continuam sendo
peça primordial para o combate, não só da dengue, mas também de outras doenças
que trazem tanto sofrimento à população e oneram tanto o nosso Sistema Nacional
de Saúde.”
Fonte _ Butantan



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