Há
duas décadas, o câncer
de estômago (ou gástrico) mata mais de 12 mil pessoas por ano no
Brasil, e a mais recente projeção do Inca
(Instituto Nacional de Câncer) aponta para uma elevação de casos até 2028,
resultando em mais mortes.
As
estimativas indicam 22,5 mil novos diagnósticos por ano no triênio iniciado em
2026, o terceiro ajuste seguido para cima nas projeções. Nos triênios 2020-2022
e 2023-2025, elas foram de 21,2 mil e 21,4 mil, respectivamente.
A
tendência de alta deve se perpetuar no país pelos próximos anos, segundo
especialistas, na esteira da maior
prevalência da obesidade e do envelhecimento
da população, mas sobretudo pela dificuldade de erradicar a bactéria H. pylori,
principal causa da patologia no mundo.
Um
problema, a julgar pela alta taxa de mortalidade para este tipo de câncer, que
passa dos 60%. O crescimento de casos ocorre enquanto os recursos para
erradicar a H. pylori ainda são escassos, o que mantém as infecções e
eleva a curva de óbitos. O fenômeno já é observado nos últimos 20 anos.
Dados do Inca mostram que, em 2005, 12.435 pessoas morreram por câncer gástrico. Em 2007 foram 13 mil mortes, e 14,1 mil em 2013. Em 2019, alcançou o patamar de 15,1 mil. Em 2024, último ano registrado na base de dados, foram 14,9 mil mortes.
Segundo
o gastroenterologista James Ramalho Marinho, da Federação Brasileira de
Gastroenterologia, a alta taxa de mortalidade está associada ao diagnóstico
tardio. Ele afirma que a condição é silenciosa e as doenças gástricas
são muitas vezes negligenciadas pela população. Além disso, o SUS (Sistema
Único de Saúde)
não consegue monitorar e tratar a infecção pela H. pylori.
"O
câncer de estômago não causa sintomas em grande parte dos acometidos. As
pessoas chegam ao consultório suspeitando de anemia,
problemas gástricos menos relevantes, e já têm o quadro avançado", afirma
Marinho.
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"Estima-se
que 70% da população brasileira tenha infecção com H. pylori. Isso é
apenas uma estimativa, o sistema público não tem condições de oferecer
endoscopia para todo esse contingente, nem exames menos invasivos",
explica.
A H.
pylori é responsável por 78% da carga de câncer gástrico no Brasil, segundo
um estudo que combinou a prevalência estimada da bactéria na população
com o risco associado à infecção.
O
contágio pela H. pylori ocorre por más condições sanitárias e falta de saneamento
básico. Por isso, ela é mais prevalente em países pobres e populações
em vulnerabilidade socioeconômica.
"A
contaminação ocorre sobretudo pelo contato da água com dejetos. Se analisarmos,
por exemplo, comunidades que vivem à beira de córregos poluídos, é muito
provável que a maioria esteja com a bactéria", diz o endoscopista e
gastroenterologista Ismael Maguilnik.
A
partir da infecção, a bactéria causa o que se chama de cascata de Pelayo
Correa, uma sequência de alterações que podem ocorrer no estômago ao longo dos
anos, resultando, em parte dos casos, no câncer gástrico.
A
infecção provoca inflamação da mucosa do estômago
(gastrite crônica). Com a persistência, podem surgir atrofia da mucosa,
metaplasia intestinal (alteração celular em que o revestimento interno do
estômago ou do esôfago muda e passa a se parecer com o tecido do intestino) e,
posteriormente, displasia, considerada uma alteração pré-cancerosa.
Em
alguns pacientes, essa sequência pode culminar no adenocarcinoma gástrico, o
tipo mais comum de câncer de estômago.
Embora
a H. pylori seja a principal responsável pelo câncer gástrico, outros
fatores podem contribuir para o surgimento da patologia. O consumo de alimentos
ricos
em sal é um deles, em que pesa a forte presença dos ultraprocessados
na dieta global.
"Esses
alimentos têm uma grande quantidade de sal e defumados, agressores do tecido
gástrico. Portanto, nem sempre a H. pylori vai resultar no câncer
sozinha, ela vai ter como aliados os hábitos ruins que o sujeito adquire ao
longo da vida", explica Maguilnik.
Outros
fatores de risco associados ao surgimento de cânceres no estômago são tabagismo
e consumo de bebida
alcoólica.
Entre
doenças
crônicas, a obesidade
–galopante no Brasil segundo
pesquisas recentes– também é uma comorbidade facilitadora.
Maguilnik
diz que um teste respiratório à base de carbono 13, não radiativo, seria uma
boa solução para identificar precocemente a H. pylori no estômago e dar
início ao tratamento.
"Essa
é uma luta nossa para tentar convencer as autoridades, seria um grande recurso
e se trata de um procedimento não invasivo. Fazer endoscopia em toda a
população é um sonho quase impossível", diz.
Segundo
o Ministério
da Saúde, não há, até o momento, pedido de incorporação e avaliação da
tecnologia pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS
(Conitec).
De
acordo com o médico, também existem testes feitos a partir de antígeno nas
fezes, mas com alto índice de negativos.
Para
frear o aumento, os especialistas afirmam que é necessário erradicar a H.
pylori, o que esbarra no problema de diagnóstico.
Mas
não só. Ainda não está claro qual é o tratamento mais eficaz para combater a
bactéria uma vez identificada.
Geralmente,
o tratamento é feito com combinações de antibióticos
associados a um medicamento que reduz a acidez do estômago. Entre os
antibióticos usados estão amoxicilina, claritromicina, metronidazol e
tetraciclina.
A
escolha depende do esquema indicado, de alergias e, cada vez mais, do perfil de
resistência
da bactéria.
A
resistência a alguns antibióticos, contudo, tem aumentado, por isso as
diretrizes mais recentes recomendam evitar esses medicamentos quando não há
evidência de que a bactéria seja sensível a eles.
"Os
antibióticos constituem a ferramenta que temos por ora, mas para isso
precisamos encontrar os pacientes antes da metaplasia e da neoplasia", diz
Maguilnik.
"Sem
controlar a infecção, não vamos diminuir o câncer gástrico. É preciso também
conscientizar as pessoas sobre o consumo de sal, ultraprocessados, álcool e
cigarro. Ou os números continuarão em alta", afirma Marinho.
Os
especialistas recomendam àqueles com histórico de câncer gástrico na família o
início do rastreamento aos 30 anos. Para pessoas sem histórico familiar ou
problemas gástricos, a recomendação é aos 40 anos.
Outras
medidas, como reforçar higienização de alimentos e das mãos e evitar contato
com água de qualidade desconhecida são úteis, embora não resolvam a situação.
O
Ministério da Saúde afirmou ainda que, neste ano, começam a ser
disponibilizados 23 novos medicamentos para tratamento do câncer, o que
representa um aumento de 35% na oferta na rede pública de saúde. "Entre
esses medicamentos está o trastuzumabe, que pode reduzir ou eliminar os tumores
de câncer de estômago HER2 positivo em até 50% dos casos."
O projeto
Saúde Pública tem apoio da Umane, associação civil que tem como
objetivo auxiliar iniciativas voltadas à promoção da saúde.
Fonte _ Folha/SP


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