Obter
um diagnóstico de endometriose
é notoriamente difícil.
Em
média, leva de sete a nove anos, e muitas pacientes
ouvem que sua dor excruciante é apenas uma cólica menstrual normal ou coisa da
cabeça delas. Mesmo quando encontram um médico disposto a ajudar,
muitas precisam passar por cirurgia para confirmar o diagnóstico, porque os
exames de imagem não detectam a doença de forma confiável. Estima-se que a
doença, na qual um tecido semelhante ao revestimento do útero cresce fora dele,
afete pelo menos 1
em cada dez mulheres em idade reprodutiva.
Para
muitas, um teste não invasivo confiável seria o santo graal. Agora, várias
startups afirmam tê-lo encontrado e oferecem o diagnóstico de endometriose por
meio da análise de moléculas de RNA na saliva, proteínas no sangue ou sinais
elétricos no trato gastrointestinal.
"A
premissa é boa, porque atualmente o padrão de atendimento é invasivo", diz
Ja Hyun Shin, especialista em cirurgia ginecológica da Weill Cornell Medicine.
Mas,
até agora, segundo ela e outros especialistas, as evidências sobre os novos
testes se limitam a estudos pequenos, com pacientes que talvez não sejam
representativas da população em geral.
Katherine
Burns, professora associada da Faculdade de Medicina da Universidade de
Cincinnati, que
estuda endometriose e também tem a doença, diz entender a ansiedade
das pacientes: ela sofreu por cerca de 10 anos sem diagnóstico e teria tentado
qualquer coisa para obter respostas e alívio. "Mas uma das coisas que
aprendi ao longo do caminho é que é preciso fazer perguntas", afirmou.
Veja
o que sabemos sobre os novos testes.
O
que está sendo comercializado?
A
Food and Drug Administration (FDA), agência
reguladora dos Estados Unidos, não aprovou nenhum teste não invasivo para
endometriose. Mas várias empresas oferecem produtos "apenas para fins de
pesquisa" ou por meio de uma brecha regulatória que a FDA tentou, sem
sucesso, fechar.
Às
vezes, a endometriose aparece em ressonâncias magnéticas ou ultrassonografias,
mas muitas vezes isso não acontece. Assim, para muitas mulheres, a única forma
de obter um diagnóstico definitivo é um cirurgião procurar lesões e realizar
biópsias. A premissa dos novos testes é que eles podem detectar biomarcadores —
isto é, alterações em fluidos ou funções do organismo — associados à doença.
Um
deles, chamado Endotest, analisa a saliva em busca de um padrão de microRNAs,
moléculas envolvidas na regulação dos genes. Outro, o EndoSure, mede a
atividade elétrica gastrointestinal. Um terceiro, o EndomTest, procura duas
proteínas no sangue. Cada teste é respaldado por pelo menos um estudo revisado
por pares, conduzido ou financiado por seu fabricante.
Um
quarto teste, da Xella Health, usa um algoritmo proprietário de inteligência
artificial para analisar biomarcadores sanguíneos, sintomas e histórico médico
e estimar o risco de endometriose, mas sua precisão não foi avaliada
publicamente. A Xella também está desenvolvendo um teste com fluido menstrual,
baseado, até o momento, em uma análise não publicada de 28 amostras — número
insuficiente para tirar conclusões, considerando o quanto a endometriose pode
variar de uma paciente para outra, segundo Stacey Missmer, professora de saúde da mulher da
Faculdade de Medicina da Universidade de Michigan.
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Quais
são as evidências?
Os
estudos iniciais do Endotest e do EndoSure constataram que eles identificaram
corretamente mais de 90% das pessoas com e sem endometriose. Mas os estudos
tinham limitações, segundo muitos especialistas, entre elas o tamanho, os tipos
de pacientes e o fato de terem sido financiados ou conduzidos pelos fabricantes
dos produtos.
O
principal estudo do Endotest envolveu 971 pacientes; o do EndoSure, 154. Nos
dois casos, a maioria tinha endometriose. Os testes podem apresentar um
desempenho enganosamente bom em populações de "alta prevalência" como
essas, porque há poucas oportunidades de diagnosticar equivocadamente pessoas
que têm outras condições, diz Tamer Seckin, cirurgião especializado em
endometriose e fundador da Endometriosis Foundation of America.
Um
estudo recente do Endotest realizado por pesquisadores independentes encontrou
resultados menos expressivos, mas era pequeno e foi conduzido com uma população
pouco representativa. Dois estudos pequenos realizados na Bélgica e no Brasil
também analisaram o EndoSure, mas ainda não passaram por revisão por pares e
incluíram tão poucas pessoas sem endometriose que os pesquisadores não
conseguiram estimar de forma confiável a eficácia do teste para identificá-las
corretamente.
A
Ziwig, fabricante do Endotest, afirmou que estavam em andamento "estudos
prospectivos em condições reais envolvendo até 25.000 mulheres". Mark
Noar, presidente-executivo do EndoSure, disse que a empresa também estava
realizando estudos com populações mais amplas.
Muitos
especialistas disseram considerar promissora a tecnologia de microRNA por trás
do Endotest, embora ainda não esteja aperfeiçoada. Embora não haja muitos
estudos sobre o Endotest, o potencial geral dos microRNAs como biomarcadores
foi mais estudado.
As
evidências sobre a tecnologia do EndoSure, que analisa sinais elétricos
intestinais, são mais preliminares, segundo Seckin, Shin e Ted Lee, diretor de
cirurgia ginecológica minimamente invasiva da NYU Langone Health.
Christine
Metz, professora dos Feinstein Institutes for Medical Research, da Northwell
Health, disse que o estudo inicial do EndoSure era promissor. Mas Metz observou
que diversas doenças, medicamentos e outros fatores podem afetar a motilidade
intestinal; por isso, são necessárias mais pesquisas para confirmar se os
sinais medidos pelo EndoSure são específicos da endometriose.
Quanto
ao EndomTest, a opção baseada em proteínas, um pequeno estudo realizado por seu
desenvolvedor mostrou quase nenhum falso positivo, mas muitos falsos negativos:
ele identificou apenas 46,2% das pessoas com endometriose. Andrew Levin, CEO da
empresa que licenciou o teste, diz que outros estudos estavam em andamento. E,
apesar da ausência de falsos positivos no estudo, o teste se baseia, em parte,
em uma proteína cujos níveis aumentam em muitas doenças. A empresa afirma que a
análise conjunta de duas proteínas torna o teste mais preciso, mas Seckin e
Missmer se mostraram céticos.
O
que vem a seguir?
É
possível que um teste atualmente disponível no mercado — ou uma versão
modificada dele — seja validado dentro de alguns anos.
"Considero
essas iniciativas primeiros passos muito promissores", diz Beyaz.
Enquanto
isso, os especialistas enfatizaram que os médicos podem ter segurança de que
muitas pacientes têm endometriose com base nos sintomas e no exame físico e
tratá-las de acordo com essa avaliação. "Poderíamos fazer muito, muito
melhor desde já se simplesmente ouvíssemos nossas pacientes", diz Hugh
Taylor, professor e chefe do Departamento de Obstetrícia, Ginecologia e
Ciências Reprodutivas da Faculdade de Medicina de Yale, que estuda o microRNA
como marcador de endometriose.
Os
novos testes talvez sejam mais úteis para pacientes cujos sintomas são
ambíguos, como aquelas com infertilidade
sem causa aparente, mas sem dor, ou adolescentes com sintomas leves que
possam ser sinais iniciais de endometriose.
Além
do Endotest, um grande ensaio clínico está avaliando um exame de sangue de
microRNA chamado DotEndo, baseado nas pesquisas de Taylor. Taylor integra o
conselho consultivo científico da empresa. O ensaio foi elaborado em consulta
com a FDA, disse Heather Bowerman, fundadora e CEO da DotLab, fabricante do
teste. Se os resultados forem bons, afirmou ela, a DotLab poderá solicitar a
aprovação da FDA já em 2027, embora ainda não tenha decidido qual caminho
regulatório seguirá.
Ao
mesmo tempo, novas descobertas ressaltam o quanto os pesquisadores talvez ainda
desconheçam.
Um
artigo recente da equipe de Taylor foi um dos primeiros a relatar que
adolescentes com endometriose em estágio inicial podem apresentar marcadores de
microRNA diferentes dos observados em adultas. Isso pode significar que sejam
necessários testes diferentes, diz a autora principal, Alla Vash-Margita,
professora associada de obstetrícia, ginecologia e ciências reprodutivas de
Yale.
Taylor
diz acreditar que "teremos métodos não invasivos de diagnóstico da
endometriose em um futuro próximo". Mas acrescenta: "É difícil saber
se algum dos que estamos vendo agora será o melhor teste".
Fonte _ Folha/SP

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