Cerveja
zero álcool com proteína, refrigerante com fibras e até água com colágeno. As
versões "fit" de bebidas comuns estão
em alta no mercado de saúde e
beleza.
Especialistas
médicos e de nutrição, porém, alertam que não basta ter destaque na embalagem
para ser eficaz. "É necessário verificar qual ingrediente foi acrescentado
e em que quantidade", ressalta André Camara de Oliveira, endocrinologista
e diretor da SBEM (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia).
Na
Ambev, uma das maiores fabricantes de bebidas do mundo, o "portfólio
wellness" avançou mais de 60% em 2025 em comparação ao ano
anterior. A Nestlé, veterana no segmento, já tinha o Nutren Protein 15% e
avança no mercado de estética com um produto proteico com colágeno hidrolisado
líquido que promete melhoria da pele, unhas e cabelos.
Segundo
Oliveira, uma bebida com cerca de 15 a 25 gramas de whey, seja de proteína do
leite ou de soja, pode de fato contribuir para a ingestão proteica. O colágeno,
porém, "não possui a mesma qualidade para manutenção ou ganho."
"Nas
bebidas com fibras, também importa conhecer o tipo: inulina e
frutooligossacarídeos [fibra alimentar solúvel] podem provocar gases e
distensão abdominal em pessoas sensíveis", afirma o médico.
A
recomendação é avaliar a composição completa, considerando açúcar adicionado,
calorias, sódio, gordura saturada e cafeína, bem como a presença de poucos
corantes, aromatizantes e conservantes e de lupa
de alto teor da Anvisa.
A
cautela deve ser com excesso de açúcar ou cafeína, combinações de estimulantes
e produtos que destacam proteínas, fibras ou vitaminas sem informar claramente
as quantidades ou que alegam benefícios como "detox", "queima
gordura" ou "fortalece a imunidade" sem evidência.
Fabiana
Poltronieri, doutora em Ciência dos Alimentos pela USP e diretora da Asbran
(Associação Brasileira de Nutrição), diz que pode ser "tentador beber
cerveja com whey, mas o apelo é meramente de marketing."
"Não
há nenhum motivo com respaldo nutricional. O mesmo raciocínio vale para água
com colágeno, que é uma proteína
de baixo valor biológico, inclusive", defende.
A
diretora afirma que "faz sentido pensar em cerveja 0% álcool, pois a
dependência etílica é um problema de saúde pública", mas vale buscar
orientação profissional. "Há produtos que destacam nas embalagens
nutrientes, mas que na composição aparecem com um valor inexpressivo",
diz.
Bem-estar
em alta
A
Ambev aponta que o mercado de cervejas
sem álcool cresceu 30% no Brasil no último ano. A marca lança em
setembro, no Brasil, a Spaten Pro, cerveja escura sem álcool que leva whey
protein e colágeno na receita. Cada lata de 350 ml contém 10g de proteína (75%
whey hidrolisado e 25% colágeno) e menos de cem calorias. O grupo
tem ainda Guaraná Zero com fibras da Antarctica, Corona Cero, Bud Zero, Brahma
0,0% e Skol Zero Zero, Stella Pure Gold e Michelob Ultra.
A
Starbucks Brasil, por sua vez, está com uma linha de coberturas, a Cold Foam
Proteico, que adiciona 19g de proteína às bebidas geladas de chocolate e
baunilha. Em julho, o menu ganhou "leite proteico", adicional do
"Baunilha Latte Sem Açúcar Proteico", "Matcha Latte Sem Açúcar
Proteico", "Latte Proteico" e "Matcha Latte Proteico".
O produto inclui a partir de 23g de proteína extra por porção nas opções
quentes e 26g, nas geladas.
O
Collagen Drink, da Nestlé, em quatro sabores, tem 2,5 g de colágeno, 100 mg de
vitamina C, 12 g de proteínas e cerca de 53 kcal a cada 260 ml.
Mamba
Water Protein, do grupo Heineken, se divulga como "suplemento alimentar
líquido com 20g de proteína do colágeno + BCAA." A página também afirma
tratar-se de uma "água leve, sem açúcar, sem carboidrato e sem
glúten", além de não ter lactose.
Aposta
na praticidade
Anna
Paula Alves, diretora de categoria Cervejeira na Ambev, diz que há uma mudança
de comportamento do público e a estratégia é atendê-lo com maior variedade.
Esse consumidor busca opções equilibradas, mas sem deixar de lado experiências
que já tem com sabores de que gosta.
"Mais
do que prometer benefícios específicos, esses lançamentos refletem a evolução
do portfólio para acompanhar diferentes expectativas dos consumidores e ampliar
as possibilidades de escolha", avalia Alves.
Marcio
Avolio, diretor de marketing da Nutrify da Nestlé, diz que o Collagen Drink
"foi desenvolvido para transformar o autocuidado em uma experiência mais
prática e nutritiva", tornando "a suplementação mais fácil de
incorporar" à rotina. "A proposta é oferecer uma opção que combine
conveniência, por ser uma bebida pronta para o consumo, sabor leve e
ingredientes reconhecidos cientificamente", afirma.
Em
nota, a Starbucks declarou que as inovações da marca acompanham a
"evolução dos hábitos e das preferências" do público, permitindo aos
"consumidores personalizarem e customizarem suas bebidas", reforçando
atributos "da experiência Starbucks." A Folha entrou
em contato com a Mamba, mas não teve retorno.
Pode
ajudar, mas sem substituições
Na
visão da CMO (diretora de marketing) Ivete Gama, da rede Ultra Academia, o
crescimento de bebidas com atributos funcionais reflete a realidade cada vez
mais comum de quem tem rotina agitada, mas visa bem-estar. "Esses produtos
podem ser aliados [de quem treina e tem pouco tempo], mas não substituem
uma alimentação equilibrada
nem os cuidados básicos com o corpo. A saúde não está em um único produto, mas
no conjunto de hábitos", diz.
O
endocrinologista André Camara de Oliveira reforça que o problema não é o
consumo eventual de bebidas ultraprocessadas com quantidade
adequada de proteína quando não se pode fazer uma refeição, mas
quando estas "substituem regularmente água, leite e alimentos de melhor
qualidade nutricional."
O
refrigerante zero com fibras, por exemplo, pode ser "menos desfavorável
que o açucarado para quem já consumiria refrigerante, apesar de não ser
saudável. Não substitui frutas, verduras, feijão ou cereais integrais",
ressalta.
A
recomendação é seguir o contexto clínico: quem tem doença celíaca, não come
glúten; gestante, não bebe álcool; nefropata não deve ingerir muita proteína,
entre outros exemplos.
"Na
mesma lógica, a cerveja sem álcool com whey pode fornecer proteína, mas isso
não a transforma, por si só, em uma bebida adequada para recuperação esportiva,
pois devem ser considerados carboidratos, eletrólitos, calorias e teor
alcoólico", diz Oliveira.
Poltronieri
diz que é importante "não confundir praticante de atividade física com
atletas de alto rendimento, que contam com suporte diferenciado" na hora
de suplementar.
"A
melhor fonte de minerais, vitaminas e macronutrientes ainda são os alimentos e
as feiras livres estão no topo da lista quando se pensa no verdadeiro conceito
de bem-estar", diz Poltronieri.
O
mesmo vale para água, que não deve ser glamourizada. "A população
praticante de atividade física deve estar atenta à hidratação, que pode ser
feita adequadamente com água. Não há necessidade de bebidas especialmente
formuladas para a hidratação corporal e é excelente alternativa para toda a
população, sem restrições", finaliza a nutricionista.
Fonte _ Folha/SP

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