O Keytruda,
medicamento de imunoterapia
usado no tratamento de diferentes tipos de câncer, foi
um dos produtos falsificados identificados pela Operação
Laziosi.
Deflagrada
nesta quinta-feira (5) pelo Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime
Organizado) do Ministério
Público do Estado de São Paulo em conjunto com a Polícia Civil, a ação
investiga uma rede suspeita de comercializar medicamentos
oncológicos falsificados e lavar dinheiro.
A
suspeita começou no Hospital IGESP, em São Paulo, que procurou a MSD (Merck
Sharp & Dohme), fabricante do remédio, para verificar a autenticidade de
uma unidade comprada da distribuidora Nacionalfarma em maio de 2024.
O
laboratório forense da farmacêutica recebeu o frasco em agosto daquele ano e
concluiu o exame em 27 de setembro. A análise não encontrou pembrolizumabe,
princípio ativo do Keytruda. No lugar dele, os testes identificaram sódio e
cloro.
O
número de lote impresso na caixa era A101547, válido para o produto original,
mas o rótulo do frasco apresentava uma sequência diferente, A1D1547. A data de
validade também era inválida, com um algarismo a mais no ano: 22024.
O
frasco falsificado não tinha a tampa plástica presente no autêntico e
apresentava formato diferente. A caixa era mais estreita e alta, tinha textura
distinta e trazia um erro de impressão na indicação de uso adulto e pediátrico.
A
bula também era diferente: em vez de dobrada, como no original, vinha em
formato de livreto. Além disso, a área da embalagem que deveria revelar
informações após ser raspada com um objeto metálico não apresentava nenhum
dado.
À Folha
a MSD lamenta o ocorrido, afirma que o uso de medicamentos falsificados coloca
em risco a vida dos pacientes e diz que segue colaborando com as autoridades
nas investigações e na adoção das medidas necessárias.
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de saúde
A
reportagem procurou o IGESP por telefone e email para saber se os medicamentos
suspeitos foram administrados a pacientes e quais providências foram tomadas
após a identificação da falsificação.
A
Nacionalfarma também foi procurada por telefone e email para explicar a origem
dos produtos e as inconsistências nos registros de compra e estoque apontadas
pela investigação.
Não
houve retorno de nenhuma das duas instituições até a publicação deste texto.
A
unidade analisada pela MSD também foi examinada posteriormente pela Polícia
Científica de São Paulo. Os peritos avaliaram ainda um segundo frasco, recebido
do Hospital Monte Sinai, em Juiz
de Fora (MG) e também adquirido da Nacionalfarma.
As
duas amostras, dos lotes A101547 e A102646, respectivamente, foram comparadas
com uma unidade original, e os exames concluíram que ambas eram falsificadas
—mas não afirmaram que estavam sem o princípio ativo.
A
investigação também identificou 39 notas fiscais de venda de Keytruda emitidas
pela Nacionalfarma entre janeiro e novembro de 2024. As operações somaram R$
1,5 milhão e tiveram destinatários em sete estados.
Segundo
a Polícia
Civil, mais de 90% dos medicamentos vendidos pela empresa não tinham
registro de compra correspondente nos documentos fiscais e nos controles de
estoque analisados.
Como
funciona o Keytruda
O
pembrolizumabe bloqueia uma proteína chamada PD-1, presente nas células de
defesa do organismo. Alguns tumores usam esse mecanismo para reduzir a resposta
imunológica e escapar do ataque dessas células.
Ao
bloquear essa interação, o medicamento ajuda o sistema imunológico a reconhecer
e combater o câncer.
O
remédio tem indicação para diferentes tipos de tumor, entre eles alguns casos
de câncer
de pulmão, mama, pele e colo do útero.
O papa Leão 14,
por exemplo, passou por uma cirurgia
para retirar um tumor no pulmão. Ele foi apontado como possível
candidato a um tratamento com pembrolizumabe por pelo menos três anos, para
reduzir o risco de a doença voltar.
O
preço de fábrica no Brasil é de cerca de R$ 20,6 mil por frasco de 100 mg/4 ml,
segundo a tabela da CMED (Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos). O
valor efetivamente cobrado pode variar conforme as condições de compra e
comercialização.
Na
rede pública, o pembrolizumabe foi incorporado ao SUS (Sistema Único
de Saúde)
para o tratamento de pacientes com melanoma avançado não ressecável ou
metastático. O acesso, portanto, não abrange automaticamente todos os tipos de
câncer para os quais o medicamento tem indicação.
Em
março de 2026, o Ministério
da Saúde anunciou uma parceria
com a MSD e o Instituto Butantan para transferência de tecnologia e
produção do medicamento no país. O processo deve ocorrer gradualmente, ao longo
de até dez anos.
A
Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS) também avalia
a possibilidade de ampliar o acesso ao tratamento para outros tipos de câncer.
Fonte _ Folha/SP

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