quinta-feira, 1 de agosto de 2024

Hepatites

 


Uma questão mobiliza pesquisadores de hepatites virais que atuam na Amazônia brasileira. Por qual motivo a hepatite delta atinge de forma mais agressiva moradores de comunidades ribeirinhas? Endêmica na região Norte do país, especialmente na área conhecida como Amacro (Amazonas, Acre e Rondônia), a hepatite delta, também chamada de hepatite D, está associada aos quadros mais graves de doença hepática, com risco aumentado para o desenvolvimento de cirrose e câncer de fígado, quando comparada à hepatite B. [Conheça os diferentes tipos de hepatite aqui]

Apesar de reconhecida como a forma mais grave de hepatite viral e apresentar grande número de casos no mundo — cerca de 18 milhões de pessoas — e na Amazônia, a hepatite D é considerada negligenciada por pesquisadores, que apontam que o vírus HDV, causador da doença, há muito ultrapassou os limites da região e faz vítimas em outros pontos do Brasil.

Números do Boletim Epidemiológico sobre Hepatites Virais, divulgados em 2023, pela Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente do Ministério da Saúde, confirmam: dos 4.393 casos diagnosticados de hepatite delta no Brasil entre 2000 e 2022, 73,1% foram registrados na região Norte, seguida por casos nas regiões Sudeste (11,1%), Sul (6,6%), Nordeste (5,9%) e Centro-Oeste (3,3%).

Apesar da incidência em todo o país, a testagem para hepatite delta não é obrigatória na rotina dos serviços de saúde fora da região Norte, o que pode favorecer a subnotificação de casos. Some-se a isso a informação de que a doença é considerada silenciosa, ou seja, tem sintomas raros e inespecíficos, muitos deles similares aos outros tipos de hepatites: cansaço, tontura, enjoo e/ou vômitos, febre, dor abdominal, pele e olhos amarelados, urina escura e fezes claras.

A hepatite delta é um dos temas pesquisados pela equipe do Laboratório de Virologia Molecular da Fiocruz Rondônia. Atentos aos números e à gravidade do problema nas comunidades de difícil acesso na Amazônia, os cientistas identificaram, em 2023, dois pacientes jovens, moradores de Lábrea, no sul do estado do Amazonas, já com estágios avançados da doença. 

Assistidos pela rede de saúde de Porto Velho (já que Lábrea é mais próxima da capital de Rondônia do que de Manaus), os dois irmãos, de 19 e 23 anos, apresentavam características de superinfecção: um deles com câncer no fígado, o outro com episódios hemorrágicos, algo que não é comum em pessoas jovens, como explica a virologista Deusilene Vieira, pesquisadora-chefe do Laboratório de Virologia Molecular da Fiocruz Rondônia.

“A partir do momento que a gente soube desses dois indivíduos, resolvemos avaliar o contexto familiar e o da comunidade onde viviam”, conta a pesquisadora na entrevista que concedeu à Radis. A descoberta motivou a equipe de Rondônia a propor uma parceria com os profissionais do Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA) de Lábrea, que contabiliza 1.400 casos notificados de diferentes tipos de hepatite. [Leia entrevista com Deusilene Vieira aqui]

“Apesar da incidência em todo o país, a testagem para hepatite delta não é obrigatória na rotina dos serviços de saúde fora da região Norte, o que pode favorecer a subnotificação de casos”

Estabelecida a parceria, pesquisadores e profissionais organizaram em dezembro de 2023 uma expedição para conhecer de perto a realidade de algumas comunidades ribeirinhas, incluindo Madeirinho, às margens do rio Purus, onde os rapazes vivem.

Mais do que respostas, o que encontraram foi um cenário complexo, com relatos de casos antigos e recentes — alguns diagnosticados, outros não — além de muitos históricos de mortes cuja causa não foi esclarecida, mas que apresentam indícios que podem ter sido causadas pela hepatite D.

Em junho de 2024, as duas equipes retornaram à Lábrea para ampliar o rastreamento das hepatites virais, desta vez visitando as comunidades de Várzea Grande e Acimã, que também ficam às margens do rio Purus. O objetivo era testar o maior número de pessoas possível e, para os casos com diagnósticos positivos, acompanhar os pacientes, oferecendo tratamento e assistência.

O rastreamento é realizado por meio de um método desenvolvido pelos pesquisadores do laboratório da Fiocruz, que permite quantificar a carga viral dos pacientes — crucial para uma orientação clínica adequada. Um mês após a viagem, o Ministério da Saúde divulgou nota técnica autorizando a implantação piloto do exame de carga viral do vírus da hepatite D ou Delta (CV-HDV) no SUS. [Conheça o teste de carga viral CV-HDV aqui]

Radis acompanhou o trabalho dos pesquisadores nesta viagem, cujo trajeto percorreu parte da Rodovia Transamazônica, navegou por quase 20 horas e visitou duas comunidades às margens do rio Purus. Uma viagem cheia de desafios, que reúne longas distâncias, deslocamentos complexos, paisagens incríveis e histórias de vida únicas e que você acompanha a partir de agora.



Em busca de novos casos

São pouco mais de 2 horas da tarde de segunda-feira, 24 de junho, quando as equipes do laboratório de virologia da Fiocruz e do CTA de Lábrea começam a trabalhar na comunidade de Várzea Grande, distante nove horas de barco da sede do município, no sul do Amazonas. A chuva não dá trégua, mas não há tempo a perder. Mesmo depois de um trajeto exaustivo, o clima entre as equipes é de empolgação. [Leia o relato da viagem aqui]

“Se é para trabalhar, vamos começar”, incentiva Deusilene, já paramentada para atender as pessoas, que pacientemente aguardam sob a estrutura do galpão comunitário, algumas já com os cartões do SUS em mãos. Crianças correm, animadas e curiosas com os visitantes; conversas reúnem pessoas que vivem ali e outras que moram a horas de viagem de barco. A notícia que corre é que ainda há gente a caminho de lá.

A sanitarista Keith Ellen Quintino, gerente do CTA, explica como funciona o trabalho: as pessoas primeiro são atendidas pela equipe do CTA, quando são submetidas ao teste rápido para HIV, sífilis e hepatites B e C; o teste, feito por meio de um pequeno furo no dedo, oferece resultado em poucos minutos.

Aquelas que testam positivo para alguma das hepatites (e as que já foram diagnosticadas em algum momento da vida ou têm histórico familiar da doença) são encaminhadas à equipe do laboratório da Fiocruz Rondônia, quando passam por uma breve entrevista e, com seu consentimento, retiram uma amostra de sangue.

As amostras, acondicionadas de modo a manterem a sua integridade, serão levadas ao laboratório, em Porto Velho, para serem testadas para hepatite delta, utilizando-se o teste molecular quantitativo de carga viral. Os casos positivos serão posteriormente informados ao CTA, que por sua vez comunicará os pacientes para que estes recebam tratamento adequado e acompanhamento no município.

Não há, de fato, tempo a perder. É preciso agilidade para atender tanta gente em tão pouco tempo. Além da longa viagem de volta, é preciso estar atento para que as amostras recolhidas não se percam e o trabalho seja perdido. E não são poucos os relatos sobre hepatites entre as pessoas que estão ali.

Keith explica que o rastreamento será essencial para obter um levantamento atualizado do número de casos no município. Ela explica que não se sabe se as pessoas já diagnosticadas com diferentes tipos de hepatite também estão infectadas com o vírus HDV, causador da hepatite delta. A gestora de Lábrea também sinalizou a importância em localizar cada uma dessas pessoas, ponderando que alguns podem ter se mudado ou mesmo falecido: “É nossa meta localizar estes pacientes e acompanhá-los”, diz à Radis, enquanto cumprimenta conhecidos no centro comunitário.

Entre as pessoas que estão à espera da testagem rápida, a agricultora Raimunda Antônia Inácio da Silva, da comunidade de Bela Rosa, conta que veio até Várzea Grande com o marido Edideus, que é agente comunitário de saúde (ACS), para aproveitarem a oportunidade e fazer os exames. Eles moram a uma distância de dois dias de viagem pelo rio, mas cortaram caminho por um “varador” — espécie de atalho pela floresta — para reduzir o tempo de deslocamento.

Ela relata que uma de suas irmãs tem diagnóstico positivo para hepatite (que ela não sabe dizer exatamente qual), lembra que outros irmãos tiveram “tirícia” — um modo regional de as pessoas falarem sobre a “icterícia”, um dos sintomas de hepatites que deixa a pele amarelada — e fala que perdeu primos no passado com os mesmos sintomas.

“Quero fazer os testes para saber se tenho alguma coisa. Antes eu sentia dor no estômago, hoje não sinto nada. Talvez não tenha mais”, diz ela, admitindo que nunca fez qualquer tratamento. Aos 34 anos, mãe de três filhos, um deles perdido em um acidente na roça com apenas 14 anos, ela revela à Radis que sofre muito mais com a saudade. “A falta dele é muito grande”.

Relatos de outros moradores de Bela Rosa são similares: O agricultor Wellington do Nascimento Dutra, 24 anos, conta que testou positivo para hepatite C ainda criança. Ele diz não lembrar se foi tratado, mas acredita estar curado, já que nada sente e leva “uma vida normal”.

Maria Lopes de Freitas, 48 anos, afirma que tem hepatite B, assim como dois dos seus 13 filhos. Alguns deles nunca foram testados para a doença, informa. Ela se lembra de ter tomado remédios caseiros para a “tirícia” quando criança, mas também não se queixa de nenhum sintoma.

Um vírus silencioso

Os muitos casos relatados de hepatites (passados e presentes) em uma mesma comunidade e/ou na mesma família reforçam a suspeita dos pesquisadores de que muitas pessoas podem estar contaminadas sem saber. O vírus é silencioso, quase não apresenta sintomas, além de ser transmitido por contato (relações sexuais sem camisinha com uma pessoa infectada; da mãe para o filho, durante a gestação, o parto ou a amamentação; ou ainda por meio do compartilhamento de drogas e objetos de higiene pessoal, entre outros). [Leia entrevista sobre o tratamento e acompanhamento de pessoas com hepatites virais aqui]

A preocupação se acentua quando se esclarece que o vírus HDV depende da presença da infecção pelo vírus HBV (da hepatite B) para infectar um indivíduo. A infecção pode ocorrer de duas formas: uma coinfecção simultânea com o HBV (quando a pessoa é infectada com os dois vírus, ao mesmo tempo) ou uma superinfecção (quando o indivíduo já tem uma infecção crônica de hepatite B e posteriormente se infecta com o HDV).

Isso significa que se há muitos casos de hepatite B em uma família ou mesmo em uma comunidade — e lembranças remotas e recentes de episódios graves relacionados a diagnósticos ou sintomas — é possível que haja mais casos, ainda silenciosos, como explica a biomédica Ana Maísa da Silva Passos, entre um atendimento e outro. Enquanto apresentam o termo de consentimento da pesquisa e fazem uma pequena entrevista com cada um dos pacientes, ela e Deusilene investigam possíveis casos de contaminação no mesmo grupo familiar ou comunitário.

Integrante da equipe do laboratório da Fiocruz e doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Biologia Experimental (PGBIOEXP) da Universidade Federal de Rondônia (Unir), onde estuda aspectos genéticos da hepatite delta, Ana esclarece que a busca é por algum “fator humano” que explique a endemicidade e a agressividade do vírus HDV na região do Purus.

Ela esclarece que o genótipo do vírus que circula na região ribeirinha é o mesmo visto em outros lugares da região Norte — onde os pacientes não apresentam quadro tão agravado, o que os leva a supor que a questão está mais ligada à interação entre as pessoas. Não é possível, segundo ela, estimar se esse fator é genético, cultural, social ou mesmo ambiental. “É isso que estamos tentando descobrir”, diz à Radis.



Ciência e saúde em campo

O regime de trabalho na comunidade é de mutirão e a tarde segue sem que as duas equipes tenham descanso. A rotina é conhecida da enfermeira Débora Rocha, de Lábrea, que naquele momento explica ao agricultor Antônio José dos Santos da Silva, 47 anos, morador de Várzea Grande, o que cada uma das equipes está fazendo, enquanto ele aguarda o resultado do teste rápido que tinha acabado de fazer. Ela também diz por qual motivo Antônio não deve estar curado da hepatite B. “Se o senhor teve diagnóstico positivo, então ainda está com o vírus. A hepatite B não tem cura, mas tem tratamento”, diz, orientando para que traga a esposa para se testar.

Ao lado de Débora, a técnica de enfermagem Natilúcia Santos atende Francisca Malveiro da Silva, a Branca. Ela dá dicas para que a moradora de Várzea Grande não se contamine com a hepatite B — não compartilhar batom, aparelho de barbear, chicletes ou escova de dentes, entre outras medidas — e Branca responde, contando que nos 44 anos de vida nunca teve um sintoma. Ela diz lembrar, no entanto, de uma tia que perdeu para a hepatite. “Na época, todo mundo fez exame, três tiveram hepatite A. O meu não deu nada”, diz, sorridente.

Na mesa grande, onde se dividem na coleta de sangue e identificação das amostras, os pesquisadores Jackson Queiroz, Adrhyan Araújo e Kátia Ingrid Maia, da Fiocruz, executam o trabalho de campo que complementa a rotina acadêmica do laboratório. Mesmo depois da longa viagem e de horas em pé, revezam-se no cuidado com cada paciente, na identificação minuciosa de cada frasco coletado. Tudo com muito bom humor e paciência.

As atividades acontecem em ritmo acelerado, já que a noite se aproxima e, com ela, desafios para quem trabalha em plena Floresta Amazônica. Às margens do rio Purus, o centro comunitário é um ponto de luz no meio da escuridão da mata: é preciso estar atento onde se pisa; nuvens de mosquitos se reúnem ao redor de cada lâmpada, outras, deixam marcas em qualquer pedaço de pele desprotegido. As atividades seguem até 10 da noite, quando finalmente é possível tomar um banho, comer alguma coisa e descansar.

O dia seguinte promete: atendendo a um pedido feito mais cedo por moradores de Acimã, as equipes estenderam o trabalho até mais tarde para que pudessem, ainda na manhã do dia seguinte, passar na comunidade, que fica algumas horas rio abaixo, já no caminho de volta. Às 6 da manhã do dia 25 de junho, já estão todos prontos para embarcar rumo a mais um dia de trabalho.

Apesar das condições de tempo não ajudarem, o barco navega lentamente até atracar na praia de areia branca de Acimã por volta das 8 e meia da manhã. Já há algumas pessoas à espera do “pessoal da saúde”. A agente comunitária de saúde Janete Alves da Silva, 49 anos, é a primeira a ser atendida. Casada, 49 anos, seis filhos e seis netos — dois deles morando com ela, Jeferson, de 11 anos, e Camila, de 3 — ela conta à Radis que atende 23 famílias que vivem ali.

Diagnosticada com hepatite delta em 2004, Janete responde às perguntas feitas por Ana Maísa, que investiga seu histórico familiar. Além de algumas taxas alteradas (glicose, pressão alta, algumas dores), a ACS revela que seu pai morreu aos 65 anos “por causa desconhecida”, e que seu irmão também recebeu diagnóstico para hepatites — qual, ela não sabe dizer.

“Vamos testar seu neto, de 11 anos. Se der positivo, é muito provável que a menina de 3 anos também esteja com o vírus”, diz Ana Maísa a Janete, explicando que é possível que o pai dela também tivesse o vírus HDV. A pesquisadora aproveita a situação para demonstrar o que eles encontram em muitas comunidades: relatos imprecisos, diagnósticos não registrados, mortes não investigadas — o que deixa as pessoas desprotegidas.

O próprio relato da ACS deixa lacunas. Ela diz na entrevista que foi vacinada contra a hepatite B; não apresenta sintomas claros da hepatite D. “O que caracteriza a doença é a icterícia ocular, que ela não tem. Tudo isso a gente precisa investigar”, diz Ana, indicando que é preciso mais uma vez testar o sangue da ACS.

“O SUS é uma parceria boa, mas precisava ter mais atendimento aos ribeirinhos”

Janete Alves da Silva, ACS


Uma urgência, o SUS em ação

Janete escuta as orientações enquanto segura a neta Camila no colo. Nada abala a sua calma, como se acompanhasse o ritmo do rio que, ao longe, parece plácido a refletir o céu azul.

“Eu nasci na beira desse rio, me criei e vivo aqui. A vida é boa, não me vejo morando na cidade”, diz, encaminhando-se para a porta de sua casa, pintada de rosa, cor predileta que também é a da camiseta que veste, onde se lê: “Permita-se florescer”.

“O bom de ser ACS é poder ajudar as pessoas”, afirma, sorrindo. O lado ruim, pensa antes de responder, é não poder atender as demandas “dos comunitários” por remédios e consultas. “Médico aqui não vem. Quando a situação é mais grave, eu ligo para a enfermagem, em Lábrea”, diz ela. Acimã, explica Janete, fica a uma distância de dois dias de viagem da sede do município, nas embarcações que eles têm disponíveis. [Para se ter um parâmetro de comparação, a mesma distância foi percorrida pela equipe de atendimento em pouco mais de 4 horas]. “O SUS é uma parceria boa, mas precisava ter mais atendimento aos ribeirinhos”, reclama.

A demanda por testes rápidos e exames já diminui, quando as conversas são interrompidas por um pedido desesperado por ajuda. A família de Denilson Martins da Silva, 16 anos, pede que alguém acuda o rapaz, que está ruim desde o sábado anterior, quando a comunidade preparava a festa em homenagem a São João, cuja decoração ainda é visível.

Naquele dia, o rapaz desmaiou. Desde então, sofre com vômitos, febre e dor de cabeça. “Ele gosta de cantar, mas nem aproveitou a festa”, garante a mãe. Janete confirma. “Ele foi e voltou porque não se sentia bem”, relata. “Eu vou lá ver”, diz Débora, enfermeira de Lábrea. Ela suspeita que o rapaz possa estar com malária.

A situação na casa de Denilson é caótica. Deitado de bruços em um colchão estendido no piso de madeira, ele mal levanta a cabeça, enquanto a avó tenta fazer com que ele tome um pouco de caldo de caridade [caldo tradicional do Norte e Nordeste do país, feito de mandioca, que tem fama de “levantar” doentes]. Ali, a enfermeira é informada que o rapaz se recuperava de catapora. Ela mede a febre e pede um ventilador; a avó recusa, aos prantos, alegando que o neto vai morrer.

A idosa chora, o ventilador é retirado do quarto, mãe e irmãos choram; calmamente, Débora faz os testes rápidos no jovem, que não esboça qualquer reação. Alguns minutos depois, ela revela que resultados deram negativos, o que aumenta sua suspeita para malária.

A equipe decide que não é possível deixá-lo para trás, naquele estado. Como é menor de idade, alguém da família terá que acompanhá-lo até Lábrea, onde será encaminhado a um hospital. “Eu vou”, diz Raimundo Alves da Silva, 53, pai do rapaz.

Um mutirão se forma e logo ele é carregado ao barco, nos braços de outro jovem. Na viagem de volta, Denilson dorme no colo do pai; vez e outra, Débora oferece água e mede a temperatura do rapaz, que pouco a pouco vai baixando. Ela comenta que este tipo de situação é comum, em seu dia-a-dia de trabalho nas comunidades ribeirinhas. “O importante é manter a calma”, recomenda.

A enfermeira fala sobre o prazer que tem em desempenhar o seu trabalho, revelando que toda a sua formação foi feita dentro dos serviços de saúde, como acontece com muitos profissionais que nascem e continuam morando na Amazônia. Ela foi agente comunitária de saúde, técnica de enfermagem e por fim formou-se enfermeira. Diz não querer sair da cidade onde nasceu e revela sua gratidão ao caminho profissional que escolheu: “Sou muito grata ao SUS”, diz, animada.

SUS também é pesquisa e formação

O trajeto de mais quatro horas de rio, em direção à Lábrea, é feito na maior parte em silêncio. Todos aparentam cansaço. Alguns ensaiam momentos de cochilo, apoiando-se no corpo de um colega de trabalho. A ergonomia do barco não ajuda: viaja-se de lado; como o motor se localiza na popa, a proa tende a se inclinar para cima, fazendo com que o corpo fique inclinado para um dos lados. O barulho do motor é constante.

Para compensar o desconforto, as cores que colorem o fim de tarde nas curvas do rio e nas ribanceiras em suas margens oferecem um panorama incrível. Ao longe, um jacaré toma sol em uma das praias, capturado apenas pelo olhar treinado do barqueiro, sem que o restante consiga acompanhar. A floresta é para os poucos que a conseguem ver.

A chegada ao porto de Lábrea é no fim da tarde, mas o trabalho não termina. Enquanto os profissionais de saúde tratam da remoção de Denilson a uma unidade de saúde [a suspeita de contaminação por malária não se confirma, informou a equipe], os pesquisadores da Fiocruz descarregam o material de pesquisa e se preparam para um terceiro turno, no laboratório.

Após uma breve pausa para se alimentar, eles partem para o laboratório municipal de Lábrea para preparar e identificar cada amostra de sangue recolhida nas comunidades. Ao todo, foram atendidas 113 pessoas nos dois dias de trabalho. A tarefa, minuciosa e demorada, só termina às 5 horas da manhã do dia seguinte, dia 26.

Poucas horas depois, Deusilene e a médica hepatologista Eugênia de Castro e Silva — que nos dias de viagem permaneceu em Lábrea, atendendo as pessoas já diagnosticadas com hepatite D — estão em sala de aula, esclarecendo dúvidas de médicos, enfermeiros e técnicos do município, em uma capacitação sobre hepatites virais. Ao fim da manhã, a equipe do laboratório já está na estrada, de volta a Porto Velho. Combinam, no caminho, quem vai passar no laboratório para deixar o material recolhido em campo.

A viagem é cansativa, mas produtiva, já que mostra a importância da integração entre pesquisa e assistência na promoção à saúde na Amazônia, bem como comprova a dedicação de profissionais que, mesmo diante de desafios, comprometem-se em fazer o melhor em seu trabalho.

Fonte_ FioCruz

Vacina HPV

 


O que é HPV?

HPV é a sigla em inglês para o papilomavírus humano. Existem mais de 150 tipos conhecidos desse vírus, sendo a maioria inofensiva.

No entanto, alguns podem causar lesões na pele e na mucosa (normalmente verrugas) e, especificamente dois deles:

Tipo 16

Tipo 18

estão associados ao surgimento de câncer de colo de útero, vagina, vulva, pênis, ânus e orofaringe.


Por que se vacinar contra hpv?

Estudos indicam que cerca de 80% da população sexualmente ativa deve ser infectada pelo vírus em algum momento de sua vida. Além disso, não existe um tratamento específico contra o HPV.

Ainda que sejam tratáveis, as lesões provocadas pelo vírus podem evoluir para doenças graves.

A transmissão do HPV ocorre por via sexual e pode acontecer mesmo sem penetração.

Estima-se que haja entre 9 e 10 milhões de pessoas infectadas pelo HPV no Brasil e que surjam 700 mil novos casos de infecção por ano;

O câncer do colo do útero é o segundo tipo de câncer mais frequente em mulheres que vivem em regiões em desenvolvimento;

Em 2018, cerca de 72 mil mulheres foram diagnosticadas com câncer de colo de útero e 34 mil morreram pela doença nas Américas;

A vacina também protege contra os cânceres de vulva, vagina, peniano, anal, orofaringe, além de verrugas genitais

 

Campanha de Vacinação

Desde 2020, a Organização Mundial da Saúde (OMS) trabalha com a meta de eliminar o câncer de colo de útero e o classifica como um problema de saúde pública mundial. Até 2030, é esperado que:

Quem deve tomar a vacina

- A vacina é indicada para meninas e mulheres de 9 a 26 anos de idade e meninos de 9 a 14 anos;

- A imunização deve acontecer, preferencialmente, entre 9 e 14 anos, quando é mais eficaz, segundo o Ministério da Saúde;

- Homens e mulheres imunossuprimidos de 9 a 45 anos;

- Homens e mulheres com câncer de 9 a 45 anos;

Observação: No SUS, a vacina é liberada para crianças de 9 a 14 anos e para pessoas imunossuprimidas ou pacientes oncológicos. Após publicação da Nota Técnica nº 41 de 2024 do Ministério da Saúde, pessoas de 15 a 19 anos poderão receber uma dose da vacina, e portadores de papilomatose respiratória recorrente (PRR) poderão se beneficiar da vacinação com esquema preconizado em bula, de acordo com sua faixa etária.

Quantas doses são necessárias

A orientação é que a vacina seja aplicada em três doses:

1ª dose

2ª dose: dois meses após a primeira

3ª dose: seis meses após a primeira

A vacina contra o vírus HPV recombinante deve ser administrada por suspensão injetável.

Observação: O Programa Nacional de Imunizações (PNI), por meio da NT 41/2024, recomenda dose única para meninos e meninas de 9 a 14 anos e três doses para imunodeprimidos e vítimas de violência sexual.

Bula..


A importância da informação de qualidade

A meta do Ministério da Saúde é vacinar 80% da população elegível, mas os números estão abaixo do esperado no Brasil.

Os principais motivos da baixa imunização são a desinformação e a disseminação de fake news, como:

- Questionamentos infundados sobre a eficácia da vacina, boatos e mentiras espalhadas por movimentos antivacina e associações enganosas entre a vacina do HPV e religião;

- Segundo o Fundo das Nações Unidas para Infância, a baixa adesão também acontece pela baixa taxa de alfabetização no Brasil;

- A imunização pelo SUS é relativamente nova, oferecida à população desde 2014;

- Estudo realizado pela empresa Famivita mostra que 17% das brasileiras não sabem que o HPV pode ser transmitido sexualmente;

- Poucas campanhas de vacinação contra o vírus.

 


Sobre a Vacina

A vacina do Instituto Butantan é quadrivalente e protege contra o HPV de baixo risco tipos 6 e 11, que causam verrugas anogenitais, e de alto risco tipos 16 e 18, que causam câncer de colo uterino, de pênis, anal e oral.

A indicação é que a vacinação ocorra antes do início da vida sexual, para que homens e mulheres estejam protegidos do vírus desde as primeiras relações e não o transmitam para seus parceiros e parceiras.

Fonte_ Butantan

Além da nutrição: leite materno estimula sistema imunológico, regula pressão arterial e contribui para o bem-estar dos bebês

 


Composto principalmente por água, proteína, gordura e açúcar, o leite materno é considerado o alimento mais eficaz para a nutrição dos bebês. Por conta disso, a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que as crianças sejam exclusivamente amamentadas até os seis meses de vida e preconiza que a ação seja mantida, mesmo após a introdução alimentar, até os dois anos de idade (ou mais) dos pequenos.  

Para além da função nutricional, muito se discute sobre o possível impacto do alimento no desenvolvimento fisiológico da criança. Recentemente, um estudo encabeçado por pesquisadores do Butantan e publicado no Journal of Clinical Nutrition and Dietetics revisou os aspectos sobre a presença de proteínas no leite humano que podem gerar peptídeos bioativos capazes de contribuir na regulação do sistema imunológico, da atividade anti-hipertensiva, da dor e da sensibilidade, além de possuir outras funcionalidades.

A hipótese é que os peptídeos bioativos possam se formar durante o processo digestivo que acontece no estômago do bebê principalmente devido à clivagem da caseína – importante proteína encontrada no leite materno, mas que isoladamente não possui nenhum tipo de efeito. 

Os pesquisadores conduziram experimentos para isolar e caracterizar esses peptídeos, combinando os testes em laboratório com uma extensa revisão literária sobre o assunto. “Utilizamos a tripsina, enzima secretada pelo pâncreas e cuja função é digerir as proteínas ingeridas para ‘mimetizar’ uma ação digestiva similar à dos bebês”, explica o primeiro autor do estudo e pesquisador científico do Laboratório de Bioquímica do Butantan Ivo Lebrun, que desde a década de 1990 vem trabalhando com isolamento e análise de diversos peptídeos.


Substâncias bioativas e suas funções

Uma das evidências apontadas pelos cientistas do Butantan no estudo foi a presença de um grupo de peptídeos que pode estar relacionado à atividade imunoestimuladora nas crianças, contribuindo para ativação de linfócitos – célula de defesa do organismo. “Como os pequenos não possuem esse sistema totalmente calibrado, ter compostos que auxiliam o processo faz com que a ‘configuração’ aconteça de forma mais eficaz”, observa Ivo.

Também foi notada a presença de peptídeos potenciadores de bradicinina. A substância é responsável por inibir a ação da enzima conversora de angiotensina, atuando na degradação do componente que faz com que as paredes musculares de determinadas artérias se relaxem, desempenhando assim um papel valioso na regulação da pressão arterial – inibidores similares já foram encontrados no veneno da jararaca (Bothrops jararaca) e utilizados na formulação de um remédio para combater a pressão alta.

Outro achado mostrou que a clivagem enzimática da lactoferrina (proteína do soro do leite) gera peptídeos antimicrobianos, que apresentam propriedade bactericida capaz de inibir o crescimento de microrganismos como a Escherichia coli, bactéria presente no intestino humano mas que quando desregulada pode provocar doenças como diarreia e infecção urinária. Apesar de parecer algo inofensivo à primeira vista, a diarreia é a terceira principal causa de morte entre menores de 5 anos. Segundo a OMS, a doença mata quase 5 milhões de crianças todos os anos no mundo, principalmente nos países de baixo desenvolvimento econômico e social. 

Já os peptídeos opioides auxiliam na regulação da dor e nos ciclos de sono do bebê. De acordo com o estudo, algumas dessas substâncias apresentam atividade similar ao efeito provocado pela morfina – medicamento utilizado no controle de dores intensas.

Por fim, Ivo ressalta que peptídeos com atividade antitumoral também já foram encontrados no leite materno – evidência que reforça os dados clínicos de que mulheres lactantes têm menor predisposição ao câncer de mama. “Uma das possibilidades discutidas é de que o leite seja, de alguma forma, ‘reprocessado’ pela glândula mamária, dando origem assim aos peptídeos que podem gerar um efeito protetivo contra a doença”, explica. 

 


Alimento customizado

O leite materno é feito “sob medida” para suprir as diferentes necessidades que o bebê irá apresentar, principalmente ao longo do seu primeiro ano de vida. Logo após o nascimento, por exemplo, os recém-nascidos sugam o colostro. Denso e amarelado, o líquido é rico em lipídios e minerais, além de conter um aporte considerável de anticorpos que foram passados pela mãe e protegem o organismo dos pequenos da ação de vírus e bactérias. A fim de garantir a chamada “proteção passiva”, é recomendado que as gestantes atualizem o esquema vacinal da hepatite B e da tríplice bacteriana se necessário, recebam o reforço da vacina antitetânica e os imunizantes contra a gripe e a Covid-19, conforme indicado nas campanhas sazonais.

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Por volta do quinto dia após o parto, o colostro começa a mudar de aparência, assumindo um aspecto mais claro e cremoso. O “leite transicional” apresenta menos anticorpos e maior concentração de proteínas. Nessa fase, o bebê ganha peso rapidamente e inicia sua atividade digestiva – quando então são gerados os peptídeos bioativos. Passados 10 a 15 dias do nascimento, as glândulas mamárias vão então produzir o “leite maduro”. Com menos proteína e mais açúcar, a substância de sabor levemente adocicado é essencial para o desenvolvimento dos tecidos cerebrais e confere o aporte de energia necessário para a criança.

As amostras analisadas pelos pesquisadores do Butantan também comprovaram que o leite humano varia bastante de uma pessoa para outra. Mesmo quando em “estágios” iguais – colostro, transicional ou maduro –, a composição dos líquidos apresenta divergências. “O organismo da mãe produz o leite exatamente de acordo com o que a sua criança precisa. É algo incrível”, aponta a biomédica e gerente de produção do setor de Processamento de Plasmas Hiperimunes do Butantan Aline Auada, também autora do estudo.

 

Agosto Dourado

De acordo com a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), a amamentação é uma forma barata e segura de evitar mais de um milhão de mortes de crianças todos os anos. 

A fim de reforçar a importância do aleitamento materno, os primeiros dias de agosto marcam a Semana Mundial do Aleitamento Materno (SMAM). A data foi criada no ano de 1992 pela Aliança Mundial de Ação Pró-Amamentação (WABA, na sigla em inglês), colocando em pauta assuntos que dizem respeito ao direito à amamentação. No Brasil, desde 2017 a programação se estende por todo o mês de agosto, que ficou conhecido como Agosto Dourado – a cor relaciona-se ao padrão ouro de qualidade do leite materno. 

Em 2024, a WABA estabeleceu o tema “Reduzindo a lacuna: apoio à amamentação para todos”. O objetivo das discussões é suprir as lacunas existentes na sociedade e eliminar as desigualdades que ainda existem no apoio à amamentação. “Como mãe, acredito que amamentar é uma ação completa. Por meio do meu leite, sei que ofereci o que eu tinha de melhor ao meu filho, e vivemos momentos únicos de interação e vínculo profundo”, completa Aline, que além de cientista é mãe do pequeno Marcelo, de 7 anos.

Fonte_ Butantan

ExpoAcre Juruá 2024 - Segunda Noite

 


Ministério da Saúde vai distribuir testes rápidos para enfrentamento à hanseníase

 


Em fevereiro, o Ministério da Saúde deu início à distribuição de 150 mil testes rápidos para o apoio ao diagnóstico da hanseníase no Sistema Único de Saúde (SUS). O anúncio da medida foi feito durante a cerimônia de abertura do seminário “Hanseníase no Brasil: da evidência à prática”, que ocorreu nesta terça-feira (24). A entrega dos testes coloca o Brasil como primeiro país no mundo a ofertar insumos para a detecção da doença na rede pública.

Em sua fala, a ministra da Saúde, Nísia Trindade, destacou a importância da iniciativa. “Hoje, o Ministério da Saúde anuncia a entrega dos testes que são fruto de pesquisas realizadas por instituições brasileiras. O teste rápido pela Universidade Federal de Goiás e o PCR pela Fiocruz e Institutos de Biologia Molecular do Paraná”, explicou a titular da pasta.

As unidades serão destinadas às pessoas que tiveram contato próximo e prolongado com casos confirmados da doença e serão de dois tipos: o teste rápido (sorológico) e o teste de biologia molecular (qPCR). Uma terceira modalidade, de biologia molecular (PCR), também será ofertada pelo SUS e vai auxiliar na detecção da resistência a antimicrobianos. As três tecnologias foram incluídas no Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da doença em julho do ano passado.

A ministra reforçou a importância de se combater a desinformação e o preconceito, de batalhar pela transversalidade de atuação do Ministério e enfatizou que a hanseníase é uma doença curável. "Não é apenas a doença que é negligenciada, mas também as pessoas. Por isso esse seminário é tão importante. O esforço conjunto no combate à infeção é essencial para vencer uma doença que, historicamente, é carregada de estigma", comentou.

Sobre a importância da presença da sociedade civil no evento, Angélica Espinosa, representante da Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente (SVSA/MS), agradeceu às equipes da sociedade que trabalham contra a doença em conjunto com o Ministério da Saúde. “A atuação de vocês é muito importante", afirmou. Angélica também apontou que dar visibilidade à pauta é fundamental, não apenas para vencer a hanseníase, mas também para eliminar "o estigma e discriminação contra os pacientes".

Valorização dos profissionais

No evento, que segue até quinta-feira (26), também foi apresentado o resultado de vivências de sucesso no enfrentamento à infecção. Ao todo, a pasta selecionou, por meio do Edital de Mapeamento de Experiência Exitosas em Hanseníase, 10 dentre 52 inscritos para trazer visibilidade às ações bem-sucedidas ao SUS e estimular os profissionais que atuam na linha de frente.

O evento contou, ainda, com o lançamento do Painel Interativo de Indicadores - Hanseníase no Brasil, com acesso a dados da infecção, com base no levantamento do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan). Os participantes do seminário também receberam os dados atualizados do Boletim Epidemiológico da Hanseníase 2023.

Tecnologia e informação

Outra novidade apresentada no seminário foi o AppHans, que será usado para a construção de uma política pública de maior acesso e com mais tecnologia. O objetivo do Ministério da Saúde é, com o aplicativo, oferecer conteúdo textual e visual para apoiar os profissionais de saúde no diagnóstico, tratamento, prevenção de incapacidade física e reações hansênicas. Durante o evento, os participantes conheceram a versão Beta do aplicativo e tiveram espaço para apoiar o MS com sugestões para consolidação das versões para Android e iOS, antes que a versão final seja disponibilizada para o usuário.

Estratégia nacional de enfrentamento

A perspectiva é que os estados fomentem a implantação do Protocolo Clínico de Diretrizes Terapêuticas da Hanseníase (PCDT), com novos testes nos municípios, apoiados pela definição da linha do cuidado da doença e alinhada à adoção das ações propostas na Estratégia Nacional para Enfrentamento à Hanseníase 2023-2030, de forma a possibilitar o alcance das metas, que são:

1. Reduzir em 55% a taxa de casos novos de hanseníase em menores de 15 anos de idade até 2030 – levando em consideração o ano-base de 2019, 3,44 casos novos por 100.000 habitantes;

2. Reduzir em 30% o número absoluto de casos novos com Grau de Incapacidade Física 2 (GIF2) — quando o paciente apresenta lesões consideradas graves nos olhos, mãos e pés — no momento do diagnóstico de hanseníase até 2030 – levando em consideração o ano-base 2019, que registrou 2.351 casos novos com GIF2 no momento do diagnóstico;

3. Dar providência a 100% das manifestações sobre práticas discriminatórias em hanseníase registradas nas Ouvidorias do SUS.

Para além do Janeiro Roxo

Tradicionalmente, o mês de janeiro é destinado às ações e estratégias de enfrentamento à hanseníase e luta pelos direitos das pessoas infectadas. No entanto, o governo pretende que a pauta seja debatida durante todo o ano e, por isso, o compromisso de levar o diagnóstico, informações, cuidados e o tratamento aos pacientes. “A hanseníase tem cura! O Brasil não pode continuar com a triste referência de segundo país no mundo com maior número de novos casos da doença”, ressaltou, em outra oportunidade, Ethel Maciel, titular da Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente do Ministério da Saúde (SVSA/MS).

A pasta aponta que nos últimos 11 anos, considerando a série histórica da taxa de detecção de 2010 e 2021, a hanseníase apresentou padrão de redução com pequenas mudanças no período de 2017 a 2019, o que pode ser associado ao fomento de capacitações dos profissionais da Atenção Primária à Saúde com a estratégia de busca ativa dos contatos e de casos suspeitos na comunidade, apoiados pela epidemiologia espacial.

Entre 2020 e 2021 ocorreu a maior redução da taxa de detecção geral, no entanto, o número pode estar relacionado aos efeitos da sobrecarga dos serviços de saúde e pelas restrições durante a pandemia da Covid-19. Vale lembrar que durante os dois primeiros anos de crise sanitária do Sars-CoV-2, os diagnósticos da doença reduziram cerca de 35%.

Brasil sem hanseníase

A Estratégia Nacional para Enfrentamento à Hanseníase 2023-2030 apresenta a visão de um Brasil sem a doença. Para tanto, é encorajado e apoiado que os 75,03% dos municípios do país com casos notificados no período de 2015 e 2019 intensifiquem as ações de enfrentamento, buscando envolver os setores de saúde, educação social, bem como incentivo aos 24,97% dos municípios que não apresentaram casos a adotar medidas específicas para aprimoramento da vigilância em saúde e para a prevenção de incapacidades físicas decorrentes da hanseníase. O documento parte de uma construção tripartite, com a participação de diferentes entidades do setor, e busca apoiar as ações de luta contra a hanseníase.

Participantes

O evento contou com a participação de coordenadores estaduais de programas de hanseníase, centros de referência, pesquisadores da doença, movimentos sociais e sociedades médicas. Além das importantes entidades do setor, o Ministério da Saúde também recebeu, como convidados especiais, os representantes do Programa Global de Hanseníase, da Organização Mundial da Saúde, e representante da Parceria Global para Zero Hanseníase (GPZL).

O que é a doença?

Causada pela bactéria Mycobacterium leprae, a hanseníase é uma doença infecciosa e de evolução crônica, que atinge principalmente os nervos periféricos, a pele e as mucosas. A infecção pode causar lesões neurais, danos irreversíveis e depende de um diagnóstico precoce para evitar o desenvolvimento de sequelas.

Em 2022, mais de 17 mil novos casos foram diagnosticados no país, segundo levantamento preliminar realizado pela Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente (SVSA) do Ministério da Saúde. Devido à alta quantidade de registros anuais, a doença ainda é considerada um problema de saúde pública e a pasta estabelece como medida obrigatória o aviso compulsório e investigação dos casos suspeitos.

Fonte_Saúde

Ministério da Saúde lança Campanha Nacional de Amamentação no Acre


 


A amamentação é o único fator que, isoladamente, pode reduzir em até 13% a mortalidade infantil por causas evitáveis. Para fortalecer ações em todo o país, nesta quinta-feira (1º), o Ministério da Saúde lança a Campanha da Semana Mundial da Amamentação 2024. Com o tema "Amamentação, apoie em todas as situações", a iniciativa de conscientização está alinhada aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável voltados à garantia da sobrevivência e ao bem-estar das crianças. O foco é a redução das desigualdades relacionadas ao apoio à amamentação. A pasta anuncia, ainda, o desenvolvimento do Programa Nacional de Promoção, Proteção e Apoio à Amamentação.

"Quero deixar aqui o nosso compromisso como Ministério da Saúde de fazer realmente uma campanha mais uma vez vitoriosa no nosso país, rumo à meta dos 70% do aleitamento com leite materno até os seis meses. O Brasil é referência naquilo que a saúde publica mais sabe fazer: unir conhecimento científico, gestão e mobilização social", destacou no evento a ministra Nísia Trindade. 

O governo federal reconhece as diferentes condições a que milhares de famílias estão expostas no dia a dia e que impactam na amamentação. Por isso, a campanha deste ano tem como objetivo garantir o direito à amamentação, com atenção especial às lactantes em situação de vulnerabilidade, além de apoiar a amamentação em estado de emergência, calamidade pública e desastres naturais. O Ministério da Saúde coordena nacionalmente essa iniciativa global, a principal ação de mobilização social em prol da amamentação.

No último mês, como parte do trabalho realizado pelo governo federal no Rio Grande do Sul, após a emergência das enchentes provocadas pelas fortes chuvas, o Ministério da Saúde enviou 63 litros de leite humano ao estado. Segundo a Rede Brasileira de Bancos de Leite Humano, um pote de 300mL pode alimentar até 10 prematuros ou bebês de baixo peso. Nesse sentido, a doação foi fundamental para ajudar na alimentação e recuperação dos bebês internados nas Unidades Neonatais gaúchas. A medida reforça o objetivo da campanha, em sensibilizar a sociedade sobre a necessidade de apoio à amamentação, especialmente em momentos de maior vulnerabilidade.

Taiame Adorno Rocha, 37 anos, é mãe de um bebê de dois meses. Casada há dez anos, ele conta que precisava dar de mamar e não compreendia o procedimento para posicionar o bebê de forma que ele fizesse o processo de sucção. "Aí me veio um desespero e pensei: agora não vou conseguir dar de mamar a ele. Mas aí chegou uma pessoa incrível, que é a Rosângela, enfermeira do Banco de Leite do Hran [Hospital Regional da Asa Norte, em Brasília], e simplesmente me salvou. Ela me ensinou várias vezes, de madrugada, de tarde, como fazer. Com toda aquela aflição, do meu jeito, consegui amamentar", narra a mãe.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), em torno de seis milhões de vidas de crianças são salvas a cada ano por causa do aumento das taxas de amamentação exclusiva até o sexto mês de vida. Em parceria com a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), a realização da Semana Mundial da Amamentação defende que a população seja informada sobre as desigualdades no apoio e prevalência da amamentação.

Saiba mais sobre a campanha "Amamentação, apoie em todas as situações"

Novo programa vai fortalecer e integrar ações em todo o país

O Ministério da Saúde está trabalhando para lançar o novo Programa Nacional de Promoção, Proteção e Apoio à Amamentação, como parte de um dos eixos estratégicos da Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Criança (PNAISC) no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). Assim, a pasta reforça os princípios da amamentação como direito humano, do acesso universal à saúde, da equidade em saúde, da integralidade do cuidado e da humanização da atenção em saúde em todo o país.

O objetivo do programa, que está em fase final de pactuação com o Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) e Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems), é fortalecer e integrar ações voltadas à temática em todo o país, incentivar que a amamentação tenha início já na primeira hora de vida do bebê e seja continuada até os dois anos ou mais, sendo de forma exclusiva até os seis meses. Além disso, vai estimular ações integradas, transversais e intersetoriais de amamentação nos estados e municípios.

Para garantir o acesso em saúde, o Ministério da Saúde está investindo, ainda, R$ 4,8 bilhões na construção de 36 novas maternidades e 30 novos Centros de Parto Normal. Todas as unidades terão salas de amamentação. As obras acontecem com recursos do Novo PAC Saúde e vão beneficiar cerca de 30 milhões de mulheres.



Meta é chegar a 70% de aleitamento exclusivo até 2030

O Brasil vem evoluindo nas taxas de amamentação ao longo das décadas, mas ainda está abaixo do recomendado. A prevalência de aleitamento materno exclusivo entre crianças menores de 6 meses no país foi de 45,8%, segundo o Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil (ENANI) publicado em 2021. Representa um avanço relevante em cerca de três décadas – pois o percentual era de 3% em 1986.

Na década de 70, as crianças brasileiras eram amamentadas, em média, por dois meses e meio. Agora, a duração média é de 16 meses, o equivalente a 1 ano e quatro meses de vida.

A meta estabelecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) é que, até 2025, pelo menos 50% das crianças de até seis meses de vida sejam amamentadas exclusivamente. E a expectativa é que esse índice, até 2030, chegue a 70%.

O Ministério da Saúde reitera que a amamentação é a forma de proteção mais econômica e eficaz para redução da morbimortalidade infantil, com grande impacto na saúde da criança, diminuindo a ocorrência de diarreias, afecções perinatais e infecções, principais causas de morte de recém-nascidos. Ao mesmo tempo, traz inúmeros benefícios para a saúde da mulher, como a redução das chances de desenvolver câncer de mama e de ovário.

Confira a apresentação de slides da campanha "Amamentação, apoie em todas as situações"

Fonte_Saúde