Muita
gente nunca ouviu falar da doença mão-pé-boca (MPB), mas quem já enfrentou o
problema, não esquece. "Houve noites que a gente chorava junto, de tanta
dor que minha filha sentia", relata a autônoma Viviane Rodrigues, 37 anos.
Ester,
3, contraiu a síndrome de outra criança da
família há cerca de quatro meses e, na ocasião, teve muita febre e foi mais
afetada na garganta —a escola do menino de 8 anos havia passado por alguns
surtos de MPB. "Não foi culpa dele, mas é algo que prolifera muito rápido.
Ela tentava mamar e não conseguia, acho que não conseguia engolir nem
saliva", lembra a mãe.
Altamente
contagiosa, a síndrome MPB é causada por enterovírus como o Coxsackie e
é marcada por febre alta, dor de garganta e lesões vesiculares (bolhas), em
especial na mucosa bucal, língua, mãos e pés.
O Coxsackie é
mais comum nos meses de outono e verão no hemisfério Norte, mas, no Brasil, o
padrão é menos característico, segundo documento científico da SBP (Sociedade
Brasileira de Pediatria).
A
transmissão ocorre entre indivíduos pelo contato com secreções respiratórias
—como saliva, tosse e espirros— e fecais. "A pessoa infectada pode
transmitir o vírus mesmo antes do aparecimento dos sintomas e continuar
eliminando o agente infeccioso por semanas, especialmente nas fezes",
alerta, por meio de nota, o médico Marco Aurélio Sáfadi, presidente do
departamento científico de Infectologia da SBP.
Nas
redes sociais, em postagens sobre o tema, é comum encontrar relatos de pais que
contraíram a doença dos filhos, com sintomas como descamações tão intensas que
levaram a perda das unhas e até quadros em que o vírus chegou ao sistema
nervoso, causando encefalite.
Embora
sejam raros, nos últimos anos, a literatura médica observou em epidemias
na Ásia casos
em que a doença foi fatal, principalmente quando estava presente a cepa viral
EV71. Nos óbitos registrados, o vírus atingiu o sistema nervoso central,
"provocando alterações circulatórias, cardíacas e edema pulmonar",
afirma o relatório da SBP.
Em
geral, os sintomas melhoram em duas semanas, com tratamento que costuma ser
paliativo, focado em amenizar os sintomas. O pediatra e infectologista Marcos
Junqueira do Lago, professor titular da Universidade do Estado do Rio de
Janeiro (Uerj), destaca que é uma doença que "muito raramente pode até
evoluir de uma forma mais grave".
O
docente também diz que o MPB costuma acometer o paciente apenas uma vez na vida
de forma mais intensa. "Não é impossível ter uma segunda infecção, caso o
vírus tenha sofrido alguma mutação, mas normalmente é bem mais branda que a
primeira e não é comum, é bastante raro", afirma Lago.
Por
essa razão, os principais grupos de risco são os de crianças abaixo dos cinco
anos de idade e o de adultos que nunca foram expostos ao vírus.
Como
saber se é pé-mão-boca?
O
médico Marcelo Otsuka, infectologista pediátrico do Hospital Infantil Darcy
Vargas, diz que as lesões características da MPB costumam ser dolorosas e
variam de formato, podendo se apresentar como "bolinhas com líquido
dentro", chamadas vesículas ou pápulas. "E, às vezes, são tipo
caroços pequenos, que podem ser muito dolorosos, frequentemente nas mãos e nos
pés, [além de] úlceras na boca", diz Otsuka.
Outro
sintoma que pode surgir de três a oito semanas após a fase aguda é a
onicomadese, que consiste no descolamento da unha a partir da base. Apesar de
assustar os pais, o quadro costuma melhorar gradualmente com a recuperação
total das unhas em cerca de dois meses, sem necessidade de tratamento
específico.
De
acordo com Lago, o diagnóstico de pé-mão-boca hoje é facilitado por exames como
PCR, técnica de reação em cadeia de polimerase que ficou
popular durante a Covid. "Você consegue fazer exame de secreção
respiratória e detectar o vírus na saliva da pessoa contaminada e,
eventualmente, até nas fezes. Existem também exames de sangue se já teve ou não
infecção pelo Coxsackie", afirma o docente.
Tratamento
Não
existem medicamentos antivirais específicos para a MPB. A doença é, na maioria
das vezes, benigna e autolimitada, durando de sete a dez dias. O tratamento
foca no alívio dos sintomas, como controle da febre e da dor —que tendem a
melhorar logo na primeira semana.
"A
doença não exige internação, existe só observação clínica, acompanhamento,
tratamento sintomático. Caso haja alguma alteração neurológica ou física,
exames vão ser feitos, mas isso é extremamente raro", ressalta Lago.
Além
disso, é recomendado fazer a higiene das lesões para evitar contaminação. O uso
de laser para aliviar sintomas ou melhorar a cicatrização é uma terapia que
precisa ser indicada e acompanhada pelo médico responsável.
Prevenção
Os
cuidados preventivos consistem em hábitos de higiene básicos, como lavar as
mãos sempre que for ao banheiro ou fizer uma troca de fralda. Otsuka recomenda
ainda evitar beijar crianças na boca ou próxima a esta parte do corpo e
"higienizar adequadamente brinquedos e superfícies", uma vez que
crianças pequenas tendem a morder objetos.
"Nos
pequenos, o principal desafio está relacionado à dor causada pelas lesões na
boca, que pode dificultar a ingestão de líquidos e alimentos, aumentando o
risco de desidratação, a complicação mais comum", diz Sáfadi.
A
SBP informa que a MPB "não é considerada de notificação compulsória,
entretanto, a ocorrência de dois ou mais casos relacionados devem ser
notificados como surto."
Crianças
com sintomas também não devem ser enviadas para escola. Para Rodrigues, mesmo
com período de incubação, estar atento é uma medida simples e pode preservar os
colegas de muito sofrimento. "Se você tem um filho em ano letivo e vê que
está com esse problema, não deixe ele ir para a escola, cuide em casa para que
não passe para outra criança", reforça a mãe.
Fonte _ Folha/SP
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