Uma dor
de cabeça inesperada, uma crise
de alergia ou uma cólica durante o trabalho. Ter um medicamento à
mão para situações específicas parece uma medida de bom senso. O problema
começa quando a necessidade de estar preparado para qualquer desconforto
transforma bolsas, mochilas e até carros em pequenas farmácias móveis.
"Levar
um ou dois medicamentos essenciais
na bolsa, como um anti-histamínico para quem tem alergia
grave ou broncodilatador para quem tem asma,
é prevenção legítima", aponta o cardiologista Murilo Meneses Nunes, do
Einstein Hospital Israelita em Goiânia.
O
sinal de alerta aparece quando a pessoa passa a carregar diversos medicamentos
para sintomas hipotéticos e sente insegurança ao sair de casa sem eles.
Analgésicos, antiácidos, anti-inflamatórios, remédios para dormir e outros
itens passam a funcionar como uma espécie de seguro contra qualquer mal-estar futuro.
Quem
sofre de transtorno
de ansiedade de doença — condição popularmente conhecida
como hipocondria —
costuma interpretar sensações normais como sinais de enfermidades graves. Além
disso, busca confirmação constante em consultas, exames, familiares ou
pesquisas na internet. Uma dor
de cabeça leve pode ser vista como algo preocupante. Um
desconforto digestivo passageiro pode gerar medo de uma doença séria. O
resultado é um estado permanente de vigilância.
"A
preocupação assume lugar central na vida da pessoa, afetando trabalho,
relacionamentos e lazer", aponta Nunes.
O
transtorno pode surgir em qualquer um, mas tende a ser mais frequente entre
indivíduos com histórico de ansiedade
ou depressão, pessoas que vivenciaram experiências traumáticas
envolvendo doenças e aqueles com forte necessidade de controle ou traços
perfeccionistas. Tudo para "garantir" que nada de ruim vai acontecer.
Também costuma aparecer com mais frequência na meia-idade, período em que
aumentam as preocupações com o envelhecimento e
quando costumam surgir as primeiras doenças
crônicas.
Outro
comportamento comum é a automedicação preventiva.
Em vez de esperar a melhora natural de um sintoma leve, a pessoa toma remédios
imediatamente para tentar impedir que ele evolua. E isso pode criar um ciclo
vicioso.
"Quanto
mais a pessoa foca nas sensações físicas e se medica, mais ansiosa ela fica. O
ideal é desenvolver tolerância a desconfortos menores e confiar na capacidade
do organismo de se autorregular", aconselha o cardiologista.
Os
riscos escondidos na automedicação
Além
de alimentar a preocupação excessiva com a saúde, o uso frequente de
medicamentos sem orientação também pode trazer consequências físicas.
Anti-inflamatórios não esteroidais (como ibuprofeno e diclofenaco) podem causar
lesões no estômago, sangramento gastrointestinal, danos renais e aumento
do risco
cardiovascular quando utilizados com frequência. Mesmo o paracetamol,
frequentemente considerado seguro, pode provocar toxicidade hepática grave em
doses acima das recomendadas.
Já
medicamentos para dormir vendidos sem prescrição podem causar dependência,
sonolência diurna e quedas em idosos.
"O
problema é que a facilidade de acesso cria a falsa impressão de que esses
medicamentos são inofensivos", alerta o médico do Einstein. Por isso,
mesmo aqueles isentos de prescrição merecem orientação profissional. Nesse
sentido, o farmacêutico pode ajudar a garantir um uso mais seguro e responsável
desses produtos.
O
uso recorrente de medicamentos ainda pode atrasar diagnósticos. Uma dor tratada
constantemente com analgésicos ou
uma azia controlada com antiácidos pode mascarar doenças que precisam de
avaliação médica. Outro risco pouco conhecido são as interações medicamentosas,
quando um remédio interfere na ação de outro.
Em
termos de saúde
mental, vale buscar avaliação médica ou psicológica quando a
preocupação com doenças causa sofrimento ou interfere na vida diária. Sinais de
alerta incluem ansiedade intensa
ao ficar sem medicamentos, pesquisas compulsivas sobre sintomas, consultas
frequentes para o mesmo problema, dificuldade em aceitar resultados normais de
exames e uso recorrente de remédios sem orientação.
Terapias,
especialmente a cognitivo-comportamental, ajudam a reduzir o medo constante de
adoecer e a reconstruir uma relação mais equilibrada com o próprio corpo.
"Quanto
mais cedo o tratamento, melhor o prognóstico. É importante entender que essa
preocupação não é ‘frescura’, é um transtorno real que causa sofrimento
genuíno, mas que responde bem ao tratamento adequado", diz Murilo Nunes.
O
calor também faz mal aos remédios
Nem
sempre o perigo está só na forma de utilizar o medicamento. Às vezes, está em
como ele é guardado.
Deixar
remédios permanentemente na bolsa, no porta-luvas ou no console do carro é mais
comum do que parece. O problema é que calor, luz e umidade podem alterar a
estabilidade química dos fármacos e levar comprimidos, cápsulas e medicamentos
líquidos a sofrerem degradação, reduzindo sua eficácia e, em alguns casos,
comprometendo sua segurança. Dentro de um veículo estacionado sob o
sol, por exemplo, a temperatura pode ultrapassar os 60°C.
Além
disso, a embalagem original, como blister e cartela, desempenha um papel
fundamental na proteção do medicamento.
"Ela
tem por finalidade identificar e proteger o princípio
ativo contra agentes externos presentes na atmosfera, os quais
podem alterar quimicamente ou, até mesmo, contaminar o medicamento",
explica o farmacêutico Alexandre Bechara, doutor em farmacologia pela Unifesp
(Universidade Federal de São Paulo) e coordenador do Grupo Técnico de Trabalho
em Educação Farmacêutica do CRF-SP (Conselho Regional de Farmácia do Estado de
São Paulo).
Guardar
comprimidos soltos também aumenta o risco de erros de identificação e dificulta
o controle da validade. Mudanças de cor, perda da efervescência, comprimidos
que grudam na embalagem e soluções que precipitam podem indicar deterioração. A
recomendação é manter os medicamentos na embalagem original e em temperatura
entre 15-30°C, longe da luz
solar e de umidade.
O
que vale carregar e como transportar
Para
a maioria das pessoas, não existe necessidade de transportar uma grande
quantidade de medicamentos. Faz sentido manter por perto remédios prescritos
para condições crônicas ou situações de emergência previamente diagnosticadas,
como fontes rápidas de glicose para
pessoas com diabetes com hipoglicemia.
Já
medicamentos como antibióticos, anti-inflamatórios, relaxantes
musculares potentes e remédios controlados não devem ser
carregados ou utilizados sem necessidade e orientação adequada. Todo
medicamento tem potencial para causar danos quando usado incorretamente.
"Não
existem substâncias seguras, mas sim formas seguras de utilizar as
substâncias", ressalta o farmacêutico.
Quando
o transporte dos medicamentos é inevitável, alguns cuidados extras ajudam a
preservar a eficácia dos produtos. Nesses casos, Bechara recomenda transportar
os remédios na embalagem original e levá-los na bagagem de mão, nunca na mala
despachada, por conta de variações de temperatura que podem ocorrer, por
exemplo, nos compartimentos de carga dos aviões.
No
caso de fármacos que exigem refrigeração, como insulinas e
algumas canetas de medicamentos injetáveis, o ideal é utilizar bolsas térmicas
apropriadas, com controle de temperatura (deve estar entre 2°C e 8°C) e sem
contato direto com gelo.
Também
é importante levar receitas e documentos médicos, especialmente quando se trata
de medicamentos controlados, além de verificar com antecedência a política da
companhia aérea sobre o transporte desses produtos e permissão para a posse de
substâncias em outros países, em caso de viagens ao exterior.
Fonte _ Folha/SP

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