Embora
a maioria dos brasileiros associe o tabagismo,
o abuso
do álcool e o consumo de produtos ultraprocessados ao
desenvolvimento de doenças
crônicas não transmissíveis (DCNTs) como câncer, diabetes
e problemas
cardiovasculares, apenas um terço defende medidas legais para reduzir
esses fatores de risco.
É o
que revela pesquisa Datafolha encomendada
pela ACT Promoção da Saúde. O levantamento foi realizado em maio último com
2.000 entrevistados com idade entre 16 e 18 anos e outros 1.913 com mais de 18
anos em 117 municípios das cinco regiões do país. A margem de erro máxima é de
dois pontos percentuais, para mais ou para menos.
O
levantamento mostra que a população ainda atribui principalmente ao indivíduo
a responsabilidade por evitar doenças crônicas, deixando em segundo
plano políticas públicas consideradas essenciais por especialistas para reduzir
o consumo de produtos nocivos.
De
acordo com a pesquisa, 92% dos entrevistados relacionam o tabagismo —incluindo
cigarros eletrônicos— às DCNTs. O consumo excessivo de bebidas
alcoólicas é apontado por 83%; alimentação rica em
ultraprocessados, por 80%; sedentarismo e poluição do ar, por 78%.
Quando
questionados sobre as formas mais eficazes de combater essas doenças, 56%
defenderam que as empresas expliquem com clareza os riscos de seus produtos.
Outros 53% citaram campanhas de informação na TV, internet e redes sociais,
enquanto 52% afirmaram que "cada pessoa deve tomar os cuidados para não
desenvolver essas doenças".
Já a adoção de medidas legais, como regulamentações sobre comercialização, publicidade, rotulagem e tributação desses produtos, recebeu apoio de apenas 33% dos entrevistados.
Para
Paula Johns, diretora-executiva da ACT Promoção da Saúde, os resultados
refletem uma visão cada vez mais centrada na responsabilidade individual pela
saúde.
"Existe
uma tendência de colocar toda a culpa nas costas do indivíduo, como se todas as
escolhas fossem completamente livres, ignorando que elas acontecem dentro de
ambientes moldados
por estratégias de marketing, interesses econômicos e ausência de
regulação", afirma.
Segundo
ela, essa percepção dificulta a compreensão do papel das políticas públicas na
prevenção. "É impossível esperar que a indústria informe espontaneamente
os riscos dos próprios produtos. Rotulagem, restrições à publicidade e outras
medidas precisam ser obrigatórias, baseadas em evidências científicas."
A
ACT avalia que o resultado evidencia uma oportunidade para ampliar o debate
sobre o papel da regulação na saúde pública.
Para a entidade, políticas desse tipo não restringem a liberdade individual e
tornam os ambientes mais favoráveis a escolhas saudáveis.
A
pesquisa também mediu a percepção dos entrevistados sobre a influência política
das indústrias de produtos considerados nocivos, e 77% afirmaram que não
votariam em candidatos apoiados pela indústria do tabaco. O índice é de 68%
para candidatos ligados ao setor de bebidas
alcoólicas, 66% para empresas de agrotóxicos e 58% para fabricantes de
alimentos ultraprocessados.
Apesar
disso, Johns afirma que a população ainda não relaciona o financiamento
político à formulação de políticas públicas. "As pessoas dizem que não
votariam nesses candidatos, mas muitas vezes não conseguem identificar quem
recebe apoio desses setores. Falta transparência para fazer essa conexão."
O
levantamento investigou a percepção da população sobre a relação entre mudanças
climáticas e doenças crônicas. Para 81% dos entrevistados, eventos
como ondas de calor, enchentes e aumento das temperaturas elevam o risco de
desenvolver essas doenças.
Desde
2023 a OMS
(Organização Mundial da Saúde) vem alertando sobre o impacto das
mudanças climáticas na saúde, em especial sobre doenças respiratórias e
cardiovasculares.
O
aumento das temperaturas, queimadas e inversões térmicas elevam os níveis de
material particulado no ar, agravando quadros de asma e DPOC
(Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica), por exemplo.
Já o
estresse térmico gerado por ondas de calor sobrecarrega o sistema circulatório,
aumentando o risco de infarto e AVC (acidente vascular cerebral). Secas
prolongadas também dificultam o acesso a alimentos frescos e nutritivos,
impactando o controle do diabetes, da obesidade e da desnutrição.
Segundo
Johns, o resultado reforça a proposta da entidade de adotar uma abordagem
chamada de "prevenção 360º", que integra políticas de saúde e
ambientais no enfrentamento das doenças crônicas, que respondem por 74% das
mortes do mundo. No Brasil, elas são responsáveis por cerca de 54% dos óbitos.
"Quando
melhoramos o ambiente, seja regulatório, urbano ou ambiental, criamos condições
para reduzir diversos fatores de risco ao mesmo tempo", diz.
A
pesquisa teve apoio da Umane,
associação civil sem fins lucrativos e independente que fomenta projetos de
prevenção de doenças e promoção da saúde pública no Brasil.
Para
Thais Junqueira, presidente da Umane, a iniciativa busca ampliar a capacidade
de influenciar políticas públicas e ações intersetoriais. Ela afirma que a
proposta também permite aproveitar conquistas
obtidas em áreas como o controle do tabaco para enfrentar outros
fatores de risco.
Na
avaliação de Junqueira, incorporar a dimensão climática amplia o alcance da
prevenção ao evidenciar que eventos extremos, como ondas de calor e enchentes,
agravam especialmente as doenças cardiovasculares e atingem de forma mais
intensa as populações vulneráveis.
Segundo
ela, a iniciativa pretende subsidiar políticas voltadas à melhoria
da infraestrutura das cidades, ao fortalecimento dos sistemas de alerta
e à preparação da atenção primária para responder aos efeitos do clima sobre a
saúde.
Para
Junqueira, o enfrentamento das doenças crônicas deixa de ser uma agenda
restrita ao setor saúde e passa a envolver áreas como planejamento urbano,
infraestrutura e meio ambiente.
O projeto
Saúde Pública tem apoio da Umane, associação civil que tem como
objetivo auxiliar iniciativas voltadas à promoção da saúde.
Fonte _ Folha/SP


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