Ana Valéria Machado Mendonça
Pesquisadora
de produtividade do CNPq. Professora titular da Faculdade de Ciências da Saúde,
Universidade de Brasília (UnB)
Mary
Hellem Fonseca Pimentel
Doutoranda
em Enfermagem, Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)
Natália
Fernandes de Andrade
Professora
adjunta, Universidade de Brasília (UnB)
Mercedes
de Oliveira Neto
Professora
associada, Universidade do Estado do Rio de Janeiro
The
Conversation
A desinformação
em saúde não é apenas "ruído" digital. Ela se traduz em
atrasos de diagnóstico, abandono de tratamento e conflitos em família. Além de
decisões clínicas mais difíceis no dia a dia porque o paciente chega ao
atendimento com a informação já "pronta", embalada em linguagem
emocional e em formatos fáceis de compartilhar.
Na
porta de entrada dos sistemas de saúde, especialmente na Atenção
Primária à Saúde (APS), essa onda ganha um efeito amplificador.
Aquilo que circula em grupos de WhatsApp e
mídias sociais aparece, poucas horas depois, no balcão da unidade, na visita
domiciliar ou na sala de vacinação.
É
justamente na APS que o vínculo entre profissionais e comunidade tende a ser
mais estável. Agentes Comunitários de Saúde (ACS), enfermeiros e médicos de
família não lidam apenas com sintomas e exames, mas lidam com confiança. E
confiança é um insumo essencial para qualquer política pública em saúde.
Quando
a informação falsa se espalha, ela não só confunde, mas reorganiza prioridades,
desestrutura rotinas e fragiliza a autoridade técnica de quem orienta a
população.
Um estudo comparado com
países de língua portuguesa e espanhola, incluindo Angola, Argentina, Brasil,
Cabo Verde, Chile, Colômbia, Espanha, Guiné-Bissau, México, Moçambique, Peru,
Portugal e São Tomé e Príncipe, descreve como a desinformação desafia
simultaneamente a gestão do conhecimento e a confiança nas autoridades
sanitárias.
Ao
olhar para diferentes contextos sociopolíticos e níveis de acesso digital, a
análise ajuda a entender por que, em certos lugares, a desinformação
"cola" com mais facilidade e como ela reconfigura o trabalho das
equipes de saúde.
Onde
a ciência encontra o território
Participamos
do projeto
Estudos Comparados sobre a Desinformação em Saúde, coordenado pelo
Laboratório de Educação, Informação e Comunicação em Saúde da Universidade de
Brasília (ECoS/UnB), uma rede nacional e internacional, e fomos investigar a
comunicação na Atenção Primária. Entre as instituições brasileiras que
participam do projeto estão as universidades do Estado do Rio de Janeiro e as
federais de Goiás, Paraíba e do Vale do São Francisco.
Em
grandes hospitais, a circulação de informação costuma estar mediada por
protocolos, equipes numerosas e estruturas formais de comunicação. Na Atenção
Primária, a lógica é outra. A infraestrutura cognitiva do sistema de saúde se
organiza perto da vida cotidiana. A orientação, educação em saúde e validação
de informações deveriam ocorrer de forma contínua, personalizada e ancorada na
realidade local.
Na
prática, porém, nosso estudo indica fragilidades importantes. Uma delas é a
exposição diária dos profissionais no território. Os profissionais de saúde da
Atenção Primária relatam o desafio recorrente de corrigir mensagens falsas que
chegam por aplicativos de mensagens e mídias sociais —muitas vezes encaminhadas
"por alguém de confiança" (um parente, um vizinho, um líder
comunitário).
Quando
a informação
falsa vem carregada de medo ou indignação, a correção factual,
sozinha, costuma ser insuficiente. É preciso escuta, habilidade de conversa e
tempo, recursos mais escassos em serviços sobrecarregados.
Outra
fragilidade é o déficit de literacia (letramento) informacional e digital.
Muitos profissionais usam intensamente a internet para se atualizar, mas
relatam insegurança ao avaliar a confiabilidade de fontes na web.
Isso
é relevante porque desinformação não se reconhece apenas pelo
"conteúdo" (o que é dito), mas também pela forma de circulação (quem
publica, como é compartilhado, quais sinais de credibilidade são simulados).
Em
outras palavras, não basta ter acesso à informação, é necessário ter repertório
para julgar a qualidade do que se lê, vê e escuta.
Por
que a vacinação vira alvo preferencial
Um
achado que atravessa países e cenários é o epicentro vacinal, em que imunizantes
surgem como os principais tema da desinformação, alimentando hesitação
vacinal por meio de narrativas de medo, suspeita e desconfiança institucional.
Há
razões estruturais para isso. Vacinas são intervenções coletivas (dependem de
adesão ampla), envolvem crianças (o que mobiliza emoções fortes), são aplicadas
em campanhas de massa (visíveis e politizadas) e, frequentemente, exigem
confiança em instituições científicas e governamentais.
Quando
uma corrente diz que "a vacina faz mal", "não foi testada",
"tem interesses ocultos" ou "causa efeitos graves", não
precisa provar nada com rigor. Basta introduzir dúvida
suficiente para adiar a decisão.
Esse
adiamento, em escala populacional, reduz coberturas vacinais e reabre espaço
para doenças já controladas. Esse cenário provoca impacto direto sobre a
segurança do paciente e a capacidade de resposta do sistema.
Risco
de desinformação e literacia em saúde
Para
além de relatos, a pesquisa buscou mapear um "Risco de Desinformação"
(R) ao cruzar dados de circulação de notícias com níveis de literacia em saúde.
A ideia é simples, mas poderosa. A probabilidade de dano não depende apenas do
volume de conteúdo enganoso, e sim da capacidade de pessoas e instituições
reconhecerem, filtrarem e responderem a esse conteúdo.
No
recorte apresentado, aparecem países com alto risco, como a Argentina (R=0,92),
onde a polarização e
a desconfiança institucional intensificam a vulnerabilidade informacional. A
Colômbia também surge com alto risco (R=0,74), com necessidade de estratégias
mais direcionadas a populações vulneráveis. Portugal aparece com risco médio
(R=0,54) e, apesar de literacia moderada, há carência de foco em competências
digitais específicas para saúde.
O
Brasil figura como risco médio (R=0,52), mas com um detalhe crítico que são os
baixos níveis de literacia na população. Com isso, tendem a transferir para o
agente de saúde o papel de "tradutor" permanente do conhecimento
científico.
Ler
esses números como ranking seria pouco produtivo uma vez que o valor analítico
está em mostrar que a vulnerabilidade é multifatorial e envolve contexto
político, confiança nas instituições, desigualdade educacional, características
do ecossistema digital e qualidade da comunicação pública.
O
indicador funciona como um termômetro para orientar prioridades: onde reforçar
formação profissional, investir em comunicação oficial, intensificar
monitoramento e onde aproximar ciência e comunidade.
Elo
frágil: a experiência do usuário nos sites oficiais
Um
resultado particularmente revelador do estudo é que, em muitos casos, os
próprios sites oficiais do Ministério
da Saúde falham em oferecer resposta rápida e utilizável quando a
população procura orientação.
Problemas
de navegabilidade, atualização irregular e falta de clareza tornam essas
plataformas pouco atraentes no momento em que o usuário precisa de uma resposta
simples e imediata.
O
efeito é quase paradoxal. Quanto mais confuso e lento é o canal oficial, maior
a chance de a pessoa voltar para onde a resposta "parece" mais
acessível: as redes sociais e os aplicativos de mensagens. Justamente onde a
desinformação circula com mais velocidade.
Esse
ponto tem implicações práticas. Enfrentar a desinformação não
é apenas publicar notas técnicas ou desmentidos. É desenhar caminhos de acesso
à informação confiável que sejam tão fáceis de usar quanto as mensagens
enganosas.
Se a
notícia falsa chega em um áudio curto, o contraponto oficial precisa existir em
formato compatível com o cotidiano, em linguagem clara, respostas diretas,
materiais compartilháveis, orientação por etapas e atualização rápida.
O
que os profissionais fazem quando recebem uma fake news
No
Brasil, dados coletados evidenciam comportamentos variados entre profissionais
diante de conteúdos falsos. Uma parcela significativa relata ações proativas.
Mais de 30% afirmam que, ao receberem uma informação falsa, apagam o conteúdo e
alertam quem o compartilhou, numa tentativa de interromper a cadeia de
encaminhamentos.
A
maioria (51,2%) diz verificar previamente se o site que publicou a notícia é
fonte confiável antes de agir, o que indica a busca por critérios de validação.
E sinaliza uma demanda por instrumentos mais objetivos, rápidos e padronizados
para checagem. Há ainda uma fração menor (aproximadamente 9,9%) que adota
postura passiva e apenas ignora a mensagem, sem apagar ou repassar.
Essas
respostas não devem ser lidas isoladamente como "certas" ou
"erradas". Elas refletem condições concretas de trabalho em relação
ao tempo disponível, clareza de protocolos, formação para avaliação crítica de
fontes e, sobretudo, suporte institucional.
Sem
diretrizes claras, o enfrentamento vira uma tarefa individual e, no limite,
desigual; acaba dependendo do repertório e da disposição de cada profissional.
O
estudo converge para uma conclusão central: desinformação não se enfrenta
apenas com correção factual.
A
disputa é também por confiança, tempo de atenção e capacidade institucional de
responder com agilidade. Nesse contexto, fortalecer competências profissionais
torna-se tão importante quanto aprimorar canais oficiais de comunicação.
Este
texto foi publicado no The
Conversation.
Clique
aqui para ler a versão original.
Fonte _ Folha/SP

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