O Ministério
da Saúde anunciou nesta segunda (27) um acordo de compra do cabotegravir,
medicamento antirretroviral
injetável usado para a profilaxia pré-exposição
(PrEP) desenvolvido pela ViiV Healthcare, empresa majoritariamente
controlada pela GSK.
O
acordo será submetido à Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de
Tecnologias no SUS) na próxima
semana, segundo informou o ministro Alexandre
Padilha (Saúde)
durante a conferência internacional de Aids, que
acontece no Rio de
Janeiro.
Padilha
não confirmou publicamente o valor de US$ 400 (R$ 2.032, na cotação desta
segunda) por dose que circulava nos bastidores do evento, mas, questionado
diretamente sobre a cifra, indicou que o teto que o governo brasileiro está
disposto a pagar equivale a no máximo 10 a 12 vezes o valor oferecido a países
como Indonésia e Tailândia —de US$ 40 por dose —, o que aproxima a conta do
valor especulado.
Segundo
o ministro, o número de doses a serem compradas inicialmente ainda não está
definido, pois a negociação com o laboratório segue em aberto. A expectativa do
governo é que, aprovada a incorporação pela Conitec, o medicamento já esteja
disponível "no braço" de pacientes brasileiros ainda neste ano.
A
Anvisa aprovou o cabotegravir em 2023, que passou a ser comercializado no
mercado privado em agosto do ano passado. A injeção é aplicada a cada dois
meses, enquanto na prevenção usual os comprimidos devem ser ingeridos
diariamente. Hoje o medicamento chega ao Brasil com preço de tabela de R$
4.000.
O
anúncio veio acompanhado de um balanço da resposta brasileira à Aids nos
últimos anos. Segundo Padilha, o país registrou em 2024 a maior redução na taxa
de mortalidade por Aids de sua história, com o número de mortes ficando pela
primeira vez abaixo de 10 mil.
Ele
atribuiu o resultado à ampliação de 150% na oferta de medicamentos de PrEP pelo
SUS e ao aumento de 100% nos exames de testagem rápida nos últimos três anos —
o que, segundo ele, permitiu identificar novas infecções e iniciar o tratamento
mais rapidamente. Hoje, 22% das pessoas diagnosticadas com HIV no Brasil
começam o tratamento no mesmo dia da confirmação, e mais da metade inicia em
até 30 dias.
Padilha
listou três frentes que, segundo ele, seguem como obstáculos à resposta
brasileira à epidemia: a discriminação e o estigma contra pessoas vivendo com
HIV, alimentados também por movimentos internacionais que atacam direitos
humanos dessa população; o negacionismo científico e a desinformação em saúde;
e o acesso a novas tecnologias.
"Inovação
sem acesso não deveria ser chamada de inovação. Inovação sem acesso é
injustiça", afirmou. Ele anunciou ainda um novo programa de financiamento
para acelerar o acesso a exames de imagem e outros procedimentos mais complexos
— como órteses e próteses — associados a comorbidades de pessoas vivendo com
HIV, área em que, segundo ele, o sistema ainda é mais lento do que na testagem
e no início do tratamento antirretroviral.
O
ministro também tratou do impasse em torno do lenacapavir, a PrEP injetável de
aplicação semestral da Gilead, aprovado pela Anvisa em janeiro deste ano.
Segundo
Padilha, o Brasil chegou a se colocar disposto a pagar até dez vezes o valor
oferecido a países como Indonésia e Tailândia— mas, mesmo assim, a farmacêutica
teria dito não ser possível oferecer o produto ao sistema público brasileiro
por esse preço.
"Não
vamos drenar o recurso que é fruto dos impostos dos cidadãos brasileiros [em]
interesse de lucro de uma empresa apenas", disse, reiterando que o país
segue disposto a negociar, mas não a pagar valores considerados fora da
realidade orçamentária do SUS.
Padilha
anunciou também que a Fiocruz assinara nesta terça (28) um acordo com a
farmacêutica MSD (a Merck fora dos Estados Unidos e do Canadá) para acompanhar
o desenvolvimento de uma nova PrEP oral de uso prolongado — o MK-8527, ainda em
estudos clínicos, dos quais o Brasil participa.
Segundo
o ministro, a expectativa é que a colaboração evolua, no futuro, para uma
parceria de produção e inclusão do medicamento no SUS.
A
parceria ganhou contornos mais tensos durante a coletiva de imprensa, quando o
ministro foi questionado sobre o fato de o Brasil ter sido excluído do acordo
de licenciamento voluntário para produção de genéricos do MK-8527 anunciado
pela MSD dias antes da conferência—apesar de o país integrar os 16 que
participam dos estudos clínicos Expressive.
Padilha
reconheceu que "não é a primeira vez que o Brasil não é escolhido para
receber essas condições de acesso à medicação", mas afirmou que isso não
impede o país de negociar diretamente com a farmacêutica.
Ele
não respondeu de forma direta se o governo brasileiro cogita adotar o
licenciamento compulsório do medicamento — instrumento previsto em acordos
internacionais que permite a produção de um genérico sem autorização da patente
—, limitando-se a reforçar a recusa a "preços estratosféricos" e a
diferença entre negociar com um sistema público universal, como o SUS, e com
países que dependem de sistemas privados de saúde.
Ele
também citou o papel do Brasil na articulação regional por meio da Opas
(Organização Pan-Americana da Saúde), afirmando que as negociações do país
levam em conta também o acesso de vizinhos latino-americanos às mesmas
tecnologias.
O
anúncio de Padilha ocorreu ao lado de Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral
da OMS (Organização
Mundial da Saúde), e de Jarbas Barbosa, diretor da Opas (Organização
Pan-Americana da Saúde), em coletiva que antecedeu a cerimônia de abertura da
AIDS 2026 — a primeira vez que a conferência internacional acontece na América
do Sul.
Tedros
afirmou que as novas infecções por HIV caíram 42% no mundo desde 2010, e as
mortes relacionadas à Aids, 57% no mesmo período, mas alertou que os cortes de
financiamento internacional colocam esses avanços em risco.
Ele
chamou o lenacapavir de "divisor de águas" na prevenção, mas defendeu
que o momento exige mais recursos, não menos, além de proteção a organizações
lideradas por comunidades afetadas e o fim de leis que criminalizam
populações-chave.
Já
Barbosa destacou que a região das Américas soma hoje mais de 325 mil pessoas em
uso de PrEP, mas ainda precisa de quase 1 milhão de pessoas a mais em acesso à
profilaxia para reduzir de forma consistente as novas infecções — 10% dos casos
de Aids na região ainda são diagnosticados tardiamente.
Por
meio de comunicado, a Gillead, fabricante do lenacapavir, informou que
compartilha a urgência de ampliar o acesso às opções de prevenção do HIV,
incluindo o lenacapavir semestral para prevenção do HIV.
As
discussões sobre acesso na América Latina e no Caribe, diz a farmacêutica,
estão ocorrendo por múltiplas frentes, incluindo conversas regionais em
andamento com a Opas.
Em
relação ao Brasil, a Gilead diz que segue os processos regulatórios, de
precificação e de
reembolso estabelecidos no sistema de saúde brasileiro. Informa também que está
avaliando possíveis oportunidades para apoiar o acesso sustentável de longo
prazo por meio do desenvolvimento de capacidade regional de fabricação em
parceria com organizações locais na América Latina, incluindo o Brasil,
sujeitas a avaliações de viabilidade regulatória, técnica e econômica.
"Nosso
foco permanece na ampliação do acesso ao lenacapavir por meio do compromisso
sem precedentes da Gilead com países de baixa renda e alta carga da doença.
Continuaremos trabalhando com governos, comunidades e parceiros regionais para
ajudar a levar essa inovação às pessoas e comunidades que mais possam se
beneficiar dela", conclui a nota.
Cláudia
Collucci a jornalista viajou a convite da IAS (International Aids
Society)
Fonte _ Folha/SP

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