Mortes
súbitas, como a do corredor Júlio Barreto, 50, durante a SP City Marathon,
neste domingo (26), são raras, mas podem ocorrer mesmo em pessoas aparentemente
saudáveis, especialmente quando há doenças
cardiovasculares ainda não diagnosticadas, afirmam especialistas
ouvidos pela Folha.
A
prova tinha percursos de 21,1 km e 42,2 km. Após a conclusão de seu trajeto,
Júlio relatou dores no braço, sofreu um mal
súbito e caiu e perdeu a consciência enquanto se dirigia a uma
ambulância disponibilizada pela organização do evento.
Segundo
a cardiologista Thaís Pinheiro Lima, especialista em cardiometabolismo, a morte
súbita cardíaca é caracterizada por um óbito inesperado, geralmente precedido
de perda abrupta da consciência, e pode ocorrer até uma hora após o início dos
sintomas.
"Durante
uma corrida de
rua, o esforço físico intenso, a desidratação e o aumento de hormônios
como cortisol e
adrenalina estimulam o sistema nervoso simpático, elevando a frequência
cardíaca e podendo desencadear a ruptura de placas de gordura nas artérias
coronárias", afirma.
Essa
ruptura, segundo a médica, favorece a formação de um coágulo que bloqueia o
fluxo de sangue para o coração, provocando um infarto e, em alguns casos, arritmias
fatais.
A
causa da morte súbita varia. Em atletas jovens, principalmente abaixo dos 35
anos, predominam doenças genéticas ou congênitas, como a cardiomiopatia
hipertrófica. Já entre pessoas acima dos 40 anos a principal
preocupação é a doença arterial coronariana.
"Mesmo
atletas bem condicionados podem ter cardiopatias silenciosas que não dão
sintomas no dia a dia, mas se manifestam à medida que o esforço aumenta",
afirma o médico do esporte João Branco, que atua com formação de atletas no Rio
de Janeiro.
Os
especialistas afirmam que a avaliação médica antes de participar de provas de
longa distância não deve ser tratada como algo protocolar.
"Não
é um mero atestado burocrático, isso é muito importante para salvar vidas, para
identificar problemas prévios", diz Lima.
A
consulta deve incluir investigação do histórico familiar de morte súbita, exame
físico detalhado e eletrocardiograma. Dependendo dos achados, o cardiologista
pode solicitar exames complementares.
O
preparo para provas de longa distância também deve envolver planejamento do
treinamento, com fortalecimento muscular, orientação nutricional e
acompanhamento médico.
Os
médicos alertam que qualquer alteração em relação ao padrão habitual do
corredor exige interrupção imediata da atividade
física.
Entre
os principais sinais de alerta estão dor no peito, sensação de pressão ou
queimação no tórax, falta de ar desproporcional ao esforço, palpitações
persistentes, tontura, visão turva, sensação de desmaio, náuseas intensas,
vômitos, perda da consciência e confusão mental.
"Quando
o corpo demonstra algum sinal que foge da realidade ou do que a pessoa sente
rotineiramente, isso não pode ser ignorado", afirma Branco.
A
queda no desempenho também merece atenção. Se um corredor acostumado a
determinado ritmo passa a apresentar fadiga prolongada, recuperação mais lenta
do que o habitual ou dificuldade para manter o ritmo que antes conseguia
sustentar, é recomendável interromper o aumento da carga de treinos e buscar
avaliação médica.
"Pode
ser uma condição cardiovascular que precisa ser investigada", afirma
Branco.
Apesar
da repercussão provocada por mortes durante competições, os especialistas
afirmam que a corrida de longa distância continua sendo considerada segura para
a maioria das pessoas quando realizada com treinamento adequado e avaliação
médica.
Segundo
Thaís, o risco de sofrer uma parada cardíaca durante a prática esportiva é
baixo.
"O
esporte não deve ser visto como um fator de risco, mas como um instrumento de
prevenção. O desafio é identificar precocemente as pessoas com maior
vulnerabilidade cardiovascular para que possam praticar atividade física com
segurança", afirma.
A SP City Marathon publicou uma nota de pesar sobre o caso em suas redes sociais. A organização afirma que Barreto recebeu manobras de reanimação ainda no local e foi levado para o hospital, mas não resistiu.
Fonte _ Folha/SP


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