A pré-eclâmpsia,
uma condição da placenta que afeta gestantes e bebês, é uma das complicações da
gravidez com maior incidência no mundo. Estima-se que de 3% a 8% de todas as
gestações desenvolvam pré-eclâmpsia, de acordo com a OMS (Organização
Mundial da Saúde),
com 46 mil mortes
maternas por ano e até 500 mil mortes de bebês pela doença.
No
entanto, mesmo sendo uma complicação comum,
suas causas não são bem entendidas. A pré-eclâmpsia parece afetar mulheres de
diferentes tipos e idades, embora a mortalidade
fetal e da mãe seja maior em mulheres negras e em países de baixa
ou média renda.
Por
ser tão heterogênea e envolver
fatores como condições prévias da gestante, idade gestacional e gravidez
de risco, bem como indicadores como acesso a tratamentos adequados de
saúde, estudos que busquem compreender as causas da pré-eclâmpsia
são dificultados.
Mas
uma nova pesquisa, publicada na última sexta-feira (24) na revista
Science Advances, avançou mais em direção aos possíveis mecanismos
materno fetais envolvidos na pré-eclâmpsia e pré-eclâmpsia severa, com
potencial para diagnóstico e possíveis terapias.
Coordenada
por Yara Sanchez-Corrales, bolsista de pesquisa computacional no Instituto de
Saúde Infantil da Universidade College de Londres (UCL) e colegas, a pesquisa
avaliou 20 pares materno-fetais entre as semanas 25 e 37 de gestação (6º a 9º
mês), sendo dez com pré-eclâmpsia inicial ou tardia e dez para o grupo
controle.
Elas
foram pareadas em um esquema de semelhança por idade gestacional, de forma que
cada gestante com a condição tivesse sua correspondente na exata semana
gestacional do grupo controle. Isto porque as mudanças hormonais, celulares e
teciduais envolvidas na gravidez mudam a cada semana.
As
pacientes foram recrutadas em hospitais do fundo fiduciário NHS Foundation
Trust, organização semi-autônoma que gerencia parte da rede hospitalar pública
britânica.
Selecionado
o grupo clínico, os pesquisadores analisaram amostras teciduais maternas e
fetais de quatro locais diferentes: membrana corioamniótica (CAM) e vilosidades
placentárias e placa basal (PVBP), tecidos associados ao feto (placenta); e
miométrio e células mononucleadas do sangue periférico (PBMC) maternas.
No
início da gravidez, algumas células placentárias, conhecidas como trofoblastos,
se diferenciam em trofoblastos sinciciais (células maduras), que vão entrar em
contato com o sangue da mãe, e trofoblastos das vilosidades externas (EVT), que
entram na parte mais externa do tecido uterino, remodelando a vascularização
sanguínea.
No
artigo, os cientistas afirmam que a pré-eclâmpsia está associada a uma baixa
invasão dos EVTs no útero, causando um defeito na remodelação vascular, o que
leva a estresse na placenta, isquemia e disfunção endotelial.
A
partir de análises de expressão gênica, sinalização celular e da interface
tecidual materno-fetal, o estudo conseguiu identificar também novos marcadores
celulares associados à forma mais grave da pré-eclâmpsia, dentre eles a hipóxia
(baixo oxigênio celular), a inflamação e a fibrose (cicatrização de tecido).
Outro
resultado diz respeito ao papel das células imunológicas da mãe, especialmente
nos casos de pré-eclâmpsia grave. Na pesquisa, foram identificados marcadores
proteicos de ativação do sistema imune, como interferons (IFN-1) e interleucina
6 (IL-6), que podem acabar produzindo uma resposta
inflamatória exacerbada. Além disso, o mecanismo de autorregulação de
componentes anti-inflamatórios, como das interleucinas e citocinas 6, estava
reduzido ou desativado.
Células
que devem atuar nesse controle, como os macrófagos (que fazem a apoptose
celular), apresentaram proliferação acentuada na fase inicial da pré-eclâmpsia
tanto no miométrio como na membrana corioamniótica, comportamento oposto ao
observado nos tecidos placentários, de acordo com os dados.
Isso
sugere que a morte dessas células na placenta provoca a fibrose, ao mesmo tempo
que leva ao aumento de macrófagos nos tecidos maternos para combater a
inflação. "Tais fenômenos marcam a perda da homeostase desses tecidos sob
a condição de pré-eclâmpsia grave", escrevem os autores.
Por
fim, a baixa adesão celular na barreira
materno-fetal e a inflamação
alterada no endotélio contribuem para o estágio
inicial da pré-eclâmpsia, afirmam os cientistas.
O
estudo, porém, tem limitações, conforme anotado pelos próprios autores, em
especial o baixo número de participantes (20) e a possibilidade de que algumas
células maiores não tenham sido identificadas nas análises de transcriptômica.
O uso da tecnologia em resoluções ainda menores (a nível subcelular, por
exemplo) pode ajudar a revelar novos marcadores da doença, escrevem.
Com
uma ampliação da coorte inicial, os pesquisadores corroboraram os achados por
meio da detecção dos marcadores usando uma técnica que busca fragmentos
proteicos de inflamação na fase inicial da doença. Segundo os autores, esse
achado pode abrir novos caminhos para exames
diagnósticos de pré-eclâmpsia, contribuindo assim para a detecção
precoce da condição e para a prevenção.
"Em
conclusão, apresentamos novos mecanismos de desenvolvimento de pré-eclâmpsia
grave, doença sem opções terapêuticas, revelando respostas específicas de
tecidos e células que poderão ser consideradas no futuro em abordagens
terapêuticas. Dada a gravidade das disfunções iniciais moleculares em
comparação com a sua apresentação tardia, uma intervenção oportuna durante a
gestação traz benefícios para a mãe e o feto e poderia alterar o prognóstico
extremamente desfavorável da pré-eclâmpsia grave", dizem.
Fonte _ Folha/SP

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