Em
um momento em que as estratégias de prevenção contra o HIV brilham como nunca,
com injeções semestrais e a promessa de um comprimido mensal, um estudo
publicado nesta semana na revista Nature e divulgado durante a conferência
internacional de Aids no
Rio de Janeiro trouxe um lembrete silencioso de que a ciência não desistiu do
objetivo mais ambicioso: uma
vacina.
O
trabalho descreve o que os autores chamam de primeira demonstração de que uma
vacina baseada em uma nova estratégia ("germline-targeting") consegue
induzir anticorpos amplamente neutralizantes contra o HIV circulando no sangue
de animais vacinados —não apenas em células de memória, como haviam mostrado
estudos anteriores.
A
pesquisa, conduzida por pesquisadores do Scripps Research Institute, da
Califórnia (EUA), e da IAVI (International Aids Vaccine Initiative), com
participação do Fred Hutchinson Cancer Center e da Emory University, foi feita
em macacos-rhesus.
A
dificuldade histórica em desenvolver uma vacina contra o HIV está na altíssima
variabilidade genética do vírus. A estratégia tenta contornar isso ensinando o
sistema imunológico, em etapas, a produzir os chamados anticorpos
amplamente neutralizantes, moléculas raras encontradas naturalmente em
algumas pessoas com HIV, capazes de neutralizar múltiplas variantes do vírus ao
mirar regiões que ele não consegue modificar facilmente.
Para
Vincent Muturi-Kioi, pesquisador queniano à frente do programa de
desenvolvimento de vacinas da IAVI, o avanço reforça por que uma vacina
continua sendo necessária, mesmo diante dos ganhos recentes da prevenção.
Segundo
ele, o
número de novas infecções por HIV no mundo caiu de 2,5 milhões por
ano em 2004 para cerca de 1,2 milhão hoje —mas isso não é suficiente. "A
meta não é controlar a epidemia. A meta é eliminá-la", disse, avaliando
que uma vacina será necessária para levar o mundo até o patamar zero de novas
infecções. Ele também citou o uso de plataformas de mRNA como um acelerador do
programa, permitindo produzir e testar candidatos vacinais com mais velocidade
e a um custo menor.
Questionado
sobre por que a estratégia de germline-targeting é considerada um ponto de
virada histórico no campo, o pesquisador explicou que ela treina o sistema
imunológico para mirar partes do vírus que não mudam, ao contrário de
abordagens tradicionais, que dão ao patógeno mais brechas para escapar da
resposta imune. Segundo ele, se a técnica funcionar para o HIV, poderá ser
aplicada a outras doenças de alta variabilidade genética, como o ebola.
O
avanço na pesquisa básica ocorre, porém, num momento em que a profilaxia
pré-exposição (PrEP) vive sua fase de maior sucesso. Segundo Esper
Kallás, infectologista e diretor do Instituto Butantan (SP), que esteve na
conferência, isso torna cada vez mais difícil, do ponto de vista prático,
justificar e desenhar novos ensaios clínicos de vacina.
Com
opções de longa duração cada vez mais eficazes e convenientes —do cabotegravir ao lenacapavir,
passando por um novo comprimido de dose mensal ainda em teste—, Kallás pondera
que fica mais difícil demonstrar, de forma estatisticamente conclusiva, que uma
vacina adicionaria proteção significativa numa população que já tem acesso a
uma PrEP altamente eficaz.
"Como
que você vai provar que uma vacina é útil na disponibilidade de PrEP?",
questionou, descrevendo esse tipo de desenho de estudo como "extremamente
difícil".
Ainda
assim, ele defende que a vacina continua tendo um lugar. Isso porque a PrEP
depende de identificação de risco, mas cerca de metade das pessoas que adquirem
o HIV hoje não
pertence aos grupos tradicionalmente considerados de maior vulnerabilidade.
Kallás
citou como exemplos uma mulher casada infectada pelo marido, um homem
heterossexual com múltiplas parceiras ou um casal gay monogâmico em que um dos
parceiros tem um relacionamento paralelo —situações em que nem o paciente, nem
o sistema de saúde identificam
a necessidade de PrEP a tempo.
Ele
observou ainda que o estigma
em torno da prevenção vem diminuindo. Citou até aplicativos de
relacionamento que já permitem à pessoa declarar se usa PrEP ou se vive com HIV
em carga viral indetectável. Mas reconheceu que a circulação do vírus fora do
padrão de risco tradicional seguirá sendo o principal argumento a favor de uma
vacina.
Para
Kallás, o campo ainda enfrenta uma lacuna biológica de fundo: não existe hoje
nenhuma vacina contra o HIV comprovadamente eficaz. Também não se sabe que tipo
de estratégia poderia oferecer proteção prolongada —de dois, cinco ou dez
anos—, muito além dos cerca de seis meses hoje oferecidos pelas melhores
opções injetáveis de PrEP.
Segundo
ele, a área vem convergindo cada vez mais para candidatos capazes de induzir
anticorpos neutralizantes de amplo espectro e alta potência, o que é exatamente
a lógica por trás do estudo com macacos publicado esta semana. Isso representa
um retorno ao foco em anticorpos após anos em que parte da pesquisa apostava
mais na chamada imunidade celular.
Mesmo
reconhecendo que o sucesso da PrEP poderia, em tese, tornar uma vacina
dispensável, Muturi-Kioi disse que essa seria uma boa notícia, não um fracasso.
"Significaria que já teríamos vencido, atingido nossa meta, sem precisar
de uma", afirmou. Ele descreveu o trabalho atual como uma preparação para
o cenário em que a expansão da PrEP não for suficiente para impedir a
reemergência do vírus.
A
meta da IAVI, explicou o pesquisador, é iniciar um ensaio de eficácia de fase 3
para a próxima geração de candidatos vacinais dentro da próxima década —desde
que os sinais já observados em animais se confirmem também em humanos.
Como
foi o estudo com macacos
No
estudo, 24 macacos-rhesus receberam entre cinco e sete doses ao longo de mais
de dois anos, mirando uma região do envelope viral chamada supersítio
V3-glycan. O primeiro imunizante recrutou as raras células precursoras dos
anticorpos desejados. Os reforços seguintes, com formulações cada vez mais
parecidas com cepas reais do HIV, guiaram essas células por sucessivos ciclos
de maturação.
Ao
final, doses com nanopartículas contendo múltiplas cópias do antígeno viral
converteram a resposta de memória em anticorpos efetivamente circulantes. Em
mais da metade dos animais que completaram o regime, a vacinação gerou
anticorpos com até 67% de amplitude de neutralização em relação a um anticorpo
humano de referência. Em 44% dos casos, essa atividade também apareceu no
sangue —o que de fato indicaria proteção contra uma exposição real ao vírus.
O
animal com melhor resposta atingiu 84% de amplitude, patamar que os autores
estimam corresponder a uma proteção entre 75% e 90% contra diferentes cepas do
HIV, comparável ao de "neutralizadores de elite" —o pequeno grupo de
pessoas que desenvolve naturalmente esse tipo de anticorpo após a infecção.
Porém,
os próprios pesquisadores reconhecem limitações. O regime testado exigiu sete
doses ao longo de dois anos, cronograma inviável para uma vacina de uso amplo,
e a durabilidade da proteção ainda não foi avaliada. O primeiro componente do
esquema, batizado N332-GT5, já está sendo testado isoladamente em um ensaio
clínico com humanos.
Cláudia
Collucci a jornalista viajou a convite da IAS (International Aids
Society).
Fonte _ Folha/SP

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