sábado, 28 de setembro de 2013

Terra dos Nauas...


Cruzeiro do Sul: A cidade que nasceu na Boca do Moa

Amanhã Cruzeiro do Sul comemora 109 anos de fundação. A cidade foi, provisória e inicialmente, instalada no local denominado de Invencível, na confluência dos rios Juruá e Moa (Boca do Moa). Ali, o seu fundador, o marechal Gregório Thaumaturgo de Azevedo fez construir algumas barracas em madeira e cobertos de palha, `a margem direita do rio Juruá, para acolher militares e servidores civis destacados para servir ao Departamento do Alto Juruá . 

Foi no Invencível, por exemplo, que no dia 12 de setembro daquele ano (16 dias antes de fundação oficial de Cruzeiro) que se instalou, numa barraca, o foro do distrito do Alto Juruá, tendo como juiz o magistrado Fernando Luiz Vieira Ferreira, em solenidade da qual tomaram parte várias autoridades, dentre as quais o próprio Marechal Thaumaturgo.

Arquilau de Castro Melo 

No dia 28 de setembro de 1904, no mesmo dia de inauguração da cidade, Thaumaturgo baixou decreto transferindo-a da Boca do Moa para a localidade Centro Brasileiro aonde aconteceu a solenidade. Em discurso Thaumaturgo, vigoroso defensor da extinção da escravidão no Brasil explica por que escolheu data:
“Hoje, data também memorável, anniversitaria de um grande facto político-social, alcançado depois de gloriosa luta intellectual (…)no parlamento do imperio pelo(…)da saudosa memória, (…)Maria da Silva Paranhos, (…)deliberei decretar a fundação sede permanente da Prefeitura a que consta o nome de “Cruzeiro do Sul”, para commemorar n’esta data o anniversario da inesquecível lei n. 2040 de 28 de setembro de 1871 e em honra do imortal feitor dessa grandiosa lei.”

A Lei 2040 é conhecida como a lei do Ventre Livre, promulgada em 28 de setembro de 1871 (assinada pela Princesa Isabel). Esta lei considerava livre todos os filhos de mulher escrava nascidos a partir da data da lei. Ela foi um marco para a futura abolição da escravatura que ocorreu somente em 1888.

Mas mesmo depois de fundada, como capital do Departamento do Alto Juruá, cujo território se estendia até o hoje município de Feijó, Cruzeiro do Sul tinha apenas o status de vila. Somente depois de quase dois anos, em 31 de maio de 1906 é, então, elevada à condição de cidade, pelo seu fundador ao argumento de que já tinha “proporções superiores às de uma Villa e até às de muitas cidades do interior do Brazil”.

UM HOMEM DE CARÁTER

Thaumaturgo nasceu no estado do Piauí. Era engenheiro, bacharel em matemática, bacharel em direito e galgou todos os postos do Exército brasileiro até chegar ao posto de marechal. Foi Secretário da Comissão de Limites entre Brasil e Venezuela, governador dos Estados do Piauí e Amazonas e prefeito do Departamento do Alto Juruá. Seus biógrafos, invariavelmente, o classificam como homem honrado, inteligente e enérgico.
O diplomata português Manuel Fran Paxeco que foi secretário do Departamento do Alto Juruá, na gestão de Thaumaturgo em uma obra intitulada “Um Homem de Caráter” nos diz um pouco de como era o marechal:
“Não nos iludimos. O Dr. Thaumaturgo é um homem de caráter – em toda a extensão da palavra. A sua energia no castigo dos bandoleiros que por aqui têm aparecido ficará gravada em caracteres de fogo nos anais da República da Amazônia…”,

De fato, a história registra vários momentos em que Thaumaturgo deu provas de seu patriotismo e de sua virilidade. Logo que tomou posse como prefeito cuidou de expulsar “à bala” os peruanos que instalaram uma alfândega para cobrar impostos, principalmente da borracha, na foz do rio Amônea.

Quando convocado pelo governo federal para demarcar a fronteira do Brasil com a Bolívia, antes revolução acreana, Thaumaturgo recusou o convite argumentando que a demarcação como se desenhava iria prejudicar milhares de brasileiros que exploravam o corte da seringa. Por esse ato de insubordinação foi punido pelo exército.

Thaumaturgo estava sempre envolvido em polêmicas. O insuspeito historiador e jornalista Craveiro Costa, que foi secretário de educação na gestão de Thaumaturgo relata que os prefeitos dos departamentos eram arbitrários e violentos mas que ele “foi um prefeito honesto e trabalhador, com que atenuava as suas violências…”.

Com a experiência que adquirira como governador dos Estados do Piauí e Amazonas planejou toda a cidade prevendo ruas e avenidas largas, praças públicas, um museu e até mesmo um planetário. Instituiu uma caixa de previdência estabelecendo impostos que deveriam ser recolhidos por aqueles que explorassem o trabalho de índios menores de idade. Criou uma lei trabalhista para reger as relações entre os seringalistas e seringueiros e regulou o livre trânsito dos regatões através dos rios, contrariando os interesses dos seringalistas que entendiam ter a posse dos rios que cortavam seus seringais.

O fundador da capital do Departamento do Alto Juruá, bem assim como os demais prefeitos designados na ocasião para administrar os dois outros Departamentos (Alto Purus e Alto Acre), como era então dividido o território tinham amplos poderes para escolher, inclusive, os nomes das cidades. O general Siqueira de Menezes, do Departamento do Alto Purus, resolveu homenagear um amigo e também militar dando o nome de Sena Madureira, à capital do Departamento do Alto Purus. Thaumaturgo foi mais feliz com Cruzeiro do Sul.

*Arquilau de Castro Melo é desembargador e estudioso da história regional.

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