A
chikungunya é uma doença viral, transmitida pelos mosquitos Aedes aegypti e
Aedes albopictus, que vem chamando a atenção de autoridades de saúde no Brasil
e no mundo.
Até
agosto de 2025, aproximadamente 317 mil casos e 135 mortes foram relacionados à
chikungunya em 16 países e territórios das Américas, África, Ásia e Europa, de
acordo com o Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças (ECDC).
Destes, quase 120 mil casos e 106 mortes foram relatados no Brasil, o país com
a maior incidência e o maior número de óbitos pela doença das Américas, segundo
a Organização Panamericana de Saúde (OPAS).
“A
chikungunya é uma doença endêmica no Brasil, com surtos mais intensos em
períodos chuvosos e regiões de clima quente, e com o mosquito adaptado às áreas
urbanas. Por isso, precisamos manter atenção constante, mesmo fora de grandes
epidemias, porque o risco sempre existe”, explica o gestor médico do Butantan,
Eolo Morandi.
No
Brasil, em 2025, foram notificados mais de 125 mil casos e 121 óbitos, segundo
o Painel de Monitoramento de Arboviroses do Ministério da Saúde.
Os estados de Mato Grosso (49.377), Mato Grosso do Sul (13.485) e Rondônia
(4.671) registraram os maiores números de casos prováveis e os maiores
coeficientes de incidência de casos por 100 mil habitantes no país.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta para o
risco de uma epidemia global de Chikungunya devido a três fatores: mudanças
climáticas, aumento da urbanização e de viajantes para áreas endêmicas. O
Brasil responde por 96% dos casos confirmados e 72% das mortes nas Américas,
segundo o boletim mais recente da organização.
"A
chikungunya não é uma doença amplamente conhecida, mas foi detectada e
transmitida em 119 países em todo o mundo, colocando 5,6 bilhões de pessoas em
risco", disse Diana Rojas Alvarez, médica da OMS e líder da equipe de
arbovírus, em Genebra, durante anúncio em julho deste ano.
Como
diferenciar a dengue da chikungunya?
A
chikungunya e a dengue podem ser facilmente confundidas no exame clínico, por
terem sintomas semelhantes. Ambos os vírus são transmitidos no Brasil pela
picada do Aedes aegypti e se manifestam através de febre, dor
de cabeça, dor atrás dos olhos, vômitos e mal-estar. No entanto, a principal
diferença, segundo Eolo Morandi, está na dor nas articulações típica da
chikungunya.
“A
chikungunya causa dores articulares muito mais intensas e prolongadas. É comum
o paciente sentir dor até nas grandes articulações e ficar bastante debilitado
por semanas ou meses. Já a dengue costuma causar quadros mais graves e
internações, mas seus sintomas duram menos tempo”, explica.
O
nome chikungunya deriva de uma palavra na língua Kimakonde, do sul da Tanzânia,
que significa “aquilo que se curva” e descreve a postura
contorcida de pessoas infectadas com fortes dores nas articulações. A doença
foi descrita pela primeira vez na Tanzânia em 1952 e o vírus foi isolado pela
primeira vez na Tailândia em 1958.
“Em
alguns casos, especialmente entre pessoas com comorbidades como diabetes,
hipertensão, obesidade ou doenças reumatológicas, as dores podem se tornar
crônicas, persistindo por três a cinco anos e comprometendo a qualidade de
vida”, afirma o gestor médico.
Diagnóstico
e evolução da doença
O
diagnóstico é feito tanto clinicamente, pelos sintomas, quanto
laboratorialmente. “Nos primeiros 5 a 7 dias da infecção, pode-se usar o exame
de sangue PCR viral para determinar a presença do vírus. Após 10 a 15 dias, a
identificação pode ser feita pela presença de anticorpos no organismo, que
confirmam o contato com o vírus”, explica Eolo Morandi.
A
preocupação central é a cronificação das doenças articulares, ou seja, quando
os sintomas de dor nas articulações se tornam duradouros ou permanentes.
Pessoas que apresentam a doença articular nos primeiros 7 dias e têm
comorbidades associadas correm mais o risco de ter dores crônicas. As
comorbidades que predispõem a essa condição incluem diabetes, hipertensão,
obesidade, artrites reumatoides ou doenças neurológicas.
“Quando
o quadro se cronifica, ele pode persistir por um longo período, até 36 meses.
Essa persistência, mesmo após o período inflamatório agudo, debilita e limita a
pessoa, comprometendo suas atividades diárias e laborais”, afirma Eolo Morandi.
Apesar
de geralmente apresentar um quadro leve e não levar a hospitalizações, a
chikungunya pode deixar marcas duradouras. “Quem tem chikungunya não esquece,
pois ela causa um quadro bem típico, com potencial complicações de longo prazo
e a pessoa fica muito debilitada”, ressalta o médico.
Quem
corre mais risco de complicações?
A
chikungunya pode causar complicações ainda mais sérias em recém-nascidos e em
idosos. Os bebês ainda não têm o sistema imunológico completamente formado,
enquanto os idosos costumam apresentar uma resposta imune enfraquecida, o que é
característico dessa fase da vida.
Estudos
também sugerem que mulheres -que no Brasil representam 60% dos casos- têm
maior chance de apresentar dores articulares severas, possivelmente por fatores
hormonais e imunológicos. Porém, são necessários mais estudos para que essas
associações sejam confirmadas.
“As
mulheres costumam buscar mais o serviço de saúde, e os casos acabam sendo mais
diagnosticados entre elas”, ressalta Eolo, citando outro fator que pode estar
relacionado à maior notificação dos casos de chikungunya em mulheres.
O
impacto do clima no aumento de casos
As
mudanças climáticas também influenciam a expansão da chikungunya. “Com o
aumento das temperaturas em zonas temperadas, os mosquitos como o Aedes
albopictus começaram a se multiplicar mais intensamente na Europa e
nos Estados Unidos”, explica Eolo Morandi.
Enquanto
no Brasil o vetor da Chikungunya é o Aedes aegypti, em locais como
a América do Norte e a Europa os casos estão mais atrelados a picadas do Aedes
albopictus.
Vacinação
pode conter surtos futuros
Justamente
pelo impacto das mudanças no clima é que uma vacina contra a chikungunya se
mostra cada vez mais necessária.
Em
abril de 2025, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou a
vacina contra a chikungunya desenvolvida pelo Instituto Butantan em
parceria com a farmacêutica Valneva.
“O
objetivo no Brasil é conter surtos e reduzir o impacto da doença. Como somos um
país endêmico, a vacinação tem um papel importante no controle epidemiológico”,
afirma Eolo Morandi.
Prevenção
continua sendo essencial
Enquanto
a vacina não chega à população, o controle do mosquito continua sendo essencial
para evitar surtos.
“A
vacina é uma ferramenta poderosa, mas não substitui os cuidados com o mosquito.
O combate ao vetor é responsabilidade de todos”, reforça o gestor médico.
Para
evitar a proliferação do inseto, evite deixar água parada em vasos, caixas e
pneus; use repelente e roupas que cubram braços e pernas; mantenha o quintal
limpo e calhas desobstruídas; colabore com as ações de fiscalização e controle
do mosquito.
Fonte _ Butantan
.jpg)
Nenhum comentário:
Postar um comentário