O
Brasil reduziu de forma significativa o número de crianças zero-dose, que não
tomaram a primeira dose da vacina com componente DTP. No Brasil, ela é
representada pela pentavalente, que protege contra difteria,
tétano, coqueluche, hepatite
B e infecções causadas pelo Haemophilus influenzae
tipo b (Hib), bactéria causadora de meningite
e pneumonia.
Segundo
o relatório das estimativas OMS (Organização
Mundial da Saúde) – Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) de Cobertura
Vacinal Nacional (WUENIC), divulgado na terça-feira (14), a queda
foi de 360 mil crianças em 2023 para 255 mil em 2024 e 50 mil em 2025. O
resultado representa diminuição de 86,1% na comparação 2023/2025.
A
melhora dos dados se deve ao aumento da cobertura vacinal e aos aprimoramentos
no sistema público de registro e divulgação sobre vacinação do Brasil.
A
DTP é o principal parâmetro do levantamento porque mede a capacidade do sistema
de saúde de fornecer o esquema completo de imunização.
Além
disso, o abandono do esquema vacinal merece atenção, avalia Luciana Phebo,
chefe de Saúde do Unicef no Brasil. Sem a continuidade da vacinação a
partir da primeira dose, as crianças não estão protegidas. Para a especialista,
o acesso às vacinas é
o maior desafio para melhorar as coberturas no país.
O
estudo consolidou dados anuais de imunização (2000 a 2025). Para isso, cruzou
os registros oficiais reportados pelos 195 países Estados-Membros da OMS e do
Unicef, informações de literatura científica e estimativas populacionais da
ONU. Foram avaliadas as coberturas das principais vacinas infantis (abaixo).
Conforme o levantamento, em 2025, 90% dos bebês no mundo receberam pelo menos uma dose da vacina DTP. Em relação aos três anos anteriores, a cobertura subiu apenas um ponto percentual. No mesmo período, os dados mostram que 85% completaram o esquema com três doses —média mantida desde 2022.
No
Brasil, a cobertura de 1ª dose da
DTP em 2025 foi de 98% —a maior desde 2015. Já a proteção total
com três doses chegou a 86%. As estimativas apontam uma queda de quatro pontos
percentuais em relação a 2024, quando chegou a 90%.
No
mundo, as coberturas das duas doses da vacina com o componente contra o sarampo estão
bem abaixo da meta de imunização de
95%, o que abre precedente para novos surtos. Desde 2000, os indicadores não
ultrapassaram 86%.
No cenário brasileiro, de 2024 para 2025, observa-se a queda de seis pontos (96% para 90%) na primeira dose e de cinco pontos (81% para 76%) na segunda. A OMS e o Unicef adotam o termo genérico vacina com o componente contra o sarampo para ser mantida a padronização global.
Abandonar
o esquema de vacinação antes de completar as doses preconizadas é uma tendência
global, argumenta Luciana Phebo. Ao menos no Brasil, vários fatores dificultam
o acesso à vacinação. Um deles é a dinâmica familiar: à medida que as crianças crescem
e o tempo passa, a atenção muitas vezes se fragmenta entre os outros filhos.
O
acesso à informação também é um obstáculo. O esquema vacinal brasileiro é um
dos mais completos do mundo, composto por inúmeros imunobiológicos aplicados em
diferentes idades. Essa complexidade exige atenção redobrada de pais e profissionais
de saúde. A Caderneta da Criança torna-se um instrumento indispensável
de orientação.
Além
disso, a rotina pesa contra a adesão. Com o fim da licença-maternidade e
o retorno da mãe ao trabalho, o tempo para ir ao posto fica escasso. Diante
disso, a oferta de unidades com horários estendidos —no período noturno ou aos
finais de semana— torna-se um diferencial decisivo.
Diante
disso, o Ministério
da Saúde e o Unicef incentivam a vacinação
nas escolas.
"Se
o acesso é um problema, vamos levar a vacina até as crianças nas escolas.
A educação
infantil é um local também onde se promove a saúde. Se tivessem
mais unidades de educação
infantil, certamente o PSE, o Programa de Saúde nas Escolas, chegaria a
mais crianças", comenta Luciana.
Além
disso, as mudanças
climáticas e a violência urbana criam barreiras logísticas e
sociais para a vacinação. Na Amazônia,
por exemplo, secas extremas dificultam o transporte de vacinas, medicamentos e
insumos para comunidades isoladas.
Nas
grandes cidades, o conflito armado também paralisa serviços. Um estudo do
Unicef no Complexo da Maré, no Rio, apontou que nos dias
de operação policial a vacinação das crianças é afetada.
"A Estratégia
de Saúde da Família e os agentes
comunitários são ativos fundamentais do SUS, atuando na busca
ativa de não vacinados. No entanto, em um país de dimensões continentais, o
acesso à imunização vai muito além da saúde pública. Ele esbarra em múltiplos
fatores de vulnerabilidade, como segurança pública, mudanças
climáticas, condições trabalhistas e transporte", diz Luciana.
Recomendações
feitas pelo estudo
Fortalecer
a imunização em contextos frágeis afetados por conflitos;
Combater
informações falsas sobre saúde e vacinação;
Aumentar
e sustentar o financiamento doméstico e internacional para programas da
imunização;
Investir
em sistemas mais robustos de dados de vigilância epidemiológica.
Principais
vacinas monitoradas
- DTP1 e DTP3:
primeira e terceira doses da vacina contra difteria, tétano e coqueluche
(usada como principal indicador de acesso e abandono vacinal)
- MCV1 e MCV2:
primeira e segunda doses da vacina
contra o sarampo
- Pólio: vacina
inativada poliomielite primeira
dose e dose completa da série primária
- BCG: vacina
contra a tuberculose (focada
em países com recomendação universal ao nascer)
- HepB3 e HepBB:
terceira dose da vacina contra hepatite
B e a dose aplicada logo ao nascer
- Hib3: terceira
dose contra a bactéria Haemophilus influenzae tipo b (causadora
de meningite e pneumonia)
- Pneumocócica
conjugada
(segunda ou terceira dose, conforme o cronograma)
- RotaC: vacina
contra o rotavírus
- Vacina contra
a rubéola
- Febre
amarela
Fonte _ Folha/SP





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