Aumento
das temperaturas, mudanças na umidade do ar e períodos de chuvas intensas ou
estiagem, a depender da região do Brasil, são as características do El Niño,
responsável pelo aquecimento anormal das águas do Oceano
Pacífico.
Com
ele, as mudanças
climáticas ficam mais intensas. O fenômeno reflete de forma
indireta na saúde, intensificando quadros de alergias
respiratórias.
A
presidente da Asbai (Associação Brasileira de Alergia e Imunologia), Fátima
Rodrigues Fernandes, esclarece que o bem-estar respiratório está diretamente
condicionado aos fatores climáticos.
Segundo
a especialista, a exposição à poluição
atmosférica combinada a variações térmicas extremas agride e
fragiliza as vias aéreas.
"O El
Niño não é o culpado pelas doenças ou pelo agravamento delas. São
as alterações
climáticas que levam a uma exacerbação do fenômeno, o que causa as
complicações."
A
médica diz que a asma,
a rinite alérgica e as infecções respiratórias são as condições
mais frequentes. A especialista argumenta que a DPOC (Doença
Pulmonar Obstrutiva Crônica), apesar de não ser alérgica, pode aparecer junto
da asma.
As chuvas e
as enchentes, como as que ocorrem no Sul, aumentam a quantidade de fungos
dentro e fora das casas. Outro problema tem como exemplo recente o que ocorreu
no Rio
Grande do Sul, em 2024: os pacientes foram forçados a interromper os
cuidados com a saúde. "As pessoas descontinuaram seus tratamentos, ficaram
sem acesso à saúde,
ao controle de doenças, à compra de medicamentos e consultas. E agora parece
que já temos algum grau disso também. São fatores de agravo, além das condições
da casa e do ambiente externo", explica Fátima Rodrigues.
E
não são só as alergias, alerta a especialista. As ondas
de calor e a secura do ar descompensam doenças
cardíacas, causam desidratação,
insolação e exaustão física.
Quais
são as principais medidas práticas para reduzir alérgenos dentro de casa?
A
mais importante é a limpeza mecânica do ambiente, com remoção de ácaros, mofo e
poeira. Recomenda-se aspirar colchões, travesseiros, almofadas e sofás com
aspiradores de filtro HEPA; trocar a roupa de cama pelo menos uma vez por
semana; evitar brinquedos de pelúcia; e limpar superfícies com pano úmido.
Evite também fumaça de cigarro, gasolina e produtos de limpeza com cheiro
forte. Para alérgicos a ácaros, mofo e pelos de animais, o ideal é deixar a
casa arejada e bem ventilada.
Por
que o pólen representa um desafio diferente dos outros alérgenos domésticos?
O
pólen é um alérgeno externo, o que impossibilita limpar o ambiente para
eliminá-lo. Além disso, as mudanças
climáticas causadas pelo El Niño alteram o ciclo das plantas e a
polinização, podendo prolongar as estações polínicas. Pessoas sensíveis ao
pólen devem manter a casa fechada e vedar janelas para impedir a entrada dos
grãos de pólen vindos de fora.
Como
usar ar-condicionado, umidificadores e desumidificadores de forma segura para
alérgicos?
O ar-condicionado deve
ser limpo e higienizado com frequência, conforme orientação do fabricante.
Desumidificadores e umidificadores devem ter controle de umidade e mantê-la
entre 40% e 60%. O ar tanto seco quanto úmido, nos extremos, é prejudicial: o
excesso de secura irrita as mucosas; o excesso de umidade favorece o
crescimento de fungos.
Por
que os descongestionantes nasais são considerados problemáticos pelos
alergistas?
Eles
promovem alívio imediato ao causar vasoconstrição nasal, mas têm efeito rebote:
após o uso, a congestão retorna de forma mais intensa do que antes, o que leva
o paciente à dependência. Esse quadro é chamado de rinite medicamentosa
e exige acompanhamento médico para o desmame e início do tratamento adequado.
Os descongestionantes nasais só devem ser usados por, no máximo, um a dois
dias, em crises intensas.
Quais
são os riscos da automedicação com
descongestionantes, especialmente em crianças e idosos?
Em
crianças pequenas, esses medicamentos podem penetrar no sistema
nervoso central e causar convulsões, alterações neurológicas
e arritmias
cardíacas. Em idosos, também há risco de complicações cardiovasculares.
Por
que a automedicação com antialérgicos é desaconselhada?
Devido
à possibilidade de erros no diagnóstico, uso de medicamentos inadequados e
efeitos colaterais graves.
Qual
é o tratamento ideal para a rinite alérgica?
Sprays
nasais anti-inflamatórios, geralmente com corticoide inalatório. Eles atuam
diretamente na inflamação da mucosa nasal.
Como
diferenciar uma crise alérgica de uma gripe, e é possível ter febre em um
quadro alérgico?
A
febre é um marcador de infecção, enquanto as alergias costumam
se manifestar com coceira, espirros e chiado. No entanto, quadros alérgicos
podem apresentar febre quando associados a uma infecção.
O
principal fator para identificar uma alergia é a repetição frequente dos
sintomas, como espirros, coriza e coceira no nariz e nos olhos (no caso da
rinite), ou chiado no peito e falta
de ar (no caso da asma). Vale lembrar que indivíduos alérgicos são
mais suscetíveis a infecções, pois já possuem uma mucosa inflamada.
Como
populações vulneráveis devem se preparar para eventos climáticos extremos?
Crianças,
idosos e doentes
crônicos devem acompanhar as previsões meteorológicas para se
anteciparem a ondas de calor, frentes frias e dias de alta poluição. Em dias
muito poluídos, recomenda-se evitar a exposição ao ambiente externo.
Também
é importante hidratar bem as mucosas e a pele, além de beber água.
Como
eventos climáticos extremos afetam os olhos e qual é a relação com a rinite
alérgica?
Os
olhos são bastante vulneráveis a eventos climáticos extremos, como ondas de
calor e secura do ar, pois não possuem a barreira mucociliar presente nas vias
respiratórias. Isso pode causar conjuntivite, caracterizada por
coceira, vermelhidão e dificuldade para enxergar —inclusive em pessoas não
alérgicas.
Cerca de 80% dos pacientes com rinite alérgica também apresentam conjuntivite.
A recomendação é hidratar a mucosa ocular para eliminar detritos e manter o
funcionamento normal dos olhos.
Como
tratar a ardência nos olhos causada pelo tempo
seco e poluição?
Não
use colírio de
forma aleatória. Existem diferentes tipos, desde lágrimas artificiais até
imunossupressores. A escolha depende do diagnóstico de cada paciente. Para a
população geral, colírios hidratantes e lubrificantes podem e devem ser usados,
especialmente em climas secos.
Quais
são os principais tipos de alergia de pele e seus sintomas?
Os
principais tipos são dermatite
atópica (eczema), urticária e dermatite de contato. Os sintomas
incluem coceira intensa, descamação, vermelhidão e, em alguns casos, secreção.
Cerca de 20% a 30% dos pacientes podem ter quadros mais graves, com
comprometimento de toda a pele e formação de feridas.
Quais
complicações oculares podem surgir em pacientes com dermatite atópica?
A
coceira intensa nos olhos leva ao ato contínuo de esfregar a região, o que pode
causar o ceratocone —a córnea deforma, afina e fica pontiaguda. Casos mais
graves podem exigir transplante para evitar a perda da visão.
Fonte _ Folha/SP

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