Nelson
Rodrigues dizia
que o futebol brasileiro cuidava da integridade das canelas, mas se esquecia do
emocional do jogador. A ciência concorda com o cronista tricolor e
acrescenta: também merece atenção o coração de quem assiste a uma partida.
Com
o início da Copa do Mundo,
a medicina reforça: na arquibancada ou no sofá, o estresse emocional intenso
pode causar sérios danos e até levar à morte.
A
atriz e jornalista Angelita Campelo, 45, sabe bem disso. Após uma partida
decisiva que definia o futuro do Fluminense na Série A do Brasileirão, em 2024,
contra o Palmeiras, o nervosismo levou a carioca direto para a emergência com
a pressão
arterial elevadíssima. "Não tive um infarto porque
Deus não quis", relata.
Torcedora
da seleção da Espanha, apontada como uma das favoritas ao título do Mundial
deste ano, ela diz estar preparada para fortes emoções: "Acho que a final
vai ser entre Espanha e Argentina. Se for, já sei que vou sofrer."
Presidente
do Conselho Diretor do InCor (HCFMUSP), o cardiologisa Roberto
Kalil Filho afirma que doenças cardiovasculares são a principal
causa de morte no Brasil, com um óbito a cada 90 segundos.
O
sofrimento do torcedor brasileiro agrava o quadro: uma pesquisa da USP de 2013
apontou aumento de 16% nos infartos em dias de jogos do Brasil. Na Alemanha,
outro estudo, de 2006, mostrou que emergências cardíacas mais que dobraram
durante a Copa do Mundo.
Isso
acontece porque, durante situações de estresse emocional intenso, como ansiedade e raiva,
alguns vasos podem se estreitar temporariamente, reduzindo a quantidade de
sangue que chega ao coração.
Diego
Garcia, diretor médico da Amil, acrescenta que disputas de pênaltis geram alta
adrenalina. "O coração não responde apenas ao esforço físico, mas também
às emoções", diz.
No
Brasil, o cenário piora com jogos noturnos, somando a privação
de sono à tensão. Ricardo Casalino, cardiologista do Grupo Amil,
alerta que a combinação pode elevar a pressão arterial.
"É
um cenário propício para eventos cardiovasculares", afirma, lembrando que
esses jogos também costumam ser um convite ao consumo de álcool.
Kalil
afirma que um episódio isolado de ficar acordado até mais tarde dificilmente
provocará problemas em pessoas saudáveis, mas faz um alerta quanto aos
excessos.
"A
preocupação existe quando a privação de sono se soma a estresse intenso,
excesso de álcool, tabagismo ou doenças cardiovasculares preexistentes."
Pacientes hipertensos e
com outros fatores de risco para doenças cardíacas —como colesterol
elevado, obesidade e diabetes—
devem ter atenção redobrada e seguir o tratamento com rigidez. A recomendação
de evitar o consumo abusivo de sal, bebida alcoólica e cigarro vale para todos.
Se
houver dor no peito, a regra de ouro é não esperar o apito final e buscar
atendimento médico imediato, diz Casalino. Falta de ar, suor excessivo e náusea
também são sinais de perigo.
Ignorar
esses alertas pode ser fatal. A jornalista Danielle Muller, 41, conta que seu
tio sempre assistia aos jogos do Flamengo bem nervoso. Na final da Taça
Guanabara de 2007, teve um infarto fulminante.
"Ele
tinha 66 anos, pressão alta e obesidade. Histórico familiar de problemas no
coração. Tomava remédios, mas, infelizmente, não com a regularidade que
deveria", conta. "Ele já era vulnerável, e o futebol era um gatilho
que a gente nunca levou a sério o suficiente", lamenta.
Fonte _ Folha/SP

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