Bandido.
É esse o apelido que Joana, de 90 anos, deu para o seu aparelho
celular. O crime? Roubar
a sua paciência. Ela adora tirar fotos com o smartphone, mas passa um
sufoco para achar o aplicativo da câmera e entender como funciona, isso sem
falar de todos os outros aplicativos. "Me ajuda a mexer no meu bandido! Me
dá uma aula para eu entender esse bandido", vive dizendo.
Joana
e seu malvado favorito retratam uma típica relação de amor e ódio que boa parte
dos idosos vive
com os smartphones. Com o celular disseminado na sociedade, as pessoas mais
velhas desenvolveram uma vida digital ativa.
Dos
internautas de 75 anos ou mais no Brasil, 94% utilizam a internet todos os dias
ou quase todos os dias. E 76% a acessam somente pelo celular (pesquisa
TIC Domicílios, em estudo que compila dados de 2023 e 2024). Nessa
mesma faixa etária de internautas, 87% mandam mensagens instantâneas, 76%
conversam por chamada de voz ou vídeo e 37% usam redes sociais.
Mesmo
que encantados com as possibilidades do aparelho, os mais velhos costumam ter
dificuldades para utilizá-lo, muitas vezes agravadas por problemas
de visão, de audição,
pelo tremor
das mãos que atrapalha a digitação e pela queda
da cognição.
"Para
a Joana [nome fictício], o celular é um fardo. Ela se sente refém do aparelho.
Quando recebe uma ligação e não consegue atender, fica ansiosa para saber quem
ligou, se era algo importante, se precisa retornar", conta Isabela de
Paula Jesus, assistente de atendimento aos idosos do Residencial Israelita
Albert Einstein, na Vila Mariana (zona sul de São Paulo), onde Joana mora –são
115 residentes, entre os pagantes e os atendidos gratuitamente.
Isabela
lembra que o filho de Joana um dia resolveu presenteá-la com um iPhone 15, na
época o de última geração. O aparelho dela era bem mais antigo, do modelo que
ainda tinha um botão na tela. Joana passou a perguntar o tempo todo "Cadê
o botão?!", e o jeito foi desfazer a troca.
Nos
últimos anos, o auxílio para lidar com os "bandidos" se tornou
protagonista na assistência aos idosos no residencial, a maioria nonagenária.
Eles precisam de ajuda para fazer compras, acessar o banco e passar pix, para
usar as redes sociais e os serviços plataforma do Governo Federal (Gov.br),
entre outras coisas.
Há
também um estado de alerta permanente para evitar que caiam em golpes
digitais e, quando isso acaba acontecendo, tentar reparar os
danos. "Tem um senhor que pede ajuda para todo mundo para usar o celular.
Mesmo quando sai, na rua, pede para quem nem conhece. Então já caiu em
golpe", conta Isabela.
"A
maioria é de um tempo em que não existia nem telefone fixo em casa, nem
televisão, então a dificuldade com o celular é grande", comenta a
assistente social Maria Laura Barreto, responsável pelo atendimento aos idosos
no residencial.
Mas
eles se esforçam para driblar o bandido. Aos 100 anos, Frida Braunstein Taranto
resolveu aprender a pedir carro de aplicativo sozinha pelo seu celular. Ela
costuma sair para fazer compras ou para se encontrar com um grupo de amigas.
"Antes
disso, meus netos vinham me buscar para me levar para fazer as coisas",
conta. "Mas nem sempre eles podiam, aí começaram a pedir Uber para mim.
Até que um dia eu falei: ‘Não quero ser dependente para nada, principalmente
para o lazer, para quando não estou indo para uma visita médica'."
Ela
conta que a filha, de 69, e o filho, de 73, ficaram preocupados. "Acharam
que eu ia me enrolar. Mas fui a uma loja comprar um celular novo e pedi para a
vendedora me cadastrar no Uber. Na primeira vez que saí, mandei mensagem para a
família: ‘Gente, adivinha, estou com as minhas amigas, vim sozinha de
Uber."
Ela
tem um perfil no Instagram, @vovofrida, feito pela neta, com
posts inspirados. "Minha neta é empolgada de me mostrar na internet",
diz, orgulhosa.
Não
é uma tarefa fácil dar conta do celular, ela admite. Com problema de visão,
está usando uma lupa para conseguir ler –o aumento das letras pelo celular não
tem sido suficiente. "O fato de eu não estar enxergando bem me deixa
chateada, ainda mais agora que a gente depende do celular para tudo", diz.
E,
como a maioria das pessoas, anda com o smartphone para cima e para baixo.
"O celular é tudo para mim, não largo. Ele fica no meu Cadillac e vai
aonde vou [Cadillac é o apelido do andador, que tem uma cesta em que guarda o
aparelho]. Sou muito requisitada pelo celular, a família, as amigas. Ficam me
chamando."
O
psiquiatra Rodrigo Machado, coordenador do Grupo de Dependências Tecnológicas
do Instituto de Psiquiatria da USP (Universidade de São Paulo), diz que o
celular pode ser positivo para os idosos, desde que o uso seja moderado, sem
substituir atividades e conexões presenciais.
Esse
equilíbrio reduz a chance de vício nos smartphones, que recentemente se tornou
mais comum entre os idosos, com sérios prejuízos à saúde física e mental no
envelhecimento. "Se bem utilizado, o smartphone pode ser uma ferramenta de
acessibilidade para o idoso. Pode ajudar, por exemplo, com auxiliar de voz, e,
agora, com a IA, se tornar um facilitador para atividades do cotidiano."
Com
um tablet, Isabel Cristina Jachimowicz, 62, consegue seguir trabalhando apesar
das sequelas físicas deixadas por um AVC, que comprometeu significativamente
sua mobilidade e a fala. A tela do tablet, maior do que a do celular, favorece
a sua digitação. Ela atua como corretora de seguros e, pelo tablet, troca
mensagens com os clientes, faz compras e conversa com os filhos. Também usa o
ChatGPT, principalmente para saber mais sobre os remédios prescritos pelos seus
médicos. "Sei que ele falha, mas dou uma conferida."
A
psicóloga especializada em gerontologia Jeane Silva, que atua em projetos
sociais para idosos na zona leste de São Paulo, observa que, ultimamente, a
maior parte dos que moram nas ILPI’s (Instituições de Longa
Permanência para Idosos) têm celular. Ela diz que o smartphone "dá a
sensação de fazer parte", especialmente para aqueles sem mobilidade ou com
mobilidade reduzida.
"Conheci
uma senhora acamada, de 75 anos, que usa para se comunicar com outras
pessoas", conta. "Também fui visitar uma casa de três irmãs idosas,
de 86, 91 e 100 anos. Elas não conseguiam sair porque estavam com mobilidade
reduzida. Qual é o contato delas com o mundo? O celular", diz. Quando bem
utilizado, com moderação, ele "acaba propiciando a participação social do
idoso".
As
assistentes sociais do residencial do Einstein dizem que as ligações de vídeo
tanto podem tranquilizar os idosos como gerar ansiedade. "Podem dar uma
sensação de proximidade com familiares que estão distantes, mas também
deixá-los muito ansiosos, depende da situação", diz Maria Laura.
Tem
dia que o celular é mocinho, tem dia que é bandido.
Fonte _ Folha/SP






