Três
técnicos de enfermagem foram presos pela Polícia Civil do Distrito
Federal sob suspeita de envolvimento em três homicídios no
Hospital Anchieta, em Taguatinga. Duas prisões ocorreram em 12 de janeiro, e a
terceira foi efetuada no dia 15 do mesmo mês.
A
motivação dos crimes ainda é investigada. As vítimas que morreram no Hospital
Anchieta tinham 75, 63 e 33 anos. A polícia apura se há outros casos no próprio
hospital e também em instituições nas quais os suspeitos atuaram, tanto na rede
pública quanto privada.
O
Coren-DF (Conselho Regional de Enfermagem do DF) disse que tomou conhecimento
do caso pela imprensa e que está monitorando a situação, adotando as
providências cabíveis dentro de sua competência.
A
Polícia Civil do DF afirma que se baseia em "elementos convincentes e
bastante robustos", como vídeos de câmeras de segurança e análises de
prontuários, para efetuar as prisões.
Segundo
o delegado Wisllei Salomão, da Coordenação de Repressão a Homicídios e Proteção
à Pessoa (CHPP), o principal suspeito, de 24 anos, inicialmente negou
envolvimento nas mortes, mas acabou confessando o crime depois de ser
confrontado com as imagens.
De
acordo com o delegado, o medicamento usado, quando administrado fora dos
protocolos médicos, pode causar parada cardíaca em poucos minutos —o nome da
substância não foi divulgado. O medicamento teria sido usado em ao menos três
vítimas: duas no dia 17 de novembro e uma no dia 1º de dezembro.
Segundo
Salomão, o técnico acessou o sistema hospitalar deixado aberto, se passando por
médico para prescrever o medicamento. Ele foi à farmácia buscá-lo, preparou a
dose, a escondeu no jaleco e injetou diretamente na veia dos pacientes.
O
criminoso esperava a reação fatal e, para disfarçar, realizava massagem
cardíaca, simulando uma tentativa de reanimação na presença da equipe,
acrescentou Salomão.
Em
um dos casos, sem medicamento disponível em estoque, o técnico injetou
desifentante na veia da vítima mais de dez vezes, garantindo a morte, e repetiu
o fingimento de socorro. "Por mais de dez vezes ele colocou desinfetante
na veia do paciente", disse o delegado.
"Ele
contou também com a conivência de outras duas técnicas de enfermagem que
estavam no local, no momento de aplicação. Uma auxiliou a buscar esse
medicamento na farmácia e também estava presente no momento em que foi
ministrado o medicamento", disse Salomão durante entrevista a jornalistas,
nesta segunda-feira (19).
Uma
das técnicas de enfermagem tem 28 anos e também tem histórico de trabalhar em
outros hospitais. A outra tem 22 anos e estava no seu primeiro trabalho.
As
duas estavam nos quartos das vítimas observando todo o procedimento. "Nas
filmagens, elas ficavam olhando a porta para ver se terceiros não
entravam", diz Salomão.
Segundo
Márcia Reis, diretora do IML da Polícia Civil do DF, os indícios apontam que a
aplicação foi irregular e intencional, sem chance de equívocos.
"Eles
aplicaram de uma forma irregular, não controlada, de uma forma inadequada,
então eles com certeza sabiam dos efeitos potenciais dessa medicação",
afirmou.
A
diretora afirma que o que chamou a atenção dos peritos foi a piora súbita das
vítimas. Os pacientes tinham gravidades diferentes, uma delas tinha o quadro
estável.
"Não
houve uma piora gradual do quadro deles. Foi uma piora súbita em momentos
repetidos que culminaram na parada cardíaca até que chegou no evento do
óbito", disse.
Segundo
Leandro Oliveira, diretor da divisão de perícias internas do instituto de
criminalística, a investigação planeja reconstruir uma linha do tempo detalhada
e extensa ao passado para identificar outras vítimas. "A gente está
falando de uns 20 laudos", afirmou.
O
Hospital Anchieta disse que identificou "circunstâncias atípicas" nos
três óbitos na UTI e, por iniciativa própria, instaurou um comitê interno. A
investigação apontou evidências contra os técnicos de enfermagem, que foram
desligados e encaminhados às autoridades.
"O
Hospital, enquanto também vítima da ação destes ex-funcionários, solidariza-se
com os familiares das vítimas, e informa que está colaborando de forma
irrestrita e incondicional com as autoridades públicas", disse a
instituição em nota.
Com
base nas evidências, a Polícia Civil deflagrou a Operação Anúbis —referência ao
deus egípcio da morte— em 11 de janeiro.
Duas
pessoas foram presas temporariamente na ocasião e mandados de busca e apreensão
foram cumpridos em Taguatinga, Brazlândia (DF) e Águas Lindas (GO).
Na
quinta-feira (15), a segunda fase da operação cumpriu outro mandado de prisão
temporária de uma das investigadas e apreendeu dispositivos eletrônicos em
Ceilândia e Samambaia, no Distrito Federal.
Fonte _ Folha

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