O lenacapavir
foi aprovado pela Anvisa (Agência
Nacional de Vigilância Sanitária) nesta segunda-feira (12) e pode se tornar uma
nova estratégia de combate à Aids no
Brasil. Antes de sua incorporação ao SUS (Sistema
Único de Saúde),
porém, autoridades de saúde ainda precisam avaliar entraves técnicos e
financeiros.
O medicamento depende
de pareceres da CMED (Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos),
responsável por definir seu preço máximo, e da Conitec (Comissão
Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde), que analisa
custo-benefício e impacto orçamentário de uma eventual implementação.
A
seguir, entenda as vantagens da profilaxia
pré-exposição (PrEP) com o lenacapavir, seu funcionamento e os
desafios para que chegue ao SUS.
Como
funciona o medicamento?
O
lenacapavir é um inibidor do capsídeo, uma espécie de "casca"
do HIV.
Essa estrutura proteica é fundamental para proteger o material genético do
vírus e permitir sua reprodução.
O
fármaco se liga diretamente ao capsídeo do HIV-1 e desregula seu funcionamento.
Após entrar na célula, o vírus precisa abrir essa estrutura no momento exato
para se replicar. Com o medicamento, essa abertura ocorre cedo demais —ou tarde
demais—, o que impede o correto funcionamento do RNA viral.
A
estratégia é inovadora. Até então, os antirretrovirais atuavam principalmente
sobre enzimas do vírus, bloqueando a integração do DNA viral
ao DNA da célula humana. Embora as PrEPs disponíveis tenham alta eficácia, o
HIV pode sofrer mutações nessas enzimas, o que leva à resistência aos
medicamentos.
Ao agir sobre o capsídeo, o lenacapavir dificulta esse processo, já que mutações nessa estrutura costumam comprometer a própria viabilidade do vírus.
Qual
a eficácia?
Segundo
a Anvisa, os estudos clínicos apresentados mostram alta eficácia. O medicamento
atingiu 100% de eficácia na redução da incidência de HIV-1 em mulheres
cisgênero, além de 96% de eficácia em comparação com a incidência de
HIV de base —isto é, a taxa de infecção antes de qualquer intervenção— e
desempenho 89% superior à PrEP
oral diária, disponível no SUS desde 2018.
Existem
dois tipos do vírus: HIV-1 e HIV-2. O primeiro responde por mais de 90% das
infecções no mundo, tem maior transmissibilidade e é o principal alvo das
estratégias de saúde pública.
O HIV-2 apresenta transmissão mais lenta e menor incidência, sendo responsável
por cerca de 1 a 2 milhões de infecções, em um universo de mais de 40 milhões
de pessoas vivendo com HIV.
Embora
os dois vírus tenham estruturas semelhantes, o HIV-1 é o predominante no
Brasil. À Folha a Anvisa afirmou que a aprovação do
medicamento se restringe ao combate a essa variante.
Quando
deve chegar ao SUS?
Apesar
da aprovação pela Anvisa, o medicamento ainda precisa cumprir etapas
regulatórias antes de entrar no sistema público.
Após
a definição do preço máximo pela CMED, caberá à Conitec avaliar critérios como
eficácia, segurança e custo-efetividade. Nesta terça-feira (13), o Ministério
da Saúde afirmou que aguarda a análise da CMED. Depois disso, a própria pasta
pode avaliação da Conitec.
O
custo pode ser um obstáculo. Segundo o jornal The New York Times, a
profilaxia pré-exposição com o lenacapavir custa US$ 28.218 por pessoa ao ano
nos Estados Unidos (R$ 151.688, na cotação atual), valor informado pela
farmacêutica Gilead.
Se o preço for considerado incompatível com o orçamento do SUS, o medicamento pode não ser incorporado.
Quais
as vantagens dessa PrEP?
Além
da aplicação semestral, que elimina a necessidade de ingestão diária da PrEP
hoje disponível no SUS —baseada em tenofovir disoproxil e emtricitabina—, há
vantagens logísticas relevantes.
A
estratégia pode ser mais eficaz em regiões com baixa capilaridade da atenção
primária, responsável pela distribuição dos medicamentos. A avaliação é de
Klinger Soares Faíco Filho, professor de clínica médica e medicina laboratorial
da Universidade Federal de São Paulo, em artigo publicado na Folha.
Segundo
ele, a aplicação semestral também é vantajosa em territórios com alta
rotatividade populacional e para populações privadas de liberdade,
trabalhadores do sexo, mulheres trans e jovens em situação de rua.
Quais
os tipos de lenacapavir?
O
medicamento está disponível em duas versões: oral e injeção subcutânea.
Na
prática, o mecanismo de ação é o mesmo. A diferença está na indicação ao longo
do tratamento. A formulação oral costuma ser utilizada no início, como fase de
transição, por ter ação mais curta e permitir rápida eliminação do fármaco do
organismo.
Segundo
o site de uso do fármaco, o primeiro dia do tratamento, inclui a aplicação de
injeção e a ingestão dos comprimidos. No segundo dia, toma-se apenas os
comprimidos. Depois, repete-se a injeção seis meses após a data de início.
A
versão injetável tem liberação prolongada, o que a torna indicada para a fase
de manutenção da profilaxia. Ela deve ser tomada de seis em seis meses enquanto
a pessoa optar por esse método de prevenção, até que não considere mais
necessário.
Caso haja um intervalo maior que os seis meses entre as aplicações, o
comprimido serve também como uma segurança até a nova injeção.
Fonte _ Folha



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