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sábado, 31 de janeiro de 2026

Com praticidade no dia a dia e risco de golpes, idosos vivem relação de amor e ódio com celular

 


Bandido. É esse o apelido que Joana, de 90 anos, deu para o seu aparelho celular. O crime? Roubar a sua paciência. Ela adora tirar fotos com o smartphone, mas passa um sufoco para achar o aplicativo da câmera e entender como funciona, isso sem falar de todos os outros aplicativos. "Me ajuda a mexer no meu bandido! Me dá uma aula para eu entender esse bandido", vive dizendo.

Joana e seu malvado favorito retratam uma típica relação de amor e ódio que boa parte dos idosos vive com os smartphones. Com o celular disseminado na sociedade, as pessoas mais velhas desenvolveram uma vida digital ativa.

Dos internautas de 75 anos ou mais no Brasil, 94% utilizam a internet todos os dias ou quase todos os dias. E 76% a acessam somente pelo celular (pesquisa TIC Domicílios, em estudo que compila dados de 2023 e 2024). Nessa mesma faixa etária de internautas, 87% mandam mensagens instantâneas, 76% conversam por chamada de voz ou vídeo e 37% usam redes sociais.

Mesmo que encantados com as possibilidades do aparelho, os mais velhos costumam ter dificuldades para utilizá-lo, muitas vezes agravadas por problemas de visão, de audição, pelo tremor das mãos que atrapalha a digitação e pela queda da cognição.

"Para a Joana [nome fictício], o celular é um fardo. Ela se sente refém do aparelho. Quando recebe uma ligação e não consegue atender, fica ansiosa para saber quem ligou, se era algo importante, se precisa retornar", conta Isabela de Paula Jesus, assistente de atendimento aos idosos do Residencial Israelita Albert Einstein, na Vila Mariana (zona sul de São Paulo), onde Joana mora –são 115 residentes, entre os pagantes e os atendidos gratuitamente.

Isabela lembra que o filho de Joana um dia resolveu presenteá-la com um iPhone 15, na época o de última geração. O aparelho dela era bem mais antigo, do modelo que ainda tinha um botão na tela. Joana passou a perguntar o tempo todo "Cadê o botão?!", e o jeito foi desfazer a troca.

Nos últimos anos, o auxílio para lidar com os "bandidos" se tornou protagonista na assistência aos idosos no residencial, a maioria nonagenária. Eles precisam de ajuda para fazer compras, acessar o banco e passar pix, para usar as redes sociais e os serviços plataforma do Governo Federal (Gov.br), entre outras coisas.

Há também um estado de alerta permanente para evitar que caiam em golpes digitais e, quando isso acaba acontecendo, tentar reparar os danos. "Tem um senhor que pede ajuda para todo mundo para usar o celular. Mesmo quando sai, na rua, pede para quem nem conhece. Então já caiu em golpe", conta Isabela.

"A maioria é de um tempo em que não existia nem telefone fixo em casa, nem televisão, então a dificuldade com o celular é grande", comenta a assistente social Maria Laura Barreto, responsável pelo atendimento aos idosos no residencial.

Mas eles se esforçam para driblar o bandido. Aos 100 anos, Frida Braunstein Taranto resolveu aprender a pedir carro de aplicativo sozinha pelo seu celular. Ela costuma sair para fazer compras ou para se encontrar com um grupo de amigas.

"Antes disso, meus netos vinham me buscar para me levar para fazer as coisas", conta. "Mas nem sempre eles podiam, aí começaram a pedir Uber para mim. Até que um dia eu falei: ‘Não quero ser dependente para nada, principalmente para o lazer, para quando não estou indo para uma visita médica'."

Ela conta que a filha, de 69, e o filho, de 73, ficaram preocupados. "Acharam que eu ia me enrolar. Mas fui a uma loja comprar um celular novo e pedi para a vendedora me cadastrar no Uber. Na primeira vez que saí, mandei mensagem para a família: ‘Gente, adivinha, estou com as minhas amigas, vim sozinha de Uber."

Ela tem um perfil no Instagram, @vovofrida, feito pela neta, com posts inspirados. "Minha neta é empolgada de me mostrar na internet", diz, orgulhosa.

Não é uma tarefa fácil dar conta do celular, ela admite. Com problema de visão, está usando uma lupa para conseguir ler –o aumento das letras pelo celular não tem sido suficiente. "O fato de eu não estar enxergando bem me deixa chateada, ainda mais agora que a gente depende do celular para tudo", diz.

E, como a maioria das pessoas, anda com o smartphone para cima e para baixo. "O celular é tudo para mim, não largo. Ele fica no meu Cadillac e vai aonde vou [Cadillac é o apelido do andador, que tem uma cesta em que guarda o aparelho]. Sou muito requisitada pelo celular, a família, as amigas. Ficam me chamando."

O psiquiatra Rodrigo Machado, coordenador do Grupo de Dependências Tecnológicas do Instituto de Psiquiatria da USP (Universidade de São Paulo), diz que o celular pode ser positivo para os idosos, desde que o uso seja moderado, sem substituir atividades e conexões presenciais.

Esse equilíbrio reduz a chance de vício nos smartphones, que recentemente se tornou mais comum entre os idosos, com sérios prejuízos à saúde física e mental no envelhecimento. "Se bem utilizado, o smartphone pode ser uma ferramenta de acessibilidade para o idoso. Pode ajudar, por exemplo, com auxiliar de voz, e, agora, com a IA, se tornar um facilitador para atividades do cotidiano."

Com um tablet, Isabel Cristina Jachimowicz, 62, consegue seguir trabalhando apesar das sequelas físicas deixadas por um AVC, que comprometeu significativamente sua mobilidade e a fala. A tela do tablet, maior do que a do celular, favorece a sua digitação. Ela atua como corretora de seguros e, pelo tablet, troca mensagens com os clientes, faz compras e conversa com os filhos. Também usa o ChatGPT, principalmente para saber mais sobre os remédios prescritos pelos seus médicos. "Sei que ele falha, mas dou uma conferida."

A psicóloga especializada em gerontologia Jeane Silva, que atua em projetos sociais para idosos na zona leste de São Paulo, observa que, ultimamente, a maior parte dos que moram nas ILPI’s (Instituições de Longa Permanência para Idosos) têm celular. Ela diz que o smartphone "dá a sensação de fazer parte", especialmente para aqueles sem mobilidade ou com mobilidade reduzida.

"Conheci uma senhora acamada, de 75 anos, que usa para se comunicar com outras pessoas", conta. "Também fui visitar uma casa de três irmãs idosas, de 86, 91 e 100 anos. Elas não conseguiam sair porque estavam com mobilidade reduzida. Qual é o contato delas com o mundo? O celular", diz. Quando bem utilizado, com moderação, ele "acaba propiciando a participação social do idoso".

As assistentes sociais do residencial do Einstein dizem que as ligações de vídeo tanto podem tranquilizar os idosos como gerar ansiedade. "Podem dar uma sensação de proximidade com familiares que estão distantes, mas também deixá-los muito ansiosos, depende da situação", diz Maria Laura.

Tem dia que o celular é mocinho, tem dia que é bandido.

Fonte _ Folha/SP

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