O
que dengue, Zika, chikungunya, esquistossomose e a doença de Chagas têm em
comum? Além de serem enfermidades mais comumente encontradas em países em
desenvolvimento, todas elas constam no grupo de Doenças Tropicais
Negligenciadas (DTNs). Essa classificação, estabelecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em
meados dos anos 2000, tem como objetivo jogar luz para doenças que
historicamente, tardaram a fazer parte da agenda global de saúde,
recebendo menos atenção e investimento ao longo das décadas.
As
DTNs compreendem 21 enfermidades, a maioria delas
infecciosas – podendo ser causadas por vírus, bactérias,
fungos ou parasitas – e que afetam mais de 1,5 bilhão de
pessoas ao redor do mundo. O nome do grupo faz referência ao fato de que
essas doenças atingem principalmente comunidades em situação de
vulnerabilidade social – como zonas rurais, zonas de conflito e
regiões de difícil acesso –, em grande maioria localizadas em regiões
como África, América Latina e Ásia. Nesses locais, as desigualdades
sociais e econômicas se fazem tão presentes que comprometem questões básicas e
fundamentais para a saúde e a qualidade de vida, como tratamento de
água e esgoto.
Para
a pesquisadora científica e diretora do Laboratório de Parasitologia do
Instituto Butantan, Eliana Nakano, o resultado é um ciclo vicioso: as
Doenças Tropicais Negligenciadas são a causa e a consequência das condições de
uma pobreza estrutural, uma vez que a falta de condições ideais de vida é o
ambiente propício para a propagação de patógenos, somada à ausência de
políticas públicas dedicadas a sua erradicação. No Brasil, as Doenças
Tropicais Negligenciadas mais frequentes são:
•
Doença de Chagas: causada pelo protozoário Tripanossoma
cruzi e transmitida pelo inseto barbeiro
•
Leishmaniose (visceral e cutânea): transmitida pelo
mosquito-palha
•
Hanseníase: doença crônica que afeta pele e nervos
•
Esquistossomose: transmitida por caramujos
•
Dengue, Zika e chikungunya: transmitidas pelo mosquito Aedes
aegypti
•
Raiva: transmitida por mamíferos infectados
•
Helmintíases: transmitidas por parasitas encontrados em solo
contaminado
•
Tracoma: infecção ocular que causa cegueira
•
Envenenamento por picada de serpente
•
Sarna: causada pelo ácaro Sarcoptes scabiei,
é transmitida por contato direto com a pele da pessoa infectada
Entre
as ações já realizadas pela OMS para dedicar esforços ao combate das DTNs estão
a criação de um Departamento de Controle focado nelas; a publicação da
Declaração de Londres, em 2012, com o primeiro roteiro de combate às
DTNs; e o roteiro atual sobre o assunto, lançado em janeiro de 2021,
durante a Assembleia da Saúde da OMS, que colocou o 30 de janeiro
como o Dia Mundial das Doenças Tropicais Negligenciadas e estabeleceu diversas
metas a serem cumpridas até 2030, entre elas:
•
Reduzir em 90% o número de pessoas que necessitam de intervenções contra
Doenças Tropicais Negligenciadas
•
Reduzir em 75% as mortes por doenças transmitidas por vetores
•
Alcançar o número de 100 países eliminando ao menos
uma Doença Tropical Negligenciada
•
Garantir que 90% dos países coletem e divulguem dados sobre DTNs
desagregados por gênero
Importância
crescente e caminhos possíveis
Embora
as DTNs não causem um impacto tão evidente em termos de mortalidade, o impacto
se dá em questão de morbidade. “Como as DTNs são crônicas, acabam por
tirar a pessoa de sua vida normal”, explica Eliana Nakano. Isso significa
que um adulto produtivo, ao ser infectado por uma doença negligenciada, poderá
perder anos de vida saudável, o que reduz sua produtividade econômica e
capacidade de geração de renda, afetando a economia dos países endêmicos e
sobrecarregando o sistema público de saúde, o que dificulta ainda mais o
atendimento eficaz.
Ainda
que continuem recebendo menos recursos do que doenças como câncer, condições
cardíacas e HIV/AIDS, o cenário das DTNs vem mudando. Os principais fatores
para isso são as mudanças climáticas, que afetam os mais diversos
padrões naturais; e a globalização, que reflete em migrações
por deslocamento forçado em casos de guerras, problemas econômicos e,
também, por mudanças climáticas. “Essa maior mobilidade de pessoas contribui
para que os patógenos circulem com mais facilidade por vários lugares e acabem
encontrando locais com condições favoráveis para sua propagação, inclusive
em zonas até então não endêmicas, como América do Norte e Europa”, destaca
a pesquisadora do Instituto Butantan.
Para
evitar o efeito cascata, é preciso agir de maneira preventiva. No caso das
DTNs, a prevenção começa
com investimento em políticas públicas para melhoria
de saneamento básico, fornecimento de água tratada e educação
ambiental, e passa pela vacinação de doenças preveníveis como dengue e
chikungunya – o Instituto Butantan atua na produção e desenvolvimento dos dois
imunizantes. Outra frente de esforço envolve combater a subnotificação dos
casos: nem todas as pessoas infectadas por DNTs procuram ajuda médica,
especialmente quando os sintomas são mais abrangentes.
“O
monitoramento ambiental de vetores das doenças também é uma
estratégia, alinhada com a política da OMS dentro do programa Global
Vector Control Response.
A partir do conceito de Saúde Única, controlar
os vetores por meio de monitoramento ambiental torna possível eliminar a
transmissão de algumas dessas doenças”, aponta Eliana.
O
Butantan e as DNTs
Pesquisar
e propor alternativas para combater as Doenças Tropicais Negligenciadas é um
dos focos do Butantan desde sua fundação. O tratamento de acidentes ofídicos,
por exemplo, foi uma das primeiras esferas de atuação do Instituto, no início
do século XX, e até hoje a instituição é a maior produtora de soros contra
picadas de serpente do Brasil. A vacina da dengue, que foi aprovada para aplicação no Brasil
no final de 2025, já está sendo distribuída para a população, e
o mesmo deve acontecer com a vacina da chikungunya em breve.
Em relação à Zika, o Instituto trabalha no desenvolvimento de um anticorpo
monoclonal para o tratamento da doença, e em uma vacina preventiva. Já quanto à raiva, o Butantan
produz o soro usado atualmente na prevenção e no tratamento pós-infecção, e
desenvolve uma vacina contra a doença. Além disso, a doença de Chagas também é foco de estudo do Instituto.
“Como
pesquisadores e cientistas do Butantan, que é um instituto voltado para a saúde
pública, temos essa missão de divulgar cada vez mais sobre as Doenças Tropicais
Negligenciadas e a importância de combatê-las. Faz parte do nosso papel falar,
no dia a dia, sobre o tema e conscientizar a população”, ressalta Eliana
Nakano, que tem como seu objeto de estudo outra DNT: a esquistossomose.
Popularmente
conhecida como barriga d'água e causada pelo parasita Schistosoma
mansoni, a enfermidade é transmitida pelo caramujo de água doce, que
abriga o parasita e libera larvas que infectam o homem ao penetrarem em sua
pele. Quando desenvolve a doença, o homem também libera ovos do parasita
através das fezes, que, por sua vez, vão infectar a água novamente – e assim
sucessivamente. É por isso que locais com baixas condições de saneamento estão
mais suscetíveis a registrar casos da doença.
A
mitigação da esquistossomose exige o controle dos hospedeiros intermediários,
mas a prática pode causar desequilíbrio ambiental, uma vez que o produto usado
para o controle é altamente tóxico. É possível, então, detectar se um
determinado local está infectado a partir da coleta e análise da água. “Isso
acontece com investimento público, mas, como essas doenças foram negligenciadas
por muito tempo, ainda é difícil colocar em prática. A indústria
farmacêutica também não se voltou para investir em novos fármacos de combate à
esquistossomose. Os que existem estão no mercado há décadas”, ressalta
Eliana.
Foi
esse cenário que levou a pesquisadora, junto com sua equipe, a desenvolver
estudos de bioprospecção dentro do Laboratório de Parasitologia do Butantan: a
busca é por compostos ativos provenientes da biodiversidade brasileira
que possam atuar no combate à esquistossomose.
O
estudo analisa mais de 40 espécies de algas marinhas que possuem um composto
que, ao ser extraído e testado nos vetores da doença, reage de maneira
combativa contra os caramujos. O grupo também busca compostos ativos em venenos
de espécies estudadas no próprio instituto, e já identificou um deles em sapos.
A partir desses estudos, foram identificados compostos com atividade
antiparasitária em venenos e algas marinhas. Futuramente, a pesquisa pode dar
origem a um produto para o controle do vetor – atualmente a eliminação dos
caramujos se dá com o uso de produtos químicos de alta toxicidade, e o único
composto do tipo é proibido no Brasil.
Fonte _ Butantan

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