Meu
amigo Mike ligou de Londres com uma tosse que o impedia de falar. Fiquei aflito
do lado de cá, fazendo perguntas sem respostas, até que ele conseguiu dizer: “Engasguei-me
com uma cápsula".
Tossiu
mais um tempão, respirou fundo e continuou: "Acabei de eliminar o
invólucro da cápsula, mas o pó ficou preso".
Recomendei
que corresse para o pronto-socorro, expliquei que fariam uma endoscopia e uma
"lavagem" nos brônquios, mas ele interrompeu: "Não vou de jeito
nenhum. Há quatro meses fui ao pronto-socorro da minha área, cheguei às 10 da
noite. Aguardei sentado na sala de espera até às 9 da manhã. No mês passado fui
outra vez, cheguei às 5 da tarde, para ser atendido à 6 da manhã: 11 horas de
espera na primeira vez, 13 na segunda".
Mike
é ator, estudou nas melhores escolas da Inglaterra, é um homem culto com amigos
na intelectualidade londrina. Tem uma longa paixão pelo Brasil, que lhe deu
dois casamentos e anos de moradia em São Paulo, Rio e Bahia.
Quando
pode falar com fluência, acrescentou: "No ano passado, estava em Rio das
Pedras, no estado do Rio, quando torci o pé. Me levaram para o pronto-socorro
do SUS.
Em dez minutos veio o ortopedista, me examinou e pediu uma radiografia. Ele
olhou, disse que não tinha fratura, imobilizou meu pé e me mandou para casa.
Tudo levou uma hora, no máximo".
Na
cerimônia de abertura da Olimpíada de Londres, havia um círculo no centro do
gramado com as letras NHS, as iniciais do National Health
System. Por que na abertura da Olimpíada no Maracanã não fizemos o
mesmo? Por que não escrevemos SUS?
Qual
a justificativa para os ingleses se orgulharem de seu sistema de saúde,
enquanto nós desprezamos o nosso?
O
NHS tem 80 anos —é mais do que o dobro da idade do SUS. A Inglaterra é um país
pequeno, que enriqueceu com a exploração impiedosas das colônias. O nível
educacional da população é alto, os desníveis sociais dos seus 66 milhões de
habitantes são muito menores que os nossos. Assim, até eu organizo um sistema
de saúde.
Quero
ver num país quase continente, com 215 milhões de cidadãos, distribuição de
renda perversa, nível educacional baixo, pobreza e tremenda desigualdade
regional. É tão difícil que nenhum país com mais de 100 milhões de habitantes
ousou oferecer acesso universal à saúde.
Fico
revoltado quando escuto gente que nunca precisou do SUS citar o NHS como o
exemplo a ser admirado. É a vira-latice brasileira na sua mais pura expressão.
O British
Medical Journal acaba de publicar um artigo sobre o caos instalado nas
unidades de pronto atendimento dos hospitais ingleses. Segundo a revista, 8 em
cada 10 hospitais que atendem emergências acomodam os pacientes em macas e
cadeiras nos corredores, salas de espera, salas de reunião e até nas áreas de
café e outros espaços improvisados.
A
prática não se acha restrita a períodos de demanda extrema, mas enraizada na
rotina diária da maioria dos hospitais,
Ian
Higginson, presidente do Royal College of Physicians, descreve a situação como
"um completo escândalo". Atribui à espera de mais de 12 horas (como a
de meu amigo Mike) a responsabilidade por mais de 16,6 mil mortes evitáveis
apenas no ano de 2024.
O
sindicato das enfermeiras ouviu 438 dessas profissionais sobre a crise atual.
Os relatos são dramáticos: uma enfermeira de um hospital no sudoeste da
Inglaterra disse que "pacientes lamentam não ter ficado em casa, mesmo
correndo o risco de morrer"; outra, na região sudeste, disse que
"nesses corredores gelados não há oxigênio ou monitores para facilitar o
trabalho"; uma terceira foi mais longe e afirmou que "não tratamos
assim nem animais na prática veterinária".
Prezada
leitora, sabe por que um sistema de saúde que funcionou bem durante décadas
entrou em colapso? Porque a população envelheceu sem programas de prevenção à
altura do desafio de evitar internações hospitalares.
É
cada vez maior o número de técnicos do NHS que consideram o único caminho para
evitar o colapso do sistema a adoção do Estratégia Saúde da Família, o programa
brasileiro de atenção primária que a Organização Mundial da Saúde (OMS) considera
um exemplo para o mundo.
Antes
de repetir frases feitas sobre a excelência da saúde pública na América do
Norte e na Europa, procure se informar sobre a realidade local. O SUS está
cheio de defeitos que precisamos corrigir, mas, antes de vilipendiá-lo, dobre a
língua.
Fonte _ Coluna Drauzio na Folha/SP

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