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quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Desdenhar do SUS é pura vira-latice brasileira

 


Meu amigo Mike ligou de Londres com uma tosse que o impedia de falar. Fiquei aflito do lado de cá, fazendo perguntas sem respostas, até que ele conseguiu dizer: “Engasguei-me com uma cápsula".

Tossiu mais um tempão, respirou fundo e continuou: "Acabei de eliminar o invólucro da cápsula, mas o pó ficou preso".

Recomendei que corresse para o pronto-socorro, expliquei que fariam uma endoscopia e uma "lavagem" nos brônquios, mas ele interrompeu: "Não vou de jeito nenhum. Há quatro meses fui ao pronto-socorro da minha área, cheguei às 10 da noite. Aguardei sentado na sala de espera até às 9 da manhã. No mês passado fui outra vez, cheguei às 5 da tarde, para ser atendido à 6 da manhã: 11 horas de espera na primeira vez, 13 na segunda".

Mike é ator, estudou nas melhores escolas da Inglaterra, é um homem culto com amigos na intelectualidade londrina. Tem uma longa paixão pelo Brasil, que lhe deu dois casamentos e anos de moradia em São Paulo, Rio e Bahia.

Quando pode falar com fluência, acrescentou: "No ano passado, estava em Rio das Pedras, no estado do Rio, quando torci o pé. Me levaram para o pronto-socorro do SUS. Em dez minutos veio o ortopedista, me examinou e pediu uma radiografia. Ele olhou, disse que não tinha fratura, imobilizou meu pé e me mandou para casa. Tudo levou uma hora, no máximo".

Na cerimônia de abertura da Olimpíada de Londres, havia um círculo no centro do gramado com as letras NHS, as iniciais do National Health System. Por que na abertura da Olimpíada no Maracanã não fizemos o mesmo? Por que não escrevemos SUS?

Qual a justificativa para os ingleses se orgulharem de seu sistema de saúde, enquanto nós desprezamos o nosso?

O NHS tem 80 anos —é mais do que o dobro da idade do SUS. A Inglaterra é um país pequeno, que enriqueceu com a exploração impiedosas das colônias. O nível educacional da população é alto, os desníveis sociais dos seus 66 milhões de habitantes são muito menores que os nossos. Assim, até eu organizo um sistema de saúde.

Quero ver num país quase continente, com 215 milhões de cidadãos, distribuição de renda perversa, nível educacional baixo, pobreza e tremenda desigualdade regional. É tão difícil que nenhum país com mais de 100 milhões de habitantes ousou oferecer acesso universal à saúde.

Fico revoltado quando escuto gente que nunca precisou do SUS citar o NHS como o exemplo a ser admirado. É a vira-latice brasileira na sua mais pura expressão.

O British Medical Journal acaba de publicar um artigo sobre o caos instalado nas unidades de pronto atendimento dos hospitais ingleses. Segundo a revista, 8 em cada 10 hospitais que atendem emergências acomodam os pacientes em macas e cadeiras nos corredores, salas de espera, salas de reunião e até nas áreas de café e outros espaços improvisados.

A prática não se acha restrita a períodos de demanda extrema, mas enraizada na rotina diária da maioria dos hospitais,

Ian Higginson, presidente do Royal College of Physicians, descreve a situação como "um completo escândalo". Atribui à espera de mais de 12 horas (como a de meu amigo Mike) a responsabilidade por mais de 16,6 mil mortes evitáveis apenas no ano de 2024.

O sindicato das enfermeiras ouviu 438 dessas profissionais sobre a crise atual. Os relatos são dramáticos: uma enfermeira de um hospital no sudoeste da Inglaterra disse que "pacientes lamentam não ter ficado em casa, mesmo correndo o risco de morrer"; outra, na região sudeste, disse que "nesses corredores gelados não há oxigênio ou monitores para facilitar o trabalho"; uma terceira foi mais longe e afirmou que "não tratamos assim nem animais na prática veterinária".

Prezada leitora, sabe por que um sistema de saúde que funcionou bem durante décadas entrou em colapso? Porque a população envelheceu sem programas de prevenção à altura do desafio de evitar internações hospitalares.

É cada vez maior o número de técnicos do NHS que consideram o único caminho para evitar o colapso do sistema a adoção do Estratégia Saúde da Família, o programa brasileiro de atenção primária que a Organização Mundial da Saúde (OMS) considera um exemplo para o mundo.

Antes de repetir frases feitas sobre a excelência da saúde pública na América do Norte e na Europa, procure se informar sobre a realidade local. O SUS está cheio de defeitos que precisamos corrigir, mas, antes de vilipendiá-lo, dobre a língua.

Fonte _ Coluna Drauzio na Folha/SP

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