O
HPV (Papilomavírus Humano) é um grupo de mais de 200 tipos de vírus,
responsável por causar a infecção sexualmente transmissível mais comum do
mundo. Alguns destes vírus podem provocar verrugas genitais, outros afetam a
pele e as mucosas, enquanto os mais agressivos estão associados a diversos
tipos de câncer, como o de colo do útero, ânus, pênis, boca e garganta.
A vacinação contra
o HPV é a forma mais eficaz de prevenção por ajudar a reduzir o risco de
contágio, segundo o Ministério da Saúde e a Organização Mundial da Saúde (OMS).
Apesar disso, uma série de falsidades relacionadas ao imunizante continuam
circulando em conversas e nas redes sociais. A consequência disso é que a taxa
de vacinação no Brasil ainda não alcançou a meta de 95% de cobertura, embora
tenha tido um aumento importante em 2024 – para 82% de cobertura global, ante
78,5% em 2022, segundo o Ministério da Saúde.
“A
vacina contra o HPV funciona exatamente como usar um capacete: ninguém espera
sofrer um acidente para colocá-lo; o capacete só protege quem o utiliza antes de
subir na moto ou na bicicleta. Com a vacina, a lógica é exatamente a mesma”,
afirma o pediatra e gestor médico de Desenvolvimento Clínico do Butantan, Mário
Bochembuzio.
Descubra outras 10 Fake News sobre a vacina do HPV
Para
garantir a eficácia da proteção, ele esclarece que “a vacina deve ser aplicada
na faixa etária dos 9 aos 14 anos, quando o sistema imunológico
responde melhor e antes do início da vida sexual, que é quando o
risco real de exposição ao vírus começa”.
A
grande questão é: se essa proteção é tão eficaz e oferecida gratuitamente pelo
SUS, por que tantas pessoas ainda deixam de se vacinar?
Isso
ocorre, em grande parte, por causa de um mito perigoso de que
a vacina 'antecipa' o início da vida sexual dos adolescentes. “O foco da vacina
é justamente o oposto: é uma ferramenta de prevenção para proteger contra
doenças graves, como o câncer, e ela funciona se for usada antes da
exposição ao risco, ou seja, antes do início da vida sexual”, ressalta o
pediatra.
No
Brasil, a vacina contra o HPV é recomendada para a faixa etária de 9 a 14 anos.
Em 2025, ela passou a ser oferecida em dose única também para jovens de 15 a 19
anos, em uma campanha que deve ir até dezembro deste ano. O grupo prioritário
também inclui imunossuprimidos, vítimas de violência sexual e pessoas com
outras condições específicas, conforme disposição do Programa Nacional de Imunizações (PNI). Esse público
pode receber a vacina até os 45 anos, em um esquema de três doses.
Apesar
de seu caráter preventivo, há outros tantos boatos acerca da vacina contra o
HPV. O Portal do Butantan consultou o gestor médico Mário
Bochembuzio para desmenti-los.
1.
A vacina é uma experiência genética que muda o DNA.
FALSO. A vacina não
tem nenhum poder de alterar o nosso DNA. Ela é feita a partir de partículas
semelhantes ao vírus (VLP, do inglês virus like particles). Baseada em
engenharia genética, a tecnologia consiste em desenvolver uma molécula contendo
a principal proteína da superfície do vírus, a L1, mas sem o DNA viral que
normalmente fica dentro do vírus. A partícula criada em laboratório “imita” a
estrutura do vírus, fazendo o sistema imune acreditar que ela é uma ameaça e
tomar medidas para combatê-la. Por não conter o material genético do patógeno,
a estratégia é considerada extremamente segura e sem risco de causar
infecção. Em resumo: a vacina não entra no núcleo das nossas células, que é
onde o DNA fica guardado.
2.
A vacina contra o HPV causa a Síndrome de Guillén Barré (SGB).
FALSO. O Comitê Consultivo Global para Segurança de Vacinas (GACVS,
na sigla em inglês), da OMS, analisou uma revisão abrangente da literatura
científica e concluiu que não há associação direta entre a vacina contra o HPV
e a Síndrome de Guillén Barré.
Entre
as pesquisas avaliadas estão estudos de coorte populacional da Dinamarca e da
Suécia; uma publicação online da França que sugeria um risco aumentado da
síndrome em pessoas vacinadas; e um grande estudo de série de casos
autocontrolado no Reino Unido, com base em uma população onde 10,4 milhões de
pessoas receberam a vacina. Esta pesquisa não encontrou aumento significativo
no risco de SGB após qualquer dose da vacina em nenhum dos vários períodos de
risco avaliados ou para qualquer marca de imunizante.
A
SGB foi especificamente selecionada como um desfecho em estudos dos Estados
Unidos que usaram o Sistema de Notificação de Eventos Adversos de Vacinas
(VAERS, na sigla em inglês) e o Vaccine Safety Datalink (VSD). O GACVS recebeu
novos dados do VAERS após a distribuição de 60 milhões de doses e os dados do
VSD com mais de 2,7 milhões de doses administradas até o final de 2015. Na
análise atualizada, não foi identificada nenhuma associação entre a vacina
contra o HPV e a SGB. A conclusão do GACVS após analisar os estudos do Reino
Unido e dos EUA foi de que o risco de >1 caso de SGB por milhão de doses de
vacina, que antes havia sido sugerido, pode hoje ser excluído.
3.
A vacina contra o HPV causa mais danos do que benefícios.
FALSO. Os
benefícios da vacina são imensamente maiores do que qualquer risco. Os efeitos
colaterais mais comuns são leves, como dor no local da aplicação. O benefício é
a proteção contra cânceres que matam milhares de pessoas.
4.
Só pega HPV quem tem muitos parceiros, então não preciso da vacina.
FALSO. Qualquer
pessoa que tenha ou venha a ter contato íntimo com outra pode pegar o HPV,
mesmo que seja com um único parceiro ou parceira. O vírus é muito comum e fácil
de ser transmitido.
5.
Como HPV não tem cura, não adianta tomar a vacina.
FALSO. É justamente
por não existir um remédio que combata diretamente o vírus que a vacina é tão
importante. Ela impede que a pessoa seja infectada transmita a doença para
outras. Segundo dados da Organização
Panamericana da Saúde (OPAS), a vacinação de mulheres adolescentes
contra o HPV pode prevenir cerca de 70% dos casos de câncer de colo do útero.
6.
Quem já foi infectado com o HPV não precisa da vacina.
FALSO. Mesmo quem já
teve contato com um tipo de HPV pode se beneficiar da vacina. Existem muitos
tipos diferentes de HPV, e a vacina protege contra os principais que causam
câncer. O Programa Nacional de Imunizações foca no público mais jovem por se
tratar de uma recomendação da OMS, e por ser um programa focado em estratégias
de imunização coletiva, não individual.
7.
Estou fora do público-alvo, portanto não preciso tomar.
DEPENDE. O Ministério da
Saúde oferece a vacina gratuitamente para a faixa etária com a melhor resposta
e com a indicação preconizada pela OMS. No entanto, pessoas mais velhas também
podem se beneficiar. Se você está fora da idade indicada no calendário de
vacinação nacional do PNI, pode conversar com um médico para averiguar se é o
caso de procurar a vacina em clínicas particulares.
8.
A vacina foi suspensa no Japão, então não devo tomar.
A
HISTÓRIA NÃO É BEM ASSIM. O Japão nunca suspendeu a vacina. O
que aconteceu foi que o governo parou de recomendá-la ativamente até investigar
as causas da desinformação acerca da vacina, que também atingiu o país. Após as
taxas de câncer começarem a subir e os boatos serem desmentidos, o governo
japonês voltou a recomendar ativamente a vacina em 2022.
Um
estudo publicado em 2020 na revista BMC
Infectious Diseases por cientistas da Agência Internacional de
Pesquisa sobre o Câncer (IARC, na sigla em inglês), um braço de estudos de
oncologia da OMS, relatou que mulheres jovens vacinadas contra o HPV
apresentaram um risco significativamente menor de desenvolver lesões
pré-cancerosas cervicais em comparação com um grupo não vacinado. A eficácia da
vacina contra lesões de grau 2 ou superior foi de 76%, e a eficácia contra
lesões de grau 3 ou superior foi de 91%, em comparação com mulheres não
vacinadas da mesma idade.
Fonte _ Butantan

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