O
estudo Saúde e ondas de calor do Brasil: evidências sobre mortalidade,
morbidade hospitalar e implicações para o SUS, lançado nesta quarta-feira
(17/6), apresenta dados inéditos sobre mortes atribuíveis às ondas de calor no
país nos últimos 20 anos. O estudo caracteriza padrão de exposição a eventos de
ondas de calor e os efeitos na saúde humana em todo o território nacional. Os
achados reforçam o calor extremo como ameaça à saúde pública e destacam a
necessidade de fortalecer a agenda de adaptação, diante do aquecimento global e
da intensificação e frequência de ondas de calor. As análises foram conduzidas
por pesquisadores da Fiocruz e da Universidade Federal da Bahia (UFBA), sob a
coordenação das equipes técnicas dos projetos Ciência&Clima e ProAdapta,
com o objetivo de apoiar a formulação de ações para o enfretamento do calor
extremo e fortalecer a integração entre produção científica e políticas
setoriais. Acesse
o estudo.
Os
dados de mortalidade por doenças do aparelho circulatório e cardiovascular
ocorridas no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS) em 5.566 municípios, entre
os anos de 2000 e 2019, estimaram em aproximadamente 120 mil óbitos associados
ao calor extremo no país. Esse valor equivale a 0,6% da mortalidade total
registrada no período, excluindo os óbitos por causas externas (acidentes e
violências). Os resultados revelam de modo consistente a associação entre a
exposição ao calor extremo e ondas de calor e o aumento da mortalidade. Os
efeitos foram mais pronunciados entre idosos, com óbitos por causas
respiratórias, mulheres e pessoas com menor escolaridade. São resultados que
indicam e reforçam a influência dos determinantes sociais na distribuição dos
impactos.
“A
inovação deste estudo está em integrar, em escala nacional, a caracterização
das ondas de calor considerando frequência, intensidade e duração com uma
análise detalhada de seus impactos sobre internações hospitalares e
mortalidade. De modo geral, o trabalho reforça evidências já descritas na
literatura, mas avança em análises mais detalhadas sobre os impactos do calor
extremo na saúde da população brasileira”, destaca a pesquisadora Beatriz
Oliveira, da Fiocruz, responsável por conduzir o estudo.
"A
pesquisa traz uma mensagem inequívoca: o calor extremo já está custando vidas
no Brasil. Os mais de 120 mil óbitos associados às ondas de calor revelam que a
adaptação à mudança do clima precisa avançar com urgência, ampliando a
construção de cidades verdes e resilientes. Para o Ministério do Meio Ambiente
e Mudança do Clima, é o que estamos fazendo a partir da implementação do
Programa Cidades Verdes Resilientes com o Plano Nacional de Arborização Urbana,
a iniciativa ArborizaCidades fomentando apoio a planos e projetos de
arborização urbana para enfrentar o calor extremo, a elaboração da Estratégia
Nacional de Soluções Baseadas na Natureza e o Plano Nacional de Ação pelo
Resfriamento. Tudo isso é indispensável para apoiar estados e municípios a
serem capazes de proteger a saúde da população diante de um clima cada vez mais
quente. A agenda de resfriamento urbano é uma agenda de prevenção, adaptação e
proteção da vida", detalha o diretor de Meio Ambiente Urbano do Ministério
do Meio Ambiente e Mudança do Clima e do projeto ProAdapta, Maurício Guerra.
Em âmbito nacional, o estudo explorou os efeitos do calor extremo sobre as internações hospitalares do SUS. Na população em geral foi identificado um aumento consistente do risco de internação por doenças respiratórias, especialmente pneumonia, e geniturinárias, como insuficiência renal, em quase todas as regiões. O estresse térmico sobrecarrega as funções cardiorrespiratórias, contribuindo para inflamações sistêmicas e agravando doenças respiratórias pré-existentes, além de afetar o trato urinário por meio da desidratação, da hipovolemia (redução do volume total de sangue e líquidos no corpo) e da disfunção renal.
Para
crianças menores de 10 anos, as gastroenterites (diarreias) foram a causa de
internação mais fortemente associada às ondas de calor em todas as
macrorregiões do país. A condição pode estar associada à maior suscetibilidade
à desidratação, à imaturidade dos mecanismos de termorregulação e às alterações
ambientais que afetam a qualidade da água e o armazenamento de alimentos
durante períodos de calor extremo.
Na
população idosa, indivíduos com mais de 60 anos mostraram alta sensibilidade em
causas respiratórias, renais e metabólicas (diabetes). Segundo os
pesquisadores, do ponto de vista fisiopatológico, esses efeitos podem estar
associados à redução da capacidade de termorregulação, à maior prevalência de
doenças crônicas e ao uso de medicamentos que interferem no balanço hídrico e
eletrolítico, favorecendo a desidratação e a disfunção renal. O estudo sugere
que, durante ondas de calor mais severas, internações por doenças
cardiovasculares podem evoluir rapidamente para quadros graves, com
possibilidade de óbito antes da hospitalização.
“Na
morbidade hospitalar, exploramos diferentes desfechos de saúde, um tema ainda
pouco estudado no país. Na mortalidade, identificamos um gradiente social de
risco, com maior aumento percentual do risco de morte entre pessoas com menor
escolaridade. Esses resultados reforçam a necessidade de direcionar ações de
adaptação e proteção aos grupos mais vulneráveis”, explica o supervisor de
Impactos, Vulnerabilidades e Adaptação do projeto Ciência&Clima, Sávio
Raeder.
A
maioria dos municípios brasileiros apresentou uma tendência de aumento na
frequência e na intensidade das ondas de calor ao longo das duas décadas
estudadas. Contudo, a análise sinaliza que a exposição às ondas de calor não
ocorre de modo homogêneo no território nacional. Há variações de frequência,
duração e intensidade entre as sete zonas climáticas do país, que foram
adotadas neste estudo por sua maior sensibilidade de captar a relação entre
saúde e os eventos de ondas de calor.
Estas
variações também foram observadas entre as regiões brasileiras: enquanto os
eventos climáticos foram mais frequentes, longos e persistentes nas regiões
Norte e Centro-Oeste, os episódios com maior intensidade, em relação à
temperatura média climatológica local, ocorreram no Sul e no Sudeste. Os
resultados demonstram como as ondas de calor podem aumentar a demanda por
serviços de saúde pública e contribuir para o agravamento de condições clínicas
entre os grupos mais sensíveis.
Metodologia
empregada
O
estudo envolveu três etapas. A primeira caracterizou a exposição às ondas de
calor no Brasil. Foram considerados o número de dias em ondas de calor, o
número de eventos climáticos, a duração média dos episódios e a intensidade
média em relação à média climatológica do período de referência (1981-2010). A
metodologia para realização do estudo adotou o critério mínimo de dois dias
consecutivos com temperatura acima do percentil 95 da temperatura média como
principal componente da exposição. Além disso, foram analisadas a distribuição
espacial e temporal entre 2000 e 2019.
A
segunda etapa explorou as estimativas de risco da exposição às ondas de calor
sobre desfechos de morbidade hospitalar atendidos pelo SUS, segundo diferentes
definições de ondas de calor, subgrupos populacionais de maior risco (população
geral, crianças menores de 10 anos e idosos) e causas específicas. Os
principais desfechos estudados foram selecionados de acordo com a
plausibilidade biológica, relevância clínica e adequação ao uso de dados
administrativos. Foram consideradas as internações hospitalares com a seleção
de 680 municípios, que apresentaram séries temporais mais estáveis e robustas
entre 2010 e 2019. Por fim, os pesquisadores analisaram a associação entre
ondas de calor e mortalidade e estimaram o número de óbitos atribuíveis,
considerando as zonas climáticas e as características sociodemográficas
(2000-2019).
Medidas
preventivas
Os
resultados reforçam a necessidade de ampliar a sensibilização sobre os riscos
das ondas de calor e incrementar os planos de ações em nível municipal. A
resposta passa pela implementação de sistemas de monitoramento e alerta
antecipado, orientação à população e fortalecimento da capacidade de respostas
do SUS.
Outro
aspecto apontado pelo estudo é a necessidade de incorporar sistematicamente
informações climáticas nos processos de vigilância epidemiológica e ambiental
para melhor identificar os períodos críticos, ampliar a capacidade de
antecipação de riscos e subsidiar medidas preventivas e assistenciais. Os
maiores impactos observados em grupos de maior vulnerabilidade apontam
necessidade de atenção especial a estes segmentos.
A
publicação é mais um resultado da iniciativa conjunta dos projetos
Ciência&Clima e ProAdapta, em conjunto com a Fiocruz, em aprofundar e
avançar no conhecimento científico e na compreensão dos impactos observados da
mudança do clima no Brasil. O estudo preenche uma lacuna crítica sobre a
associação entre calor extremo e impactos na saúde no âmbito nacional. Na
primeira fase do estudo, lançado em outubro de 2025, os técnicos se preocuparam
em sintetizar os indicadores e índices utilizados para estabelecer os
parâmetros para protocolos de enfrentamento ao calor extremo.
Saiba
mais
Ciência&Clima
é um projeto de cooperação técnica internacional executado pelo Ministério da
Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), com o apoio do Programa das Nações
Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) na sua implementação e recursos do Fundo
Global para o Meio Ambiente (GEF) cujo propósito é auxiliar o governo
brasileiro no cumprimento dos compromissos internacionais da agenda de
transparência climática junto à Convenção do Clima (UNFCCC).
Acesse: https://www.gov.br/mcti/ciencia-clima
ProAdapta
é fruto da parceria entre o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima do
Brasil (MMA) e o Ministério Federal do Meio Ambiente, Ação Climática,
Conservação da Natureza e Segurança Nuclear (BMUKN) da Alemanha, no contexto da
Iniciativa Internacional para o Clima (IKI, na sigla em alemão) e implementado
pela Deutsche Gesellschaft für Internationale Zusammenarbeit (GIZ) GmbH.
Acesse: https://www.adaptacao.eco.br/
A
Fiocruz é a maior instituição de pesquisa biomédica da América Latina e uma das
principais responsáveis pela produção de vacinas, medicamentos e conhecimento
para o Sistema Único de Saúde (SUS). Vinculada ao Ministério da Saúde, atua em
pesquisa, ensino, inovação e assistência em saúde. Presente em dez estados e no
Distrito Federal, além de manter um escritório em Moçambique, reúne 16 unidades
técnico-científicas distribuídas pelo país.
Contato
para imprensa
Ciência&Clima
– transparência.clima@undp.org (Jussara
Peccini)
Fiocruz
– ccs@fiocruz.br (Regina
Castro)
ProAdapta
– tiago.zenero@giz.de (Tiago
Zenero)
Fonte _ FioCruz


Nenhum comentário:
Postar um comentário