Tenho
45 anos e cresci ouvindo que a maconha era
a porta de entrada para outras drogas. No
colégio, professores alertavam sobre o perigo que seria começar a fumar a erva.
Nunca, em momento algum, fui orientada sobre os perigos
do álcool. Muito pelo contrário, na minha formatura do terceiro
colegial, antes mesmo de eu completar 18 anos, a festa foi regada a muita
bebida. Tanto que tomei um porre gigantesco e não lembro de nada. Não
aproveitei o que seria uma celebração.
Li
uma resenha do último livro do escritor
Michel Laub, "Verão na Névoa", sobre a dependência do
escritor com a cocaína. Me interessei e fui atrás. É um livro sofisticado, em
que ele, para falar de sua questão, usa dois exemplos distintos: o cantor
Renato Russo e o escritor J.M. Coetzee. Não encontrei muitas passagens sobre maconha,
mas sim sobre o álcool. O escritor fala mais de uma vez da dificuldade de sair
de casa e não consumir qualquer bebida. E de como, para ele, o álcool
fatalmente o levava à cocaína. E o uso dessa droga o fazia viver situações
pesadíssimas.
Tenho
um grande amigo que é alcoólatra e não bebe há mais de 15 anos. Ele também diz
que o álcool o incitava a consumir cocaína. E daí os estragos. Aqui vale
ressaltar que você não para de ser alcoólatra porque parou de beber. Alcoolismo
é uma doença que não tem cura. O que acontece é um tratamento. Então você está
na ativa, bebendo, ou está em recuperação, para sempre.
Quero
salientar que não estou fazendo apologia de nenhuma droga, mas propondo a
reflexão de que o álcool é um começo para o uso de outras substâncias. Sigo
firme com a convicção de que ele é o chefe da quadrilha. Não se fala com a
ênfase necessária do perigo de beber e ter problemas, e o quão difícil é a
adicção a essa droga. Muito pelo contrário: as propagandas de bebidas são
sempre alegres, com pessoas bonitas e saudáveis.
Laub
também fala da adolescência e de sua timidez. E de como o álcool foi libertador
e um bom companheiro em festas. Muitas vezes, segurar um copo nos ajuda a nos
inserir no ambiente. Isso eu sinto na pele até hoje. E muitas vezes fico
segurando um copo com algum líquido para pertencer ao ambiente de festas ou
reuniões.
Enquanto
terminava de ler o livro, no ponto de ônibus, observei um garoto que chutei ter
uns vinte e poucos anos. Ele mexia compulsivamente os pés e colocava as mãos
dentro de uma lixeira. Fiquei com uma aflição tremenda, principalmente porque
eram dez horas da manhã. Onde será que esse garoto havia passado a noite?
Enfim,
é uma batalha gigantesca repetir que os malefícios do álcool não são
devidamente levantados. Beber com moderação não é nada para quem não tem
problema com a bebida, e não serve para quem tem. É ridícula a frase que
acompanha as propagandas. Até quando a cegueira
sobre o álcool vai permanecer?
Beber
é bom, claro. Mas eu seria eternamente grata a alguém que tivesse me ajudado a
perceber que meu problema com o álcool já iniciou nos primeiros porres. Ter
um pai
alcoólatra não seria suficiente para me ajudar a não consumir ou a
ficar em estado de alerta sobre a questão? Nunca saberei. Mas que o álcool tem
sido uma porta de entrada muito bem enfeitada pela sociedade, não há dúvida
alguma.
Fonte _ Folha/SP

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